domingo, 16 de fevereiro de 2020

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 60 - Por Luiz Domingues



Quatro membros do Boca do Céu, reunidos em pleno 2020. Da esquerda para a direita : Laert Sarrumor; Luiz Domingues; Wilton Rentero e Osvaldo Vicino. Bastidores do Show "Vanguarda Paulistana in Concert", no Teatro Municipal de São Paulo, em 26 de janeiro de 2020. Acervo e cortesia : Wilton Rentero. Click : Paulo Elias Zaidan

Fantástico, após o grupo do Boca do Céu, na Rede Social Facebook, ter sido criado, rapidamente abriu-se um grupo também no "Whatsapp", e foi o momento em que o nosso velho guitarrista, Wilton Rentero, entrou com tudo para interagir com os demais. Logo nos primeiros dias, trocamos informações, avidamente, como seria por esperar-se entre amigos que não conversavam há décadas e certamente que o teor dos assuntos sugeridos, extrapolou o campo das nossas reminiscências sobre a década de setenta e enveredou para a atualização generalizada dos dados, a dar conta sobre o que cada um fez nessas quatro décadas em que não não tivemos convivência direta, entre os cinco membros mais presentes na formação do Boca do Céu. O Laert, por sua vez, convidou à todos para estarmos presentes no dia 26 de janeiro de 2020, em meio ao luxuoso ambiente do Teatro Municipal de São Paulo, onde realizar-se-ia um show comemorativo sobre o saudoso, Teatro Lira Paulistana, ocasião em que diversos expoentes daquela famosa cena da dita "Vanguarda Paulistana", comporiam o grande corpo das atuações e haveria também um pequeno espaço à cena do Rock oitentista, ainda que circunscrita ao espectro do Punk-Rock, essencialmente. Bem, o nosso baterista, Fran Sérpico, por morar no Rio de Janeiro, pediu desculpas, mas de antemão já declinou do convite por conta da logística que não poderia cumprir. Ficou quase acertado, portanto, que eu, Luiz; Osvaldo Vicino e Wilton Rentero iríamos prestigiar o nosso amigo, Laert, que não apenas apresentar-se-ia com o Língua de Trapo, como seria um dos apresentadores do evento, junto ao Wandi Doratiotto, outro grande músico; ator e humorista e membro do "Premeditando o Breque". Em suma, um show sensacional e a ofertar uma oportunidade única em reencontrarmo-nos os quatro membros do Boca do Céu da formação mais clássica de 1977, a faltar apenas o Fran Sérpico para ser completo.
Marcamos então o encontro para a escadaria do Teatro Municipal. Eu tive um contratempo caseiro e avisei que atrasaria um pouco, mas estava a caminho. Cheguei à escadaria e não avistei Wilton e Osvaldo, em princípio. O Laert havia deixado os nossos nomes na lista Vip dos convidados, portanto, apesar do teatro estar já bem cheio, eu não temi por não encontrar lugares, visto que as nossas poltronas estavam garantidas. Eis que alguns segundos depois, eu avisto um rapaz a olhar para todos os lados, em típica postura de procura e que eu não reconheci de pronto, mas fiquei com a forte sensação de que poderia ser o Wilton. Assim que ele mirou-me e sorriu, ficou claro que finalmente, após "apenas" quarenta e dois anos (falo sobre 1978), finalmente reencontramo-nos. 
Wilton Rentero e Luiz Domingues, na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo, em 26 de janeiro de 2020. Click (selfie); acervo e cortesia : Wilton Rentero

Alguns minutos depois, vimos o Osvaldo a aproximar-se e a procurar por nós, e foi uma alegria quando vimo-nos os três, ali na escada do Teatro Municipal, e incrível, o Osvaldo também não via o Wilton desde 1978.
Wilton Rentero; Osvaldo Vicino e Luiz Domingues, neste instante, um trio do Boca do Céu na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo. 26 de janeiro de 2020. Click (selfie); acervo e cortesia : Wilton Rentero

Entramos no teatro e rapidamente eu avistei diversas pessoas conhecidas, entre músicos; produtores; jornalistas e pessoas ligadas ao espectro do velho Lira Paulistana, na década de oitenta. Entre nós três, recordamos sobre diversos shows vistos no Teatro Municipal, sendo o mais memorável de todos, o clássico Concerto de Rock apresentado entre as bandas de Rock, Mutantes e O Terço a tocar o som dos Beatles, em 1977, que foi histórico. Bem, as luzes apagaram-se e o show iniciou-se. Foi emocionante para nós três, vermos o Laert a apresentar com desenvoltura o espetáculo e posteriormente a atuar com muita maestria com o Língua de Trapo. Incrível, em um teatro onde tanto sonhamos, assistimos o nosso vocalista, ali a atuar com brilhantismo no momento de 2020.
O ingresso que eu usei, a sinalizar que sentei-me na cadeira número 11. Bastidores do Show "Vanguarda Paulistana in Concert", no Teatro Municipal de São Paulo, em 26 de janeiro de 2020. 

