quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrébach - Capítulo 49 - Por Luiz Domingues


Os responsáveis pelo equipamento, chegaram sem nenhuma pressa, descarregando o caminhão, e montando como se fossem oito horas da manhã, numa demonstração de descaso abominável. Claro, um funcionário do colégio veio advertir-nos que estava "cancelado" o soundcheck, e que deveríamos tocar sem preparar o som, assim que recebêssemos a ordem. Nesta altura, os participantes do bingo já lotavam o pátio e o som dos alto-falantes do colégio, tocava de Roberto Carlos a Sidney Magal, a todo o vapor.

Quando os responsáveis pelo equipamento locado sinalizaram que estava tudo ligado, recebemos a ordem para começar, e aí o óbvio consumou-se : uma maçaroca sonora horrível, com um show de microfonias e embolações de frequências graves e tenebrosas. Claro que estava tudo horrível, e que a monitoração estava ridícula. Lamentamos muito o ocorrido, pois estávamos preparados para fazer uma boa apresentação, mas saímos do palco com uma sensação de frustração total. O Cido havia levado dois amigos de última hora para tocar percussão. Era na verdade uma "porralouquice" desnecessária, e que em nada acrescentaria ao som da banda, mas...estávamos ainda nos anos setenta, e loucuras assim eram consideradas normais, e de certa forma, tinham élan...
Antes do bingo começar, tocou-se o Hino Nacional, mas era previsível, pois estávamos em plena ditadura, e ali era um colégio católico. Os amigos freaks do Cido eram : Marcão e "Cabelo". Tocaram caxixis; cowbell, e uma pandeirola. Realmente não acrescentaram nada com sua percussão inútil jogada a esmo.

           O saudoso psiquiatra / pensador, José Angelo Gaiarsa 

Esse "Cabelo", era um freak que morava no bairro vizinho ao meu e de Cido, o Belém, zona leste de São Paulo, e nessa mesma época envolveu-se com uma trupe de Teatro, quando foram parar num exótico programa da TV Bandeirantes, protagonizado pelo psiquiatra, José Angelo Gaiarsa. Segundo soube, essa turma “turbinava a cabeça” nos bastidores, pouco antes de entrar no estúdio, e aí a sessão psicanalítica conduzida pelo Doutor Gaiarsa, tornava-se uma verdadeira farsa, baseada num festival de besteiras ditas por aqueles hippies cabeludos, e de olhos vermelhos...
Quanto ao tal Marcão, eu conhecia-o menos, só de vista, mesmo. 

Continua...

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrébach - Capítulo 48 - Por Luiz Domingues


Esse show foi arrumado pelo Laert, que encaixou a banda para tocar durante um bingo, a ser realizado no pátio do colégio onde ele estudava à época, o Colégio Claretiano, instituição de padres católicos, localizado no bairro de Santa Cecília, próximo ao centro de São Paulo. Claro que animamo-nos, e passamos a ensaiar diante dessa perspectiva. O baterista Cido Trindade aceitou o nosso convite, passando a ensaiar conosco regularmente. Nessa nova fase, voltamos a ensaiar na minha casa, mas desta vez tomando o cuidado de não fazer do ensaio, um ponto de reuniões freaks, como acontecera em 1977. O Laert havia fechado com a ideia de tocar teclados o tempo todo, mas sem instrumento, limitava-se a participar cantando nos ensaios e estudava piano isoladamente, preparando-se individualmente. Era o que tínhamos...
Ele estudava piano na casa de meus tios, próximo à minha casa (aliás, um gentil oferecimento de meus tios e incentivado pelos meus primos Marco Antonio; José Rubens; Mara e Alcione Turci, que haviam simpatizado com ele, indo além do fato de apoiarem-me simplesmente como primo), e também numa loja da Yamaha em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, onde usava um órgão, adaptando-se. Claro que não era o ideal. O sonho era ter um Hammond com caixa Leslie, próprio, mais um Fender Rhodes (piano elétrico). Mas a realidade era outra, infelizmente.
O Cido Trindade tinha um nível técnico infinitamente superior ao do Fran Sérpico que nunca ultrapassou a barreira de iniciante. Com o Cido na banda, o som cresceu, claro, e ele também reconhecia que havíamos melhorado.
Dessa forma, preparamo-nos até a data marcada : 17 de junho de 1978, um sábado gelado, de fim de outono. Fomos para o show bem ensaiados e confiantes. O Laert novamente desembolsou um bom dinheiro, alugou um órgão Yamaha desta vez, e o acordo com o colégio Claretiano, previa que eles providenciassem um P.A. e dois amplificadores, de guitarra e baixo.
Chegamos ao colégio no horário marcado, mas o amadorismo era total, pois o equipamento previsto, simplesmente não estava lá. As horas foram passando e só víamos funcionários do colégio arrumando as mesas para o bingo, fazendo ações de faxina e preparando o globo das bolinhas...
O equipamento havia sido alugado de uma banda de bailes, e chegou só às nove da noite.

