domingo, 17 de junho de 2018

Metamorfose às Avessas - Por Luiz Domingues



Havia um grupo de jazz na cidade, chamado “Gouttes”, formado por rapazes jovens e bem nascidos, de onde deduzia-se que no caso de todos os seus componentes, o conhecimento musical avantajado fora adquirido mediante estudos em boas escolas de música e pelo equipamento e instrumentos de alto padrão internacional que usavam, era óbvio que eram mesmo todos abonados. Claro que isso não era demérito, embora a inveja que sempre grassa no meio, provocasse comentários deselegantes da parte de muitos invejosos de plantão, que desdenhavam deles, chamando-os de “frescos”, por vestirem-se como dândis europeus. E como se não bastasse serem bons músicos, bem equipados e bem preparados técnica e teoricamente, os rapazes eram bem apessoados e despertavam a atenção das meninas, e isso aumentava ainda mais a raiva da parte do cordão dos invejosos.


- "Poxa, os rapazes tocam músicas de Thelonius Monk; Chet Baker e Charles Mingus à perfeição, tem ótimos instrumentos e arrancam suspiros das meninas por ter, todos eles, a fisionomia de galãs de cinema como Alain Delon e Tony Curtis... que raiva", vociferavam alguns desses maledicentes !

Mas nem todo mundo pensava assim no meio. “Tem sempre laranjas boas no caixote, embora ao fundo algumas estejam podres”, filosofia popularesca, mas com seu fundo de verdade, e dessa forma, um músico do meio que batalhava por sua carreira, mas nem de longe com as mesmas condições financeiras tão boas desses rapazes, fizera amizade com o baterista do “Gouttes”.

Em uma ocasião futura, durante a realização de um grande festival, esse rapaz mais simples, finalmente ingressara em uma banda mais proeminente e por pura coincidência, sua banda estava escalada para atuar na mesma noite. Nos bastidores, Dom, esse rapaz mais humilde encontrou-se com Dan, um dos componentes da banda de Jazz, mas as circunstâncias agora mostravam-se bem diferentes para o “Gouttes”, pois a banda passara por uma ampla reformulação. Não tocariam mais Jazz, como amavam praticar e doravante, sob a orientação da gravadora com a qual haviam assinado contrato felpudo e em comum acordo com um empresário daqueles bem centrados na determinação comercial total na música, fariam um som bem popular, ao sabor da orientação dos marqueteiros da ocasião. Claro que havia o dissabor pessoal da parte deles, segundo confidenciou Dan, mas a parte prazerosa a compensar tamanho sacrifício, seria a perspectiva do mega estrelato, mediante portas abertas na mídia, com o esquema de hiper divulgação da gravadora, bem alinhavado com os planos do empresário, que já fechara uma mega turnê em âmbito nacional. Sob tal perspectiva em obter um sucesso estrondoso, não vacilaram em fechar o contrato.

Mas havia um componente a mais nessa mudança imposta por tais fatores externos e Dan explicou a Dom, que a gravadora insistira na inclusão de uma cantora, no grupo. A ideia seria ter uma menina muito bonita na linha de frente, com porte de modelo e nem precisava ser uma cantora de fato. Se conseguisse manter uma afinação mínima dentro da harmonia e aprendesse a não perder a pulsação / andamento das músicas, seria o suficiente, e visto que seus colegas eram excelentes músicos, toda a parte musical estaria garantida, em tese, portanto, não deveriam temer por nada constrangedor. Mas essa era a conversa da parte de empresários e marqueteiros da gravadora, pois bom músico que era, é claro que Dan sabia que as coisas não seriam assim exatamente e uma pessoa com pouco talento e nenhuma experiência musical poderia arruinar tudo. Foi quando afirmou em tom de desolação :


-“ela é linda, mas não canta nada”...


