quarta-feira, 22 de junho de 2022

Sonho ou Realidade? - Por Luiz Domingues

Quando a consciência ainda não está formada, é praticamente impossível para o pequenino bebê distinguir a diferença das imagens geradas pela experiência onírica de um sonho, da realidade do seu próprio cotidiano que é igualmente difuso por uma questão natural e intrínseca.

Mas quem pode afirmar que não exista uma possibilidade, remota que seja, de haver um lampejo de percepção? Nesse aspecto, é certeza que a ciência trabalhe para buscar tal resposta, porém, enquanto não chega a uma conclusão definitiva, ficamos com o campo aberto para especular e supor que sim, pode ser possível.

Então, eis que a imagem surge na mente do pequeno. Para ele, não é diferente do que já está a se habituar a ver, com aquele humano caloroso que sempre lhe atende tão bem e do qual ele não entende a questão do parentesco, logicamente, mas por uma questão de meses, vai chegar nessa conclusão óbvia de que se trata da sua mãe.

Dessa forma, ao ver a imagem daquela pessoa, o instinto o faz se sentir seguro, pela associação mais primitiva de sobrevivência que o Ser humano pode experimentar ainda em um estágio no qual ele vive uma fase de plena confusão mental.

E sempre que aquele rosto enorme se aproxima a sorrir e a pronunciar sons que soam confortáveis para ele, a sensação é muito agradável a estimular os cinco sentidos de uma maneira completa. Ele gosta do contato físico, do calor que o corpo gigante proporciona, das cores, formas e odor daquele rosto enorme. 

E claro, sempre associa tal presença com coisas boas que advém da sua aproximação. Sempre que chega perto, a fome e a sede são sanadas, a dor decorrente das cólicas pode demorar um pouco, mas passa, o incômodo gerado pelos odores fétidos que o seu próprio corpo produz, são eliminados e odores bons surgem. E tudo isso é relacionado ao gigante humano que sorri, pronuncia palavras incompreensíveis e emite ruídos entoados, a cantar e o bebê não entende, mas intui ser agradável. 

Mas eis que um dia o bebê vê o Ser gigante de costas e quando se vira para ele, o seu rosto não existe. É muito confusa essa visão de um rosto que não possui feições, não tem olhos, nariz, boca, sobrancelhas, e a face é completamente uniforme, imutável, ou seja, logo aquela formação com a qual ele se acostumara desde os seus primeiros dias e com a qual se identificava tanto a lhe dar a sensação de prazer e segurança.

Logo a seguir, tudo volta ao normal. A mãe se aproxima, fala com ele, brinca, canta e o pega no colo. Limpa a sua sujeira, coloca roupas cheirosas e dá o alimento tão saboroso em sua boca. O pequeno nem se lembra que a vira sem rosto e isso se torna algo facilmente esquecível por ele que ainda nem distingue a noite do dia e por conseguinte, não percebe que as horas de sono passam e quando acorda a vida prossegue e vice-versa.

No entanto, mesmo não tendo esse conhecimento ainda, eis que alguns dias depois ele passa pela mesma situação. Aquela humana dedicada está perto dele, mas quando mostra a sua face, ela simplesmente não possui as feições faciais.

Seria um filme de ficção científica a mostrar uma espécie de humanoide de outro planeta que tem tal característica anatômica? Um filme de terror a denotar uma figura fantasmagórica? Nada disso, ele percebe ser a sua mãe, mas de uma forma inexplicável, ela parece assustadora e ele chora.

Ele então é acordado justamente por sua mãe que o conforta e desta feita, a normalidade se faz presente, com a feição normal da sua progenitora, intacta.

Alguns dias depois, e a mesma imagem perturbadora aparece e na verdade, essa sensação desagradável o acompanhará por algum tempo, até que no futuro ele saberá se tratar de um sonho.

Sim, foi algo que se tornou recorrente e só parou de acontecer quando ele já estava maior, com a fala e o raciocínio já formados, porém, dentro da mais completa imaturidade infantil ainda, ou seja,  o que o impediria de entender o motivo de ter tido tais sonhos desde a tenra infância.