Continua...

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrèbach - Capítulo 47 - Por Luiz Domingues


Por outro lado, se o panorama da banda era de incertezas, uma questão muito significativa nesse início de 1978, foi que eu havia notado ter deixado para trás o espectro incômodo de ser um iniciante incrivelmente limitado. Eu havia enfim rompido essa barreira terrível de um reles iniciante e sentia-me muito mais seguro como baixista. Nessa altura, já havia tirado diversas músicas de discos que apreciava. Já tocava em cima de discos do “Led Zeppelin”; “Deep Purple”; “Focus”; “Allman Brothers”, e diversas outras bandas, o que realmente configurava que havia melhorado muito. E posso afirmar o mesmo do Osvaldo Vicino. Ele que no início era o melhor e mais experiente músico da banda, também mostrava evolução, mas sutilmente estava começando a demonstrar também, sinais de afastamento (um triste paradoxo...), conforme relatarei logo mais.
Aproveitando essa reformulação na banda, estávamos preparando novas músicas, e sabíamos que se aparecesse uma oportunidade de tocar ao vivo, poderíamos contar com o baterista Cido Trindade, meu amigo de bairro. Ele havia colocado-se à disposição, pois tinha notado que evoluíramos e estávamos num estágio mais compatível com o dele, que era mais experiente àquela altura. E resolvemos dar uma cartada diferente para o futuro da banda. Por sugestão do Laert, passamos a procurar por vocalistas femininas. A ideia era o Laert assumir mais os teclados, cantando menos músicas e deixar uma mulher como principal vocalista e consequentemente, “frontwoman”. Essa era uma obsessão do Laert que era (é) apaixonado pela Janis Joplin. Então, colocamos anúncios em revistas da época ("Rock, a História e a Glória"; "Pop", e "Música"), e começamos a receber cartinhas de candidatas.
O Laert também fez um cartaz com seus traços de cartoon característicos, e espalhou-os em alguns pontos interessantes, como alguns cafés “transados” (gíria da época...), certos murais da USP etc. 
E aí, surgiu uma oportunidade para um show, que foi marcado para junho de 1978. Mesmo indefinidos em relação à uma garota para entrar na banda, aceitamos o desafio e convocamos o Cido Trindade para tocar conosco.


 Continua...

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrébach - Capítulo 46 - Por Luiz Domingues


