sexta-feira, 30 de março de 2018

Crônicas da Autobio - A Desafinação que Abalou a Minha Autoestima - Por Luiz Domingues



Foto promocional da Chave do Sol, de fevereiro de 1987. Click de Tereza Pinheiro. Aconteceu no tempo da Chave do Sol, aproximadamente entre fevereiro e abril de 1987

O vocalista da Chave do Sol, Beto Cruz, sempre insistiu muito para que déssemos apoio vocal ao vivo, e claro que ele tinha razão. Backing vocals sempre enriquecem o arranjo de qualquer canção e além do mais, oferecem um resguardo estratégico ao vocalista solo, que economiza em seus esforços, sobremaneira no refrão, quando tem tal respaldo dos companheiros, a seu favor. O Rubens fora vocalista oficial na fase da banda em que atuamos como trio, portanto sempre fez bons backing vocals quando tivemos vocalistas de ofício. Mesmo caso do Zé Luiz Dinola, que também chegou a cantar solo nos primórdios da nossa banda.
A fazer backing vocals nos shows da Chave do Sol, este da foto em específico, de fevereiro de 1987, no Centro Cultural São Paulo
Mas eu relutava, por que sempre tive consciência que minha voz natural que é muito grave por natureza, não era adequada para vocal solo e mesmo ao fazer backing vocals ocasionalmente, achava a minha voz sem emissão suficiente e com um timbre nada bonito. Contudo, o Beto queria apoio dos três e insistia para que atuássemos como o "Bad Company" e para citar um exemplo mais em voga nos anos oitenta, o "Whitesnake". Então, eis que um dia ele veio com uma proposta para a banda e que praticamente revestiu-se de uma intimação...
Dona Nancy Miranda ao piano, a ministrar uma aula coletiva e foi nesse formato do qual participei algumas vezes no início de 1987. Foto : Revista Isto É

A ideia foi que os quatro matriculassem-se no curso de uma professora de canto, a visar aprimorar os dotes vocais de todos, ele (Beto), incluso, e assim, mediante um arroubo de tomada de consciência coletiva, resolvemos adotar tal providência, que reverteria em um óbvio benefício para a nossa banda, mas individualmente haveria de ser igualmente proveitoso. Dessa maneira, o Beto inscreveu-nos em uma primeira classe super econômica, onde uma aula coletiva ministrada para cerca de 30 alunos, tinha o rateamento monetário como grande atrativo, ao converter-se em uma taxa muito convidativa para os nossos combalidos bolsos. O que não mensuramos no entanto, foi que a aula coletiva pouco poderia contribuir com a evolução, não só nossa, ao pensar na banda, como a de todos os outros alunos ali envolvidos. Primeiro que a professora e sua assistente, não tinham condições para monitorar individualmente ninguém, portanto, a aula consistia de uma boa pauta de exercícios propostos ao piano, mas daí a acompanhar detidamente a evolução de cada aluno, uma praxe vital para uma aula de canto individual, sob critério minucioso, simplesmente não ocorria ali. Dessa forma, todos os exercícios propostos eram feitos por cerca de 30 pessoas e nessa soma de vozes, ninguém acompanhava a respiração e uso do diafragma, item essencial para a evolução de um aluno de canto. Como segundo ponto, quando você canta em meio a muitas vozes, a tendência é que a somatória ofereça a todos, a falsa impressão de uma afinação perfeita e isso anima o aspirante de uma forma absurda. Com a surpresa em ver-se a soltar a voz com emissão e afinação, fomos empolgados para uma segunda, terceira, quarta aula e cada vez mais confiantes, por achar que tais sessões continham quase uma aura mágica, devido a rapidez com a qual estávamos os quatro a soltar a voz, e notadamente eu, que nunca tive uma emissão adequada, sob minha própria avaliação.

Essa professora em questão era badalada no meio musical paulistano nessa época e sua fama era a de que mais do que preparar cantores para o canto lírico no mundo da música erudita, havia tornado-se uma espécie de celebridade por ministrar aulas para praticamente todos os cantores do então na moda, “BR-Rock” oitentista. E boatos davam conta que muitos faziam aulas obrigados pelas suas respectivas gravadoras, com tal curso sendo tratado como condição sine qua non para assinatura de contratos (veja, leitor : não estou a afirmar isso, categoricamente, mas apenas a repercutir um boato que corria a boca pequena nessa época). A professora chamava-se, Nancy Miranda, e de fato, sabíamos que era a instrutora de muita gente já bem famosa naquela década.