Bem, por considerar-se que 99.9 das pessoas não tem noção de teoria musical e pelo menos 85% delas, são facilmente manipuláveis por campanhas publicitárias bem fundamentadas pela formação de opinião, não deu outra, a outrora boa banda de Jazz fez muito sucesso popularesco, ao produzir um som pop; enlatado & insípido, bem ao gosto do modismo da ocasião, com a cantora que na verdade não cantava nada, em sua devida proeminência, a encantar pela sua beleza física acentuada. Por tais fatores públicos e notórios, não despertar queixas pelo seu fraco desempenho musical da parte de seu fãs, pouco criteriosos. Ou seja, “tudo como dantes, no quartel de Abrantes”, mais uma pérola da sabedoria popular e certeira a designar a mesmice que norteia a difusão cultural comercial. E assim, o Jazz do Gouttes, ficou restrito à memória de um reduzido grupo formado por testemunhas.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Ostracismo e Estrelato... - Por Telma Jábali Barretto

No mundo atual muito acontece estimulando a exposição, mídia levando ao palco coisas e pessoas com certa facilidade...Muito a contento de muitos e muito ao desconforto de outros.

Bem mais difícil, agora, permanecer no anonimato e ...quantos?! ...ainda, o desejam?!...Parece existir uma necessidade crescente dessa coisa de ser visto, conhecido...quase que uma psicoterapia (terapia deveria “curar” e ?!”...) coletiva onde direta ou sub-repticiamente, comentamos, narramos, expomos tudo que vivemos, sentimos, questionamos ou desejamos num infinito “Caras” que nem se limita mais a fins de semana, mas, a cada circunstância em cada sagrado dia! E de quanta troca, aprendizado sim, mas, quanta confusão daí advém, quanto filtro e critério deveremos aprender a ter e de quanto palco para tanto ... Isso comprova aquela fala do “falem até mal, mas falem de mim..” Na contramão disso, também, uma crescente necessidade do direito de privacidade, que nem de longe quer chegar ao outro extremo, do ostracismo... Esse é apontado, atualmente, como um dos maiores medos que assombra pessoas. Quão complexos nos tornamos?!...Jaya!!! Estamos evoluindo! Em meio a uma consciência patente, inquestionável que todos passaremos...mas, em meio a esses mesmos processos, queremos assegurar que, de alguma forma, ficaremos! Imaginar que sejamos abandonados, esquecidos...esmaecidos, talvez incomode mais que antes...

Não ser para si mesmo, impossível ! Somos de carne e osso e, como tal, carregamos a bagagem que essa matéria orquestrada por muitos sentidos, mente, alma e espírito dão vida e forma ao que chamamos existir numa sinfonia única de anseios, conquistas, dores e amores na passagem desse chamado viver, no nosso mundo. De onde será vem  acontecendo essa necessidade de deixar nossa marca?!...

Parece ser mais recente, na trajetória humana, esse tipo de circunstância, que elucubramos em nossas caraminholas otimistas onde ousamos dizer, novamente, seja uma característica de amadurecimento! De nosso olhar, possa ser uma consciência recém surgida que algum papel nos caiba nesse grandioso cenário de que somos parte, co-habitando lugar, tempo e momento. Querer saber qual personagem nos foi designado, corresponda ou queiramos?! Aceitar e assumir possa ser valioso, quem sabe?! e, até, um certo senso de responsabilidade para com o todo, o mecanismo e engrenagem gigantesca que flui impune e inexorável. Finalmente, começamos entender  individualidade... Mas, daí a imaginar que sejamos todos fadados ao estrelato, numa mesma cena onde cortinas se abrem, palcos são pensados e montados, em que luzes e sombras das histórias são construídas e dirigidas, músicas compostas para dar corpo a todo um contexto e, que desse olhar que enxerga o todo, nada poderia ter sido suprimido para que o bom espetáculo aconteça, para que aqueles que deram forma possam ‘servir’ com suas habilidades, trazendo beleza/desordem e harmonia/inquietude para aqueles outros impactados pela força e energia flua levando inspiração/revolta a tantos outros cuja contribuição seja anterior ou posterior a essa dita encenação....?!....

Para que cada situação aconteça, muito além cenas acima descritas, numa busca de didática para transmitir algo tão transcendente como o próprio viver, olhamos para cada trajetória única, desses bilhões de seres que ora convivemos, só nesse planetinha que nos acolhe, milhares de outras e tantas sutilezas são postas a serviço. Infinitesimais e subliminares, assim como extrapolados, superquânticos fluxos continuamente nos estimulam numa incansável busca de nos acessar, para, mais que brilhos e lantejoulas, ou num outro extremo, o simples direito de existir além holofotes,  nos convidem a trazer o melhor de nós mesmos, numa real oferta daquilo que, cientes, sabiamente, seja nossa sensação do  cumprimento de dever de casa, de quem mesmo desperto, durma numa infinita paz !!!