Não deu outra... poucos dias após o show "Fran's Birthday II", o Wilton Rentero procurou-nos, e comunicou sua decisão de sair da banda. Sua justificativa era a de que seu caminho era o do violão clássico, e que havia tomado a decisão de estudar com afinco, dali em diante.
Ficamos muito chateados, pois ele era o melhor músico da banda, e sua presença encorpava o nosso som. Mas fazer o quê ?
Não podíamos contra-argumentar, pois não tínhamos nenhum poder de barganha. Não haviam perspectivas melhores do que festivais colegiais, e shows de pequeno porte. E nossa melhora técnica era lenta. Então, voltando a ser um quarteto, resolvemos aproveitar a deixa e dar um ultimatum ao baterista Fran Sérpico : ou entrava numa escola de música e começava e estudar, ou teria que sair da banda, pois estávamos cansados de vê-lo sem evolução visível, ficando atrás dos demais, e certamente prejudicando a evolução da banda. Ele sentiu-se pressionado certamente e alguns dias depois, fez a sua escolha, deixando a banda e justificando a sua decisão pelo fato de estar sem tempo para estudar o instrumento, devido aos estudos formais, e que realmente estava determinado a entrar numa faculdade e estudar com afinco. Bem, situação chata, mas foi melhor para ambos, Fran e banda, certamente, pois a despeito dele ser muito gente boa, chegáramos num ponto crucial onde havia a necessidade de tomar-se resoluções de vida, cada um ali envolvido e não dava para levar mais a banda como uma atividade secundária / recreativa doravante. Reduzidos a um trio, combinamos continuar firmes no propósito, eu; Osvaldo Vicino e Laert Júlio, futuro “Sarrumor”... o Osvaldo aproveitou para reafirmar que não gostaria de ter um segundo guitarrista na banda e que queria ser o lead guitar, como nos primórdios. Então, com o Laert determinado a assumir-se como tecladista, achávamos que estaríamos supridos harmonicamente, portanto, a nossa decisão naquele momento, de fevereiro de 1978, era a de encontrar um novo baterista, e tocar a vida para frente.
Começamos a procurar então, e ao mesmo tempo, mantínhamos ensaios improvisados entre os três, e atentos às oportunidades para inscrever a banda em festivais. E assim foi nos meses de março; abril, e maio de 1978. Uma luz no final do túnel, só apareceu em junho. 



Continua...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrébach - Capítulo 45 - Por Luiz Domingues



Voltando desses dias no litoral, concentramo-nos nos ensaios. Queríamos causar uma impressão melhor, também no equipamento, e dessa forma, saímos à cata de aparelhagem emprestada.
O Laert ousou, e do próprio bolso, alugou um órgão. A ideia era alugar um Hammond com caixa Leslie e tudo, mas diante do exorbitante valor cobrado, foi de "Gambit" mesmo, um órgão limitado, para uso doméstico e amador, geralmente visto em igrejas evangélicas. Preocupante foi o sumiço do Wilton, que não compareceu aos ensaios, e deixou-nos bastante apreensivos. Chegando o grande dia, ficamos bem chateados, pois ele realmente não compareceu. Uma perda irreparável, mas convenhamos, éramos todos muito jovens, e o grau de comprometimento variava conforme a vontade e expectativa de cada um, naturalmente. O show aconteceu no dia 11 de fevereiro de 1978, no mesmo local do realizado no ano anterior, e foi marcado por contrastes. O primeiro ponto, foi a questão da ascensão nossa como conjunto e individualmente. Todos haviam evoluído em um ano, com exceção do Fran Sérpico, que relutava para fazer aulas, e pouco avançava como baterista. O segundo ponto era a óbvia melhoria na qualidade das músicas novas, que naturalmente acompanhavam a evolução técnica da maioria. E o terceiro e muito negativo, foi a falta do Wilton nessa apresentação, pela questão da sua ausência injustificada e pelo desfalque, pois com ele na banda, o som encorpava e sem, apesar da evolução do Osvaldo, e a minha, fora o Laert tocando teclados, esvaziava-se.
O show foi encurtado, pois tocando ao ar livre, fomos atrapalhados por uma chuva súbita de verão. Dessa maneira, acabou sendo providencial, pois estávamos chateados tocando sem o Wilton, mais pela falta injustificável que desapontou-nos. Com tempo chuvoso, a festa também ficou aquém do ano interior, pois apenas vinte e cinco convidados compareceram. Lamento muito não haver filmagem, tampouco fotos.  O Laert lastimou demais ter que devolver o órgão, pagando o aluguel e o transporte, tendo tocado pouquíssimas músicas, devido à chuva. Era um prenúncio sombrio dos tempos difíceis que a banda enfrentaria em 1978...



Continua...

