quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Uncle & Friends) - Capítulo 101 - Por Luiz Domingues

Bem, eis que mais uma vez eu recebi o convite vindo através do simpático, "The Uncle", Lincoln Baraccat para participar de mais uma ação com, a sua banda, "Uncle & Friends". Desta feita, a proposta foi diferente das ocasiões anteriores, no sentido de que não tratar-se-ia de uma apresentação em alguma feira popular de rua, como houvera anteriormente ocorrido, contudo, a configurar-se como uma apresentação em estúdio. A proposta seria tocar três músicas ao vivo, a gravá-las como um ensaio ao vivo e uma das canções, ganharia uma filmagem, também a ser usada posteriormente como um promo instantâneo para o You Tube ou qualquer outro portal de vídeos, semelhante. Enfim, uma perspectiva alvissareira. Fui informado que as canções escolhidas seriam : "Hey, You"; "O Sol e Você" e "Muito Estranho". 
Então, eu fui comunicado previamente que seria um evento a contar com outras duas bandas, e neste caso, absolutamente dentro do nosso convívio, visto que no caso dos grupos : Caio Durazzo Trio e Mesa do Rock, formado por membros que também costumavam tocar com Lincoln "The Uncle" Baraccat, obviamente que transformou o evento em uma ação entre amigos, na acepção do termo. Ótimo, a tarde agradável mostrou-se garantida. 
Alguns dos muito amigos presentes neste evento. Na porta do estabelecimento V8 Studio, pela ordem : a produtora, Vanessa Anchieta; Guitarrista; cantor e compositor, Fernando Ceah e o fotógrafo, Marcus Vinicicius Troyan. Uncle & Friends em gravação ao vivo no estúdio V8 em São Paulo / SP. 15 de setembro de 2019. Clicks; acervo e cortesia : Lincoln "The Uncle" Baraccat

O local em questão, revelou-se muito interessante, a tratar-se de um estúdio de gravação e ensaio, acoplado em um estúdio de tatuagem e a portar-se como um mini centro cultural, na prática, a tornar um evento em algo muito agradável. Mais pontos positivos, tal estabelecimento, chamado como : "Estúdio V8" em outro aspecto agradável a envolvê-lo, deu-se com a sua localização. Em uma esquina agradabilíssima, presente em um quadrante do bairro do Ipiranga, na zona sudoeste de São Paulo, tal estabelecimento realmente impressionou-me por tais sinais, no entanto, houve mais um adendo nessa equação : a extrema simpatia com a qual eu fui tratado pelos seus mandatários e funcionários, cativou-me por completo. Isso, aliás, foi uma constante, do momento em que cheguei ao estabelecimento, até a minha partida, já no avançar da noite. E mais uma observação, ali encontrei inúmeras pessoas conhecidas, que foram atraídas pelas três bandas em ação, Portanto, assunto não faltou nas inúmeras rodas formadas por amigos em que eu inseri-me, com muito prazer, para conversar em meio à quente tarde paulistana de final de inverno. Uma surpresa ocorreu, quando Lincoln Baraccat convocou-me para uma reunião de emergência, visto que haveria uma surpresa não anunciada previamente. Ele marcara a filmagem de um vídeoclip, bem simples, com câmera única e filmagem direta, sem maiores requintes, a focar em um blues de sua autoria, chamado : "Velho Lobo Mau". A ideia seria apenas contar com a banda a dublar o áudio gravado em estúdio por outros músicos, mas creio que daria até para tocarmos a música sem mesmo conhecê-la o suficiente, visto que tratou-se de um blues com harmonia tradicional e portanto, sem maiores dificuldades. Fomos avisados também que uma garota, viria para fazer parte da filmagem, a atuar como atriz. Tudo bem, não haveria nenhum empecilho para que não cumpríssemos tal tarefa com facilidade.
Durante a apresentação do trio, "Mesa do Rock", a cantora superb, Amanda Semerjion canta, com dois rapazes atrás dela, e não identificados; o guitarrista, Marcello Pato também esboça estar a cantar informalmente, com a sua esposa, a produtora, Gigi Jardim a dançar (a usar chapéu vermelho); o guitarrista / cantor & compositor, Fernando Ceah está ao lado de sua namorada, a produtora, Vanessa Anchieta (encoberta) e o músico extraordinário, Roy Carlini toca sentado, a usar óculos escuros. Uncle & Friends em gravação ao vivo no estúdio V8 em São Paulo / SP. 15 de setembro de 2019. Clicks; acervo e cortesia : Lincoln "The Uncle" Baraccat

