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terça-feira, 3 de março de 2020

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 63 - Por Luiz Domingues

Eis que o grande dia chegou! Após quatro décadas, a formação mais clássica do Boca do Céu estaria novamente reunida, enfim, para uma grande confraternização. 

Foi por volta das 15 horas do dia 15 de fevereiro de 2020, que eu encontrei o guitarrista, Wilton Rentero, em uma estação do metrô e de lá, fomos juntos ao estúdio que alugáramos para encontrarmo-nos com os demais companheiros. No caminho, falamos sobre mais reminiscências a envolver a nossa banda e igualmente a respeito de tantas aventuras "freaks" que compartilhamos no tempo em que convivemos como companheiros de banda & sonhos, e sobretudo pela amizade que ali vivenciamos. 

Chegamos com uma boa antecedência ao estúdio e continuamos a conversar animadamente, quando eis que vemos adentrar o salão lounge/bar do estúdio, a persona de Osvaldo Vicino. Foi muito bom estar com ambos a conversar enquanto aguardávamos os demais e eu observei com alegria, o fato de nós três estarmos a segurarmos instrumentos em mãos, um fator que não cumpríamos juntos, desde 1978, quando da saída do Wilton da nossa banda.

Eu mal podia acreditar, Wilton Rentero e Osvaldo Vicino, juntos novamente, após um longo hiato a contabilizar 42 anos (1978-2020)! Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Click e acervo: Luiz Domingues 

Uma vez já instalados na sala de ensaio, que fora liberada para iniciarmos os nossos preparativos pessoais, eis que surgiu o nosso baterista, Fran Sérpico, no recinto. 

Que alegria, não o via desde 1978, igualmente! Pois conversamos animadamente por alguns minutos, enquanto o seu cunhado, o simpático, Nelson Laranjeira, chegou, convidado que fora para participar do nosso ensaio informal.

Fran Sérpico e Luiz Domingues a conversar, após tantos anos! Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Click, acervo e cortesia: Marcos Kishi

Laert Sarrumor, o nosso genial cantor e compositor, foi o último a chegar. 

"Consummatum est", o Boca do Céu estava finalmente reunido, após tantos anos. Muitas histórias para relembrar e celebrar, teríamos a confabular, certamente, e assim procedeu-se, mesmo que estivéssemos a cumprir igualmente a nossa tentativa de relembrarmos as nossas antigas composições e também empreendêssemos a recreação, ao tocarmos as músicas do Joelho de Porco, previamente combinadas entre nós.

Nas duas primeiras fotos, Fran Sérpico e Laert Sarrumor a conversar novamente, após 42 anos (1978-2020). Na segunda foto, o baterista, Nelson Laranjeira, que cooperou com o nosso ensaio informal. Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Click e acervo: Luiz Domingues 

Tocamos as músicas do Joelho de Porco e divertimo-nos muito, pois além da nossa recreação pura e simples, há por considerar-se que estávamos todos felizes pelo reencontro em si, portanto, o prazer em estarmos a tocar novamente como uma banda, foi muito acentuado. 

E houve mais um fator importante, pois o Joelho de Porco, foi, entre outras tantas, uma forte inspiração para a nossa banda nos anos setenta, no calor dos acontecimentos que cercava-nos culturalmente naquela ocasião, portanto, este valor adicional esteve contido em tocarmos tais canções. 

Melhor ainda, foi lembrarmos diversos trechos de nossas canções e que prazer foi tocar e cantar, a dar suporte com backing vocals, a canções que eu não nutria mais esperança de resgatá-las.

Na primeira foto, o guitarrista, Osvaldo Vicino, o mais primordial elo da formação do nosso grupo. Na segunda foto, Laert Sarrumor a cantar e expressar a sua alegria pelo reencontro. Na terceira foto, o guitarrista, Wilton Rentero, em claro momento de satisfação em meio ao ensaio. Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Clicks, acervo e cortesia: Marcos Kishi                       

E assim foi, lembramo-nos de "Serena", "Astrais Altíssimos", "Diva", "Mina de Escola", "O Mundo de Hoje" e alguns fragmentos de "Instante de Ser". 

O baterista, Nelson Laranjeira, fora avisado que tratar-se-ia mais de uma confraternização e que a configurar-se como um ensaio truncado, visto que o objetivo seria tentar relembrar e tornar tais fragmentos de memória, passíveis em serem tocados, sob uma primeira instância. Simpático, ele logicamente queria tocar sem interrupções e mesmo assim, teve a devida paciência para entender o caráter excepcional do nosso reencontro.