Além das nossas expectativas pessoais, em meio às reminiscências do Boca do Céu, o espetáculo foi belíssimo. Com a participação de grandes artistas que gravitaram na órbita do Lira Paulistana, amparados pelo apoio excelente da Orquestra Sinfônica Municipal, foi um apanhado e tanto do melhor que o Lira lançou, diretamente do seu famoso palco intimista, para o Brasil e o mundo. O violeiro, Passoca, a tocar, "Sonora Garoa", uma canção belíssima, causou emoção, assim como o Grupo Paranga, e a sua deliciosa brejeirice ao sabor dos filmes do Mazzaropi. O Grupo Rumo, representado por Ná Ozetti, em grande forma; uma bela homenagem ao Itamar Assumpção e o seu, "Isca de Polícia"; Arrigo Barnabé, a evocar a sua "Clara Crocodilo"; Premeditando o Breque (não completo), com direito a uma sensacional versão de seu sucesso, "São Paulo, São Paulo" (com inúmeras citações cinematográficas implícitas no arranjo executado pela Orquestra Sinfônica Municipal); Língua de Trapo e Tetê Espíndola (que pediu desculpas por cantar uma oitava abaixo, nos dias atuais, devido a estar com sessenta e seis anos de idade na atualidade de 2020, mas no calor da canção, "Escrito nas Estrelas", fez todo aquele malabarismo vocal e agudíssimo, para levantar a plateia); a elegantérrima, Vânia Bastos; o monstruoso, Bocato e a Patife Band. Na parte do Rock, segundo o programa oficial impresso, constava a participação de Roger Moreira; Edgard Scandurra e Sérgio Britto, mas quem de fato atuou foi Clemente Nascimento, d'Os Inocentes e Finho (do grupo "365"). Bem, é claro que o Punk e as correntes do Pós-Punk tiveram no Lira Paulistana uma boa mola propulsora para atingir o mainstream daquela década, mas outras correntes também obtiveram uma história em tal teatro, para ser citada. Que ninguém dessa outra corrente atuasse no palco, mas ao menos a menção no audiovisual, que foi exibido ao início do espetáculo, teria sido elegante da parte da produção, todavia, isso não ocorreu e antes que o leitor especule, eu não fiquei magoado, mas é claro que A Chave do Sol construiu uma boa história nesse teatro, onde inclusive lançou dois discos no seu palco, portanto, ao lado de outras bandas de fora da seara do Punk & Pós-Punk, houve uma outra cena Rock que ali solidificou-se.

Sobre a apresentação do Língua de Trapo, esta foi impecável. Ao aproveitar o apoio da orquestra, a banda iniciou com : "Como é Bom Ser Punk", que foi uma música do Carlos Melo (Castelo), que foi composta quando eu estava em minha segunda passagem por essa banda, mas nessa ocasião (falo sobre 1983 / 1984), eu não participava da sua execução ao vivo, que era feita em duo pelo João Lucas ao piano e Pituco Freitas, a cantar. Neste caso, sob um suntuoso arranjo, Laert; Serginho Gama e Cacá Lima, cantaram em trio, com uma afinação exemplar, sob uma grande performance. "Concheta", o eterno clássico do primeiro álbum do grupo, veio a seguir, com apoio de Mário "Manga" Aydar e Wandi Doratiotto, ou seja, dois músicos do Premeditando o Breque no apoio e uma versão impecável de "Sampa", do Caetano Veloso, que aliás, suscitou o comentário de Wilton, ao meu lado, a observar que os arpejos feitos por Serginho Gama, remeteriam à "Dear Prudence", dos Beatles. Realmente houve uma certa similaridade, mas após encontrarmos o Laert no momento pós-show, ele negou que houvesse tal menção, então, foi impressão de nossa parte. Uma linda menção à nossa estada no teatro, foi feita pelo Laert, que ao microfone, improvisou um "caco" (citação fora do texto ensaido, no jargão do teatro), a narrar que assistira ali mesmo naquele palco, o show em dupla dos Mutantes, e O Terço, em 1977, a homenagear os Beatles e citou que "assistira ao lado dos companheiros, Luiz; Osvaldo & Wilton e que nós estávamos na plateia", que bonito, foi o "momento Boca do Céu", a tornar-se público.

