sábado, 24 de agosto de 2019

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 187 - Por Luiz Domingues

Fui o primeiro a chegar à unidade do Sesc Belenzinho de São Paulo, por volta de 13:30 horas do dia 5 de abril de 2019. Adentrei o auditório e deparei-me com o seu interior inteiramente deserto. O backline não estava montado, mas eu sabia que os técnicos do PA e da iluminação chegariam em qualquer instante. Mas quem eu vi primeiro surgir, foi o nosso técnico de PA, Renato Coppolli. Foi quando esclareceu-se que na verdade ele fora o primeiro a chegar e que ao comprovar a ausência da equipe técnica do Sesc, resolvera ir tomar um café. Dali em diante, durante cerca de trinta minutos em que ficamos a conversar, foi um diálogo muito agradável sobre música, operação de áudio e a sua atuação como músico, quando fora membro de uma banda de Blues que atuou bastante nos anos 1990 e também pelo fato de ser igualmente um baixista, falou-me sobre os baixos que possui e já possuiu, somente a tratar-se de instrumentos de um alto quilate, vintage. Aos poucos, os técnicos chegaram e a montagem do backline mostrou-se muito eficiente. Observei os primeiros trabalhos de afinação do PA, por parte do Renato, auxiliado prontamente e com muita simpatia, pelo técnico de monitor, um rapaz chamado, Leandro, que também mostrou-se muito competente além de solícito. Rodrigo Hid chegou acompanhado pelo amigo, Daniel "Kid" Ribeiro, que mais uma vez  trabalharia conosco, como roadie. Ivan Scartezini chegou a seguir.
Flagrantes do soundcheck vespertino do Pedra. Pedra no Sesc Belenzinho de São Paulo, em 5 de abril de 2019;Clicks; acervo e cortesia : Daniel "Kid" Ribeiro

Xando Zupo veio acompanhado de dois novos roadies que arregimentara recentemente. Os jovens, Luiz Henrique e Mateus. Luiz, ele conhecera a trabalhar em uma oficina de Luthieria onde costumava levar as suas guitarras para fazer a manutenção, portanto, Luiz também tinha / tem essa formação como Luthier e toca guitarra, igualmente. No caso de Mateus, esse rapaz lembrou-me bastante o meu amigo, Nição Altino, que eu conhecera nos idos de 2017, pelo seu visual a la "Glam-Rock" dos anos oitenta, e também a lembrar os personagens dos filmes da franquia, "Piratas do Caribe". Este além de auxiliar como carrier, seria o vendedor oficial na loja ambulante que venderia produtos do Pedra e no caso, além dos discos disponíveis, Pedra e Pedra II, camisetas foram confeccionadas especialmente para a ocasião.
Detalhe da estampa da camiseta que foi produzida pela produção comandada por Xando Zupo, especialmente para esse show comemorativo. Pedra no Sesc Belenzinho de São Paulo em 5 de abril de 2019. Acervo : Luiz Domingues

O soundcheck comandado pelo Renato Coppolli foi positivo, embora extenso e essa sempre foi uma queixa minha sobre o comportamento dessa banda no passado, mas relevei, visto ser um show comemorativo e nada poderia destituir-me da leveza pela qual  encarei tal reunião, naturalmente. Em meio ao soundcheck, eis que o grande artista plástico, Diogo Oliveira, chegou às dependências do teatro. Munido com o equipamento que acoplaria ao equipamento de iluminação, ele faria durante o show, um intermitente atuação a desenhar simultaneamente, desta feita a usar de tecnologia digital.
Ivan Scartezini & Xando Zupo na primeira foto. Abaixo, a banda a fazer o soundcheck coletivo. Click; acervo e cortesia : Luiz Fernando Nascimento (foto1) e Daniel "Kid" Ribeiro (foto 2)
 