Animados pela falsa sensação de melhora imediata que as aulas coletivas forneciam, resolvemos fechar um pacote mais caro, onde a professora lidaria conosco com maior proximidade. Não dava para fazer aulas individuais, o ideal, mas nossos respectivos bolsos aceitaram a ideia de uma aula em quarteto, fechada para a nossa banda e nesse caso, além da maior atenção da professora, sentir-nos-íamos mais a vontade, sem compartilhar espaço com estranhos, mas a trabalhar em nossa turma, conforme ensaiávamos regularmente, há anos. Então, começamos a fazer a tal aula semanal, nem sempre com Dona Nancy no comando, mas vez por outra com sua assistente de confiança que era bem preparada, não posso negar e formada pela própria Nancy. Aí, com a professora atenta e exercícios mais difíceis, a realidade foi outra e o curso ficou muito mais puxado, já não a existir aquela euforia sem fundamento ao dar conta de que eu estava a cantar em alto nível. Tudo bem, jamais serei o Tom Jones, não nasci com esse talento e caixa torácica adequada para tal, mas ao desenvolver o mínimo para fazer backing vocals afinados, no meu caso, já estaria satisfeito, sendo bem realista. Contudo, um dia, um duro golpe acertou em cheio a minha autoestima...
Em um dado exercício proposto pela Dona Nancy, eu não alcancei a nota exigida e ao desafinar feio, nunca esqueço-me dela a tirar a atenção das teclas do piano e a fulminar-me com os olhos. Contudo, foi além disso, pois não conteve-se ao soltar uma palavra em sinal de desagrado : - “credo” !

Mais que envergonhado pela reação de desapontamento da parte dela, passou-me pela cabeça que aquilo era inútil e sendo bem dispendioso, não falei nada aos colegas na hora, mas já fiquei determinado a não prosseguir com as aulas. Bem, hoje em dia eu penso bem diferente e depois de ter também ministrado aulas de música por muitos anos, sei bem que qualquer pessoa, desde que tenha boa vontade e paciência, pode aprender a tocar qualquer instrumento e cantar. O comentário dela, apesar de sincero e espontâneo, poderia tranquilamente ter sido evitado e essa lição eu levei para a minha atividade como professor, onde jamais desestimulei um aluno, e pelo contrário, minha estratégia de atuação pautou-se de forma diametralmente oposta, ou seja, investia no aluno, ao estimular seus progressos, ainda que fossem lentos. 

E no meu caso, voltando a falar dessas aulas de canto, eu não deveria abater-me e pelo contrário, prosseguir, mesmo porque a minha intenção era a de melhorar ao ponto de tornar-me útil para a minha banda, apto a fazer backing vocals afinados, nada mais que isso, sem nenhuma pretensão a vir a ser um “cantor”. Ameniza a minha culpa por ter desistido, o fato de que as aulas eram bem caras. Professora tratada como celebridade Pop na época, Nancy cobrava caro, e assim surfava nessa badalação adquirida, no que estava certa, não cabe críticas de minha parte sobre esse procedimento por ela adotado, mas meu bolso não acompanhava e sendo um luxo que não podia manter, desisti, mesmo. Meus colegas continuaram o curso por um tempo a mais, mas não muito e também por sentir o vilipêndio à carteira, desistiram, igualmente.
   A soltar a voz na Patrulha do Espaço, entre 1999 e 2004...

Muitos anos passaram-se e só na vontade, e sem estudo adequado, forcei cantar e nos trabalhos que realizei com bandas como, Sidharta; Patrulha do Espaço e Pedra, eu cantei ao vivo e gravei muitos discos, com algumas faixas, inclusive, a conter a minha voz bem saliente e convincente. Cantei também no "Nudes" do Ciro Pessoa e dei uma relaxada com Os Kurandeiros e os colegas cobram-me apoio. Eu tenho vontade, mas sendo uma banda híbrida com trabalho autoral a mesclar-se com muitas releituras, a quantidade de letras a decorar, desestimula-me, pois se a minha memória de longo alcance é muito boa, a de curto, é péssima...  mas estou a querer voltar a exercer esse apoio, que inclusive é prazeroso, não posso negar.
Então foi assim, mais ou menos entre fevereiro e abril de 1987, frequentei as aulas de Dona Nancy Miranda e passei de uma euforia falsa em achar estar a cantar bem, à decepção, através de uma interjeição verbalizada pela dita professora, que abalou a minha combalida autoestima sobre poder cantar, nessa época...