O guitarrista, Wilton Rentero, na primeira foto. Eu, Luiz Domingues a usar um baixo bem parecido com o "Gianinni" que usava em 1977, na foto 2! Na foto 3, eu (Luiz Domingues), Laert Sarrumor e Wilton Rentero. Na quarta foto, Osvaldo Vicino e Wilton Rentero no primeiro plano, com Laert Sarrumor ao fundo e eu (Luiz Domingues) sentado, mas visível apenas por detalhe. Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Clicks, acervo e cortesia: Marcos Kishi

Encerramos a parte musical e antes de partirmos para o restaurante Degas, onde jantaríamos e continuaríamos a nossa confraternização, mediante a ajuda providencial do meu amigo, o fotógrafo superb, Marcos Kishi. Pois Kishi ajudou-nos a concretizar uma ideia lançada pelo Laert, em conversação travada no grupo de Whatsapp do Boca do Céu, previamente, e assim, eis que fizemos um foto comemorativa, com os cinco membros da formação mais clássica de 1977, a simular a foto promocional que tiramos nesse mesmo ano. 

Sob a orientação de Kishi, eis que posamos no corredor do estúdio, a imitar a foto de 1977 e tal documentação tornou-se histórica, igualmente, para a nossa banda!

A foto promocional de 1977, em comparação com a recriação de 2020! Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Foto 1: Acervo Boca do Céu. Click: Adelaide Giantomaso (possivelmente). Foto 2: Click. acervo e cortesia: Marcos Kishi 

Incrível, a banda reunida, a empreender a mesma postura fotogênica. Em 1977, éramos adolescentes e naturalmente, quando preparamo-nos para a foto, não poderíamos imaginar que repetiríamos a mesma configuração, quarenta e três anos depois. 

Em 2020, mais robustos e bem grisalhos, naturalmente, mas eis os cinco componentes do Boca do Céu, ali novamente reunidos e felizes, certamente, por tal oportunidade.

Nas duas primeiras fotos, a confraternização pós-ensaio. Da esquerda para a direita: Wilton Rentero, o convidado especial, Nelson Laranjeira, Fran Sérpico, eu (Luiz Domingues) e Osvaldo Vicino, com Laert Sarrumor à frente. No lounge/bar do estúdio, na primeira: Wilton Rentero, eu (Luiz Domingues), Laert Sarrumor e Osvaldo Vicino. Na foto quatro: Marcos Kish, Wilton Rentero, eu (Luiz Domingues), Laert Sarrumor e Osvaldo Vicino. Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Clicks acervo e cortesia : Marcos Kishi. Foto 4: Click automático. 

Bem, Fran Sérpico teve um compromisso pessoal e o seu cunhado, Nelson Laranjeira também despediu-se e partiu. Fomos então para o restaurante Degas e ali, com a companhia de Marcos Kishi, seguimos a conversar, relembrar inúmeras passagens ocorridas com a nossa banda e fatos análogos que vivemos na época. Ao final, Marcia Oliveira, esposa do Laert Sarrumor e empresária do Língua de Trapo, juntou-se à nós.
No restaurante Degas, localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Na ala esquerda, eu (Luiz Domingues), Marcia Oliveira e Laert Sarrumor. Ao lado direito, Osvaldo Vicino no canto superior e Wilton Rentero. Ensaio/Reencontro do Boca do Céu no Estúdio Som de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2020. Click, acervo e cortesia: Marcos Kishi 

Após tal encontro, fortaleceu-se o sentimento e mais do que isso, a predisposição de promovermos novas reuniões/ensaios para resgatarmos as nossas músicas e ficarmos abertos para até imaginar uma apresentação ao vivo e quiçá, a gravação do máximo de músicas que pudéssemos relembrar e assim, enfim, legarmos um registro sonoro do Boca do Céu ao mundo.

Continua...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 62 - Por Luiz Domingues

Na semana em que antecedeu o reencontro do Boca do Céu, surgiu a ideia de relembrarmos as músicas que compunham o nosso velho repertório e nesse sentido, todos exerceram individualmente, um exercício de memória notável para relembrar ao máximo o que foi possível. 

Fiquei até surpreendido, pois no esforço coletivo, muitos trechos de canções foram recordados. Na ausência de algum apoio com material gravado, seria um esforço hercúleo, visto que as poucas canções que tínhamos registradas, através de gravações caseiras e armazenadas nas arcaicas fitas K7, foram irremediavelmente perdidas ainda nos anos setenta. Portanto, quando eu notei que os companheiros, Laert, Osvaldo & Wilton, conseguiram relembrar diversos trechos a tocar e cantarolar pedaços de músicas, eu fiquei muito feliz.