Assim que encerrou-se o trabalho do soundcheck, vi chegar o amigo, Cesar Gavin, que veio cedo para poder gravar uma entrevista exclusiva com o Rodrigo Hid. Assisti grande parte da entrevista, do mezanino que dá acesso ao camarim. Cida Cunha foi a produtora do show e esteve presente sob sacrifício, visto que justamente naquela semana, tivera um problema de saúde bastante incômodo, entretanto, não esmoreceu e cumpriu a sua função ali. Michel Téer Comporeze e Fausto Oliveira trouxeram as suas máquinas e mesmo com as restrições impostas pelo Sesc, prontificaram-se a filmar o show.
Da esquerda para a direita : Xando Zupo; o grande, Cesar Gavin e Luiz Domingues. Clima descontraído no camarim, antes do show iniciar-se. Pedra no Sesc Belenzinho de São Paulo, em 5 de abril de 2019. Click; acervo e cortesia : Grace Lagôa

Tudo pronto, ouvimos o primeiro sinal do teatro; depois o segundo e quando soou o terceiro, já estávamos atrás na coxia, a ouvir o áudio disparado a ventilar as normas de segurança observadas pelos bombeiros, mediante a apresentação formal da parte de uma locutora oficial do Sesc, a anunciar... com vocês : "Pedra"...

Continua...

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Mãe é Mãe - Por Luiz Domingues


Desde pequenos, os irmãos, Elliot & Ted Buscarff, demonstravam ter nascido com talento para as artes. Costumavam entreter os pais; avós e demais parentes em animados saraus, quando ainda mal sabiam pronunciar as palavras corretamente, através de declamações de poemas criados através da sua livre criação; pequenas atuações em sketches teatrais por eles mesmo inventadas e a cantarolar canções folclóricas de sua terra, ouvidas e absorvidas desde o berço. Dessa forma, o que desenhou-se como uma tendência, confirmou-se assim que entraram em idade escolar e ali no ambiente estudantil, os irmãos tornaram-se o centro das atenções, ao angariar a simpatia do quadro de professores; da maioria dos colegas e também a inveja de uns poucos, que assim, tornaram-se os seus desafetos declarados, Um pouco mais de tempo passou e no calor dos hormônios efervescentes da adolescência, eis que a animosidade de seus desafetos cresceu ainda mais, na medida em que além do talento, os irmãos mostravam-se bem apessoados e assim, a atenção das meninas, em demasia, tratou por acirrar ainda mais os ânimos para aqueles poucos que não sentiam-se tão talentosos e atraentes e assim nutriam inveja em relação aos irmãos.
Os rapazes, apesar de estar acostumados com os elogios por conta de seus talentos artísticos e agora também pela beleza física que causava frisson entre as meninas, não eram convencidos, ainda bem. Eram garotos não exatamente humildes, pois sabiam do seu valor e cultivavam um sentimento de autoestima bem elevado, mas longe dessa postura caracterizar algum tipo de altivez e soberba, isso nem pensar. Dessa forma, andavam com a cabeça sempre erguida, mas nunca menosprezaram nenhum colega e isso só fazia aumentar o seu prestígio, principalmente entre os professores da escola onde estudavam. 
Todavia, curiosamente, um membro da sua família cultivara um sentimento mais exacerbado sobre os meninos e nem pode-se condenar exatamente essa pessoa pelos seus arroubos extravagantes em torno do enaltecimento de Elliot e Ted, visto tratar-se de sua progenitora. Miss Esther Buscarff, tornara-se famosa no meio social em que convivia, pelos excessos que cometia em prol do enaltecimento de seus filhos. Em princípio, as pessoas achavam normal que ela mantivesse muito orgulho de seus meninos, pois eles eram realmente talentosos. Passou um tempo, e ao verificar que ela intensificara as suas manifestações, as pessoas comentavam que talento comprovado a parte, os excessos por ela cometidos, ficavam por conta do fato de ser mãe e que nesse caso, o exagero justificava-se. No entanto, a reação de Miss Esther intensificava-se progressivamente, à medida que os garotos cresciam e assim, quando eles passaram a ser assediados pelo contingente feminino, com outras conotações e / ou intenções, as pessoas passaram a considerar folclóricas as reações dela, ao notar o histrionismo em suas declarações.

