sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Ambulatório do Ninja - Por Marcelino Rodriguez

Naum nunca tinha passado pelo ambulatório para se aconselhar. Seria sua primeira vez. Já havia presenciado o quanto alunos abatidos saiam de lá parecendo adquirir superpoderes. O ninja apontou a cadeira vazia e pediu que Naum sentasse, enquanto pegava uma folha de caderno escrita.

-- Tá mal, né, Gafanhoto?

-- Como o senhor sabe, mestre?

-- Todo faixa preta tem um pouco de consciência cósmica. Vamos ao ambulatório.


-- Seu caso foi nocaute de mulher, certo, Gafanhoto ?

-- Certo, mestre.

-- Você quebrou. Precisa de terapia caseira – toma isso.

-- O que é, senhor?

-- Filmes. Aí tem uns dez pra você se trancar em casa. Comédia, terror, drama, suspense. Ai tem o último Tubarão. Quando você vê aquele bicho majestoso cortar as pernas de uma meia dúzia, teu testosterona vai subir. Ajuda na libido. Tem umas comédias idiotas para oxigenar os neurônios. Veja durante uns três dias e volta pro treino. Temos um campeonato a conquistar.

Naum foi para casa e durante três dias esqueceu do mundo, do governo, do Trump, do ditador da Coreia, da mulher. Ele nunca havia desconfiado do poder que é assistir ao último Tubarão. Ao fim dos três dias, tudo que pensava era em sexo. 

Marcelino Rodriguez é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor com vasta e consagrada obra, apresenta-nos aqui uma crônica leve a questionar a nossa sempre presente preocupação com a libido e as frustrações com as relações não correspondidas.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Crônicas da Autobio - Quase um Toque Glitter em 1983... - Por Luiz Domingues



Foto promocional da Chave do Sol, em maio de 1983. Click de Seiji Ogawa

Aconteceu no tempo da Chave do Sol, no primeiro semestre em 1983. 

Estávamos lutando com muito empenho, saindo do completo anonimato exercido para qualquer banda sem recursos dando seus primeiros passos na carreira e dentro desses limites ainda estreitos, tendo proporcionalmente um momento de expansão incrível. Isso porque, do primeiro show oficial da banda, em setembro de 1982, até esse ponto entre fevereiro e abril de 1983, havíamos passado de uma série de espetáculos em casas de menor expressão, para uma temporada num espaço de shows dos mais badalados da noite paulistana, com forte frequência de artistas; produtores musicais; gente do mundo fonográfico e do jornalismo cultural, fora a presença massiva da jovem burguesia da pauliceia. O grande “boom” da nossa banda ocorreria alguns meses depois quando as portas da TV revelaram-nos ao grande público, é bem verdade, mas esse “momentum” de fevereiro a abril de 1983, marcou-nos pelo primeiro pico de euforia ante os sinais de progresso iniciais que experimentávamos.

A Chave do Sol em temporada nas noitadas badaladas do Victoria Pub de São Paulo, entre fevereiro e abril e 1983