De minha parte, eu estava muito feliz por estar ali ao lado de dois companheiros do meu velho, Boca do Céu; feliz pela possibilidade de prestigiar e aplaudir o Laert, a juntar-se a nós, a posteriori para o reencontro do quarteto; orgulhoso por ver o Laert ali a brilhar; feliz por estar a apreciar um belo show e também por ter a minha parcela de gratidão pelo Lira Paulistana, onde eu vivi uma bela história com o próprio, Língua de Trapo e também com A Chave do Sol, diretamente e a trazer por acréscimo, uma infinidade de shows de outros artistas que ali assisti; a boa amizade construída com a sua cúpula, principalmente com Chico Pardal e Ribamar de Castro, além de Canrobert Marques, que operou quase todos os shows que eu ali realizei e foi técnico d'A Chave do Sol, inclusive em alguns shows fora do Lira. Li no programa que o Canrobert operou o show no Municipal, mas eu não o encontrei nessa tarde e teria sido mais um reencontro sensacional. Entretanto, eis que vejo um velho amigo a caminhar pelo corredor : Paulo Elias Zaidan, ator que foi membro do Língua de Trapo, na época da minha segunda passagem pelo grupo. Então, ele ligou no perfil de "Whatsapp" da Marcinha Oliveira, esposa do Laert e empresária do Língua de Trapo, com o intuito em verificar se não seria abusivo visitarmos o camarim para cumprimentar o Laert, mas o mais óbvio aconteceu, visto que a quantidade de artistas mostrava-se enorme e receber convidados seria inoportuno na intimidade do camarim, pois então, os artistas desceram ao grande saguão de entrada e ali receberam fãs e amigos. Maravilha, o Boca do Céu viu-se como um quarteto por alguns minutos, novamente, só a faltar a persona de Fran Sérpico, para ficar completa a nossa velha banda. Tive o prazer de conversar com os sempre simpáticos, Zé Miletto e Marcos Martins, membros do Língua de Trapo atual, igualmente.
Quase o Boca do Céu completo, enfim ! da esquerda para a direita : Laert Sarrumor; Luiz Domingues; Wilton Rentero e Osvaldo Vicino. Bastidores do Show "Vanguarda Paulistana in Concert", no Teatro Municipal de São Paulo, em 26 de janeiro de 2020. Acervo e cortesia : Wilton Rentero. Click : Paulo Elias Zaidan

No calor da rápida conversa, dada a aglomeração ali apresentada e com o Laert a ter que atender várias pessoas, combinamos em intensificar a conversação pelo nosso grupo do "Whatsapp" e organizar, aí sim, o grande encontro oficial do Boca do Céu, para fevereiro de 2020. Coincidência ? Pois fora em fevereiro de 1977, que a banda fizera o seu primeiro show, portanto, tal como Napoleão ante as pirâmides do Egito, chegara a hora para afirmarmos, não sobre quarenta séculos, mas a observar : "quatro décadas contemplam-nos" !


Continua...



