terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Uma Tarde Surpreendente - Por Luiz Domingues



Foi em meados de novembro de 2017, que recebi o convite para participar de um interessante Sarau, a ser realizado no início de dezembro, onde a proposta seria a apresentação de uma banda formada por amigos meus, chamada “Pictórica”, sob formato acústico, seguido de um debate sobre como as artes plásticas comunicavam-se com a música e por extensão, incluindo a poesia no contexto. Portanto, nessa tríade formada por três ramos artísticos distintos, mas a mesclar-se harmonicamente, é lógico que a conversa ali haveria de ser significativa, logo deduzi. E de fato, o próprio nome da banda já denotava a simbiose entre tais formas de arte, sendo a proposta estética de seus componentes. Tal convite veio da parte de Rômulo Pedroso Pereira, que já era meu amigo virtual, através da rede social, Facebook, onde há tempos conversávamos sobre música em predominância, mas esbarrando também em outros campos, visto que quando abordávamos aspectos da produção musical em seus meandros, a conversa diversificava-se em questões sobre gestão pública e política, e convenhamos, em se tratando de Brasil, lastimável e inevitavelmente sob tom de lamentos, pelo motivo óbvio da histórica falta de investimentos em educação & cultura, da parte das nossas autoridades. Sua banda, chamada Pictórica, apresentar-se-ia no Sarau. Rômulo além de ser músico e educador, é também um tremendo artista plástico. Gentil ao extremo, criou várias ilustrações sob a técnica da “infogravura Digital” e deu-me de presente tais obras, algumas com minha própria imagem e outras dos Kurandeiros, minha banda.
Eis acima, duas das muitas obras que eu e minha banda (Os Kurandeiros), ganhamos do artista plástico e músico, Rômulo Pedroso Pereira, por volta de outubro de 2017
  

Eu sabia de antemão que o pessoal da banda Pictórica, era também fortemente comprometido com as artes plásticas, e todos igualmente atuando como educadores. Tendo uma banda a ostentar em suas fileiras, músicos que também são educadores e artistas plásticos, claro que esse Sarau prometia, só por isso, mas as surpresas envoltas em tom de aparente pura coincidência, estavam apenas começando, quando tomei conhecimento do endereço onde seria realizado o evento : Rua Júpiter, 76... ora, exatamente no cruzamento com a Rua Castro Alves, no bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo e onde morei, a menos de cem metros desse local anunciado. Não havia ninguém no “Espaço Cultural Hitsu 76”, quando cheguei e assim, resolvi estabelecer uma caminhada pelas imediações, sendo natural que um turbilhão de lembranças dominasse por completo a minha imaginação, pelo fato de ter morado nesse quadrante do bairro, por tantos anos. Foram muitas vezes a andar naquela calçada, sendo caminho habitual para uma famosa padaria do bairro onde fui cliente por anos a fio. E também da banca de jornais da esquina, do supermercado de denominação nipônica, na rua paralela abaixo e assim por diante...


Quando retornei e acionei a campainha do espaço, ainda não havia ninguém responsável pelo local a atender, mas logo vi que um carro aproximou-se e um rapaz com feições orientais, cumprimentou e perguntou-me se eu era amigo do Rômulo. Respondi que sim, mas de forma virtual apenas e só ali teríamos um contato real, aliás, fato bem comum em amizades que nascem primeiro nas redes sociais da Internet. Em seguida, fui convidado pelo rapaz, que era o proprietário do espaço, a fazer uma mini tour de reconhecimento pelas suas dependências, onde ele mostrou-me várias obras ali expostas e fez uma revelação bombástica : era neto de Tsukika Okayama, famosa artista plástica japonesa e que vivera naquela sobrado, por muitos anos e agora ele herdara-o e resolvera transformá-lo num mini centro cultural a abrigar pequenas exposições, e a promover saraus, palestras, oficinas, não só de artes plásticas a honrar a memória de sua avó, mas contendo atividades musicais e literárias, igualmente.