Todavia, ao mesmo tempo em que vivíamos tal euforia por estarmos nessa aura de expansão e glamour, tocando nessa casa de espetáculos com contrato fixo e interagindo com artistas que estavam ou estiveram no mainstream, tínhamos também o dissabor de ver nossa incrível vocalista estar tratando-nos com frieza, denotando distanciamento, emitindo sinais de que deixar-nos-ia, e de fato foi o que consumou-se logo que o contrato com a casa expirou. Sem nossa vocalista que era um achado pela sua inacreditável voz e beleza pessoal, e sem o contrato com a casa, tivemos um momento de incertezas e amargura, posso dizer, que foi breve (ainda bem), e quando fomos parar na TV, poucos meses depois, tudo mudou e tal perda ficara tão pequena que não cabia mais lamentos pela nossa "Tina Turner loira" ter ido embora, e as noitadas animando festas com atores da Rede Globo a dançar na pista embalados pelo nosso som, não repetirem-se mais. Mas nesse breve ínterim, quando vivemos uma curva descendente e angustiante, uma proposta de reformulação surgira, proveniente ainda daquelas tantas ofertas e abordagens que recebemos aos montes nos bastidores dessa casa e da parte de gente ligada em produção musical e que vira-nos em ação naquela badalação toda. Tirante os lunáticos (a maioria), que formularam propostas irreais e / ou bizarras, uma surgiu e que poderia ser uma solução imediata para suprir a falta de nossa ex-vocalista. Tratava-se de um artista que não sabíamos se tinha de fato dotes vocais acentuados, mas de antemão, era reconhecidamente um dançarino performático consagrado; ator e com potencial para a comédia também, pois posteriormente ficou relativamente famoso atuando em programas de humorismo da Rede Globo, compondo personagens ao lado de monstros dessa vertente, tais como Chico Anysio e Jô Soares.

Dançarino / performer / ator / comediante e ex-Dzi Croquettes, Paulo César Bacellar da Silva, nome artístico, "Paulette"

Segundo o rapaz que fez a sugestão, tal artista procurava uma banda de Rock com o nosso “pique”, para buscar um espaço no mundo da música e pelo fato de ser uma figura performática, seria uma combinação explosiva a junção de sua arte como dançarino e performer, com nosso som. Bem, o rapaz em questão chamava-se Paulo César Bacellar da Silva, conhecido pelo nome artístico de “Paulette”, simplesmente um dos “Dzi Croquettes”. Para os mais jovens, é bom explicar que “Dzi Croquettes”, foi um grupo de dança & teatro, formado no início dos anos setenta e que tinha uma forte identidade contracultural, isso é uma verdade, além de chocar a sociedade pela montagem de seus espetáculos fortemente erotizados e sob a bandeira do homossexualismo, ou seja, se hoje em dia tal postura não chega a escandalizar com o mesmo ímpeto, ali nos anos setenta, com ditadura militar pegando fogo (ou chumbo, como queiram), ao lado dos Secos & Molhados e Edy Star, a turma liderada pelo bailarino / cantor & coreógrafo, Lennie Dale, era o que havia de mais transgressor nesse sentido.

Capa do DVD do documentário premiado sobre a trajetória dos Dzi Croquettes, com um dos seus componentes em destaque, no caso, o/a próprio(a) Paulette

Nossa reação com a sugestão não foi com preconceito, de forma alguma, mas questionamos o que essa associação e direcionamento a ser adotado com um vocalista tão fortemente identificado com tal mote, poderia agregar ou até atrapalhar a nossa trajetória. Discutimos isso com ênfase no interno da nossa banda, logicamente. Analisando friamente, havia aspectos pró e contra acentuados nessa possível entrada de Paulette na nossa banda. Pelo lado bom, um artista tarimbado na dança e no teatro, absolutamente performático e “desbundado”, sob qualquer aspecto (fora ter seu prestígio pessoal muito maior do que a nossa banda reunia naquele instante), poderia ser um fator de expansão para nós. Portas poder-se-iam abrir na mídia; angariar simpatias imediatas, formação de opinião etc. Pelo lado negativo, pairava a dúvida, pois se Paulette era um artista experiente e consagrado pela sua atuação com os Dzi Croquettes, como “cantor”, era uma incógnita. 
Paulette em três momentos de sua carreira : na primeira foto com os Dzi Croquettes e tendo sua madrinha na foto, a superstar norte-americana, atriz e cantora, Liza Minelli a prestigiá-los (Paulette está na parte superior da foto, sendo o mais alto). Na segunda foto, Paulette com protagonismo na novela "Dancin' Days" da Rede Globo, em 1977, causando furor ao dançar com a personagem interpretada por Sonia Braga, e na terceira, já no avançar dos anos oitenta para os noventa, atuando nos programas humorísticos da Rede Globo

Sim os Dzi Croquettes cantavam em suas montagens teatrais. Os espetáculos eram essencialmente musicais pela obviedade da dança ser o mote maior dessa trupe, mas daí a ser vocalista de uma banda de Rock e ainda mais com os propósitos que regiam-nos, baseados na estética sessenta-setentista, requer-se-ia muito mais que alguém que cantasse afinado e dentro da pulsação / andamento, mas precisávamos de uma voz portentosa, em nível dos padrões que seguíamos em nossas influências.