sábado, 8 de fevereiro de 2020

Bastidores - Por Telma Jábali Barretto


Temos uma certa atração por aquilo que acontece nos camarins, no atrás da cena... e quando falamos no plural nos referimos a nós próprios e à natureza humana em geral, população...
Explicamos e desmembramos aquilo que estamos propondo como reflexão, expondo e, principalmente, trazendo para dividir esse especial interesse. Um passa pela necessidade de saber, pura e simplesmente, pelo conhecimento da intimidade alheia, com costumes e hábitos e toda gama de diversas emoções que as movimentam. Aquelas tratadas em biografias quando sérias e verídicas, num sentido que poderia até ser significativo e didático (afinal... aprendemos uns com outros) chegando às invencionices, coloridas por esse apelo que no vulgar denominamos com as fofocas, fakes... que, atualmente são abundantes nas redes sociais.
Hoje, a coluna social ‘dos antigamente’, possíveis, apenas, antes entre os bem-nascidos e, agora, democraticamente, servido ao bel prazer por cada qual e elegendo e satisfazendo a si e aos demais. Esse aspecto embora abundante...pouco interesse nos provoca. O outro lado desse interesse que, realmente, nos move passa por buscar interpretações de comportamentos bem mais subjetivos, anteriores e interiores mesmo, carregados não do que, momentaneamente, vemos, mas e sim! De um formato de fatos repetidos e viciados que a Vida insiste e persiste, para nossa felicidade, em quebrar, criando hiatos libertadores e promotores de substancial crescimento. Esses acontecimentos são carregados de informações, histórias, padrões e mecanismos que quando bem observados, com critério, trazem revelações, insights, subliminares, alavancas para abrirem novos caminhos, em princípio quase sempre ameaçadores para nossas seguranças e resistências, aquelas que insistimos em manter, amedrontados diante do desafio do convite para explorar novos atalhos que, talvez?!... criem simples vicinais, mas quem sabe?!... as próximas e livres vias de acesso aos grandes fluxos, desarmados e, portanto, mais responsáveis, com menos ‘vitimices’ e reações regredidas daquele tipo de energia infantil que não assume riscos e menos, ainda, compromissos... característica de uma fase mais adulta, madura... Independência!
Então, os bastidores que nos encantam não são aqueles de identificações com as alegrias/tristezas oscilantes das novelas, séries ou filmes entre o que ganhamos e perdemos, mocinho/bandido, saindo desse jogo dicotômico, dual, entre festejo e lamento, começando a operar nossa nau de experimentação, com realismo impregnado de perspectivas estimulantes, enriquecedoras numa aventura constante diante de quaisquer que sejam as muitas possibilidades que se apresentem e JAYA!!! ...um novo voo teremos alçado!
Crescemos olhando para fora e dentro, o outro e a nós... e quando um dos lados é privilegiado, certo que a parte de nós adormecida, impedirá o fluxo da plenitude, unicidade, inteireza, síntese em nós...

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 123 - Por Luiz Domingues

Incrível, chegamos ao ano de 2020. Tecnicamente a falar, não foi o primeiro ano da década de vinte, mas simbolicamente, o número "vinte" sugeriu a entrada em tal década. Eu que sou um admirador confesso da década de vinte, do século passado, sinto uma indisfarçável nostalgia por algo que na prática eu não vivi, pois o meu natalício só veio a ocorrer no ano de 1960, no entanto, a minha admiração pelos anos 1920, existe na medida em que gosto da movimentação cultural ali desenvolvida nas artes em geral, incluso na música. É claro, a minha década preferida é a de 1960, por conta do desenvolvimento da contracultura e do Rock em sua linha de frente, mas eu nutro em alta estima a produção cultural vintista. Nesses termos, o que este preâmbulo deseja exatamente externar ? Seria uma vã esperança que os anos vinte do século vinte e um, sejam iguais ? É claro que não, o mundo anda para frente e não para trás, no entanto, a minha torcida é que a nova década que entrará em breve, assim que 2021 despontar no horizonte, contenha a sorte em saborear o mesmo élan dos loucos anos vinte do século passado, mas naturalmente em seus termos atuais, com novidades boas, incluso inovações, assim espero.
O novo logotipo dos Kurandeiros, repaginado e lançado nos primeiros dias de janeiro de 2020 

Na prática, o ano novo de 2020 começou para Kim Kehl & Os Kurandeiros, com perspectivas para uma gravação ao vivo, mas esta fora transferida para um momento mais adiante, a revelar-se em março. Portanto, as novidades iniciais ficaram por conta da produção de merchandising e no campo do repertório. Na questão dos novos produtos, uma nova safra com camisetas foi produzida a incluir doravante, a estampa de mais membros da banda.
As camisetas com as estampas de Carlinhos Machado e Luiz Domingues, produzidas em janeiro de 2020

E além das novas camisetas a contar com a estampa com as personas de Carlinhos Machado e da minha, Luiz Domingues, o lançamento de um novo logotipo estilizado para o ano novo, também foi providenciado. No campo do repertório, o Kim propôs a preparação de quatro novas canções e tratou por gravar uma demo-tape, já a conter uma boa base de arranjos seus para a guitarra em destaque, e disponibilizou tal material para todos os membros poder criar cada um, os seus arranjos individuais. Com isso, abriu-se a perspectiva para uma futura gravação a ser realizada em breve, portanto, a animar à todos em relação a um novo álbum da nossa banda. Em suma : 2020 não poderia começar melhor com tal criação inédita, a lançar novas luzes. Que viesse sobre nós a loucura vintista do Charleston, devidamente adaptada ao Blues-Rock do século XXI !