Bem, Caio Durazzo Trio entrou em ação, a gravar três músicas de seu repertório e mais uma filmagem extra. Do lado de fora, mas com o estúdio a trabalhar com janelas abertas, configurou-se então, praticamente uma apresentação ao vivo, mesmo por que, a casa estava bem cheia com convidados das três bandas e dada a simbiose ali estabelecida, na verdade o público foi formado por amigos em comum de todos. O som da banda soou de uma forma muito agradável e eu fiquei bem perto da janela a receber o seu impacto direto, por um bom tempo, a apreciar bastante a performance muito energética desse super trio versado pelo som Rockabilly, bem cinquentista. Veio a seguir o "Mesa Rock", que trata-se de uma formação intimista a apresentar violão; bateria e voz, a justificar o nome do combo, visto que a intenção dos seus componentes seria brincar com as mesas de samba, sempre protagonizadas por apresentações acústicas e improvisadas, mas neste caso a trabalhar com o Rock, no mesmo conceito. Outro super grupo formado por amigos, eu também apreciei assistir e ouvir os petardos que esse trio jovem e super talentoso ali detonou. Bem, chegada a hora, eis que Uncle & Friends foi convocado a entrar no estúdio e realizar a sua performance...

Continua...

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Figuras de Autoridade - Por Telma Jábali Barretto


Quem são, para nós, tais figuras com tal tamanho? Normalmente, aqueles detentores de funções sobre as quais, fatos, coisas ou conhecimentos valorizamos. Se valorizamos o ter, aqueles que muito têm. Se nossa forma de mensurar for conhecimento, aos que algum domínio desse ou daquele saber. Se sobre habilidades artísticas, a esses criativos serão atribuídas essa posse de bem transitar pelas artes nesse ou naquele campo de ação... E, como não trazer, bem antes dessas mundo afora, as duas primeiras de cada existência: pai e mãe !!!

Atualmente, com tanta facilidade na comunicação, muitas, outras e diversas são as formas de ‘autoridades’ que, por diferentes caminhos a acessaram e chegam a tais postos... Alguns pura e simplesmente pela quantidade de ‘likes’ que, óbvio, expressam, também, sintonia similares de muitos. Outras, pelo longo e árduo caminho construído, muitas vezes inspirador para tantos mais... e, de outra maneira, chega-se a tais circunstâncias por vias bem inusitadas, surreais e ‘obra e graça do espírito santo’...?!...o que deveria provocar um questionamento, reflexão... Se, sendo reencarnacionistas, por quê razão? O que produzirão ali de desastroso ou de bom? O rastro deixado falará por si: agindo com pessoalidade, assumindo ! Se, ao contrário, bem usufruindo da ‘contemplada’ oportunidade, para satisfação própria... ainda, aqueles que poderão ali ‘estar’ que, abençoando tal chance, tenham dignidade e responsabilidade usando seu melhor critério para o bem de todos... Nossa principal intenção dessa reflexão, muito além de talvez provocar novos olhares e, se possível, oxigenar conceitos, produzir, quem sabe ?!... conscientização sobre como somos impactados por essas, pretensas ou merecidas, autoridades tantas. A quem delegamos e como reagimos diante delas: submissão, respeito, agressividade, passividade, intolerância ?
Como diria Jung, tais reações falam mais de nós que dessas pessoas e o que provocam, acionam, quase que instintivamente, em nós... Quais marcas carregamos daqueles que já exerceram tais papéis sobre nós, conquistados ou arbitrariamente impostos. Se, e somente se... corajosos formos, buscaremos reconhecer, nomear e, finalmente, saber a que e a quem de fato valorizamos e entender, processar como e quanto tais situações nos inspiram ou agridem, regridem ?!...