Que cada qual exerça, usando o melhor de seus sentidos, com escutas e olhares apurados, afinados numa auto-observação honesta e verdadeira, trazendo aí sim, sua intransferível dignidade interna, com  sintonia e idioma o palco da Vida!

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga. Nesta reflexão, aborda a complexa questão que envolve a notoriedade pública, e suas inerentes agravantes a criar paradigmas egóicos. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Crônicas da Autobio - O Golpe da Falsa Limpeza - Por Luiz Domingues



Aconteceu no tempo da Patrulha do Espaço, em janeiro de 2000


Estávamos a gravar o álbum, “Chronophagia”, da Patrulha do Espaço, em janeiro de 2000, no estúdio Camerati, de Santo André, cidade localizada na região conhecida como Grande ABC, integrante da gigantesca mancha metropolitana de São Paulo. Tal estúdio fora bem usado nos anos anteriores, mas naquela ocasião, estava decadente, a carecer de reformas em sua estrutura física, ainda que a parte operacional do equipamento, propriamente dito, ainda estivesse em ordem, com tudo a funcionar a contento. Entretanto, o seu proprietário na época, já havia desistido em investir nas suas melhorias e mediante o pedido do proprietário do imóvel para a devolução do mesmo, resolvera vender todo o maquinário e fechar as portas. Portanto, éramos os últimos artistas a usufruir de suas instalações e nosso álbum, “Chronophagia”, tornou-se o por conseguinte, o último disco ali gravado, oficialmente.



Esse estúdio tinha uma particularidade interessante em sua arquitetura, pois por tratar-se de uma antiga residência de alto padrão, era muito amplo e com um desenho estrutural arrojado, a fugir do padrão de uma residência familiar tradicional, porém, por  apresentar salões enormes, o que possibilitou que tal empreendimento fosse adaptado para um mini centro cultural, com um auditório na sua parte interna, dentro de um salão que devia ser uma espécie de “living room” muito amplo, anteriormente. E o estúdio em si, ficava alojado em uma instalação igualmente ampla, montada no quintal, ricamente ajardinado, como uma sala de inverno charmosa e sob um belo paisagismo, mas isso, em um tempo anterior, deduzíamos, pois estava tudo muito mal cuidado nesses tempos decadentes e onde a meta era sucatear o estúdio, vender o seu equipamento e entregar o imóvel ao proprietário, que nessa altura já estava apalavrado com um empreendedor que visava montar ali um restaurante de cozinha japonesa, sob alto padrão (e foi o que ocorreu, meses depois).

Foi quando surgiu a ideia para aproveitarmos a nossa maratona de sessões ali e produzir um show no pequeno auditório do complexo, e assim logicamente ao visar aproveitar a estrutura do estúdio para gravar o concerto. Tudo isso eu contei com detalhes no texto do meu livro autobiográfico, mas aqui eu exponho um detalhe inédito e inusitado. O dono do estúdio na ocasião, era o cantor / compositor, Belchior, uma figura sensacional da MPB setentista, autor de muitos clássicos naquela década, etc. Contudo, ele não tinha nenhuma intenção em salvar o estúdio, que já comprara por um preço reduzido da parte do antigo dono, consciente de que estava decadente e dessa forma, seu plano era o de ganhar algum dividendo com a venda do equipamento e nada mais. Portanto, ele nem aparecia por lá e deixara a responsabilidade pela sua administração em seus dias finais ao técnico de som que cuidou de nossa gravação e só havia um funcionário, um faxineiro, que malandramente, ao perceber a decadência e por antever a perda de seu emprego, ficava nos quartos do patamar superior, a aproveitar a calmaria total e simplesmente dormia o dia inteiro, sem pegar em uma vassoura, em hipótese alguma. Quando soube que tencionávamos fazer um show no auditório, veio rapidamente dizer-nos que haveria uma “taxa de limpeza”, que seria supostamente uma ordem expressa de seu patrão. Pura balela, Belchior nem aparecia ali e claro que a intenção fora a de amealhar um dinheiro para o seu bolso.