Continua...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Ópera-Rock : "O Renascer dos Tempos") - Capítulo 104 - Por Luiz Domingues

Ao final do ano de 2019, eu recebi a comunicação do meu velho amigo, Claudio Cruz (baixista e irmão do Beto Cruz, com quem eu trabalhei em duas bandas, nos anos 1980 : A Chave do Sol e A Chave / The Key), a convidar-me para participar de uma gravação. Ocorre que ele havia escrito o libreto e as canções para uma Ópera-Rock, nos idos de 1979, que chamar-se-ia em tal ocasião : "O Renascer dos Tempos", mas o projeto não avançou e permaneceu engavetado por anos a fio. Muito bem, eu aceitei com prazer fazer parte do projeto e foi designado que eu gravasse uma faixa chamada : "Moby John". Segundo o Claudio, tal canção dentro do libreto, revela a condição pela qual a música exerce uma explosiva energia psíquica para um garoto que perdera os pais, e estava a ser criado dentro de um orfanato. Esse garoto seria o fruto do amor entre Janis Joplin e Jimi Hendrix, daí o fato em deter em seu DNA, o talento misturado de seus pais, e mesmo ainda bem pequeno, a demonstrar um ímpeto incontrolável para exercer o seu talento libertador. Bem, uma melhor explicação prévia sobre o mote dessa Ópera-Rock, encontra-se no site específico da mesma, além da descrição de uma enorme quantidade de músicos convidados que já estavam a gravar diversas canções da peça, quando eu finalmente fui ofertar a minha colaboração modesta para o projeto. 
Entre outras particularidades, um elemento chave da história é a questão da frequência, pois consta a ideia de que toda a afinação dos instrumentos, revertida para 432 hertz, ao invés do tradicional padrão em 440 hertz, estabeleceria a sincronia com esferas extra-dimensionais superiores, capazes em provocar mudanças significativas à vida das personagens e por conseguinte, a ditar uma outra perspectiva para a humanidade. Para saber mais sobre a ideia da Ópera-Rock, "O Renascer dos Tempos", há um site específico com diversas informações sobre a obra em si e também sob a sua produção, além das pessoas envolvidas no projeto.              

Site do projeto da Ópera-Rock "O Renascer dos Tempos"
https://opera-rock9.wixsite.com/meusite/noticias

Então, eis que marcamos para a tarde do dia 28 de janeiro de 2020, a minha gravação. Antes mesmo de gravar, eu já sabia que a bateria gravada fora executada pelo meu amigo, José Luiz Dinola e que a guitarra a ser colocada a posteriori, seria do meu outro amigo, Rubens Gióia. Portanto, Claudio Cruz realmente premeditara reunir o Power Trio d'A Chave do Sol, para a gravação dessa música. Sensacional, fiquei muito contente com essa perspectiva.
Anísio Mello Júnior e Claudio Cruz a preparar a sessão de captura do meu baixo. Gravação da faixa "Moby John", da Ópera-Rock "O Renascer dos Tempos". 28 de janeiro de 2020. Click e acervo : Luiz Domingues

O som dessa música, mostrou-se fortemente influenciado pelo Blues-Rock sessentista, a lembrar o trabalho do "Cream" em uma primeira instância. Fui orientado previamente pelo Claudio, a regravar apenas o início da música, a seguir a sua gravação com o baixo guia e posteriormente, a criar livremente.
Da esquerda para a direita : Claudio Cruz; Luiz Domingues e Anísio Mello Júnior. Gravação da faixa "Moby John", da Ópera-Rock : "O Renascer dos Tempos". 28 de janeiro de 2020. Click (selfie) e acervo : Luiz Domingues

Foi um prazer receber em minha residência, dois amigos de longa, data, ambos grandes baixistas e pessoas da melhor qualidade, a tratar-se de Claudio Cruz e Anísio Mello Júnior. Claudio, como eu já falei, é irmão de Beto Cruz e foi durante anos, o baixista do Harppia e o Mello, foi baixista do grupo Excalibur, com o qual, a minha banda, A Chave do Sol, dividiu muitos shows na década de oitenta. 
Foto promocional do grupo, "Excalibur", datada de 1984. Mello é o segundo da esquerda para a direita a usar camiseta preta. Acervo e cortesia : Anísio Mello Júnior. Click : divulgação                  