Pois o auge dessa situação, deu-se quando um colega os irmãos Buscarff, fez uma visita à residência da família, sob convite de Elliot & Ted. No entanto, ao chegar um pouco mais cedo do que o combinado, os irmãos não estavam presentes e assim, Miss Esther o recebeu e fez-lhe companhia enquanto os seus filhos não chegavam. Nessa conversa informal que travou-se no ambiente da sala de estar da residência Buscarff, Miss Esther passou a falar a respeito de seu assunto predileto : sobre os seus filhos. Até aí tudo bem, o jovem, Dean era amigo de fato dos irmãos Buscarff; também admirava o talento de ambos e conhecia bem a fama da mãe deles, ao exagerar nos elogios que costumava fazer aos seus filhos. Todavia, em dado instante da conversa, Miss Esther empolgou-se e narrou a seguinte situação :

-“Sabe, Dean ? Eu não sei mais o que fazer. Os meus filhos são talentosos e muito lindos. As meninas aparecem na porta da nossa casa, todos os dias. Chega a formar fila, com tumulto. Elas choram, descabelam-se... eu fico com muita dó em ver o desespero delas, apaixonadas pelos meus meninos... mas o que eu posso fazer, se tenho apenas dois ? Eu queria ter tido mais galãs para dar conta, mas só tenho os dois”...

Dean ouviu o relato com muito respeito e de forma alguma debochou de Miss Esther pelas suas costas, ao narrar o ocorrido em tom de escárnio (como muitos o fariam, no pátio da escola, no dia seguinte). E apesar de também ser um adolescente imaturo, tinha um grau de discernimento quase ao nível de um adulto, o suficiente para deduzir que todo o exagero perpetrado por Miss Esther, fora uma típica reação maternal. “Mãe é mãe”, pensou Dean.
No caso de Miss Esther Buscarff, no entanto, isso podia ser calculado ao quadrado, certamente.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Ele Quis Mudar de Vida - Por Luiz Domingues


Muitas vezes, deparamo-nos com pessoas que não apresentam certas reações sociais esperadas e nesse caso, causa ainda mais estranheza quando não há aparentemente nenhum sinal de que algo esteja fora do padrão em seu comportamento de uma maneira geral, tanto pelos hábitos, quanto na sua aparência, entretanto, vez por outra, as suas declarações causam estranheza. Rimán Oasino, um rapaz aparentemente normal, mostrava-se entre os seus colegas do trabalho, onde atuava, uma pessoa discreta, a priori. Usava vestimentas tradicionais, sempre sob um padrão social conservador e muito dificilmente usava do artifício das gírias ou expressões idiomáticas em seu linguajar. Formal, em via de regra, falava pouco sobre si próprio e por ser respeitoso, dificilmente alterava-se, mesmo quando contrariado em alguma questão. O pouco que sabia-se ao seu respeito, foi que cursava a Faculdade de Direito no período noturno e sonhava em tornar-se juiz, e para tal, planejava prestar concursos públicos, futuramente.
Todavia, um dia, sem nenhum cabimento ele soltou uma frase em voz alta, que gerou uma estupefação dentro do escritório de contabilidade onde trabalhava. Rimán, em um momento de profundo silêncio generalizado, afirmou em voz bem alta : 

-“cansei de ser bom. Vou tornar-me um bandido, doravante”. Ora, tal frase completamente fora do contexto, gerou uma estupefação total. Alguns riram; outros ficaram a mirá-lo com grande surpresa e alguns imediatamente retrucaram, ao estabelecer uma série de perguntas em caráter simultâneo, tais como 

: -“o que disse” ? -“você ficou louco“ ? -“que tipo de brincadeira é essa” ?

Rimán, não alterou-se depois dessa fala desconexa e tampouco com a reação estupefata de seus colegas. Simplesmente prosseguiu a trabalhar em silêncio, por ignorar as perguntas dos colegas, ao usar a calculadora e anotar resultados em uma planilha que preparava para elaborar um balancete contábil. Claro, ninguém conformou-se com aquele ato inesperado e pelos cantos, tal ocorrido tornou-se a fofoca da semana. E por ganhar uma contundência no ambiente, foi inevitável que tal acontecimento chegasse ao conhecimento da chefia do escritório.