Ícones do Glitter Rock britânico setentista, nas duas primeiras fotos (David Bowie & Spiders From Mars ao vivo, e Marc Bolan & T.Rex, também ao vivo, na segunda), e na mesma época, na terceira foto, artistas com a mesma proposta no Brasil, mostrando uma montagem com dois atores do Dzi Croquettes + Secos & Molhados + Edy Star
 
Outro aspecto, estávamos nos anos oitenta e não nos setenta. Se fosse em 1973, com a corrente do Glitter Rock britânico vivendo seu momento de ouro e com o reflexo tupiniquim expresso nos Secos & Molhados e com Edy Star, sobretudo, teria sido uma oportunidade de ouro, sem dúvida alguma. Mas no ambiente oitentista hostil, dominado pela arrogância blasé da estética Pós-Punk, não era a melhor estratégia a ser adotada. Se havia uma pequena seara simpática ao velho Glitter setentista, tal minúscula brecha residia no então em voga, “New Romantic", uma variante da "New Wave”, esta por sua vez, uma vertente mais amena do Pós Punk, menos robótica e presunçosa, com mais colorido e bom humor, pensemos assim, apesar da fragilidade musical gritante. Mas apesar disso, tal oportunidade era temerária pela sua menor força no mercado mainstream do emergente BR-Rock em questão, e sendo assim, creio que não valeria a pena o risco de ficarmos estigmatizados por um erro de estratégia, em caso de fracasso.

                  Os Dzi Croquettes em ação nos anos setenta

Mesmo assim, aceitamos conversar com Paulette e ouvir seus planos, é claro. Mas um fato novo ocorreu e não tivemos a chance de conviver com Paulette, pois a reunião foi desmarcada por ele mesmo, alegando impedimento momentâneo e posteriormente nunca mais tivemos notícias suas, a não ser vendo-o atuando nos programas humorísticos de TV que citei acima. Teria sido interessante ou não A Chave do Sol ter tido Paulette do Dzi Croquettes como seu vocalista ali naquele ínterim entre o nosso ponto inicial de anonimato total e o começo da proeminência através de nossas aparições no programa “A Fábrica do Som”, da TV Cultura de São Paulo ? Certamente teria sido um caminho muito diferente, tirando-nos daquela imagem que forjamos ao grande público, atuando como trio, fazendo uma espécie de Jazz-Rock setentista e anacrônico aos tempos oitentistas, certamente.


Bem, tenho um enorme respeito pelo trabalho dos Dzi Croquettes, e diante disso, só pela cogitação, já foi honrosa ter tal hipótese de um artista com essa bagagem pessoal em nosso caminho. Paulette faleceu em 1993, infelizmente. Encerrando, esta é uma passagem obscura da história da Chave do Sol, que tenho certeza, nenhum fã da banda nunca imaginou ter existido, até ter lido esta crônica...
 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Autobiografia na Música / Atualizações - Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Capítulo 41 - Por Luiz Domingues