Portanto, sem tirar o foco da gravação, a conversa foi ótima, com muitas lembranças que vieram à tona, comum aos três e diversos outros assuntos que vieram à baila, incluso uma boa explicação sobre a Ópera-Rock em si, e eu pude perceber o quanto ambos estavam entusiasmados pelo projeto. Com espírito marcado pelo empreendedorismo cultural, Mello contou-me também, que estava a abrir um mini centro cultural no bairro do Jardim Bonfiglioli, na zona sudoeste de São Paulo e o seu plano para tal incrementar iniciativa, impressionou-me muito positivamente.
Gravei enfim, com o apoio decisivo de ambos e foi um grande prazer ouvir a prova inicial da captura e verificar que o som do meu baixo Fender Precision ficou com o timbre muito próximo do som de Noel Redding, baixista do grupo : Jimi Hendrix Experience, que também usava costumeiramente nas gravações dos álbuns de sua banda, o baixo Fender Precision. Ou seja, que satisfação ter ainda na captura inicial o ronco de baixo semelhante ao de um músico que eu admiro.
Parece a mesma foto postada acima, mas é outra, na verdade, quase igual e clicada em sequência. Gravação da faixa "Moby john", da Ópera-Rock "O Renascer dos Tempos". 24 de janeiro de 2020. Click (selfie) e acervo : Luiz Domingues

Bem, este capítulo ganhará uma continuidade, certamente, na medida em que fica no ar a expectiva pelo lançamento do álbum a apresentar a Ópera-Rock : "O Renascer dos Tempos".

Portanto, continua...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 59 - Por Luiz Domingues

O Boca do Céu em foto promocional realizada em março ou abril de 1977. À esquerda, com óculos escuros, Laert Sarrumor; atrás, agachado, Fran Sérpico; atrás, ajoelhado, Wilton Rentero; ao lado direito, com a guitarra no colo, Osvaldo Vicino e à frente, com o baixo sobre as pernas, Luiz Domingues. Click : desconhecido, mas há a desconfiança generalizada da parte dessas personas retratadas, em ter sido da parte de Adelaide Giantomaso  

Ah, o Boca do Céu... a minha primeira banda, da qual eu guardo um carinho imenso não apenas por ter representado o impulso inicial para a minha construção de carreira, mas sobretudo, pela lembrança sempre inspiradora a respeito da energia incrível que proporcionou-me para que eu pudesse canalizar a loucura que o Rock acometera-me, paulatinamente, desde o final dos anos sessenta, ainda criança, e em vertiginosa escalada a partir dos anos setenta, em pleno avançar da minha adolescência. Pois é, o Rock não fora apenas um mero gênero musical para catalogar discos em prateleiras de lojas de vinis, mas algo muito maior, a amalgamar-se com questões culturais, certamente muito mais amplas, e sobretudo por unir-se aos valores da contracultura & afins. Embevecido por tal grandiosa magnitude, a minha completa inaptidão para a arte, e a música em específico, fora um empecilho monstruoso para que eu pudesse canalizar tamanha volúpia que consumia-me as entranhas, no entanto, eis que um dia, um colega da minha classe da 8ª série, chamado, Osvaldo Vicino, formulou-me o convite para que formássemos uma banda de Rock e este foi o impulso mágico que deu-me a chance para vencer as minhas barreiras, então intransponíveis, e finalmente vislumbrar a materialização do sonho.
O troféu que o Boca do Céu recebeu, por ter ganho o 2º lugar no Festival Femoc, em agosto de 1977

Bem, caminhamos até onde foi possível, a compreender-se as nossas dificuldades à época, e posso afirmar, fizemos conquistas. A dispersão da banda foi escalonada e ao final, dos membros originais, somente eu, Luiz, cheguei ao final das atividades da banda, juntamente ao Laert, embora ele não tenha sido da primeiríssima formação, por uma questão de poucos meses, apenas. Pelo fato de eu, Luiz, e Laert termos seguido juntos quando da formação do Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero, em junho de 1979 (apenas dois meses após o final oficial do Boca do Céu, e nesse instante, com o grupo já bastante desfigurado), e embrião do que veio a tornar-se o Língua de Trapo, significou que a priori, nos anos posteriores ao Boca do Céu, foi com o Laert que eu mais tive convivência e atuação, por conta de eu ter sido membro do Língua de Trapo em duas oportunidades (da fundação do grupo, em 1979, até 1981, e posteriormente, entre 1983 e 1984). Por conta dessa realidade, eu passei anos sem saber notícias sobre os outros ex-companheiros do Boca do Céu.
Osvaldo Vicino e Laert Sarrumor, durante a festa de aniversário do Laert, em São Paulo, no ano de 2015. Acervo e cortesia : Laert Sarrumor. Click : Marcia Oliveira