E mais reminiscências maravilhosas foram feitas, com todos a relembrarem as atividades culturais que presenciamos em companhia mútua a contabilizar shows de Rock e MPB, cinema, teatro, exposições e inúmeras outras atividades culturais em que estivemos juntos nos anos setenta. Para tal, além do meu Blog e o relato dos capítulos escritos sobre o Boca do Céu em minha autobiografia, outros companheiros postaram fotos da época, caso do Wilton, que disponibilizou-nos diversas fotos clicadas pelo seu primo, Nelson Rentero, sobre shows que ambos assistiram entre 1974 e 1976, antes até dele, Wilton, ingressar em nossa banda.

O nosso guitarrista, Wilton Rentero, ao lado de Rita Lee (primeira foto), e Gilberto Gil (segunda foto), no camarim do Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, no dia 26 de junho de 1976, por ocasião do show do super grupo da MPB, "Doces Bárbaros". Acervo e cortesia: Wilton Rentero. Click: Nelson Rentero

Quando eu vi tais fotos do Wilton, eu notei que todo o relato da minha vivência pessoal com o Boca do Céu e por conseguinte, toda a minha percepção sobre a ambientação cultural e sobretudo, contracultural que envolvera-me nos anos setenta, estava incrivelmente reforçada, pois a energia contida em tais fotos, corroborou de uma força absurda com o bojo das minhas colocações expressas em texto.
O nosso guitarrista, Wilton Rentero, presenciou, na companhia de seu primo, Nelson Rentero, um show de Caetano Veloso, nos idos de 1975. Acervo e cortesia: Wilton Rentero. Click: Nelson Rentero

Pois muito bem, estávamos prontos para o reencontro, com todos animados e com um adendo, pois o companheiro, Fran Sérpico alegou que perdera o traquejo com o instrumento e assim, ele mesmo tomou a dianteira e convidou o seu cunhado, que
era (é) baterista e que toca regularmente na noite paulistana com bandas cover, desde os anos sessenta, portanto, a mostrar-se bem experiente. 
O nosso guitarrista, Wilton Rentero, presenciou, na companhia de seu primo, Nelson Rentero, um show de Jorge Mautner, nos idos de 1976. Acervo e cortesia: Wilton Rentero. Click: Nelson Rentero

Nelson Laranjeira era (é) o nome do rapaz e ele aceitara participar do nosso reencontro. Eu roguei ao Fran Sérpico, que explicasse ao seu cunhado que seria um ensaio truncado, pois tirante as músicas do Joelho de Porco que combinamos tocar por recreação, a ideia seria tentar executar pequenos trechos de músicas do nosso velho repertório, que lembráramos durante aquelas duas semanas anteriores, pela via do aplicativo, Whatsapp. 
O nosso guitarrista, Wilton Rentero, presenciou, na companhia de seu primo, Nelson Rentero, o show de lançamento do LP "Tudo Foi Feito Pelo Sol" dos Mutantes, no Teatro Bandeirantes de São Paulo, em 1974. Acervo e cortesia: Wilton Rentero. Click: Nelson Rentero

Que viesse então o dia 15 de fevereiro de 2020, o dia do grande reencontro do Boca do Céu e curiosamente, quarenta e três anos após o nosso primeiro show, realizado em 12 de fevereiro de 1977!

Continua...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 61 - Por Luiz Domingues

O guitarrista Osvaldo Vicino e a sua amiga, Cristiane Ewel, nos idos de 1978, pouco tempo após ele ter deixado o Boca do Céu. Acervo de Osvaldo Vicino

Após a criação do grupo de ex-componentes do Boca do Céu, no aplicativo virtual, "Whatsapp", a conversação básica inicial enveredou por dois pontos básicos: as reminiscências de cada um sobre o nosso convívio na década de setenta e um apanhado sobre o que cada um fez da vida, doravante, inclusive a envolver a criação de família e a enumerar filhos e a trajetória deles, visto que falamos sobre filhos que hoje em dia são adultos e em alguns casos, com mais de trinta anos de idade. 

Em suma, uma grande atualização e que foi mais que prazerosa, mas elucidativa sobre como cada um construíra a sua respectiva vida.