Conforme especifiquei anteriormente, a situação da nossa formação do Nudes ficara numa espécie de suspensão "sine die". Na verdade, o panorama que desenhou-se a nossa frente, foi mais de suspeição do que suspensão, quando notamos, vendo o desenrolar dos fatos via redes sociais da Internet, que o Ciro estava a todo vapor empreendendo todos os seus esforços em prol da criação de sua nova banda, denominada, "Flying Chair". Falo isso no bom sentido, certamente, pois nem eu, tampouco meus colegas, Kim e Carlinhos, nem por um segundo sequer sentimo-nos preteridos, desprestigiados ou tendo qualquer tipo de ressentimento, mesmo porque se houvesse-o, seria descabido. Isso porque o Ciro não recrutou novos músicos para formatar o Nudes à nossa revelia, mas simplesmente optou por formar uma banda em paralelo, com outra sonoridade e outro nome, portanto, nós que éramos Os Kurandeiros e tínhamos a nossa própria banda em paralelo igualmente, jamais poderíamos reclamar de tal predisposição semelhante, adotada por ele. Mesmo porque, os próprios Kurandeiros desdobraram-se em "Magnólia Blues Band" por mais de dois anos, e além disso, nossa banda fora grupo de apoio para artistas como Edy Star e Big Chico, além de ter a identidade secreta de "Os Koveiros" e o próprio Nudes, portanto, ver o Ciro montando o Flying Chair tornou-se algo muito natural para a nossa percepção e indo além, gostávamos / gostamos dos guitarristas Chico Marques e Claudio "Moco" Costa, com os quais interagimos algumas vezes (com o "Moco", muitas vezes ele fora nosso convidado da Magnólia Blues Band e dos próprios Kurandeiros, por ocasião do Projeto "Sunday Blues", realizado no "Templo Club" no início de 2016).

Ótimos guitarristas e gente boa, eram componentes da banda Pop Rock, "8080", cujo primeiro álbum eu tive o prazer de resenhar no meu Blog 1. Veja a resenha, através do Link abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/search?q=8080

Em suma, estávamos a par de toda a movimentação de Ciro; Chico & Claudio e a comunicação do Ciro via E-mail nesse ínterim, dizia do Nudes entrar em descanso temporário etc e tal, conforme já expliquei em capítulo anterior, inclusive. Mas o tempo foi passando, e a cada dia, o entusiasmo do Ciro com seu novo projeto, fez-nos enxergar que sua energia estava 100% baseada nesse novo projeto e mesmo que houvesse intenção de fazer algum show específico do "Nudes", como por exemplo um contratante aparecendo com a proposta de uma boa produção mediante cachet robusto etc e tal, dificilmente o Ciro, empolgado com sua nova banda, pensaria em recrutar-nos para tal tarefa e o mais lógico seria usar sua nova banda, entrosado e empolgado que estava com seus novos companheiros de trabalho.


Portanto, está patente que a nossa formação do "Nudes" está encerrada e cabe-me fazer agora o balanço final dessa etapa pessoal da minha carreira e os agradecimentos finais, como de praxe no meu texto autobiográfico, conforme assim procedi em relação à todas as bandas por onde atuei no passado.

Retroagindo ao ano de 2011, quando recebi o telefonema do guitarrista Kim Kehl, num dia qualquer de julho daquele ano, sua proposta tinha dupla intenção. Ele convidou-me a integrar sua banda, Os Kurandeiros, e ao mesmo tempo ofereceu-me vaga na banda de apoio de Ciro Pessoa, denominada, "Nu Descendo a Escada", ou "Nudes" como carinhosamente a chamamos, e na qual ele estava recém ingresso, numa reformulação total do time que acompanhava-o. Claro que aceitei a dupla jornada, de imediato, mas não sem elucubrar muitas dúvidas a respeito do trabalho do Nudes, baseando-me na carreira pregressa do Ciro, com sua atuação em trabalhos fortemente mergulhados no mundo do Pós Punk da década de oitenta, portanto, antevendo um possível conflito motivado por interesses antagônicos, preocupou-me.