A grande artista plástica, Tsukika Okayama, já idosa, ao lado de seu neto, o guitarrista, Márcio Okayama, em foto do início dos anos noventa. Acervo familiar de Márcio Okayama 

Tsukika Okayama foi componente do “Grupo Guanabara”, proeminente conglomerado criativo formado por artistas plásticos, japoneses que radicaram-se em São Paulo nos anos quarenta do século passado, e o nome em questão veio do fato que trabalhavam num atelier montado no Largo da Guanabara, onde hoje fica a estação Paraíso do metrô, na capital paulista. Tsukika foi portanto, componente ao lado de Tomie Ohtake; Manubu Mabe; Tikashi Fukushima e mais de trinta outros importantes artistas japoneses, além de numa segunda etapa da atuação desse grupo, ter sido aberto a artistas de outras nacionalidades, como os irmãos Ianelli; Oswald de Andrade Filho e muitos outros.


Veja abaixo, um Link com informações sobre o “Grupo Guanabara” :




No Link abaixo, informações mais específicas sobre a arte de Tsukika Okayama :




E finalmente, um link a retratar a atuação de artistas plásticos japoneses no Brasil, e claro, citando Tsukika Okayama



Márcio falou bastante sobre sua avó e também de sua atuação como músico, quando mostrou-me a sala onde ministra aulas particulares de guitarra, fora da escola onde atua e sobre seus esforços para montar um estúdio de gravação no andar superior do espaço. E aí foi quando percebi que era um músico de alto gabarito pelo que dizia-me, mostrando-se altamente antenado com a realidade do mercado e inerentes diversas cenas que o compõe. Fiquei muito impressionado quando mostrou-me obras de sua avó, que fazem parte do acervo permanente do "Espaço Cultural Hitsu 76" e quando deu-me seu cartão de visitas, foi que liguei então as referências que eu já tinha, com seu nome completo : Márcio Okayama, um guitarrista famoso no meio e da pesada, por sinal. Como professor, é muito bem preparado e atua numa famosa escola paulistana, com intensa projeção no meio didático musical brasileiro (IG &T). Daí a conversa ficou ainda mais descontraída, quando mencionamos amigos em comum (muitos, mesmo), lembranças e situações familiares para ambos no mundo da música etc.


O cartão de visitas de Rômulo Pedroso Pereira, contém a reprodução de uma de suas obras, que já foi premiada, inclusive, a retratar a Catedral da Sé, de São Paulo
 
Eis que o pessoal da banda Pictórica chegou ao espaço e pude confraternizar-me com o amigo Rômulo e dessa forma a reforçar o meu agradecimento pelas obras gráficas que ele ofertou-me, desta feita pessoalmente. Fui apresentado a dois de seus companheiros de banda e sua namorada, todos simpáticos ao extremo (Perceu Pezzota - bateria; Marcos Camargo - baixo & Silvana Alves). Além de seus instrumentos básicos para uma apresentação bem simples, em formato acústico, que pretendiam fazer, trouxeram muitas obras feitas por cada um, e que seriam não só expostas, mas objeto de discussão após a apresentação musical de sua banda.

Nesse ínterim, sentiam a falta de seu vocalista (Valter Lereno), que não viera junto com eles, mas em meio à espera pelo colega, a conversa fluiu de forma muito amistosa entre todos, incluso Márcio Okayama, que além de mostrar-se um anfitrião muito cortês, interagiu de forma incisiva com observações bastante pertinentes sobre todos os assuntos ali enfocados, mesmo porque, além de ser um grande músico, demonstrou ter uma cultura geral avantajada e logicamente pela sua formação pessoal, sendo neto de uma grande artista, opinou com propriedade sobre artes plásticas, igualmente.