Então, quando percebemos o golpe do aspirante a astuto, dissemos-lhe que pagaríamos após o show e só ficamos a observar seus movimentos em contrapartida. Claro que ele fingiu empenhar-se, ao passar uma vassoura fortuitamente pelo auditório, mas isso revelou-se risível, pelo serviço mal feito que mal conseguia disfarçar de tão embusteiro que era. Então, enfatizamos que ele deveria esmerar-se em limpar bem não só o auditório e a entrada do estabelecimento, mas sobretudo os banheiros que serviam a parte concernente ao auditório e que seria usado pelo público, que esperávamos. E como havia uma quantidade deprimente de baratas mortas ali nos banheiros, reforçamos a ordem para ele cuidar disso. Infelizmente, ele não fez nada e quando demos conta disso, ficamos chateados, mas certamente que instaurou-se a determinação para não pagarmos absolutamente nada ao elemento. Não dava tempo para tomarmos providências em outro sentido, porque a montagem do equipamento e preparação da gravação do show consumiu-nos horas e assim, envergonhados parcialmente, assumimos a ideia de que o público teria banheiros sujos à sua disposição, com baratas mortas pelo piso, mas por outro lado, se a produção do show era nossa, é bem verdade, a casa estava em más condições e supostamente cobrara uma taxa para tal providência ser tomada e ao não cumpri-la, eximia-nos totalmente de culpa perante o público e principalmente da obrigação em pagar por algo que não fora feito, como um serviço prometido.


Pois bem, fizemos o show no sábado e na segunda-feira posterior, quando o sujeito veio cobrar-nos, ele foi conduzido por um membro da nossa banda a uma inspeção nos banheiros, e ao mostrar-lhe as baratas mortas na mesma posição em que ele as vira na sexta-feira, percebeu que nossa recusa em pagá-lo, não oferecer-lhe-ia a chance de nenhuma contra-argumentação em contrário. Ainda bem que nenhum usuário do recinto, oriundo do público, teve a ideia em “chutar” os corpos inertes dos blatídeos, a destruir assim a nossa prova cabal contra o nosso golpista “barato”...

domingo, 3 de junho de 2018

Eficaz, mas Irascível - Por Luiz Domingues




O imaginário popular criou o paradigma de que uma repartição pública é um ambiente de trabalho absolutamente entediante para seus funcionários, dada a sua constituição baseada na burocracia massacrante. Faz sentido pensar assim, pois se houvesse menos entraves, o dinamismo do serviço público em geral, seria muito mais eficaz e saltaria aos olhos do cidadão comum que só o enxerga como algo inútil e antipático, no sentido de que geralmente trabalha na contramão do empreendedorismo, para atrapalhar o progresso. Faz sentido, igualmente, em linhas gerais. No entanto, é um erro achar que toda repartição é desse jeito, e sim, existem as suas exceções, aliás, para o bem e para o mal, digamos assim, pois o noticiário policial vive a mostrar-nos casos lastimáveis a desvelar escândalos perpetrados por maus funcionários etc e tal. E pelo lado bom, existem as que empenham-se em trabalhar com dinamismo, a cumprir metas e assim apresentar bons resultados.



Foi o caso de uma repartição em específico, que cuidava de maquinários da prefeitura de uma cidade de grande envergadura e portava-se praticamente como uma empresa privada em busca de resultados monetários, com senso de competitividade, inclusive. E entre seus líderes, havia um sujeito chamado Sinval, que também era conhecido informalmente como, “Sinval das Máquinas”, por ser chefe de tal departamento e por sinal, muito competente. Ele era idolatrado pelos funcionários da repartição, exatamente pela sua capacidade e poder de liderança, mediante um temperamento forte, a demonstrar determinação, mas esse seu lado poderoso de sua personalidade também trazia no bojo o lado obscuro, ao apresentar o seu gênio irascível, onde demonstrava o tempo todo que não suportava ser contrariado em suas ordens, ao passar do ponto, muitas vezes, quando não continha a sua fúria desmedida.