O Pink Floyd em foto entre 1966 e 1967, aproximadamente
 
Todavia, assim que o conheci, de sua fala, ouvi a expressão : -"o futuro é Pink Floyd", e dessa forma, demoliu-se por inteiro qualquer tipo de receio que eu pudesse ter sobre a nossa convivência, ideias & ideais na música; apreço à contracultura & afins e a visão macro da história do Rock, com aberta simpatia à psicodelia sessentista clássica. Em síntese, senti-me inteiramente a vontade para integrar-me nesse trabalho e mais que isso, apreciar muito fazer parte dele e dar minha contribuição, grande admirador da estética sessentista em geral que sou, e mais detidamente ao universo do Rock psicodélico daquela década.

Foto do primeiro show do Nudes na formação em que fiz parte. 9 de dezembro de 2011. Click de Lara Pap

E assim foi, realizando os primeiros ensaios, com Kim e os músicos Paulo Pires (bateria); Caleb Luporini (teclados) e a bela e competente vocalista, Luciana Andrade. Vieram os primeiros shows, sob condições modestas de produção, mas relevei, pois o trabalho era tão interessante e a companhia dessa turma tão boa, que nunca incomodei-me com esse início "franciscano". Mas ao mesmo tempo, causava-me espanto como um membro egresso do mundo Pós Punk que sempre teve o apoio da "intelligentzia" e o beneplácito da mídia mainstream, não tivesse caminho aberto para produções maiores e com direito a agenda sustentável. No entanto, logo fui percebendo que Ciro também sofria com barreiras intransponíveis, assim como todo artista que sempre militou na contramão da formação de opinião, meu caso e do Kim, igualmente. Nesse aspecto, Ciro, apesar de ser um ex-"Titãs" e um ex-"Cabine C", fora ter sido parceiro de gente incensada como Edgard Scandurra e Julio Barroso, por exemplo, na verdade estava no limbo da carreira tanto quanto nós que nunca tivemos tais oportunidades. Uma pena, mas essa era a realidade e não o que imaginei no início, com o autor de "Sonífera Ilha" fazendo shows sob agenda lotada e abertura numa mídia, senão a mainstream, pois os tempos eram outros, ao menos num padrão intermediário entre  isso e o mundo abissal da obscuridade underground.

Nesses termos, um novo show só foi ocorrer oito meses depois numa cidade paulista interiorana, já em agosto de 2012, e foi muito interessante conforme o descrevi com detalhes em capítulo anterior. Com direito a trem de carga passando durante o show e fazendo a banda flutuar em alguns instantes, trata-se de uma lembrança das mais queridas. E foi a última vez que essa formação contou com Paulo Pires e Caleb Luporini e já o fizemos sem Luciana Andrade, portanto, muitas modificações ocorreram.


Uma lástima, daí em diante seguiu-se um longo período de inatividade só quebrado em 2014, quando dois shows muito estimulantes foram realizados, um no interior e outro na capital e aí sim, ambos em teatros, com uma infraestrutura mais condizente com a psicodelia proposta. Carlinhos Machado entrou na banda e então o Nudes definitivamente tornou-se mais um braço dos Kurandeiros. E Isabela Johansen também ingressou. Casada com Ciro na ocasião, era na verdade uma boa cantora; guitarrista e compositora, portanto, a despeito da relação conjugal com Ciro, Isabela foi uma artista que agregou valor para a banda.

Apesar desses ótimos shows realizados com essa nova formação, e maior interatividade, pois eu; Kim e Carlinhos contribuímos com ideias de novas canções para o trabalho. O show sofisticou-se ainda mais, com a inserção de mais textos surrealistas, baseados no livro que Ciro preparava para lançar e isso animou-nos ainda mais.

Mas as oportunidades rapidamente escassearam e mais um período de limbo sobreveio. Muito desse hiato foi por conta do furor político que cresceu ao longo do ano de 2015 e nessa circunstância, Ciro havia empolgado-se com a militância política via "hang outs" de internet e aliado a artistas como Lobão e Roger Moreira, mergulhou com ênfase nessas ações e assim, o trabalho prejudicou-se bastante. Tirante um show motivado exatamente por essa militância política anti-PT e pró-derrubada do governo Dilma Rousseff, da qual participamos fazendo uma aparição de choque apenas, uma nova ação só foi aparecer no mês de outubro, quando o Ciro propôs um show na noite de autógrafos de seu livro.