Osvaldo Vicino a tocar guitarra nos dias atuais e nas fotos subsequentes, a tocar baixo com duas bandas tributo ao "Whitesnake". Acervo de Osvaldo Vicino

Sobre o Osvaldo, que eu já havia reencontrado algumas vezes após 2015, eu sabia que ele mesmo ao ter uma vida forjada no mundo corporativo do trabalho formal, jamais houvera abandonado a música e que muito pelo contrário, desenvolvera-se também como baixista nesses anos. 

Portanto, polivalente, a tocar guitarra ou baixo, esteve envolvido com bandas cover como o "Love Hunter" e "Snakebite", ambas a revelarem-se como bandas tributo ao grupo britânico, Whitesnake.

Wilton Rentero em sua residência, a praticar o violão. Acervo de Wilton Rentero

Já no caso do Wilton, que eu não tive notícias desde 1978, diretamente e apenas por volta de 2012, soube de algumas informações mais superficiais, graças ao Laert, também foi bom tomar conhecimento que ele jamais abandonou a música, inteiramente. 

Ao ter investido na música erudita, Wilton contou-nos que já em 1979, tornara-se um professor de violão erudito e que vivera efetivamente de suas aulas, até a metade dos anos oitenta, pelo menos. Ele enviou-nos alguns vídeos caseiros para o vermos a tocar no ambiente de sua residência e foi ótimo vê-lo a tocar tão bem.

Fran Sérpico contou-nos que vendera a sua bateria, cerca de dois anos após deixar a nossa banda em 1978 e que não se desenvolvera mais. Ele optou por focar em seus estudos, formou-se e tornou-se um homem de negócios a gerir uma empresa orientada pela instalação de equipamentos para gerar energia solar em parques industriais, residências e instituições as mais diversas. Muito bem sucedido, vivia nessa ocasião no Rio, mas mantinha uma base em São Paulo e ele nos disse que visitava a cidade para trabalhar, pelo menos uma vez por mês.

Marcamos enfim um ensaio/reencontro/confraternização para o dia 15 de fevereiro de 2020 e previamente, combinamos de resgatar todas as músicas que pudéssemos relembrar e também quatro canções do Joelho de Porco, para deixarmos fluir a parte musical do encontro, a contabilizar: "Mardito Fiapo de Manga", Boeing 723897", "México Lindo" e "São Paulo By Day". 

Em princípio, foi cogitada a hipótese de convidarmos agregados que tivemos na ocasião, amigos e membros com participação menor, mas não menos importante, caso da cantora, Pollyana Alves, por exemplo. Mas ao ponderar, resolvemos manter esse primeiro encontro, mais reservado e quem sabe em outros encontros posteriores, abrir espaço para algo mais expansivo, a agregar não somente ex-membros, porém, amigos que interagiram com a nossa banda nos idos de 1976-1979.

Continua...

terça-feira, 30 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues


Chego ao final do relato sobre a história de minha primeira banda na carreira, portanto, é a hora para agradecer aos amigos e familiares que apoiaram o nosso trabalho. 

Inicio a mencionar os colegas que gravitaram nos primórdios da formação do Boca do Céu, em 1976, invariavelmente colegas da oitava série do curso fundamental da Escola Municipal Maria Antonieta D’Alckmin Basto, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Além dos que foram membros da banda, cito Gabriel (o "espanhol"), Nelson e Toninho que foram colegas de classe e acompanharam com constância no início, a nossa movimentação para formar a banda, além de outros tantos, incluso colegas que eu conhecia desde 1968 (Grupo Escolar de Vila Olímpia) e outros tantos de da turma de 1973 (Ginásio Estadual de Vila Olímpia), em diante, e com maior ou menor profundidade, eles observaram os nossos esforços, nessa determinação. 


Irmãos Vicino, em foto de 1976, bem nos primórdios do Boca do Céu. Osvaldo a tocar na companhia de suas irmãs. Foi no apartamento residencial da família Vicino que as primeiras reuniões do Boca do Céu ocorreram. Acervo e cortesia de Osvaldo Vicino 

Sou muito grato à família do Osvaldo Vicino, na figura de seu pai que era/é um gentleman, sua mãe (in memorian), e irmãs que torceram bastante e apoiaram-nos, além de Nelson Gravalos, namorado (hoje, marido). de sua irmã, Beth Vicino, pela filmagem da banda sob uma película em Super-8, filmada em junho de 1977. 