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrébach - Capítulo 44 - Por Luiz Domingues

                                  Fran Sérpico, em foto bem mais atual
A primeira determinação adotada, nessa reformulação da banda, foi a de marcarmos uma nova apresentação, na data de aniversário do baterista Fran Sérpico, que também marcaria um ano da primeira apresentação. Era questão de honra para nós, que essa nova apresentação fosse um "tour de force", demonstrando à todos, e principalmente à nós mesmos, que nesses doze meses, havíamos evoluído, em todos os sentidos. Portanto, com esse objetivo em vista, tínhamos um novo gás, uma nova motivação. Nesse ínterim, uma nova viagem recreativa para a cidade litorânea de Itanhaém foi marcada, onde ensaiaríamos (acusticamente, claro), e teríamos tempo para conversar bastante sobre esse show.

Batizamos essa nova viagem como "Itanhaém II", e desta feita, a banda inteira foi, além do Sidnei Miranda, o primo freak, e mais velho do Wilton, cheio de histórias boas para contar dos anos 1960, e um convidado de última hora, um argentino chamado Ribarique, que dizia-se "Bluesman". Dessa viagem, lembro-me de ouvir "trocentas" vezes o LP "News of the World", do Queen, que tinha acabado de sair no Brasil, e o Osvaldo Vicino tratou de gravá-lo, e levar a fita K7 para a praia.

Lembro-me também de uma caminhada monstruosa que fizemos, quando de praia em praia, fomos parar quase na cidade vizinha...garotos malucos...voltando para São Paulo, reafirmamos os esforços para o grande show, que batizamos de "Fran's Birthday II".

O repertório nessa nova fase da banda, era composto pelas seguintes músicas :


1) O Mundo de Hoje (Laert / Osvaldo / Luiz)

2) Diva (Laert)

3) Serena (Osvaldo / Laert)

4) Blues Sem Nome (Wilton)

5) 1967 ( Laert / Luiz)

6) O Que Resta é a Canção (Osvaldo)

7) Momento (Laert / Fran )

8) Ah, Se Você Soubesse...(Laert)

9) Consenso Geral (Laert)

10) Revirada (Wilton / Laert)

11) Mina de Escola (Osvaldo / Laert / Luiz)

12) Centro de Loucos ( Laert / Osvaldo)



Combinamos tocar "A Day in the Life", dos Beatles, obviamente num arranjo rústico, sem nem um por cento da sofisticação dos Beatles. E assim foi janeiro de 1978...





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Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrébach - Capítulo 43 - Por Luiz Domingues


E visando dar uma sacudida no grupo, o Laert propôs uma mudança de nome para a banda, buscando dar um verniz mais artístico, e condizente ao que pretendíamos. Uma lista foi elaborada e diante de várias opções, surgiu a ideia de "Bourréebach". Era uma junção das palavras Bourrée (nossa influência nesse caso, foi a música gravada pelo Jethro Tull, no LP "Stand up", baseada na peça de Bach), e do nome do próprio compositor germânico Johann Sebastian Bach. 
O neologismo parecia bonito, mas na verdade era pomposo e pretensioso demais para uma banda de adolescentes que evoluíam lentamente, e portanto, ao adotar um nome desses, dava-se a impressão de que éramos músicos de alto nível fazendo Rock Progressivo com desenvoltura, e certamente com formação erudita sólida. Uma coisa é certa : entre a presunção de um nome pomposo, e um nome tolo como "Boca do Céu", hoje em dia acho que nesse aspecto, acertamos na decisão adotada. Uma pena que o Bourréebach teve menos chances doravante, e seu início propiciou a etapa final da banda, rumo à extinção. Na verdade, a banda foi passando por um lento processo de apuração, afunilando-se num ponto onde quem realmente estava determinado a seguir na música, assim o fez, tomando direções diferentes, após o seu gradual desmanche. É bem verdade, o nome "Boca do Céu" hoje em dia tomaria outra conotação inimaginável em 1977: "Céu" poderia ser uma dessa escolas de periferia batizadas com esse nome (“CEU", como sigla e sem acento, logicamente), e "Boca", obviamente relacionada ao tráfico de drogas...portanto, hoje (2016), caberia bem num "Bonde de Funk"...
Tomamos a decisão de assumir o novo nome na virada do ano e assim, em 1° de janeiro de 1978, surgiu o Bourréebach !!