Na primeira foto, eu, Luiz Domingues, ao lado do baixista do Pictórica, Marcos Camargo, que também é professor de educação física. Na segunda foto, pelo sentido horário ao fundo, o arquiteto Carlos Silva fazendo uso da palavra, tendo ao seu lado, a também arquiteta, Lívia Lee; Silvana Alves, namorada de Rômulo e Perceu Pezzotta, baterista do Pictórica, biólogo, professor e artista plástico. Na terceira foto : Rômulo Pedroso Pereira em pé, a explicar sua obra (uma visão espetacular de uma via do bairro oriental da Liberdade, em São Paulo, tendo Perceu Pezzotta sentado, próximo e a observar. Clicks e acervo de Márcio Okayama
 
Enquanto o vocalista não chegava, os rapazes do Pictórica e Okayama resolveram de comum acordo iniciar formalmente o debate, antes mesmo da apresentação e aí a conversa fluiu de forma magnífica. A explanação iniciou-se baseada nas obras que trouxeram, não foi só explicativa no sentido técnico, quando falou-se sobre materiais e técnicas usadas em sua elaboração, mas voou longe, quando passou-se a falar de esboços iniciais geométricos, e assim fez com que aspectos da arquitetura moderna e do urbanismo viessem à baila. Mais um pouco e chegou-se fácil ao tópico do ambientalismo, versando sobre sustentabilidade e gestão pública comprometida com a reciclagem. Claro que daí em diante a questão política também foi citada. Mais pelo lado subjetivo (e esotérico, também, visto que citou-se Valcapelli, um estudioso da cromoterapia), a discussão pendeu sobre a relação cor / nota musical e as vibrações inerentes por elas geradas que são complementares entre si. Chegou-se à poesia e o quanto a mensagem contida numa letra de música pode vibrar na mesma intensidade das cores e das notas, evidentemente também evocando o poder mântrico da palavra, fora a questão semiótica.

Mesmo durante a pausa para o café, a conversa não deixou de ser interessante nem por um momento, quando falou-se muito inclusive sobre paisagismo urbano e sustentabilidade, sob a ótica da reciclagem e botânica sustentável & inteligente. Foto 1, no sentido horário : Luiz Domingues ao fundo usando camisa verde; Lívia Lee e Márcio Okayama sentados; Perceu Pezzotta a discursar e encostado no móvel, o arquiteto, Carlos Silva. Click : Silvana Alves. Foto 2 : Luiz Domingues; a arquiteta, Lívia Lee a fazer uso da palavra, com Márcio Okayama ao seu lado e Perceu Pezzotta; Rômulo Pedrosa Pereira e Carlos Silva. Click : Silvana Alves. Foto 3, no sentido horário : Lívia Lee e Márcio Okayama sentados no sofá; Perceu Pezzotta e discursar e Marcos Camargo. Click : Silvana Alves. Fotos 1 a 3 : Acervo de Rômulo Pedroso Pereira
     
Nessa altura, a conversa estava tão interessante, que eu já não estava mais a considerar tudo mera coincidência. Parecia que uma confluência energética uniu-nos naquela tarde e naquele espaço, pela Lei da Atração ou força semelhante, que seja. Dois arquitetos, Carlos Silva e Lívia Lee), participaram e também opinaram com muita propriedade. Nessa altura, eu já estava imensamente feliz por ter tido a oportunidade em ouvir tanta gente culta; inteligente e bem articulada a emitir opiniões muito bem embasadas, contendo informação e opinião.
O CD "Naked Zen", do excelente guitarrista, Márcio Okayama, cujo conteúdo detalharei em outra ocasião específica. E na terceira foto, o trabalho de escultura de Perceu Pezzotta e Rômulo Pedroso Pereira a ilustrar o famoso "Mirante da Aclimação", dois presentes com alto valor artístico e que ganhei, gentilmente, nesse Sarau.