Seria um disparo mental de pavor por um motivo desconhecido e a revelar não ter a mãe por perto em algum momento? Ele sabia se tratar dela, mesmo quando nem conseguia compreender, mas sentia isso claramente.

Como um bebê sem a mínima condição de estabelecer tal conexão poderia chegar à tal conclusão? Impossível a grosso modo, mas então, por que o bebê teria um sonho recorrente nesses termos?

Bem, tais respostas um dia teremos, confiemos em nossos pesquisadores. Por enquanto, fiquemos com essa reflexão sobre algo que todos passamos e que parece algo misterioso: nessa primeiríssima fase da vida, a realidade e o campo onírico são praticamente iguais ao pequeno Ser.

sábado, 18 de junho de 2022

Crônicas da Autobiografia - Zé do Caixão do Rock - Por Luiz Domingues

        Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol, entre 1982 e 1983

Quando A Chave do Sol iniciou as suas atividades, por volta de meados de julho de 1982 (consideramos a data de 25 de setembro como da fundação oficial por ter sido o dia do primeiro show, mas na verdade, os primeiros esforços para montar a banda se iniciaram na segunda quinzena de julho), foi um tempo também difícil na minha vida particular, pois na prática, a minha banda cover que me provia renda, o “Terra no Asfalto”, já havia encerrado atividades, os trabalhos avulsos que eu fizera até então também estavam a rarear e a própria, A Chave do Sol, somente sinalizaria começar a render dividendos em termos de cachês, algum tempo depois e de fato isso veio a ocorrer em dezembro desse mesmo ano, porém, a se refletir de uma forma módica, condizente com a dura labuta de se construir uma banda de Rock autoral e sem nenhum esquema empresarial por trás, ou seja, demorou para eu poder ter uma folga no meu apertado cinto financeiro.

Como consequência desse momento de penúria financeira, eis que precisava me deslocar constantemente a fazer uso do transporte público. Isso nunca me incomodou e pelo contrário, mesmo quando eu pude comprar um carro particular, sempre gostei mais de usar o serviço do metrô do que dirigir e ainda penso assim.

No entanto, por ter que carregar o meu instrumento para os compromissos e a se tratar de um instrumento importado em um tempo no qual a importação estava proibida no Brasil e daí ser muito mais caro do que o normal, e também por ser o meu único instrumento na ocasião, é claro que me preocupava muito em carrega-lo pelas ruas, a correr o risco permanente de ser assaltado e ficar doravante sem meios para trabalhar, pois é evidente que se tratava da minha ferramenta primordial e pior, única na ocasião.

Mas não foi apenas o medo que me atormentara nesses tempos mais difíceis. O fato de eu não possuir na época um “bag” ao estilo de uma mochila para se carregar o instrumento nas costas, me obrigava a usar o “case” (estojo), clássico original da Fender, ou seja, a se tratar de um caixote retangular, pesado, difícil de se carregar pela mobilidade e aerodinâmica do artefato em si.

Isso por que se carregado pela alça, como se fosse uma maleta, por conta de ser retangular e enorme, gerava o desconforto de provocar o desequilíbrio constante ao seu condutor. Se fosse carregado em pequenas distâncias, tudo bem, mas para se caminhar na rua, a desviar de pessoas, atravessar ruas e avenidas e a conduzi-lo para o metrô ou ônibus, e ter que passar por catracas, era extremamente dificultada a sua operação de manuseio.

E um dado a mais: chamava em demasia a atenção. Em um ambiente musical, tudo bem, os colegas olhavam e sabiam se tratar de um estojo clássico para um baixo Fender, contudo, pelas ruas e a passar por leigos nesse universo, aquele enorme objeto gerava uma profunda estranheza. 

