quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Falta - Por Marcelino Rodriguez


Tive uma sensação estranha essa manhã, ao acordar; tive um feeling, se
me permitem usar essa palavra inglesa para definir o sentimento  que me
to-mou.

A sensação de que estava me faltando alguém. Ora, sou solteiro
a muitos anos, desde que nasci. E minhas namoradas nunca permaneceram
mais que quatro dias na minha cama. De modo que acordar sozinho é o
meu cotidiano.

A alma já era para estar mais que acostumada.



Essa manhã, porém, foi diferente. Não houve nem conformismo nem
consolo pela clara falta que havia, acrescentada da sensação de vazio
mais impo-tência. E veio a melancolia da banda que faltava.

Eu poderia
até chorar um pouco de saudade pela falta real de alguém que eu
sentia, claramente. 


Descobri, perplexo, que eu sou eu mais alguém que
falta.

Isso é tão comovedoramente romântico quanto trágico.
Quem é ela? Quem é a outra que não acordou comigo hoje? A outra que é minha?

Existe alguém no meu coração, na minha vida, na minha alma. Mas não
dormimos, infelizmente (mi-nha boca enche de água e deve haver uma
atmosfera soturna ao meu redor quando lembro disso, uma es-pécie de
sombra pela falta desse pequeno e fatal de-talhe amoroso).


Seria dela a estranha saudade de hoje? Uma saudade única e
comprometedora? De quem dei por falta hoje, ao acordar? De um anjo que
não me velou? Um amor de outra vida?

Não era apenas um sentimento de solidão. Era como se alguma parte de
mim, outra pessoa (não al-guma compensação psicológica) estivesse me
faltando e me enfraquecendo, como se faltasse-me um membro com a falta
dela. Era como um absurdo eu estar acor-dando só.

Esse acontecimento soa-me sobre a vida deve-ras revelador, tanto como
sou mais que penso como de perplexidade de saber que outra vida, que
não sei por onde vai, vai levando a minha junto. Só resta sa-ber
porque deixa-me, a tantos e tantos anos, acordar impiedosamente só.


E
por que só hoje dei-me conta dessa saudade infinita?
Talvez desde o Éden essa parte de mim esteja apartada. Mas só hoje,
verdadeiramente, dei-me conta da sua real e tangível existência.

Pode ser que aquela que hoje me toma o cora-ção tenha alguma
participação nesse mistério, pois fora dela não há nem o sonho de
outra Eva, nem a esperança de outro paraíso.
Alguns que se pensam realistas dirão que tive um surto e tentarão até
explicar o fato perceptivo com alguma definição psiquiátrica.

Outros
me acusarão de sonhador, rótulo nem sempre cabível a mim, xerife da
selva. Terceiro, nem saberão do acontecido, por falta de cultura ou
interesse.



Mas a realidade que já torna-se prolixa de tão certa é que dei por
falta do meu amor, um amor que é mistério e certeza, ainda que
temporariamente apartado de mim pelo ilusório tempo e o não menos
ilusó-rio espaço, um amor que me faz reconhecer a minha incompletude e
faz saber que hora haverá em que as misteriosas leis do universo
tra-lo-á de volta a mim, árvore e fruto dessa fatalidade divina.




31/08/99.

PUBLICADO EM "A ILHA"

Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta obra publicada, aqui nos traz um trecho de seu livro "A Ilha", onde disserta sobre a condição de solteiro, por seus aspectos bons e maus.

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