Nem precisava, já sentia-me amplamente recompensado pelo convite e participação, mas ainda tive mais duas gratas surpresas. Presenteado por Márcio Okayama, ganhei um CD de um trabalho solo seu, e dos rapazes do Pictórica, recebi uma obra assinada pelo seu baterista, Perceu Pezzotta, em parceria com Rômulo Pedroso Pereira (guitarrista). Peça criada a partir de materiais naturais e recicláveis, sem o uso de nada artificial, mostra como figura principal, um ícone do bairro da Aclimação, o seu famoso “mirante”, posicionado em frente ao Parque, homônimo. E ainda tive o poder da escolha, pois fora sugerido por Perceu Pezzotta que assim eu procedesse, visto que poderia ter escolhido qualquer outra obra, em meio a outras tantas peças ali expostas e todas a ilustrar monumentos importantes da pauliceia. Bem, qualquer peça daquelas teria sido muito bem escolhida e agradar-me-ia imensamente, mas raciocinei que o "Mirante da Aclimação" seria a escolha mais lógica, pelo fato de selar toda a minha questão afetiva com tal bairro, onde morei por 17 anos, além de reforçar o elo com essa tarde plena de surpresas agradáveis, conversa inteligente e muita camaradagem da parte de todos os presentes.

O programa contendo as letras das canções que o Pictórica executaria no Sarau. Uma pena, não ter ocorrido essa parte musical, mas pelo teor das letras, deu para sentir a expressividade poética do trabalho, inclusive tendo letra baseada em poesia de Raul Roviralta
 
Só um ponto negativo ocorreu, pois o vocalista do Pictórica, Valter Lereno, não conseguiu chegar ao “Espaço Cultural Hitsu 76”, por um impedimento de última hora e dessa forma, a apresentação não ocorreu. Tudo bem, ficou a certeza de que numa outra ocasião o Sarau será completo, com a apresentação, inclusa. Mas compensando sua ausência física forçada, suas obras como artista plástico foram exibidas e comentadas pelos seus companheiros, e impressionei-me pela sua beleza estética, totalmente baseadas em motivações da África negra, mesmo porque tal artista é fortemente identificado com Angola, naquele continente. 

Para conhecer o trabalho de Márcio Okayama, consulte o seu site :

http://mokayama.com/ 

Para conhecer o trabalho do Pictórica, procure sua página no Facebook :


https://www.facebook.com/pictoricarock/ 

Para conhecer o Projeto Ecobarro, de Perceu Pezzotta, procura a página do Facebook :

https://www.facebook.com/ECObarro/


Para conhecer o trabalho de Rômulo Pedroso Pereira, acesse seu Blog pessoal :

http://romuloartes.blogspot.com.br/

Confraternização final ! Foto 1 : da esquerda para a direita, Perceu Pezzotta; Luiz Domingues; Márcio Okayama; Rômulo Pedroso Pereira e Marcos Camargo. Click : Silvana Alves; Foto 2 : Rômulo Pedroso Pereira; Perceu Pezzotta; Luiz Domingues e Marcos Camargo. Click : Silvana Alves. Foto 3 : Rômulo Pedroso Pereira; Perceu Pezzotta; Luiz Domingues e Marcos Camargo. Click : Silvana Alves. Foto 4 : Perceu Pezzotta; Luiz Domingues; Silvana Alves e Rômulo Pedrosa Pereira. Click : Marcos Camargo. Fotos 1 a 4 : Acervo de Rômulo Pedrosa Pereira

Assim foi a minha agradável tarde no “Espaço Cultural Hitsu 76”, no bairro da Aclimação, de São Paulo, em 2 de dezembro de 2017.

domingo, 10 de dezembro de 2017

O Produtor Bom de Lobby, mas sem Noção - Por Luiz Domingues

Rory Barnes era um músico de alto padrão técnico, que crescera na sua carreira versado pelas mais altas influências no mundo do Rock. Todavia, uma reviravolta alimentada por um golpe publicitário, mudou completamente o panorama estético no gênero e sob ferrenha articulação perpetrada por marqueteiros e sua consequente formação de opinião, a inversão de valores fez com que a música sofisticada passasse a ser vilipendiada, e uma nova estética sob os auspícios de uma sub arte formatada pela absoluta grosseria, passasse a ser idolatrada por jornalistas ansiosos por eleger "hypes" e novos modismos, e da parte da grande massa, a postura bovina em ser manobrada passivamente, como sempre. Nessa circunstância, Rory tornou-se um artista subestimado por defender seus velhos ideais, agora tratados como algo desprezível e os ogros toscos da nova arte imposta, dominassem o mercado e a opinião pública, por conseguinte. 