 Continua...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 16 - Por Luiz Domingues


A próxima apresentação foi no bar Casablanca, que ficava na av. Vereador José Diniz, no bairro do Campo Belo, zona sul de São Paulo. Ele era bem badalado nessa época e costumava lotar suas dependências de jovens burgueses, playboys e patricinhas em geral.

Não era fácil arrumar uma data nessa casa, pois era cobiçada entre bandas cover da época, mas o Terra no Asfalto acabou conseguindo uma apresentação para o dia 27 de fevereiro de 1980.

Um pouco antes da apresentação começar, Mu, Gereba e Paulo Eugênio foram à rua para consumirem uma substância ilícita.

Eu e Cido ficamos no bar esperando, com o equipamento montado e o som passado. A casa foi enchendo e os rapazes demorando...


A casa foi lotando e o gerente começou a nos incomodar, pressionando-nos a iniciar. 

O tom foi esquentando, e o gerente agora fazia ameaças de que nunca mais tocaríamos lá etc etc...

Então, o Cido Trindade foi procurá-los na rua. Não os achou, e nós não sabíamos mais o que dizer para o estressado gerente (mas ele tinha razão, infelizmente).

Então, com a casa abarrotada, onde mal se podia andar, aparecem os três, e acompanhados de um policial militar !!


Eu e Cido pensamos : Foram presos, e só vieram nos avisar para desmontar o equipamento...

Mas aí, percebemos que o PM estava sorridente, tirou o boné, abriu a camisa, colocou a calça por cima do coturno, parecendo querer se disfarçar, eliminando os sinais de sua farda.

Sentou-se numa mesa, e curtiu o show a noite inteira, bebeu, dançou, ficou bêbado, flertou com várias garotas, e no auge da farra, chegou a amarrar uma bandana na testa, usando uma gravata improvisada...


Era seu aniversário, e o Mu chegou a anunciar isso no microfone, tocando "parabéns para você" na guitarra.

Só depois da noite se encerrar, lá pelas 3:00 h da manhã, soubemos o que significava aquilo.

Realmente, os rapazes estavam na rua usando o material ilícito, quando foram surpreendidos por uma viatura da polícia militar.


Foram presos em flagrante, mas para a sua sorte, os quatro PM's daquela "Veraneio", eram simpatizantes do material, também. 

Após a abordagem padrão, o sargento relaxou o flagrante, vendo que os músicos eram só usuários...




Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 15 - Por Luiz Domingues


E assim, no dia 23 de fevereiro de 1980, refeitos da frustrante e claustrofóbica viagem ao litoral, fomos tocar novamente no bar Lei Seca.

Desta vez, um público muito bom compareceu à noite, com cerca de 300 pessoas abarrotando as dependências da casa. 


Mas havia uma explicação : tratava-se de uma festa fechada. E a surpresa agradável que tivemos foi esse bom cachet, além de um público animado.

E as curiosas, foram duas personalidades improváveis que ali estavam, que evidentemente jamais imaginaríamos ver: o ator Global, Mário Gomes, e o compositor/cantor e violonista, Luis Carlos Sá, da dupla Sá e Guarabyra.
O Mario Gomes estava acompanhado de uma mulher espetacular. 

Trajando Smoking num bar informal, causava espécie também por esse aspecto. 

Os maldosos rumores que quase destruíram a sua carreira, eram ainda recentes no início de 1980, portanto, sua presença ali chamava a atenção também por esse aspecto, quando ouviam-se cochichos com piadas maledicentes sobre o episódio ocorrido entre 1977 e 1978, mais ou menos.

Alheio à esses comentários fortuitos, ele dançou a noite inteira com a mulher linda que o acompanhava, num autêntico tapa de luva de pelica nos seus detratores...

E o Luis Carlos Sá, como músico, ficou nos vendo tocar, aplaudiu bastante e cumprimentou o Mu, elogiando sua performance em particular.

Sim, vivíamos um ótimo momento de expansão naquele começo de 1980, alavancando datas e datas. Mas logo teríamos baques, que mudariam o panorama.

E quanto ao Luis Carlos Sá, ele realmente curtiu por um bom tempo a nossa performance. Coisa de músico que acaba ouvindo música de uma forma diferente das pessoas que não se ligam em pormenores, e a seguir, foi curtir a festa, pois estava lotada a casa, cheia de mulheres bonitas etc etc.