Inevitável esbarrarmos nelas e quantas e tantas ao longo da vida, sendo até, algumas vezes, instados a estar nesses lugares. Alguns buscam, deliberadamente, tais ‘poderosas’ funções... pela memória inspiradora ou ressentida de tais passagens marcadas, gravadas, tatuadas na própria alma, numa tentativa de harmonizar ou, mais grave, simplesmente, usufruir ?! do prestígio imaginado ?! Ou, rebater dores, conflitos internos supondo (?!), crendo ?! Que esse poder autorize o uso arbitrário de tal comando...
Cada qual traz aí suas verdades, suposições... trajetória de sua história ! Fato é que vivemos num mundo que favorece, facilita acessar tais ‘poderes’, autorias e comandos, para muitos ou quase todos nós, e a depender daquilo que carregamos no íntimo, exerceremos com mais ou menos sabedoria, alcançando a mais ou menos ‘seguidores’, num fluxo de similaridade harmônica, guerreira, amedrontadora, esclarecedora, transformadora, devastadora, enganadora ou verdadeira, libertadora ou limitadora... com quantos sejam os adjetivos a liberarmos, oferecermos ou tivermos para disponibilizar, consciente ou inconscientemente ... Mais fato ainda é, cada vez mais, isso sim !!!

Devamos exercer o mais pleno direito e liberdade sobre nossos arbítrios e critérios, baseando-nos em premissas cada vez mais cristalinas, iluminadoras, advindas daquilo que só o autoconhecimento, o respeito às bases mais essências do espírito, norteadoras de uma bússola interna muito além de instintos primitivos... e aí, que vá além das dores regredidas ou inspirações sonhadoras. Só e, então, começaremos, sendo senhores de nós mesmos, harmonizados internamente, possamos bem olhar para tais ‘figurões’ e a nós próprios com a devida e respeitosa dimensão! E... que nossa expressão propague, reverbere... cure ! Voilá...

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga. Nesta reflexão, a colunista fala sobre a questão das figuras de autoridade, ou melhor, como enxergamos a proeminência de certas forças dentro da sociedade em todos os sentidos. 

sábado, 5 de outubro de 2019

Crônicas da Autobio - Valorize o que Você Conquistou - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo do Pitbulls on Crack, em meados de 1997

Certa vez, eu fui interpelado pela opinião de um colega de profissão e a sua intervenção, provocou-me uma reflexão muito interessante. Ocorreu uma reunião, por volta de 1997, com representantes de algumas bandas da cena Rock paulistana de então, e nesse bojo, a maioria dessas bandas rezava por uma cartilha indie e não pelas vertentes pesadas e oriundas do Heavy-Metal / Hard-Rock, sobretudo sob viés oitentista, e naturalmente que pelo fluxo noventista em voga, havia ali naquela reunião, uma turma mais jovem e que recebera diretamente como influência em sua obra artística, a boa nova vinda em torno do Brit Pop. Ora, o Brit Pop foi uma tendência que transitou por um bom período nos anos noventa, a apresentar bandas britânicas profundamente influenciadas pelo cabedal sessentista, notadamente o estilo do Rock Bubblegum praticado no Reino Unido na década de 1960. Ora, que ótimo que isso tenha ocorrido enfim, para dar um alento ao Rock, após tantos anos marcados pelo obscurantismo Punk e Pós-Punk, e com direito ao niilismo barato; revanchismo e todo o tipo de ataques proferidos por agentes fanáticos em torno de tais falácias e pior, a adotar o famigerado comportamento fundamentalista em prol de tais ditames etc e tal.
Em termos de Brasil e São Paulo, para ser específico, a banda em que eu mais atuei nos anos noventa, o Pitbulls on Crack, não foi fundada com a intenção em desfraldar acintosamente a bandeira vintage em termos estéticos, mas pela força das circunstâncias e sobretudo por muita pressão pessoal da minha parte (eu assumo que forcei a barra no âmbito interno da banda), tal grupo pendeu para a estética sessenta / setentista, ainda que de uma forma apenas insinuada e assim, eis que eu estive em tal reunião organizada com representantes de bandas simpáticas às estéticas vintage, a visar um tipo de cooperação para a organização de um festival nesses termos. E um dos mais eloquentes a manifestar-se nessa reunião, foi o baterista de uma banda Pop Rock, cem por cento comprometida com a estética sessentista, e cujo trabalho eu admirava (admiro), por tal entrega pela qual os seus componentes demonstravam possuir em torno de tais ideais. Essa banda chamava-se : "The Teahouse Band", a tratar-se de um trio muito competente e criativo e que emocionava-me pelo seu entusiasmo em promover o resgate, o religare do Rock, um ideal em que eu também pautava-me e nessa ocasião, sobretudo, o meu empenho foi total dentro dessa prerrogativa.