Por volta de 2012, o Laert reencontrou o Osvaldo Vicino, virtualmente, através da extinta Rede Social Orkut e daí fez a ponte para que eu também restabelecesse o contato. Em 2015, eu fui convidado a participar de mais uma festa de aniversário do Laert e o Osvaldo, também foi convidado. Infelizmente, eu estava a convalescer, após ter submetido-me à duas cirurgias de emergência e não pude estar presente. Todavia, a despeito da minha falta, Osvaldo e Laert reencontraram-se, após trinta e sete anos, o que foi algo extraordinário. Ainda em 2015, o Osvaldo visitou-me em uma apresentação da Magnólia Blues Band, grupo em que toquei entre 2014 e 2016, e foi um reencontro muito feliz entre amigos que não viam-se pessoalmente, desde 1978. 
A histórica filmagem em Super-8, feita com o Boca do Céu a tocar, por obra de Nelson Gravalos, em 12 de junho de 1977. Acervo; digitalização e postagem inicial : Fran Sérpico. Pós-produção e segunda postagem : Jani Santana Morales

Eis o Link para assistir o vídeo no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=LHiL27bRGOs&feature=emb_logo

Ao final de 2016, reencontramos o baterista, Fran Sérpico, na Rede Social Facebook e algum tempo depois, na semana do Natal e Reveillon, ele deu-nos um presente maravilhoso : a digitalização e postagem no Portal You Tube, de uma filmagem que a nossa banda havia feito em junho de 1977. Histórico, emocionante e sem dúvida a mostrar-se como um tesouro de valor incalculável, trata-se do único registro da banda em ação, mesmo que neste vídeo, não haja o áudio original, a contar com o som real que produzíamos na ocasião.

Osvaldo visitou-me posteriormente em outras ocasiões, em shows de Kim Kehl & Os Kurandeiros, em pelo menos três ocasiões e casas diferentes. E sempre que reencontramo-nos, o assunto sobre um possível encontro com todos os membros do Boca do Céu, veio à baila. Já pensou ? Seria algo verdadeiramente sensacional reunir a banda inteira, após tantos anos.
Luiz Domingues e Osvaldo Vicino, em reencontros de 2015 (fotos 1 e 2, no Magnólia Villa Bar) e 2017 (foto 3, no Santa Sede Rock Bar), em São Paulo. Click; acervo e cortesia de Lara Pap (fotos 1 e 2). Foto 3 : acervo e cortesia de Osvaldo Vicino. Click : acompanhante de Osvaldo  

Pois foi ao final de 2019, que a perspectiva de um reencontro a envolver todos os ex-membros da banda, ganhou força, e tanto foi assim que motivou a criação de um grupo a promover a conversa reservada através do inbox da Rede Social Facebook, aliás criado por eu mesmo, Luiz, o qual foi batizado como : "Boca do Céu / Reencontro do Século XXI". 

Pois é, quando ouvíamos a canção : "21st One Century Schizoid Man", do King Crimson, ali no calor dos anos setenta, tínhamos a noção sobre o século XXI, como algo que aproximava-se, mas ainda a estar muito distante, portanto a configurar-se como uma visão do futuro, baseada naquela perspectiva fantasiosa que a nossa imaginação havia sido induzida pelo paradigma em torno dos filmes e seriados ao estilo "Sci-Fi", ou seja, a elucubrar os anos 2000, sob parâmetros espaciais; cibernéticos etc. Mas o século XXI chegou, avançou para a sua segunda década e o Boca do Céu, quem diria, abriu uma bela perspectiva para acrescentar mais histórias em minha autobiografia. Portanto, essa banda estava prestes a ofertar-me um segundo sonho, na verdade...

Continua...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Crônicas da Autobio - A Pernoitar entre os Cartuns de Caruso - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol, em setembro de 1984. Foto promocional da banda, feita na mesma época, de autoria de Carlos Muniz Ventura

No segundo semestre de 1984, a nossa banda vivia um momento muito bom, sob o impacto de uma forte expansão gerencial e midiática. A crescer no imaginário popular e despertar por conseguinte a possibilidade em abraçar as oportunidades que surgiam, eis que por volta de setembro de 1984, a banda abriu duas frentes importantes para fomentar ainda mais a divulgação do trabalho e também para fechar shows. Nesses termos, os companheiros, Rubens Gióia e o então novo vocalista, Chico Dias (este rapaz na verdade, permaneceu muito pouco na formação da banda), foram à Porto Alegre, onde alguns contatos dentro da mídia gaúcha, foram movimentados, e em paralelo, eu mesmo, Luiz Domingues, fui ao Rio de Janeiro, onde por conta de alguns contatos que eu mantinha na capital fluminense, tratei por incrementar o mesmo esforço. 
A grande produtora musical, Cida Ayres, em foto mais atual, dos anos 2000. Foto : divulgação na Internet