A próxima parada, foi numa outra casa badalada da época, chamada "Casablanca", que ficava no Campo Belo, zona sul de São Paulo, e bairro vizinho ao Brooklin.

Nessa casa, tocaríamos pela primeira vez com o Terra no Asfalto, mas na verdade, tocaríamos outras vezes com a segunda formação da banda, que se iniciaria em dezembro de 1980, e teria maior longevidade.

Um fato extraordinário aconteceu nessa noite. O que tinha tudo para ser um desastre para o Terra, acabou se transformando numa das mais hilárias histórias dessa banda.

Conto tudo no próximo capítulo.



Continua...

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 14 - Por Luiz Domingues

 
Pediu à Virgínia para esconder o material na sua calcinha, e se algum policial a tocasse, que ela fizesse um escândalo, exigindo uma policial feminina, e na confusão, se aparecesse uma policial, desse um jeito de jogar o pacote no barranco.

Por sorte, não haviam policiais femininas, mas mesmo assim, a blitz foi tensa, com os policiais fazendo aquele terrorismo típico por uns 40 minutos.

Sem meios de nos incriminar em nada, nos liberou, mas ainda fazendo ameaças, anotando a placa da Brasília preta de Paulo Eugênio, e dizendo que seríamos vigiados dali até São Paulo etc etc.


Tensão ? Foi terror mesmo...Naquela época a polícia era ainda mais truculenta e com a estranha contradição de teoricamente proteger o cidadão de bem, mantendo a ordem pública em conflito com o fato de ser milícia da ditadura, considerando qualquer pessoa um subversivo em potencial...

Eu usava cabelos compridos desde 1971. Entre 1971 e 1974, eram comedidos, pouco abaixo do pescoço, mais seguindo a moda que se espalhou pela sociedade em geral (até o Cid Moreira era "cabeludo", narrando o "Jornal Nacional"...), mas de 1975 para frente, já com 15 anos de idade, virei Hippie de vez.

Em 1978, o Cido Trindade tinha cortado o cabelo curto, radicalmente. 


O Paulo Eugênio e o Gereba não embarcavam nessa, e tinham visual de playboys, com cabelos bem cortados, além de usarem roupas de grife etc.

Mais pareciam frequentadores de clubes de discothéque, e o Mu, havia recentemente cortado sua longa cabeleira também, após mais de dez anos de "cabeludismo". 

E o Wilson também seguia essa linha de garotão bem comportado, com cabelos curtos e trajes tradicionais.

Eu me lembro que de todos os Freaks que conhecia no meu bairro desde 1977, no ano de 1981, eu era o único ainda cabeludo, e ganhei nessa época o apelido de "O último dos Moicanos", por não aderir à essa tendência de romper com as décadas de 60 e 70, mais um inequívoco sinal dos tempos, com o avançar da década de oitenta.


Falei isso porque acho que o fato de só eu ter aparência rocker ali naquela Blitz, pode ter aliviado um pouco a barra, visto que se todos tivessem aparência de freaks, os policiais teriam sido ainda mais truculentos.

Como ali em Trindade, é praticamente a divisa entre estados, resolvemos voltar e pararmos numa cidade qualquer. 

A primeira parada foi em Paraty, ainda no estado do Rio. A cidade é uma graça, mas em clima de carnaval e chovendo, não haviam vagas em hotéis ou pensões.

Dessa forma, seguimos de volta ao nosso estado, e paramos em Caraguatatuba, onde passamos o restante do domingo.

E mais uma vez sem achar acomodações e chovendo...

Foi uma experiência claustrofóbica passarmos a madrugada esmagados dentro de uma Brasília. 


E assim, passamos a segunda-feira, quando finalmente alguém teve a brilhante ideia de acabarmos com aquela tortura, e voltarmos à São Paulo.

A próxima apresentação, seria no mesmo bar Lei Seca, marcada para o dia 23 de fevereiro de 1980, e nesse show, teríamos surpresas, uma agradável e outras, curiosas.