Convocado para uma conversa com o chefe, assim que levantou-se de sua mesa, não esboçou nenhum sinal de preocupação e assim foi ao encontro do chefe em seu gabinete, sem alteração visível em seu comportamento, nem mesmo em seu semblante. Polido, o chefe o tratou bem, ao ponto de até elogiá-lo em seu preâmbulo, contudo, rapidamente entrou diretamente na questão, ao perguntar-lhe se ele estava a sentir-se bem, se tinha alguma queixa a ser feita, pois soubera que uma declaração sua causara estranheza no ambiente de trabalho e segundo relatos, não pareceu ser uma brincadeira.

Rimán, sem alterar em nem um milímetro a sua postura, apenas respondeu-lhe que não tratou-se de uma brincadeira, tampouco um ato histriônico a esmo, a denotar desequilíbrio mental ou que tais. Simplesmente, reiterou ao chefe, portanto, que cansara-se de ser um bom rapaz cumpridor das normas sociais vigentes em termos de boa conduta aceitável e que decidira-se a mudar o seu comportamento doravante, ao dedicar-se a uma vida sob a ação criminosa. Sem esboçar rir e nem mesmo denotar uma espécie de sarcasmo em tom de deboche blasé, reiterou que estava decidido a agir assim na sua vida, doravante.

Claro que o chefe, apesar de ter ficado um tanto quanto assustado pela frieza que deixara-lhe a impressão dúbia sobre ser uma encenação em tom de escárnio ou uma afirmação realmente séria, relevou e por sentir que aquela conversa não evoluiria para algo mais esclarecedor que o tranquilizasse enfim sobre a verdadeira intenção de seu funcionário, dispensou Rimán dessa conversação, ao exortá-lo a voltar para o trabalho. Rimán, levantou-se polidamente, pediu licença e saiu, como o bom rapaz bem educado que sempre aparentou ser. Nesse ínterim, o chefe, ficara sob uma dúvida atroz, pois ao mesmo tempo em que tudo aquilo pareceu ser apenas uma brincadeira performática, ainda que fora de propósito completamente, ao mesmo tempo, não poderia mandar o funcionário embora, somente por uma suposta brincadeira, que nem gerara muita confusão no ambiente de trabalho. Talvez houvesse sido uma tentativa vã da parte de Rimán, em perder a sua suposta timidez e a sua falta de tato no âmbito social produzira apenas uma piada absolutamente sem graça. Nos dias subsequentes, a rotina no ambiente de trabalho prosseguiu, mas em um determinado momento, eis que Rimán soltou outra frase de efeito, inesperadamente : 

-“Já elaborei o meu plano para apossar-me do dinheiro e será por meios legais, sob uma primeira análise”.
Bem, a surpresa já não existia mais e assim, todos relevaram com bom humor a fala inesperada e deveras chocante, ao tomá-la como uma farsa proferida a esmo, apenas para espantar o tédio em meio a um trabalho burocrático tão maçante e além do mais, no conceito de todos, Rimán seria incapaz em cometer qualquer ato ilícito. O consenso geral ali, dava conta de que Rimán era o tipo de rapaz que ao comprar um pãozinho na padaria do bairro e perceber que o troco dado pela moça do caixa, continha um centavo a mais em seu favor, voltava imediatamente ao estabelecimento para devolvê-lo, até debaixo de chuva, se fosse o caso.

Passou-se meses e Rimán não repetiu mais a sua fala tresloucada, mas um dia, ele faltou ao serviço. Algo raro, muito fora do comum, visto que até doente ele comparecia ao serviço, ao demonstrar uma obstinação até exagerada. Entretanto, também não veio no dia seguinte. Todos estranharam, mas no terceiro dia, eis que o escritório paralisou quando um funcionário entrou a correr pela sala e gritou : 

-“a polícia está no gabinete do chefe, a revirar os arquivos, algo aconteceu”. Nesse ínterim, um outro funcionário ligou o aparelho de TV que ficava na pequena copa e todos aglomeram-se à sua frente, para assistir o noticiário. O repórter falava sobre o escritório em que trabalhavam e que um golpe havia sido executado, a usar documentos com o timbre do escritório, e conter assinaturas falsas etc e tal. Milhões haviam sido desviados em uma operação fraudulenta, mediante uma falcatrua perpetrada pelo escritório contábil, no uso de notas fiscais falsificadas. Em suma, Rimán falara com seriedade, agora todos puderam comprovar.