Noite de autógrafos e show dos Nudes, no Café Delirium de São Paulo. Na foto, momento pré show e durante a sessão de autógrafos da obra "Relatos da Existência Caótica", seu autor, Ciro Pessoa e Luiz Domingues em foto de Lara Pap. 23 de outubro de 2015.
 
Foi muito agradável e honroso para nós, e chegamos a tocar músicas novas compostas especialmente para a ocasião, baseadas em textos do próprio livro. Mas infelizmente, apesar da noite profícua, pouco tempo depois, a vocalista Isabela Johansen deixou a banda e desfalcou-nos doravante. Um novo show foi marcado logo a seguir, no mesmo espaço, uma casa noturna de São Paulo, e na formação de um quarteto, o Nudes com minha presença, além de Kim e Carlinhos, apresentou-se pela derradeira vez, no início de 2016. Logo a seguir, Ciro começou a empreender esforços em prol de sua nova banda e o Nudes ficou engavetado. Portanto, neste momento que escrevo este trecho e encerro a minha história nesse trabalho, não vejo mais possibilidade de mudança de tal panorama, mas como a vida é mutável e / ou volátil, se houver uma continuidade, nada impede-me de abrir novo capítulo e relatar tal continuidade, ou sobrevida, como queira o leitor.

Agora, vou agradecer aos personagens que gravitaram em torno do Nudes, nesse período do qual fui componente, entre 2011 e 2017 :

1) Kico Stone 

O grande Kico Stone (usando óculos), na foto acima, em companhia do guitarrista superb, Tony Babalu. Acervo e cortesia de Tony Babalu. Click : Karen Holtz
 
Agitador cultural, ator; grande conhecedor da história do Rock e um film-maker de primeira linha, Kico acompanhou os shows desde o início de minha entrada na banda, sempre prestigiando-os e filmando-os. Sou-lhe grato por esse apoio e pela amizade expressa nesse e em outros trabalhos onde estive e estou, onde sempre conto com sua companhia, conversa inteligente, amizade e filmagens de categoria. Sempre brinco com ele, chamo-o de "D.A. Pennebacker" da pauliceia.

2) Gustavo Johansen

      Gustavo Johansen, irmão da vocalista, Isabela Johansen

Irmão de Isabela Johansen, sou-lhe grato pela filmagem do show no Teatro Parlapatões de São Paulo, em 2014

3) Lara Pap

                        Produtora dos Kurandeiros, Lara Pap

Produtora dos Kurandeiros, emprestou um pouco de sua força de trabalho para o Nudes e claro que seus esforços foram muito providenciais e bem vindos. Agradeço-lhe por ter ajudado-nos tanto.

Hora de falar dos membros da primeira formação do Nudes, onde fiz parte :

1) Paulo Pires

Nessa foto promocional da banda "Lavoura", Paulo Pires é o rapaz na parte de baixo, à esquerda e Caleb Luporini está ao seu lado, com cabelos mais longos
 
Baterista da formação assim que ingressei no trabalho, Paulo era (é) um bom baterista, muito firme e sério na maior parte do tempo. Somente no terceiro show que fizemos juntos, pudemos enfim conhecermo-nos melhor e aí eu verifiquei que ele era / é um grande conhecedor de música em geral e Rock em específico, além de colecionador de discos. Nosso convívio foi pequeno, em apenas três shows, apesar desses eventos terem espalhado-se por muitos meses entre uns e outros. Sujeito bacana e bom músico, fiquei com boa impressão a seu respeito. Tempos depois vi notícias suas com outro trabalho, uma banda com ares experimentais, quiçá, "industriais", chamada "Lavoura". Torço para que esteja bem e feliz em seus projetos.