Agradeço à família de Fran Sérpico que aturou-nos por muitos ensaios barulhentos, além das sessões de televisão na sala de estar da família, quando o ensaio dava pausa para assistirmos o programa “Rock Concert”, da Rede Globo de Televisão, onde prestávamos a máxima atenção desde a introdução da vinheta do programa, a mostrar uma colagem de imagens de shows de Rock de bandas clássicas setentistas e internacionais, ao som da canção: “Led Boots”, do LP “Wired”, de Jeff Beck, até o último segundo dessa atração televisiva... 

A figura sensacional de Dona Olga Falci (in memorian), mãe do Laert Sarrumor, que protagonizou muitas histórias boas naqueles anos todos. E acredito que a sua torcida pelo filho, que foi impressionante, produziu uma energia vitoriosa que o acompanhou doravante, tornando-o o artista celebrado que é, e com todos os méritos. 

O primo freak do Wilton Rentero, Sidnei Miranda (e a sua simpática namorada, hoje esposa, Adelaide Giantomaso), que foi uma figura sensacional, com mil histórias fascinantes sobre o movimento hippie no Brasil. Saudade do convívio que foi super prazeroso pelas conversas, hospitalidade e muitos sons incríveis advindos de sua pick-up alimentada por uma coleção de discos, primorosa. 

A família de Pollyana Alves, nas figuras de seus pais e da sua irmã, Eliana Rímole Alves, que foram pessoas de uma docilidade impressionante. A acolhida em seu lar para os nossos ensaios, foi mais que uma gentileza, pois sentíamos o entusiasmo cativante deles em torcer pelo nosso sucesso.


A turma do bairro do Tatuapé que gravitava em torno dos meus primos, os irmãos Turci, que lá moravam e misturavam-se aos meus colegas de escola, em conexões comuns, até por coincidência. Cito pessoas como Luis Canton, Cri, Amaury Martins, Alcides “Cidão” Trindade (Cido), Eduardo Viscome, Chaím, Luiz Antonio Galvão, Norinho, Fábio Malatesta, “Piu-Piu”(in memoriam), “Cabelo”, Marcos e Regina de Fátima Nunes Galassi (que foi minha namorada na época), e mais outros que foge-me da lembrança sobre os seus nomes (perdão ao leitor e também para quem eu omiti o nome!), das turmas do meu colégio, Oswaldo Catalano, em que fui aluno entre 1977 e 1979, além do quase vizinho, mas morador da mesma rua, cujo nome esqueci-me completamente (mil perdões, amigo!), mas que se tratou de um "freak" e só por ver-me cabeludo a chegar para morar na Rua Jacirendi, mostrou-se hospitaleiro e sem nem conhecer-me direito, tocou a campainha de minha nova residência e emprestou-me os LP’s: triplo do Festival de Woodstock e Mutantes ao Vivo...”I wanna take you higher”, “que os Anjos do Sul já vão chegar”...
E a minha família por apoiar-me, ainda que nessa fase, principalmente ao pensar no meu pai, creio que tratou-se em princípio de apenas uma tolerância estratégica, pois seguramente que ele não levou a sério os meus esforços. Mas agradeço (é claro), por tudo, principalmente pela paciência nas fases em que a banda ensaiou em nossa residência e não deve ter sido nada fácil para eles, pois além de não termos condições acústicas adequadas para promover ensaios de uma banda de Rock, pesou contra o fato do nosso equipamento ser precário e sobretudo, a nossa condição musical como iniciantes, ter sido insípida, portanto, deve ter sido um tormento... 

Aproveito, para estender o agradecimento aos meus tios e primos que apoiaram-me diretamente essa etapa, inclusive ao ceder a sua residência para o Laert poder estudar no piano da família, fora o apoio e entusiasmo pela banda. Grato, família Barretto Turci, tios José Rubens & Hortência e meus primos: José Rubens Junior, Marco Antonio, Siomara, e Alcione Turci.
E sou muito grato aos companheiros dessa primeira etapa da minha jornada musical... hora para agradecer a cada personagem dessa fase inicial da minha trajetória musical. Começo a falar dos que tiveram participação menor na banda. 

Bernardão “Janjão”

Bernardo Lopes de Almeida (vulgo “Bernardão” ou “Janjão”), foi o terceiro membro do grupo, além de Osvaldo e eu mesmo, no início. Convivemos desde 1974, como colegas de escola, e também dividimos sonhos Rockers, ao ouvirmos os discos do “Deep Purple”, “Nektar” e tantas outras bandas que adorávamos. Fora os “Mutantes”, cujo LP, “Tudo Foi Feito pelo Sol”, ele sabia de cor e salteado. Fomos juntos assistir o show do Rick Wakeman em 1975, outra lembrança positiva de nossa amizade e convívio... sobre o Bernardo, perdi o contato com ele desde que saiu do Boca do Céu, em 1976. Espero que esteja bem!
Edson Coronato

Edson Coronato, a quem apelidávamos como: Edson "Coverdale", embora ele gostasse mais do Ian Gillan... (que ironia!). Sujeito cem por cento do bem, e certamente o melhor centroavante de nossa escola, no futebol. 