O tempo passou e mesmo com muito menos chance de obter um apoio gerencial mínimo que fosse, uma porta abriu-se e a banda de Rory estaria a gravar um álbum produzido por uma gravadora de médio porte e com apoio de certos setores da mídia. O som dessa banda era bem distante do som que Rory realmente gostava, mas ali, já avançando por outra década, era o melhor cenário possível e Rory abraçou-o com entusiasmo. Contudo, o produtor de estúdio, contratado pela gravadora, era um desses sujeitos que eram reverenciados nos meandros do mundo musical, como um “gênio”, mas na realidade, tratava-se mesmo era de um tremendo lobbysta, que mediante lábia & carisma pessoal de vendedor de si mesmo, convenceu a muitos que era o melhor, uma espécie de "visionário" que farejava artistas com potencial de sucesso, mas evidentemente tendo como sustentáculo as regras da nova ordem (desordem, na verdade), a favorecer a si mesmo e a seus protegidos. Tirante o fato de que realmente seu poder de persuasão era forte, tal qual o de um “encantador de serpentes”, e somado ao fato de que a opinião formada estava ainda sob o paradigma de considerar luxo como lixo e vice-versa, suas produções lançando artistas toscos da estética do "Anti Rock" realmente faziam sucesso e quanto mais isso repetia-se, mais o poder do tal produtor, que chamava-se Ray Mears, crescesse ao ponto de ser irrefutável a sua condição como intocável na gravadora, e entre jornalistas que tratavam-no como a um grande produtor musical.


Só que nessas condições, sem conhecer adequadamente os princípios da gravação de áudio em estúdio e só lidando com seus amigos toscos que não sabiam tocar instrumentos musicais, realidade de quase todo artista que militava na seara do Anti Rock e seus derivados, sua inaptidão para a função não era notada pela maioria incauta, formada entre seus protegidos e quem assim o detectava, suportava esse estado de coisas graças ao status por ele adquirido e convenhamos, diante de seus triunfos com artistas sendo incensados pela mídia; público e tendo sua assinatura na produção de seus respectivos discos, tornara-se impossível questionar seus parcos recursos técnicos como produtor, de fato.



Então, chegara a hora da banda de Rory, chamada “Square”, gravar, e ali ele estava respeitosamente, a cumprir a orientação de Ray Mears, sem intenção alguma de criar empecilhos, mas apenas gravar o som de seu baixo, o melhor possível para o bem de sua banda. Mas na hora da gravação, o produtor num dado momento, cismou em adverti-lo, achando que o trastejamento do baixo Rickenbacker era por falha sua em termos de digitação. Rory era um sujeito extremamente calmo, acostumado a praticar meditação transcendental desde que George Harrison abrira-lhe o interesse em explorar a cultura indiana, e portanto, um rapaz fácil de lidar-se, sem propensão a explosões nervosas se contrariado, além de aberto a ouvir opiniões externas, desde que bem embasadas, é claro. Todavia, começou a irritar-se com as constantes interrupções perpetradas pelo produtor, a cobrar-lhe uma digitação melhor, pois em sua concepção ele estaria “trastejando” por deficiência técnica...

Ele começava a gravar, e a interrupção vinha em segundos, com aquele forte sotaque de Newcastle, dizendo-lhe ao fone de ouvido : -"você precisa pegar direito na casa, rapaz..."
 