2) Caleb Luporini

             O tecladista / baixista e compositor, Caleb Luporini

Simpatizei com sua pessoa desde o primeiro ensaio que realizamos juntos em 2011 e de fato, Caleb mostrava-se super simpático, expressivo e gente boa. Bom tecladista, disse-me ser baixista, também e demonstrava pela conversa, ter boas influências musicais do passado, embora claramente fosse um músico ligado também em sonoridades modernas de cunho "indie", experimentalismos etc. Também componente do "Lavoura", vejo seu nome sempre citado em eventos de música eletrônica e demais modernidades etc e tal. Sempre torcendo por ele, gente boa que é, para ser bem sucedido e feliz.

3) Luciana Andrade

A cantora / instrumentista e compositora, Luciana Andrade. Foto : Leonardo Pereira
 
Eu tenho a tendência em simpatizar de imediato com pessoas que mesmo adquirindo proeminência na sociedade, seja lá por qual motivação, mantêm-se humildes, sem que o sucesso altere seu comportamento social e sobretudo, pessoal. É o caso de Luciana Andrade, uma artista que fez sucesso mega popular através da banda "Rouge", frequentando o mundo das celebridades da esfera da TV aberta, revistas de fofocas & afins, mas não mudou seu comportamento diante dessa fama e não só isso, mostrando amor a arte, estava conosco imbuída de cantar as canções surrealistas do Ciro, com o mesmo empenho que teria em cantar seus hits radiofônicos no programa da Hebe Camargo. Dona de uma linda voz e que coloria sobremaneira o som do Nudes, além disso era / é muito afinada, tem talento de sobra e é uma mulher muito bonita, portanto sem soar piegas, Lu canta e encanta. Assim que saiu do Nudes, logo no começo de 2012, colocou seus esforços em prol de uma carreira solo que teve um começo promissor, muito embalada pela sua fama popular pregressa, portanto eu a vi em muitas ocasiões em programas de TV aberta e afins, o que naturalmente tinha que aproveitar ao máximo, vide o caráter efêmero com as quais, essas oportunidades surgem e desaparecem. Falei com ela muitas vezes pelas Redes Sociais e sua simpatia é muito grande. Torço para que faça muito sucesso e seja feliz !

Hora de falar dos membros da formação mais recente :


1) Isabela Johansen

       Isabela Johansen, cantora / instrumentista e compositora
 
Com uma juventude a flor da pele, Isabela trouxe muita vitalidade à banda, com sua verve Rock'n Roll acentuada. Guitarrista e vocalista de bandas "Indie", num passado próximo, Isabela revelou-se uma boa cantora e com performance bastante interessante no palco, mostrando desenvoltura, poder de improviso, uma boa dose de loucura e muito carisma. Jovem, muito bonita e vivaz, claro que chamava bastante a atenção nos shows, mas Isabela era mais que um rostinho bonito, pois mostrou-nos ser boa cantora; instrumentista e compositora. Infelizmente, o desgaste de seu casamento com Ciro, respingou na banda, pois tornou-se impossível a sua permanência no trabalho, após a separação do casal. Atualmente, Isabela integra uma banda de Rock chamada "Taberna Escandinava" que tem feito uma boa escalada inicial de carreira, apesar de militar no mundo underground. Torço pelo sucesso dela, sempre. 

2) Carlinhos Machado

Baterista de curriculum gigantesco, Carlinhos Machado somou mais um trabalho à sua enorme lista, tendo tocado no Nudes, também

Não há muito o que acrescentar sobre Carlinhos Machado, visto que estamos trabalhando juntos desde 2011 nos Kurandeiros, e ele esteve junto nos demais desdobramentos que essa banda teve / tem, incluso o Nudes. Portanto, só posso dizer que é um amigo de longa data, leal colega que muito ajudou-me em muitas circunstâncias, grande companheiro de conversas; lembranças & "causos" e um ótimo baterista, com o qual entrosei-me inteiramente, e é sempre bom saber que terei suas baquetas a favor de meu baixo a cada show.