Bem, eis que em algum momento da reunião, eu comentei que a situação das bandas ali reunidas, incluso a minha na ocasião, era difícil, por sermos todos marginalizados pela mídia mainstream. E por conseguinte, jamais sermos sequer cogitados para fazer parte do elenco de gravadoras de porte major, etc e tal. O que eu afirmei, foi absolutamente verdadeiro, não houve nenhuma falácia em meu discurso, no entanto, o que o baterista da "The Teahouse Band" retrucou, chamou-me a atenção e certamente provocou a minha imediata reflexão e retomada de posição, em termos. Eis que o bom baterista e cantor, Raul Antonio, estranhou a minha fala e questionou sobre o que eu reclamara, visto que o Pitbulls on Crack estava há anos no mercado, a contar com constantes oportunidades, a registrar-se uma maciça execução radiofônica, inclusive de mais de uma música, na estação de Rádio Rock mais popular de São Paulo naquela década (89 FM), e também com clips em constante exibição na MTV, além de farta cobertura na mídia impressa. Foi nesse momento em que eu parei para pensar e creio ter entendido a mensagem vinda do colega. De fato, o meu sentimento expresso em um discurso pleno de vitimismo, fora fruto de um paradigma arraigado há anos, em torno de uma visão derrotista de minha parte, em relação a considerar impossível que artistas da nossa estirpe, pudessem alcançar o patamar mainstream da musical profissional, por conta de barreiras formadas por interesses escusos da parte de poderosos. Nesses termos, de fato, o que eu falei procedia, no entanto, a observação feita pelo Raul, levou-me a entender o fator da graduação. De fato, o Pitbulls on Crack não chegou ao mainstream como eu desejaria, mas a projeção que atingiu mediante tal exposição, foi um fato (mesmo que em um estágio alojado no mundo underground), e dessa forma, eu percebi que não teria o direito a reclamar, pois outras tantas bandas e inclusive muito boas, sob o ponto de vista artístico, não obtiveram tal exposição semelhante.

Enfim, a minha lição neste dia foi aprender a valorizar cada conquista que eu tive. Se na minha avaliação mais criteriosa, tais conquistas foram insuficientes para atingir objetivos maiores, isso jamais poderia ser motivo para desvalorizá-las, portanto, o Raul mostrou-se correto em sua intervenção. E que bom, o The Teahouse Band também teve oportunidades boas, logo a seguir, inclusive na MTV, com clip elogiado e bem exibido em tal emissora; disco por gravadora; incursões radiofônicas e pela mídia impressa. Não chegou ao mainstream, como merecia, mas fez um percurso bonito, dentro das possibilidades de uma banda underground, ou seja a tratar-se de um caminho exatamente parecido com que o Pitbulls on Crack também transitou na década de noventa.  

domingo, 29 de setembro de 2019

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 114 - Por Luiz Domingues

Chegamos juntos à Praça da República, na tarde de 10 de agosto de 2019, a bordo do automóvel do Carlinhos Machado, eu, Luiz Domingues e Kim Kehl. Apesar de haver já no meio da tarde um público gigantesco ali presente para assistir os shows, tivemos um apoio muito bom da equipe de segurança terceirizada pelo evento, para rapidamente sermos conduzidos ao camarim. Uma banda tocava a todo o vapor o repertório do Raul Seixas, com desenvoltura e o público estava a cantar juntamente, visivelmente emocionado. Tal clima, sinceramente eu já esperava, pois qualquer manifestação que seja realizada a evocar a memória de Raul Seixas, provoca a comoção, visto que o seu público permanece enorme e muito fiel, praticamente ao constituir-se em mais que um séquito de admiradores do artista em questão e da sua obra, mas a portar-se no limiar de uma torcida uniformizada de um clube de futebol, senão como uma seita, no bom sentido do termo, ao levar-se em consideração a devoção pela qual idolatram o Raul, ao ponto em perpetuá-lo. Esse é um caso sério, visto que é público e notório que artistas que foram até mais populares do que ele em termos midiáticos, após perecer, caíram no esquecimento à medida que os seus fãs envelheceram e estes também partiram desta vida, e em muitos casos, bem antes desse fenômeno ocorrer, no entanto em relação ao Raul Seixas, muito pelo contrário, a sua imagem mostra-se absolutamente viva e preservada por uma multidão que não o abandona nunca.