Eu já estava acostumado a chamar a atenção negativamente no âmbito social desde os anos setenta por conta da minha aparência ao estilo Rocker/Hippie sessenta-setentista, pelas vestimentas e sobretudo pelo uso de uma cabeleira longa, mas ali na ambientação de início da década de oitenta, além da habitual estranheza gerada entre diversas pessoas sem nenhuma afinidade com as tradições do Rock, eu passei também a enfrentar a animosidade das tribos oitentistas hostis a esse tradicionalismo, sedentas pelas provocações, escárnio e até ameaça de agressão da parte dos intolerantes que passaram a odiar e perseguir os hippies setentistas que haviam sobrado pelas ruas. E assim, foram muitas as histórias desagradáveis, algumas inclusive já narradas em outras crônicas já publicadas.

Mas nesta crônica eu quero contar a história curiosa de um balconista de um bar que ficava localizado bem perto da esquina da rua Tuiuti com a Avenida Celso Garcia, no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. 

Eu precisava passar por ali todo dia para me dirigir à estação do metrô mais próxima da minha residência, três quarteirões adiante e muitas vezes a carregar o pesado “case” do baixo Fender, e ante tal rotina, o sujeito quando me via, sempre demonstrava no semblante que achava a minha persona como alguém absolutamente anormal para os seus padrões de entendimento cultural.

Até aí, tudo bem, eu não me surpreendia com tal tipo de reação e pela sua feição, já antevi desde a primeira vez que seria uma questão de tempo para o sujeito ir além da expressão facial de espanto e não satisfeito, partir para algum tipo de gracejo verbal e certamente para um tipo de pessoa como ele, sem muito recurso educacional e cultural, seria certamente algum tipo de escárnio bem típico com conotação sexual ao associar o comprimento do meu cabelo à feminilidade não coadunada com a minha condição masculina, bem ao estilo do humor grotesco dos programas popularescos da TV, algo como: “-olha a cabeleira do Zezé, será que ele é?” Ou outra colocação desse baixo nível.

Mas eis que um dia eu passei pela porta daquele bar bem encardido de quinta categoria e foi então que o sujeito criou coragem e gritou: -“olha o Zé do Caixão!”   

Por esse tipo de gracejo eu realmente não esperava, mas claro que entendi de imediato que o sujeito associara o meu estojo de instrumento a um caixão de defunto e certamente que o meu visual, por conseguinte, o remetera à figura do personagem: “Zé do Caixão”, imortalizado pelo genial diretor de cinema e ator, José Mojica Marins.

E assim se sucedeu, pelo menos entre 1982 e 1983, que eu passei por ali a caminho do metrô, diariamente para ensaiar ou cumprir compromissos com A Chave do Sol.

Nem sempre eu estive com o “case” em mãos, é bem verdade, pois quando a banda passou a contar com um local fixo de ensaios, montado em um quarto na edícula da residência da família Gióia, o meu instrumento mais permaneceu guardado em nossa sala de ensaios permanente. 

Entretanto, ainda assim, pela força de diferentes circunstâncias, muitas vezes eu tive que levá-lo para a minha casa e reconduzi-lo ao ensaio a posteriori, e assim, se tornou uma rotina passar na porta desse malfadado bar e o balconista galhofeiro falar em voz alta aos seus clientes que o “Zé do Caixão acabara de passar pela calçada”.

Por volta de 1984, isso não ocorreu mais, pois o rapaz já não trabalhava mais ali, provavelmente e nunca mais eu me aborreci, embora possa afirmar que isso jamais me incomodou sobremaneira ao ponto de eu considerar como uma ofensa que me obrigasse a reagir para tomar uma posição de repúdio. Apenas achava desagradável a insistência na piada e ao mesmo tempo, a considerar triste a ocorrência, por denotar um sinal de ignorância alheia.

Ou então, se eu levasse a brincadeira ao pé da letra, eu deveria ter rogado uma praga para o infeliz e por meio dessa feitiçaria, ele morreria e alguém encarnaria no seu cadáver na mesma noite, bem ao gosto do verdadeiro Zé do Caixão.

sábado, 11 de junho de 2022

Patrimônio - Por Telma Jábali Barretto

Onde residem, moram, repousam os nossos patrimônios? Nos cartórios? Bancos? Lugares? Saberes? Experiências? Pessoas ou bens materiais que sim!!!... soubemos e devemos saber valorizar conquistas feitas. São parte de nossos acervos e guardam a trajetória, curriculum de alma (aqueles que pensamos ser verdadeira e humanamente os de maior importância!!!)... 