3) Kim Kehl

Kim Kehl, guitarrista de muitas bandas e histórias acumuladas, a serviço dos Nudes, na foto acima
 
O mesmo raciocínio em relação ao Carlinhos, eu e Kim Kehl interagimos em muitos desdobramentos dos Kurandeiros, igualmente no caso do Nudes. Sou-lhe grato por ter telefonado-me num dia de julho de 2011, fazendo-me proposta dupla de trabalho, sendo um dos empreendimentos, o Nudes de Ciro Pessoa. Sou-lhe grato também pelo companheirismo dentro do Nudes e sua capacidade como guitarrista, trazendo formulações harmônicas e coloridos melódicos para esse trabalho, honrando as tradições da psicodelia sessentista. Tais momentos deram-me o prazer de atuar ao vivo dentro de uma vertente do Rock que aprecio sobremaneira, portanto, apesar da escassez de oportunidades para essa banda, infelizmente, nas poucas vezes em que atuamos nos palcos, a psicodelia fez-se presente com galhardia. Estamos trabalhando juntos nos Kurandeiros normalmente e assim espero, por muito tempo.

4) Ciro Pessoa

Cantor / instrumentista / compositor e poeta / escritor, Ciro Pessoa, um baluarte do surrealismo / psicodelia, no Brasil
 
O protagonista mor desse trabalho, Ciro Pessoa surpreendeu-me positivamente, quando enfim conhecemo-nos na gelada noite de 24 de agosto de 2011, e ao proferir uma frase de efeito, cativou-me em torno de seus reais propósitos para com esse trabalho : "o futuro é Pink Floyd". Para quem enxerga a verdade expressa numa frase que para todos os efeitos revela o retrocesso, se interpretada cartesianamente, eis aí o porto seguro que tranquilizou-me a interagir artisticamente com um artista que eu pensava ter ideais antagônicos aos meus. Ciro tem grande capacidade criativa, é performático ao extremo e exerce tal loucura no palco, sem parcimônia. Com ele em cena, tudo é possível e eu adorava ter tal elemento ao meu lado como trunfo do trabalho. Sentia-me numa banda psicodélica tocando no auditório Fillmore West em pleno 1967, com a loucura dominando todas as ações. Como já explanei amplamente, Ciro mostra-se empolgado e empenhado com seu novo trabalho através da banda "Flying Chair". Espero que seja muito feliz nessa nova empreitada e atesto que a banda tem alta qualidade, visto que já resenhei seu álbum de estreia em meu Blog 1. Veja abaixo, o Link para saber de tal impressão que tive desse trabalho :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2017/08/flying-chair-1-album-por-luiz-domingues.html


             Luiz Domingues em ação com o Nudes, em 2014

Encerrando, agradeço ao Ciro Pessoa a oportunidade de tocar ao seu lado, exercendo a psicodelia, que é uma das vertentes que mais aprecio no Rock sessentista, e se tive lampejos dessa escola em alguns trabalhos pregressos que realizei, com outras bandas onde fui componente (bem sutilmente no "Pitbulls on Crack" e mais incisivamente no "Sidharta" e na "Patrulha do Espaço"), creio que no Nudes, pude exercer isso mais substancial e integralmente.

Está encerrada portanto a minha história com o "Nudes" (Nu Descendo a Escada), banda de apoio do cantor/ compositor e poeta, Ciro Pessoa.

Daqui em diante, as atualizações seguem com minha banda atual, Kim Kehl & Os Kurandeiros e sazonais novidades com trabalhos avulsos e /ou reencontros com bandas do passado e / ou campo aberto para trabalhos novos que possam surgir.

Grato por ler a história dessa etapa da minha carreira !

Até logo...