Edson Coronato encontrou-me um dia nos anos oitenta, a caminhar pelas proximidades da Av. Santo Amaro, na altura da Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo. Acho que foi em 1988, mais ou menos, quando eu estava a atuar com a banda "The Key", a dissidência d'A Chave do Sol (e pejorativamente conhecida como "A Chave sem Sol"). 

Em 2006, eu ainda não acessava a internet, e soube que ele mandara um depoimento muito bom, por e-mail, a relatar ter visto-me em ação com o Pedra, quando esta banda abriu o show do Uriah Heep, no Via Funchal, em São Paulo, através do site da nossa banda. Mas apesar de eu ter respondido rápido, de forma manuscrita como rascunho, ninguém ajudou-me de imediato e a resposta demorou tanto a ser digitalizada e enviada, que ele deve ter ficado bravo comigo, pois não respondeu-me depois. Se estiver a ler este relato, ficam aqui as minhas sinceras desculpas, e esteja convidado a adicionar-me em qualquer rede social onde eu estiver presente! Vamos relembrar os bons tempos da nossa escola, o nosso time de futebol, o "Universal", e a nossa paixão pelo Rock.
Pollyana Alves    
    Pollyana Alves, em foto bem mais recente, dos anos 2000 

Pollyana Alves e a sua irmã, cujo nome é Eliana Rímoli Alves. E certamente, a sua abnegada família, que foi muita entusiasmada pela música. Foi curta a sua participação, mas Pollyana teve a sua parcela de ajuda, também. Fiquei anos sem o contato pessoal com ela e sua irmã, desde 1978, mas o Laert disse-me em 2011, que elas eram suas amigas na extinta Rede Social Orkut. Recentemente, 2016, finalmente conectamo-nos na rede social Facebook, onde conversamos com bastante entusiasmo.

Eva

Quanto à outra vocalista, Eva (trata-se de um caso lamentável para a narrativa, onde não recordo-me do seu sobrenome), também perdi o contato faz anos. A última vez em que a vi, foi em um ensaio do Língua de Trapo em 1982, na casa dos irmãos Luiz & João Lucas, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo e inclusive eu estive ali como visitante também, pois eu não era mais componente da banda. Também espero que esteja bem e feliz. E a cantar “Mercedes Benz”, a capella, ao estilo da Janis Joplin, como ela gostava de fazê-lo, quando a conhecemos em 1978.

Zé Claudio
    Zé Claudio em ação com o Violeta de Outono, nos anos oitenta

O baterista, Zé Claudio, tocou anos depois no “Violeta de Outono”. Encontrei-me com ele no meio / fim dos anos oitenta, e fiquei contente por vê-lo a tocar em uma banda de renome. Curiosamente, um outro baterista de estreita relação profissional comigo, José Luiz Dinola (meu companheiro de A Chave do Sol; Sidharta, e alguns trabalhos avulsos, e tudo isso relatado também em seus respectivos capítulos, desta autobiografia), tornou-se baterista oficial do Violeta de Outono, muitos anos depois, para reforçar o elo de árvore genealógica em comum, que estabeleci com o grande guitarrista, Fábio Golfetti, fundador dessa significativa banda do Rock brasileiro.

Paulo Estevam Andrade

O guitarrista, Paulo Estevam Andrade, vulgo “Tevão” (apelidado igualmente como: "Paulo Sustenido"), também teve passagem curtíssima pela nossa banda, e logo depois da criação do "Grupo de Poesia e Música" da Faculdade Cásper Líbero, perdi o seu paradeiro. Não sabia de nada sobre ele, desde 1979, quando retomamos o contato recentemente no Facebook, em 2014. Hoje em dia ele é professor e mora na cidade de Marília, no interior de São Paulo. Conversamos então sobre o curto espaço de tempo em que convivemos, no ano de 1979.

Cido Trindade

E vale lembrar também de Cido Trindade, que nunca foi membro oficial da banda, mas acompanhou os seus passos, e chegou a fazer um show ao vivo, como convidado especial, em um momento de reformulação que fizemos, na metade de 1978, e fato relatado devidamente, no texto.