Certa vez, conta-se que alguém quis brincar com ele, e inocentemente chamou-o de “Simbad, o marujo”. Ser chamado de “Sinval das Máquinas” não incomodava-o, pois sentia-se de fato o líder daquela repartição, mas a outra alcunha ele não suportou e assim, na posse de uma chave de fenda bem grande que tinha em mãos, foi para cima do autor do gracejo e foi duro para a chamada “turma do deixa disso”, contê-lo. Tempos depois, eis que um funcionário novo entrou na repartição e logo foi avisado por alguns veteranos, de que Sinval era um funcionário exemplar, mas não era de bom alvitre forçar nenhuma brincadeira com ele. Com o dito “pavio curto” como característica pessoal, Sinval era um rapaz com quem dava para conviver-se bem, desde que certos cuidados fossem observados no cotidiano, pois ele sempre tendia a mostrar-se contrariado e / ou ofendido facilmente, e nessa circunstância, partiria para as vias de fato, sob um piscar de olhos.


Mesmo ao evitar ter muito contato, já alertado sobre o gênio do chefe, eis que um dia um fato ocorreu e por azar, esse tal funcionário novo fora o sujeito errado, na hora errada a encontrar-se com Sinval, no corredor central da repartição. Ao parecer estar apreensivo, Sinval estava com uma caminhonete parada na porta, lotada com materiais a ser descarregados e o pátio não comportava mais nenhuma viatura, portanto, a ideia seria descarregar tudo rápido, a fim de dispensar a viatura que era de outro departamento e precisava voltar imediatamente à sua base. 


De pronto, Sinval olhou para o novo funcionário e intimou-o a ajudar nessa tarefa. Até aí tudo bem, não era a sua função ali, mas o rapazinho foi junto a Sinval, sem nenhum sinal de contrariedade, dentro do espírito cooperativo. Mas assim que chegaram à calçada, Sinval irritou-se com a suposta lentidão do rapaz em apanhar os materiais, quando na verdade este estava mais lento por ser zeloso, ao apanhar os objetos com cuidado, para não danificar nada. Mas Sinval estava tomado pela irritabilidade gerada pela pressa da situação ali instaurada e nervoso, passou a gritar, ao exigir maior rapidez. Ao sentir-se pressionado, o rapaz retrucou que se queria pressa na execução da tarefa, Sinval deveria ajudar igualmente e não ficar ali a portar-se como um alucinado sargentão de pelotão militar a exortar soldados a cumprir tarefas mediante seus berros ensandecidos. Ora, ora... foi falar assim justamente com o temperamental, Sinval ?

Enfurecido, o irascível Sinval viu seu subordinado enfrentá-lo como a maioria não tinha coragem de fazê-lo, com a verborragia a ficar exaltada na calçada, mas desta vez ele percebera que apesar de jovem e novato ali, o rapaz tinha um gênio parecido e não abaixara a cabeça ao temer por represálias, tampouco a ameaça física pura e simples. O clima ficou pesado, mas Sinval não levou adiante, como geralmente o fazia com os demais. Tal atitude de ambos, causou dessa forma, até uma certa estupefação generalizada entre os veteranos. 
Naquela mesma noite, uma máquina mais nova emperrou e tratava-se justamente de uma em que o novato era especialista, tendo formado-se com louvor em sua escola técnica, por demonstrar conheça-la, integralmente. Somente ele poderia abri-la e consertá-la naquele departamento inteiro. Sinval de pronto convocou-o para tal tarefa, mas ao olhar no relógio, já passara dez minutos de seu horário, e o rapazinho disse simplesmente que já esgotara o seu expediente e que o faria somente no início da manhã seguinte, dentro de seu horário regular de trabalho. Sinval esboçou ter outra de suas explosões nervosas, mas em seguida teve uma reação inesperada, ao dar a ordem para que outros funcionários tentassem suprir o trabalho interrompido com as máquinas mais velhas, mesmo, e que na manhã seguinte dar-se-ia uma solução para a máquina nova, assim que o novo funcionário chegasse. Sinval trancou-se em seu gabinete e pela janela, viu o rapazinho a caminhar apressado pela calçada em direção à estação do metrô. Foi quando sorriu com certo ar de resignação. Demorou, mas enfim percebeu que uma personalidade parecida com a dele havia chegado para ocupar espaço na repartição e mais que isso, vislumbrou ali, que achara o seu sucessor