E, como e a partir de quem ou quais valores seguem nosso fluxo investidor? Importante, de nosso olhar daqui ao menos, que filtremos, refinemos sutilizando percepções para ver, ouvir e sentir sinalizações do mais íntimo de nós, clamores da alma buscadores da satisfação daquilo de nós melhor de nós. Desafiam, instigam e quase sempre quebram aquilo que, muitas vezes, costumam ser o normatizar ou acomodar normose... pois, assim, parece ser noção corrente dessa espécie de forma de entender o que produza essa segurança, sentimento de algo firme e sólido... enraizando?!...?!... Se sim? 

Essa é ou seria a resposta, porque, então, queremos, melhor, buscamos tanto em muito tão efêmero, fugaz que parece esvair, fugir, escoar por entre dedos pelos mais diversos caminhos naturais ou decorrentes desse próprio ‘ter’... também e tão familiares para todos nós? Talvez, a duras penas para alguns, mais suave para outros, decorrentes do viver, absorvendo e aprendendo no assimilar de experiências, seguimos sensibilizando, subjetivando o ler melhor onde devam estar nossos mais significativos apoios e além, bem mais além que isso tudo, onde provável?!... onde colocar nossos mais sábios e absorvidos empenhos, investimentos, poupares... adquirires e enraizares... se assim podemos neo palavrear... 

E que bênção esse poder reinventar, ressignificar, rever de perspectivas... oxigenando, com magia, o existir. Que saibamos celebrar aquilo que move, impulsiona, orquestra a alma, construindo e derretendo, criando e esmaecendo infinitamente e tirando da Força Motriz que subjaz perene e inesgotável em nós porque É... sempre foi e segue Sendo! JAYA!!!

Telma Jábali Barretto é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga, consultora para a harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Ser Colecionador Sempre Incomoda os Outros - Por Luiz Domingues

Muitas pessoas tem o espírito de colecionador e se dedicam a cultivar tal hábito em diferentes graus. São arquivistas apaixonados pela preservação da memória cultural em múltiplos aspectos a grosso modo, no entanto, nem todas as pessoas levam em conta tal característica e há os que pensam bem diferente a considerar que os colecionadores são meros acumuladores de lixo, portanto a denotar algum tipo de psicopatia.

Ludwig Von Krüttner, foi um rapaz que nascera em Stuttgart, capital do estado de Baden-Württemberg, no belo sudoeste da Alemanha. Apaixonado por cinema, ele se tornara um verdadeiro “rato” de vídeo-locadoras da sua cidade, quando esse tipo de serviço se tornou um modismo muito grande no final da década de setenta e sobretudo nos anos oitenta.

Logo o espírito de colecionador tomou o ímpeto de Ludwig de assalto e assim, mais do que alugar filmes para assistir no final de semana, ele vislumbrou montar um acervo pessoal e permanente sob o seu critério e assim, passou a gravar os filmes que lhe interessavam em canais de TV a cabo especializados em filmes clássicos, raros e com alto teor artístico.

E assim ele se empolgou e mesmo sem ter conhecimentos de biblioteconomia, tratou de criar um catálogo o mais inteligível possível, para poder organizar a sua coleção da melhor maneira.

E o lado discutível da sua compulsão o levou sim a gastar horas e horas para se dedicar à sua coleção e fatalmente o tornou alvo de críticas. Alguns parentes teceram brincadeiras inoportunas a aludir à sua suposta “mania”, porém a se mostrarem como piadas suportáveis na sua avaliação e ele seguiu em frente.

Passado um tempo, eis que o seu “hobby” pessoal ganhou uma conotação diferente, quando um grupo de estudantes o procurou para lhe pedir algumas cópias de filmes que seriam objeto de seu estudo. Eles precisavam ver e analisar alguns filmes do diretor, F.W. Murnau, um grande expoente da escola expressionista do cinema alemão nos anos vinte do século passado.