A falar agora do núcleo mais sólido do Boca do Céu :

Wilton Rentero

Wilton Carlos Rentero, a quem agradeço pelo companheirismo, pelo impulso técnico e confiança que transmitiu à banda nos meses em que tocou conosco, em 1977. Não o vejo desde 1978, quando ele saiu da banda, ao alegar que iria dedicar-se ao estudo de violão erudito. Soube pelo Laert, que Wilton apareceu em um show do Língua de Trapo na cidade de Guarulhos-SP, onde mora e trabalha como professor universitário na Universidade de Guarulhos. 

Ele graduou-se em Letras com várias especializações, escreveu muitos livros acadêmicos e é bem atuante no sindicato da sua categoria.
Fica aqui uma menção ao primo dele, que chamava-se Sidnei Miranda (estendido à sua então namorada e hoje, esposa, Adelaide Giantomaso), e que deu muito apoio ao Boca do Céu. Além de ser uma referência para nós, por ser mais velho e hippie dos primórdios do movimento, tendo muitas histórias para contar e com uma bela coleção de discos que colocou à nossa disposição, gentilmente, para a nossa audição. Saudade das visitas que fazíamos à residência dele, no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo, onde varamos madrugadas a ouvir sons incríveis proporcionados por sua vitrola, "Gradiente" (Syd Barrett/Madcap Laughs, entre eles...).


Fran Sérpico
           Fran Sérpico, em foto bem mais atual, dos anos 2000


Francisco Sérpico, que apesar de ter não ter tido a mesma tenacidade (mas é claro, foi uma opção sua por mirar em outros objetivos pessoais), teve a sua parcela de colaboração grande, é claro. Sobre a tenacidade, nada a reclamar, pois foi questão de fórum íntimo e ele detinha as suas outras prioridades em mente e que aliás, diga-se de passagem, garantiu-lhe o sucesso na vida ao levá-lo à uma carreira profissional muito bem sucedida e também pela construção de uma bela família. 

Para falar de sua participação conosco, foi incrível a sua trajetória ao instrumento sem o uso de uma caixa (snare drum), peça fundamental no kit de uma bateria, mas mesmo assim, ele levou adiante. 

A sua generosidade em transformar a própria residência em nosso “QG”, foi imensa. E cabe aqui também um agradecimento à sua família, que suportou-nos por um bom período, com ensaios semanais barulhentos, com direito ao movimento de "entra-e-sai de convidados" etc. Saudade dos ensaios na casa dele, no bairro do Campo Belo, na zona sul de São Paulo, com direito às idas ao recém inaugurado Shopping Ibirapuera, onde causávamos estranheza pelo nosso visual hippie, a contrastar com os playboys ali presentes em profusão. 

Poucos dias antes do natal de 2016, Fran Sérpico deu-nos um presente natalino, inesquecível, ao providenciar enfim a digitalização e edição do histórico vídeo em formato Super-8, que filmamos com a banda a tocar no quintal de sua residência, no dia 12 de junho de 1977. Tal documento tornou-se o único, raro e histórico registro da banda em ação, portanto, nem sei o que dizer para agradecer-lhe por tê-lo guardado nesses anos todos e providenciado a sua digitalização para a apresentação pública, ad eternum. 

Sou-lhe grato também, por haver prestado um bonito depoimento através da Rede Social, Facebook, ao falar sobre o nosso Boca do Céu, e a enaltecer o Laert e eu, Luiz Domingues, por termos profissionalizado-nos e construído carreiras artísticas, incluso com alguns trabalhos posteriores em conjunto, caso do Língua de Trapo, onde nós dois atuamos.

Laert “Sarrumor” Julio
       Laert Sarrumor, em foto bem mais recente, dos anos 2000


Laert Júlio Pedro Jesus Falci... com esse nome de imperador do século XIX, a apresentar essa profusão toda. Ele possui talento nato, criatividade, força de vontade inabalável, poder de organização muito forte, senso de empreendedorismo e é também  um visionário como artista que sempre enxerga na frente.
Com o Laert, saímos do patamar de uma banda sem condições mínimas nem para ensaiar, para algo palpável, ao ponto de pleitearmos planos de expansão etc. 