Continua...

sábado, 26 de janeiro de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 19 - Por Luiz Domingues


Foi um choque de profissionalismo que tomei nessa minha volta. 

Aprendi muita coisa, e levei esse Know-how para a Chave do Sol, em muitos aspectos.

No tocante à equipamentos, o Língua de Trapo não possuía absolutamente nada.  


A praxe da banda era alugar tudo, P.A. e equipamento de palco.

Como geralmente o contratante era quem pagava, sempre tínhamos um equipamento legal de palco, e P.A. de nível. Foram raras as ocasiões em que tivemos equipamento ruim.


Geralmente eu usava amplificadores Fender, Hiwatt, e na pior das hipóteses, Duovox, uma linha de luxo da Giannini, que era incrivelmente boa.

A banda tinha cacife para fazer tais exigências. 

E eram previstas em contrato, especificando as necessidades técnicas. Convenhamos, para um show das características que fazíamos, era imprescindível ter som e luz de qualidade, para a proposta da banda ser bem assimilada pelo público.

Por exemplo : quando se falava de bateria, especificava-se quantas peças seriam necessárias, quais marcas aceitáveis etc.

O mesmo raciocínio para amplificadores. No contrato, haviam especificados três ou quatro marcas de amplificadores e caixas que seriam aceitas, para o contratante ter opções.

As raras vezes que deu errado, foi por quebra de contrato, o que deixava o nosso empresário, uma pilha de nervos.

E em relação ao P.A., a mesma coisa. 


Esse documento técnico se chama "Rider", além do "Input list", que sempre devem seguir anexados ao "Mapa de Palco"(onde se desenha a posição da banda no palco), e o "Mapa de Luz", onde o projeto de iluminação preparado pelo iluminador da banda, é especificado.
Continua...

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 18 - Por Luiz Domingues

As primeiras impressões foram de estupefação. 

Aquele grupo que eu havia deixado no início de 1981, sob condições difíceis, era outro, completamente diferente.

Fiquei boquiaberto quando o Laert me mostrou o portfólio da banda. 

Naquela época, eram quase dez pastas enormes, abarrotadas de matérias de jornais e revistas.
Entrevistas de página inteira em jornais de grande circulação; revistas de porte grande; jornais de diversas cidades interioranas e capitais de outros estados...


O Lizoel, guitarrista que eu conhecia da primeira passagem, que tive pela banda, falava-me mil coisas sobre bastidores. 

Era o mais antenado na questão das oportunidades do mundo fonográfico, e foi logo me dizendo que o Língua estava na iminência de fechar contrato com uma grande gravadora, onde contatos já estavam adiantados.

O Laert então se preocupava mais com o pé no chão, e queria que eu tirasse logo as músicas novas, pois o objetivo era me preparar para o novo show que estava sendo ensaiado para a turnê 83/84.

Me entrosei muito rapidamente com o baterista Naminha, que é um cara extremamente gente boa.


E também com o tecladista João Lucas, que apesar de me ver ocupando o lugar que era de seu irmão, o baixista Luis "Risada" Lucas, me acolheu muito bem, e se tornaria um grande amigo posteriormente, com o avançar da turnê.
A casa de Fernando Marconi, onde ensaiávamos em 1983, ficava na Rua Cardeal Arcoverde, próxima à essas pequenas oficinas de restauração de móveis antigos.
                             
Sergio Gama e Fernando Marconi também me receberam muito bem. Os ensaios eram na casa do Fernando, que estava casado com a jovem Lia.

Sergio Gama também estava casado, com Nancy Goulart, filha do jornalista Goulart de Andrade, famoso pelo seu programa na Rede Globo, "Comando da Madrugada", e que esperava o primeiro filho do casal.

E o Pituco Freitas estava mudado também. Estava com uma "pinta de artista", coisa que não tinha bem delineada antigamente. Agora ele aprendera a se impor nesse sentido, o que lhe fez muito bem.

Nesse período, eles estavam com um escritório de empresários, mas não estavam contentes. Logo fui informado que estavam insatisfeitos, e sonhavam voltar com o empresário que tinham anteriormente, um holandês chamado Jerome Vonk.

                             O empresário Jerome Vonk

Continua...