Chegamos ao camarim e os simpáticos seguranças, um casal, foram rápidos em advertir-nos a não deixarmos objetos pessoais perto da ponta da lona que sustentava a tenda improvisada como camarim, visto que pessoas em situação de vida a viver sem teto, estavam a tentar furtar o que podiam nesse camarim e nos demais ao lado, montados para os outros artistas. Neste caso em específico, revelou-se como uma situação triste a constatar-se sobre o estado do centro da cidade, ao estar a cada dia mais degradado, fator que faz com que há anos, inclusive, eu evitasse caminhar por ali e somente dirigir-me a tais logradouros, se fosse absolutamente necessário. Na contrapartida, tirante esse problema com furtos a ocorrer pela ação de braços inconvenientes que poderiam surgir abaixo da lona, o tratamento foi ótimo por conta dos seguranças e dos demais funcionários da produção, que foram muito solícitos para conosco.
Antes do show, no camarim. Da esquerda para a direita, na foto 1 : o histórico guitarrista d'Os Panteras", Carlos Eládio; Renata "Tata" Martinelli e Edy Sar. Na foto 2 : Renata "Tata" Martinelli e o ótimo fotógrafo, Weber Japoneis. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Acervo e cortesia : Weber Japoneis. Click (foto 1) : Weber Japoneis. Click (foto 2) : autor desconhecido

A banda que precedeu-nos, entrou no palco e tocou igualmente com bastante fluidez e até trouxe em sua formação um mini naipe de metais, a enriquecer a sua sonoridade. E também chamou-me a atenção quando eu ainda estava no camarim, pude ouvir que o seu vocalista chamou ao palco uma atração especial, a cantora / atriz, Mariana de Moraes, a participar em duas ou três canções e entre elas, a música, "Gita". Imediatamente eu estabeleci uma reminiscência pessoal, ao recordar-me de uma passagem ocorrida em 1986, quando eu tocava com A Chave do Sol e encontramo-nos com Mariana Moraes nos estúdios da TV Cultura de São Paulo, onde participamos do programa :"Panorama", então apresentado pelo jornalista, Maurício Kubrusly. Nem conversamos nessa ocasião, mas eu recordo-me bem dela a assistir a nossa entrevista e participação ao vivo e nós também termos assistido a sua participação. Bem, terminada a apresentação dessa boa banda que precedeu-nos, fomos chamados ao palco.
Flagrantes do show ! Foto 1 : Kim Kehl e Edy Star. Foto 2 : Renata "Tata" Martinelli a ser filmada por um fotógrafo. Foto 3 : Edy Star em destaque. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Clicks; acervo e cortesia : Carol Mendonça 

Enquanto preparávamo-nos, vimos que um dos organizadores do evento, faria uma apresentação acústica e singela ao cantar uma canção do Raul. Não estava previsto inicialmente, mas eu compreendi inteiramente  o caráter emocional de sua parte em querer também expressar o seu tributo ao Raul e assim, de uma maneira rápida, ele cantou com delicadeza uma canção. Na contrapartida dessa manifestação tão emocional, uma nota zero precisa ser dada para certos elementos da plateia que o hostilizaram bastante, talvez por estar em adiantado estado de embriagues e frustrados pela queda da adrenalina, visto que quatro bandas de Rock já haviam apresentado-se com grande energia, e assim, uma pausa para uma apresentação acústica na base da voz & violão causou-lhes um desconforto. Bem, nem mesmo uma plateia formada por fãs do Raul Seixas e por extensão, supostamente ligados em outro tipo de conexão com o Rock vintage, gerou necessariamente um público a demonstrar uma postura mais aberta a apreciar sonoridades mais leves, um fator bastante comum nos anos setenta. Observei com pesar a hostilidade de alguns mais exaltados a manifestar-se com essa impaciência e para agravar ainda mais, tratou-se de uma canção do Raul, enfim. Ainda bem, não foi algo generalizado, e dessa forma circunscrito à cinco ou seis pessoas em meio à mais de três mil ali presentes, mas certamente que chateou-me tal atitude da parte desses incautos.

Tudo pronto, iniciamos com o tema instrumental criado pelo Kim a insinuar diversas canções do Raul em um mini pout-pourri, com muita energia. Seguimos com a canção dos Kurandeiros, "Pro Raul", que no set list, o Edy descreveu como : "Raul foi para o Beleléu", por conta do que canta-se no seu refrão. E a seguir, entramos com muito balanço em "Toca Raul" e "Como Vovó Já Dizia". Edy entrou em seu estilo grandioso, versado pela sua experiência e influência em torno das tradições do teatro de Revista de outrora. Apesar de termos realizado um único ensaio, o entrosamento no palco demonstrou que ao contrário, não houvera um hiato tão grande entre essa apresentação e a última que fizéramos juntos em 2018. O som no palco estava robusto, apesar do inexistente soundcheck ter sido substituído por uma parca passagem prévia e em festivais ao ar livre, é sempre difícil que não seja realizado de uma outra forma.