Ray não ouvia, ou fingia que não ouvia, as explicações feitas por Rory, sobre o fato do baixo da marca Rickenbacker ter trastes baixos propositalmente, pois esse suposto trastejamento, contribuía na verdade para compor sua tradicional timbragem aguda. Ele cobrava-o como se Rory estivesse falhando, ou fosse tecnicamente um baixista ruim, e isso foi perturbando-o de forma contumaz. Como Rory não era dado a explosões temperamentais, na última vez que ele interrompeu-o para falar isso, Rory sugeriu que Ray fosse tomar um chá... e apenas mirou-o levantando-se furioso da mesa e saindo da sala técnica. Reservadamente, o técnico do estúdio, um rapaz chamado Ian, que estava operando a mesa de gravação, falou-lhe “em off”, que sabia que Rory estava certo, e a execução estava perfeita, pois ele era baixista, também, e sabia da característica do Rickenbacker. 


Ray Mears não era exatamente um produtor com conhecimentos técnicos de áudio, engenharia de som etc. Era na verdade um rapaz muito bem enturmado no jornalismo musical, circulava nos bastidores do show business, e entre os ditos formadores de opinião. "Cool", para usar uma gíria da época, tinha trânsito e respaldo, daí ter sido contratado como produtor. A verdade nua e crua, era que tecnicamente seu preparo era muito pequeno, pelo menos naquela época, e tomara que tantos anos depois, ele tenha crescido nesse quesito, após acumular muitas horas de estúdio com os artistas que produziu dali em diante. Rory não gabava-se, e quem conhecia-o pessoalmente sabia muito bem que não considerava-se um grande músico, e mesmo que o fosse, jamais forçaria tal barra pois não era do seu feitio agir dessa forma, mas para efeito de registro histórico, a instrução que o produtor em questão pedia-lhe insistentemente, não era cabível, e desnudava o seu despreparo à época. Ainda falando sobre esse problema que teve no estúdio, a possível explicação foi que o produtor quis "mostrar serviço", e certamente achou que seria uma boa oportunidade para mostrar-se incisivo, impondo-se como alguém que entendia de áudio e detectava minúcias que só técnicos tarimbados percebem num estúdio, mas com tal atitude atabalhoada, apenas demonstrou ignorância num fundamento técnico. Existem poucos produtores que dominam diversas áreas da música, e tem esse requinte em conhecer instrumentos e equipamentos a fundo. Conclusão : era normal que não soubesse desse detalhe, mas se não tivesse usado de prepotência, poderia ter escutado o Rory, que de fato conhecia essa matéria e em suas explicações fora bastante paciente e respeitoso com seu ignorante comandante. Se o altivo dublê de produtor tivesse confiado em suas ponderações, pois naquela altura, Rory já tinha muitos anos de experiência na música, com vários discos gravados, tudo teria sido mais fácil, pois para Rory, estúdio não era novidade na sua vida, naquela ocasião.

Naturalmente, ele confundiu-o com os músicos das bandas sofríveis da vertente do Anti-Rock, que tanto adorava, e com as quais costumava lidar, e com quem logicamente deparava-se com sérios problemas de execução aos instrumentos, nas torturantes sessões de gravação. Aliás, esses entusiastas das máximas do marqueteiro que inventou esse paradigma, adoravam gabar-se de sua decantada "atitude", mas quando tinham que gravar, e a palavra "recording" envolta em luz vermelha, acendia-se, eles “borravam-se” todos, ou convocavam músicos de verdade para gravar em seus lugares, ocultando tal informação a posteriori, mas Rory sabia muito bem que esse recurso era / é bem usado por essa turminha, vide o decantado álbum de um baluarte desse tosco gênero, cujo disco que muito sujeito por aí define como “Rock’n Roll,” ... na verdade foi gravado por músicos de estúdio, pois os rapazes dessa incensada banda não tinham condições de gravar... e Deus Salve a Rainha... pois é...