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O Bom Rapaz Mentiroso - Por Luiz Domingues



Havia um repórter na TV, que notabilizara-se por dar um enfoque muito humano em suas matérias, para fugir do estereótipo engessado que aprendera na sala de aulas da sua faculdade de jornalismo, mas sobretudo a obedecer o manual de conduta das redações do jornalismo televisivo. Mas essa suposta insubordinação do jovem repórter gerou efeito contrário ao que geralmente esperava-se da parte da produção e por enxergar tal característica como um trunfo e não uma afronta, o repórter recebeu o convite para apresentar um programa jornalístico, com carta branca para pautar, produzir e conduzir como o desejasse. Uma meritocracia rara ao tratar-se do ambiente interno das emissoras de TV, diga-se de passagem. Medeiros de Albuquerque (assim apresentava-se, a forjar apenas o seu sobrenome como sua alcunha), cresceu muito e seu programa tornou-se rapidamente muito apreciado pela audiência, a gerar muitos pontos nas medições oficiais e consequentemente a atrair patrocinadores, portanto, esse sucesso tratou em elevar muito a sua popularidade e inerente poder pessoal. 




E seu grande trunfo na condução de seu programa, era o seu carisma e dessa forma, a tal condução “humana” que imprimia, gerava enorme simpatia por parte de seus telespectadores, que naturalmente, formataram a imagem de Medeiros de Albuquerque, como um exemplo de candura, um verdadeiro bom rapaz que arrancava suspiros de senhoras idosas e que acalentavam o sonho em ter um neto, assim, tão "bonzinho". Em seu imaginário, Medeiros era o gentil rapaz que costumava ajudar idosos a atravessar ruas perigosas ou coisa que o valha, em uma espécie de ideal do escotismo ou de congregações formadas por jovens ligados a religiões etc.

 Um dia, por uma conexão inesperada, um telespectador desses que muito admirava-o, foi parar nos bastidores do programa do Medeiros de Albuquerque. A ideia não fora abordá-lo diretamente, mas de forma discreta, apenas usufruir da condição de um espectador silencioso, e assim ele pôs-se a observar a frenética movimentação dos técnicos e assistentes de produção, certamente excitado pela oportunidade. Todavia, todo esse glamour veio terra abaixo, logo a seguir. Eis que Medeiros chegou ao estúdio e seu semblante mostrou-se muito diferente do que geralmente aparentava ao seu público. Tenso ao extremo e muito arrogante, só falava aos berros com seus assistentes e humilhava-os de uma forma aviltante. A cada dez palavras que proferia, nove eram palavrões que as vovós que costumavam adorá-lo, ficariam estupefatas em ouvir, por sair de sua boca. Com uma agressividade incrível, humilhava a todos, com palavras muito desdenhosas, quando não em meio aos palavrões e insultos, fazia a ameaça em despedir a todos, sumariamente, a acrescentar que faria esforços para que colegas de outras emissoras jamais os contratassem, sob uma bravata que denotava a sua prepotência desmedida. Foi quando então, uma voz vinda de um alto falante interno iniciou uma contagem regressiva. O programa entraria no ar em segundos. Faltava menos de trinta segundos e Medeiros ainda gritava com uma funcionária que não colocara a dose de açúcar na medida exata pela qual ele exigia que servissem-no, diariamente em seu café, enquanto o rapaz observava sob absoluto estado de choque, em meio a um misto de estupefação e decepção, certamente.

Então o programa iniciou-se e o desapontamento só fez-se aumentar, pois Medeiros mudou completamente o seu semblante e até a modulação de sua voz, ao falar de uma forma mansa, com aquele bom mocismo habitual que seu público tanto apreciava. Aquele seu jeito “humano” em tratar as pessoas, com compreensão e carinho, comiseração ao próximo, sempre a exortar que o caminho para uma boa convivência em sociedade seria o da tolerância, do diálogo, como sempre enfatizava...
Nessa altura, o rapaz que observava tudo em um canto discreto do estúdio da emissora de TV, percebera que as aparências enganavam. E dessa forma, desapontado, nunca mais assistiu TV com a mesma percepção de outrora, mas com um senso crítico muito aguçado, sem entregar-se cegamente, doravante, ao tipo de informação que vinha dela...