Laert Sarrumor tornou-se anos depois, conhecido pelo Língua de Trapo, mas também pela carreira como ator (já atuou no cinema, várias vezes), especiais de TV, apresentador de programa de TV, dublador do personagem infantil, Topo Gigio (versão dos anos 1980), escritor de livros arrolados na lista "best seller", redator de humor, radialista (está desde 1983 no ar com o programa, "Rádio Matraca" pela emissora USP FM), cartunista, ilustrador, garoto propaganda em comercias de TV...
O Boca do Céu é o embrião mais remoto do Língua de Trapo, pelo nosso ponto de vista particular, certamente. Eu também toquei no Língua de Trapo em duas passagens por essa banda: desde a fundação, até 1981, e depois no período 1983/1984. Tenho contato permanente com o Laert. E vale relembrar a Dona Olga, a sua mãe, que foi uma persona sempre presente na vida do Boca do Céu.

Osvaldo Vicino
          Osvaldo Vicino, em foto bem mais atual, dos anos 2000

O responsável pela pedra fundamental da fundação da banda e a quem quero agradecer, efusivamente, é Osvaldo Vicino, meu colega da 8ª série, que fez o convite para formarmos uma banda de Rock, em tarde de abril de 1976. 

Foi ele também que teve a paciência em esperar que eu aprendesse o conhecimento fundamental da teoria musical e adestramento ao baixo. O seu segundo impulso para ajudar-me, foi tentar adaptar uma guitarra Giannini velha que ele possuía, como baixo e santa ingenuidade, claro que não deu certo.
Depois disso, ele viu e avisou-me sobre um baixo usado, “handmade” em uma loja de instrumentos velhos e baratos. Se tratou de um baixo cópia de um "Hofner", e assim foi o meu primeiro instrumento. Ele só afinava com o uso de um alicate, pois as tarraxas estavam emperradas, era grosseiro no seu acabamento e tinha captadores horríveis, mas foi o meu primeiro baixo. Adoraria tê-lo comigo hoje, como memorabilia, pois não seria possível para tocar com um simulacro daqueles, mas que importância sentimental teria se estivesse comigo... 

Pois eu tenho essa dívida moral com Osvaldo Vicino, por que foi efetivamente o amigo que abriu-me as portas para a música de uma forma concreta, além dos devaneios que eu tivera até então, antes de ter aceito o seu convite para entrar em uma banda "real", sob um dia de abril de 1976.
Com o Osvaldo, eu retomei contato pela rede social extinta, o Orkut, em 2010. Ele viveu no Nordeste por muitos anos, em Fortaleza, e também no Recife. Tem três filhos, trabalhou em vários hospitais como administrador, e nunca deixou de tocar, apesar de eu ter pensado isso, quando ele saiu da banda (ainda bem!). 

Foto do grupo de Rock cover do Whitesnake, "Snakebite". Osvaldo é o quinto da esquerda para direita entre os seus companheiros. 

Quando retomamos o contato pelo Orkut, fiquei muito contente por saber que ele jamais parou, e teve por anos, uma banda cover do Whitesnake, chamada "Snakebite". 

Ele também desenvolveu-se no baixo, e hoje em dia toca os dois instrumentos com desenvoltura. Em 2015, voltou a morar em São Paulo e participou da festa de aniversário do Laert, em maio, ocasião em que infelizmente eu não pude comparecer por estar adoentado na ocasião. Mas em agosto do mesmo ano, ele foi ver-me a tocar com a Magnólia Blues Band e conversamos bastante sobre os velhos tempos.

Osvaldo Vicino e Laert Sarrumor na festa de aniversário do Laert, em maio de 2015, na primeira foto com seu autor do click desconhecido. Luiz Domingues e Osvaldo Vicino em um reencontro em agosto de 2015. Fotos: Lara Pap


Este capítulo de minha trajetória musical está encerrado. 
Viva o Boca do Céu, o verdadeiro “centro de loucos” que promoveu uma “revirada” na minha vida... 



O Boca do Céu em ação, em 12 de junho de 1977. Único documento com imagens da banda em ação, e o mais remoto da minha própria carreira. Filmagem de 1977 a cargo de Nelson Gravalos em formato Super-8. Digitalização e cortesia de Fran Sérpico e pós produção para o YouTube de Jani Santana Morales

Eis o Link para assistir no You Tube:

http://www.youtube.com/watch?v=LHiL27bRGOs

Muito grato, amigo leitor, por ter lido esta etapa inicial do meu relato autobiográfico! 

A vida prosseguiu, e logo eu estaria envolvido com o Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero, que na prática, foi o embrião mais remoto do Língua de Trapo. 

É daqui que segue a minha história, portanto... Língua de Trapo!