É bem verdade, que além dos contatos que eu já possuía, houve a providencial ajuda que eu / nós, recebi (emos) da produtora do Língua de Trapo, chamada, Cida Ayres, que afeiçoara-se também ao trabalho da nossa banda, "A Chave do Sol" e assim, de uma forma muito generosa, ela movimentou os seus contatos pessoais e posso dizer, foi um esforço decisivo para que uma das abordagens que eu fui fazer no Rio, para vender um show da nossa banda no badalado espaço do "Circo Voador", lograsse êxito, logo a seguir, graças a esse esforço despendido em setembro de 1984, e com o apoio de Cida Ayres.
Bem, ainda a falar sobre a minha ida ao Rio, para estabelecer os contatos, houve um fato a mais e que fora também uma intervenção direta da minha amiga, Cida Ayres. Eis que assim que eu elaborei a minha agenda para cumprir na cidade, percebi que seria difícil cumprir todos os compromissos em um dia apenas, mesmo se eu viajasse pela madrugada e chegasse bem cedo ao solo carioca. Por conta dessa logística apertada, a Cida interveio e sugeriu uma solução gratuita para eu pernoitar na cidade e assim contar com mais um dia para que eu pudesse trabalhar no Rio. Ela conversara com o grande cartunista, Chico Caruso, muito famoso já naquela época, por ser o chargista oficial do jornal, "O Globo" e naturalmente a colaborar com os outros veículos da mesma empresa, incluso a Rede Globo de Televisão.
O grande cartunista, Chico Caruso, muito amigo do Língua de Trapo e que ajudou a minha outra banda, A Chave do Sol, em 1984. Foto : divulgação na Internet

Ocorre que ele, Chico Caruso, assim como o seu irmão gêmeo e igualmente um cartunista genial, Paulo Caruso, eram entusiastas do trabalho do Língua de Trapo, e em minha recente segunda passagem pela banda, entre 1983 e 1984, eu pude conviver com ambos. Aliás, bem recentemente naquela ocasião, ainda mais com o Chico, por conta de duas temporadas que essa banda cumprira pelos palcos cariocas. Portanto, ele conhecia-me por conta de minha atuação com tal grupo e quando a Cida Ayres o procurou para que ele abrisse-nos algum contato midiático, a proposta de ajuda foi providencial e inesperada ao mesmo tempo, pois ele ofereceu-me o seu atelier para que eu lá pernoitasse. Ora, que honra, aceitei de pronto e mais que a gentileza por si só, a mostrar-se muito grande, eu animei-me com a ideia de que ficaria algumas horas em seu gabinete de trabalho, solitariamente a verificar in loco, o seu material de criação. 
         Chico Caruso em foto montagem extraída da Internet

E foi assim, Chico recebeu-me com muita galhardia, além de disponibilizar a sua biblioteca para que eu pudesse examinar o que eu desejasse durante as horas em que ali permaneceria e sobretudo, com a liberdade para eu ver os seus novos trabalhos em construção sobre a prancheta, a vontade. Privilegiado, eu pude ver diversos cartuns em que ele estava a trabalhar, inclusive alguns já em fase de acabamento final em seu lay-out, para ser encaminhados à redação do jornal, "O Globo". Sensacional, eu fiquei muito feliz por ter tido liberdade para examinar o trabalho de um artista consagrado, em fase de elaboração, dentro do seu atelier de trabalho, localizado em uma travessa da Avenida Ataulfo de Paiva, no elegante bairro do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro.
A Chave do Sol : ao vivo no Circo Voador do Rio de Janeiro, em outubro de 1984. Foto : Claudio T. de Carvalho

E sim, os esforços lograram êxito, e entre outras conquistas, a nossa banda participou de um festival muito concorrido, entre as grandes bandas midiáticas do dito movimento "Br Rock 80's", no Circo Voador, logo a seguir, com um show completo que ali cumprimos ao final de outubro do mesmo ano. Portanto, A Chave do Sol agradece mais uma vez o apoio da solícita produtora, Cida Ayres e do grande cartunista, Chico Caruso.