E logo vieram mais solicitações. Ciclos de cinema em sala de aula foram montados na escola, sempre sob o suporte da coleção de Ludwig que não cobrava nem um centavo por isso, mesmo aconselhado a cobrar, nem que fosse por um valor simbólico.

Mas ele alegava que a coleção era particular, portanto seria ilegal cobrar pelo uso das fitas e além do mais, se sentia verdadeiramente pago a cada vez que os educadores ou os próprios estudantes recorriam a ele para fazer uso da sua coleção para efeito de pesquisa escolar.

Independente desse fato, as brincadeiras familiares a criticar veladamente o esforço de armazenamento de tantos filmes, prosseguiram e ele notou que tal característica de sua parte estava a motivar mais do que críticas pela prática em si, mas uma implicância deveras desagradável a extrapolar os limites, quando ele tomara conhecimento que certos familiares questionavam a prática de cuidar da coleção, ao atribuir um suposto artifício de sua parte para se abster do trabalho formal.  

Ludwig não bateu de frente com tal maledicência familiar, pois tais informações sobre o teor dos comentários advindos de certos parentes, lhe chegara por via indireta e assim, ele não quis alimentar uma espécie de “fofoca” sem ter certeza da fidedignidade da informação. E sobretudo, não lhe interessava entrar em uma guerra familiar por conta de pessoas que o criticavam gratuitamente.

Um dia, um casal de tios idosos anunciou a intenção de visitar a sua casa. Pessoas queridas, foram recebidas com grande entusiasmo por seu sobrinho e a conversa fluiu de uma forma magnífica. E inevitável, a conversa versou sobre cinema e claro, a destacar a vasta coleção de Ludwig. 

O seu tio, senhor Oswald, era um entusiasta do cinema e ficou muito impressionado pela coleção, principalmente quando ao examinar de perto, identificara vários filmes e diretores que admirava.

Passados mais alguns meses, eis que esse casal de tios anunciou uma nova visita. Foi uma repetição idêntica da visita anterior pelo aspecto positivo do encontro e de fato, Ludwig gostava muito deles, mesmo ao ter em mente que a tia Gertrudes, ao contrário do tio Oswald, cultivava o mau hábito de falar mal das pessoas e mais do que isso, costumava estabelecer provocações para gerar desconforto em reuniões familiares à guisa de sempre se posicionar como uma pessoa extremamente sincera e que falava o que pensava, sem amarras sociais.

Ora, em princípio, ser sincero e não cultivar a hipocrisia e falsidade por consequência, deveria ser considerado uma qualidade, mas no caso dela, era uma mera desculpa para desfilar o seu veneno ácido, sempre a diminuir as pessoas, portanto, não se tratava de franqueza, mas sim de uma forma de promover ataques frontais e geralmente completamente injustos, inoportunos e desagradáveis em via de regra.

Apesar disso, Ludwig ainda assim gostava da tia e tinha paciência com as suas alfinetadas inevitáveis contra todos, incluso ele mesmo ao criticar e ironizar o tempo todo.

Contudo, por ocasião dessa segunda visita, ela passou dos limites. Ocorreu quando mais uma vez a conversa se centralizou sobre a coleção dele, que estava ainda maior e enquanto o tio falava entusiasmado sobre diversos filmes do estilo Western, obras do diretor norte-americano John Ford, que ele identificara em uma parte da estante, que Ludwig ouviu a sua tia resmungar com os dentes semi-cerrados: -“que perda de tempo...é muita falta do que fazer”.

Ele que sempre absorvia respeitosamente as grosserias gratuitas da tia, sem nunca haver retrucado, desta feita não suportou o comentário corrosivo e a sorrir, olhou diretamente para a sua tia e lhe disse: -“minha querida tia, de fato eu gasto tempo e esforço para manter essa coleção organizada e dessa forma, não tenho tempo para reparar e criticar a vida alheia”. 

Sinceridade máxima, não é mesmo?