Foto 1 : Luiz Domingues. Foto 2 : Michel Machado. Foto 3 : Edy Star. Foto 4 : Carlinhos Machado. Foto 5 : Kim Kehl. Foto 6 : Renata "Tata" Marinelli. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019.  Clicks, acervo e cortesia : Sol Rodrigues

Seguimos em frente com muita energia nos Rocks sessentistas, "Rua Augusta" e "O Bom" e avançamos pelas músicas do LP "Sociedade da Grã Ordem Kavernista", e evidentemente que este álbum haveria de ser um objeto de culto daquela massa formada por fanáticos adeptos de Raul Seixas. Não deu outra, houve um frenesi quando executamos : "Sessão das Dez"; "Êta Vida" e "Quero Ir". 




Foto 1 : Luiz Domingues. Foto 2 : Kim Kehl. Foto 3 : Michel Machado. Foto 4 : Renata "Tata" Martinelli. Foto 5 : Edy Star. Foto 6 : Carlinhos Machado. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Clicks, acervo e cortesia : Weber Japoneis

Quando iniciamos a execução de "Maluco Beleza", eis que notamos que o Edy havia saído do palco. Como essa ausência não fora combinada, ficamos apreensivos em princípio, talvez a considerar a hipótese que Edy estivesse com algum desconforto de ordem física e buscou ajuda nos bastidores, mas ao mesmo tempo, sem deixar transparecer a nossa estupefação ao público, e pelo contrário, a minha lembrança remete ao fato de que criamos um improviso dos mais agradáveis para esticar a introdução, até que a situação ficasse esclarecida entre nós. Pois eis que ouvimos a voz de Edy no monitor a iniciar a cantoria e tudo ficou sanado e entendido. Pois ele fora rapidamente ao camarim, trocara de roupa e munido de um microfone sem fio, surgiu pela lateral do palco, acompanhado de um segurança e caminhou em direção ao público. Ótimo, mesmo tendo sido algo feito sob improviso total, a ideia foi muito boa e assim, quando a música atingiu o seu clímax, mediante a intenção gerada pelo seu refrão, ele estava no meio da plateia a cantar junto ao povo. Bem, foi bonito como efeito dramático do show, mas ao mesmo tempo preocupante, visto que em determinado instante, a euforia sempre impensada em meio a uma multidão, deu trabalho ao segurança para que não esmagassem o Edy com o excesso de ímpeto gerado nessa massa, mas experiente, assim que percebeu que a situação poderia sair de controle, Edy bateu em retirada e após passar pela grade de segurança, apressou-se em voltar ao palco e encerrar a interpretação da canção, conosco.
Foto 1 : Edy Star e Kim Kehl. Foto 2 :Renata "Tata" Martinelli e Kim Kehl. Foto 3 : uma bela panorâmica da banda em ação no palco. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Clicks; acervo e cortesia : Weber Japoneis  

Tocamos, "O Crivo", do  repertório solo de Edy, um tema versado pelo puro Blues-Rock, e que sempre propicia-nos o conforto em transitarmos por uma especialidade dos Kurandeiros, além de igualmente ser uma canção a conter uma letra maliciosa, escrita pelo Raul Seixas e cuja brincadeira que o Edy sempre estabelece ao vivo, caiu como uma luva para aquele tipo de público. "Rockixe" e na sequência, "Al Capone", gerou a esperada euforia dos fãs do Raul e em seguida, Renata "Tata" Martinelli entrou em cena para cantar divinamente, a bela balada, "A Maçã", ao provocar a imediata interação da plateia, que veio junto com a banda, sem
titubear
Renata "Tata" Martinelli em ação, com Luiz Domingues, ao fundo. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019.  Click; acervo e cortesia : Weber Japoneis

A seguir, Renata permaneceu conosco e assim tocamos : "Ainda Queima a Esperança". Confesso que subestimei a reação, por antecipação, ainda no ensaio, visto que achei que tal escolha houvesse sido algo exagerado, no sentido em ser uma canção obscura gravada por uma cantora popularesca de um passado remoto e somente pelo fato do Raul a ter composto, tal referência soou-me superficial. No entanto, o desinformado ali fui eu, visto que notei enquanto tocávamos, que muitas pessoas da plateia a cantarolavam, a denotar que aquele público realmente era aficionado ao ponto de conhecer não apenas a obra do Raul, em todos os seus meandros, mas também ao deter o profundo  conhecimento das inúmeras canções que ele escreveu para alimentar artistas obscuros e populares, visto que ele foi por muitos anos, antes de estourar como um artista solo, um executivo de gravadora. Muito bem, houve uma razão de ser e assim tocamos a canção da cantora, Diana, com muito respeito e certamente com uma vestimenta mais Rock'n' Roll.
Edy Star em destaque, com Luiz Domingues, atrás e de costas e Carlinhos Machado ao fundo, na bateria. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019.Click; acervo e cortesia : Weber Japoneis

Tocamos a seguir, o ótimo som, "Rock'n' Roll é Fodaço", do último álbum de Edy, com direito a mini solos de cada membro da banda e a conter as habituais brincadeiras do Edy na hora de apresentar-nos, individualmente. Emendamos com "Rock das Aranhas", com a voz do Kim no comando, como acontece normalmente nos shows dos Kurandeiros e em seguida, mais um improviso ocorreu. 
Edy Star e Carlos Eládio em destaque. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Click; acervo e cortesia : Weber Japoneis

Eis que Carlos Eládio, ex-integrante da banda de Raul Seixas nos anos sessenta, "Raulzito & Os Panteras", foi convocado a participar e ali no calor da indefinição sobre o que tocaríamos com ele, o Kim sugeriu, "Metamorfose Ambulante", que nós não tocaríamos naquele show, por uma solicitação do Edy, visto que essa canção fora executada por quase todas as bandas que apresentarm-se anteriormente e ele não quis repeti-la. Nessa circunstância especial, nós tocamos e foi bastante prazeroso ter Eládio, um músico histórico, a cantar conosco. Eis que iniciamos uma saborosa versão Country-Rock para : "Let Me Sing" e encerramos com bastante contundência, com "Sociedade Alternativa", a gerar um coro que ecoou forte na Praça da República, certamente a produzir emoção entre as pessoas ali presentes que comungam com as ideias libertárias, oriundas da concepção do saudoso, Raul.



Foto 1 : uma visão do palco pela retaguarda. Foto 2 : Kim Kehl e Edy Star com a perspectiva do público. Foto 3 : o Power Trio Kurandeiros a confraternizar-se após o término do espetáculo. Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, ao vivo no Festival : "O Início; o Fim e o Meio", realizado na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Acervos e cortesia : Kim Kehl. Clicks : Lara Pap 

Missão cumprida e com muita satisfação, foi um ótimo show, com emoção; boa performance no palco e encontros muito prazerosos nos bastidores. Aliás, encontrei-me com muitos amigos queridos nos bastidores e pude enfim conversar com a cantora, Mariana Moraes, que muito simpática, falou-me sobre os seus projetos artísticos, mais focados na música do que o cinema, na atualidade.  E assim foi, noite de 10 de agosto de 2019, com cerca de três mil pessoas na plateia, que cumprimos mais um bom show dos Kurandeiros, com Edy Star e reforçados por Renata "Tata" Martinelli e o ótimo percussionista, Michel Machado.

"Toca Raul" (Zeca Baleiro) / "Como Vovó Já Dizia" (Raul Seixas); Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star no Festival "O Início; o Fim e o Meio", na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Filmagem : Fátima Costa

Eis o Link para assistir no You Tube : 

https://www.youtube.com/watch?v=udJbwN0_yzw

Mini especial com Kim Kehl & Os Kurandeiros + Edy Star, no Festival "O Início; o Fim e o Meio" na Praça da República, centro de São Paulo, em 10 de agosto de 2019. Filmagem : Celso Giannazi

Eis o Link para assistir no You Tube : 

https://www.youtube.com/watch?v=_zPy5oySLng
Na semana subsequente, novamente fomos agraciados com duas músicas a ser executadas no programa "Só Brasuca", da Webradio Crazy Rock. E assim, entre 17 e 23 de agosto de 2019, as canções : A Noite Inteira" e "Anjo do Asfalto", estiveram presentes nessa seleta programação.


Continua...