segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 40 - Por Luiz Domingues



Percebi que a Verônica tinha parado de cantar, por que eu a acertara violentamente com o headstock do baixo ! Ela estava com a mão sobre o rosto, e quando a tirou, seu rosto estava vermelho como um tomate, devido ao hematoma gerado. Mesmo assim, continuamos, e só depois do show pude pedir desculpas pelo acidente.
Tive os meus dias como Pete Townshend ali no Victoria, e como ele, também causei acidente pelos excessos cênicos... fora esse acidente do qual ela foi vítima, o que estava a acontecer com a Verônica ? Ela subitamente mudara o seu comportamento para conosco. Se antes era uma moça simples e dócil, passou repentinamente a evitar-nos, e ter rompantes de arrogância.

Passou a ser comum não comparecer ou justificar suas faltas nos ensaios, e nos shows, chegava atrasada toda a noite. Evitava-nos no pós-show, ao máximo, ao sumir, quando despedia-se de nós, de uma forma seca. Então descobrimos tudo, quando ela comunicou-nos que o seu cachet seria pago em separado do nosso, doravante, conforme já havia combinado com o diretor do Victoria Pub. A verdade foi que haviam influenciado-a para cumprir aqueles shows contratados, e livrar-se de nós, ao partir para uma carreira solo, com a efêmera promessa de um contrato com uma gravadora major, a garantir-lhe gravação de um disco, uma nova banda contratada para acompanhá-la, e ela a assumir-se como uma estrela absoluta.

Inebriada por esses sonhos, passou a hostilizar-nos, por dar como certa a sua escalada meteórica rumo ao sucesso no patamar mainstream. Sendo assim, quando acabou o contrato com o Victoria Pub, ela saiu sumariamente d'A Chave do Sol, e nós ficamos sem perspectivas imediatas, pois todo o embalo maravilhoso que havíamos pego desde outubro de 1982, esvaiu-se, porque estávamos sem outras datas, e por ter que procurar as pressas um novo vocalista ou voltarmos ao formato como Power Trio, e ter que reestruturar todo o repertório para o Rubens, ou o Zé Luiz cantar. Isso sem contar o prejuízo em perder uma vocalista do potencial sensacional que ela tinha. Se tivéssemos prosseguido, e com a sorte de arrumarmos um produtor... dali em diante, experimentamos a nossa primeira curva descendente na história de altos e baixos da banda. Relatarei a seguir essa fase dura que durou três meses sob aspereza.
Essa foto foi clicada durante a realização de um soundcheck no Victoria Pub,  sem a presença da Verônica. Tornou-se irônica, pois sua súbita debandada obrigou-nos a voltarmos ao formato de um Power-Trio, doravante.



Continua... 

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 39 - Por Luiz Domingues

              
                       














Zé Luiz Dinola, em um desses shows do Victória Pub, em 1983

5) Sobre A Chave do Sol e o Victória Pub :

Na reunião em que fechamos o contrato, o diretor da casa advertiu-nos apenas sobre não exagerarmos no visual "Riponga" (palavras e preconceito, dele), além de não falarmos palavrões ao microfone (senti-me dentro do filme : "The Rose"...-"hey you, motherfuckers"...), e pediu-nos para tocar músicas conhecidas. Não havia restrição para que tocássemos músicas autorais mescladas, mas desde que não houvesse exagero nessa determinação. O pagamento ficou acordado para ser realizado semanalmente. O primeiro show, no dia 1° de fevereiro de 1983, foi realizado no palco pequeno, conforme já mencionei anteriormente. Mas logo no segundo dia, perceberam que a nossa banda jamais poderia tocar em um palquinho ao estilo "lounge" de piano bar, e sendo assim,  escalaram-nos para o Palco Principal, a partir do segundo dia.  Tocávamos várias músicas nossas, mas evitávamos as instrumentais muito longas, para privilegiar o talento vocal da Verônica Luhr. 


Verônica e Rubens na linha de frente, Zé Luiz na retaguarda... A Chave do Sol no Victoria Pub'1983 !

A nossa performance era frenética. Eu; Verônica, e Zé Luiz, principalmente, entrávamos a todo vapor. Eu exagerava mesmo, pois estava 100% seguro como músico, e permitia-me uma mise-en-scenè frenética, sem prejuízo ao desempenho musical.

O Rubens sempre foi mais comedido e costumava tocar concentrado, e estático. Mas para compensar, tinha os seus arroubos frenéticos e "Hendrixianos" ao tocar a guitarra virada atrás da cabeça, ou mesmo a tocar com os dentes, e claro que eram momentos a mais sob euforia, cujo momento aguardávamos como se fôssemos mágicos, que sabem exatamente onde usar o seu melhor truque, no clímax de seu show. A Verônica continuava no entanto na sua toada em beber antes de subir ao palco, e extrapolar nos trejeitos, ou nas bobagens ditas ao microfone. Mas algo pior estava por acontecer... antes que comece a contar isso, preciso mencionar que uma vez, eu cometi um acidente que poderia ter tido gravidade. Estávamos a tocando a canção, "O Contrário de Nada é Nada", dos Mutantes, certa vez, quando na euforia da minha mise-en-scenè, eu fiz um movimento muito brusco com o "headstock" do baixo (a chamada "cabeça", onde ficam as tarraxas que afinam o instrumento). Estava alucinado a tocar, e nem senti que dei um tranco em alguma pessoa...

Eu, Luiz Domingues, a viver os meus dias como uma espécie de "John Paul Jones da Pauliceia", com o meu Fender Jazz Bass a roncaro forte, plugado em um amplificador, "Acoustic", cortesia do amigo, Nelson Brito.

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 38 - Por Luiz Domingues



4) Ainda a falar sobre os bastidores, lembro-me de uma específica noite, quando tivemos a sorte em tocar para animar uma festa organizada pela Rede Globo, que comemorava o encerramento de uma mini série, chamada : "Bandidos da Falange", que abordava o submundo do crime no Rio de Janeiro etc e tal. Toda a equipe técnica; diretores e muitos atores esbaldaram-se ao som d'A Chave do Sol. Lembro-me de algumas personalidades tais como a Betty Faria; Roberto Bonfim; Gracindo Júnior, e Júlia Lemmertz, entre outros, a dançar enquanto tocávamos.

 
 

 
Eis acima, os atores e atrizes que citei no texto : Roberto Bonfim; Betty Faria; Julia Lemmertz e Gracindo Junior
 
Informações sobre a mini-série "Bandidos da Falange" :

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandidos_da_Falange


E também foram notórios os shows com artistas famosos que ocorreram ali. Naquela época, todo o pessoal do mundo do BR-Rock 80's que estava a explodir na mídia, apresentou-se ali com multidões a assisti-los, e muita badalação. Os shows com artistas grandes do mainstream, aconteciam às sextas e sábados. Nunca fomos assistir nenhum, mesmo por que não interessávamo-nos por aquela turma oitentista, com menção honrosa ao Barão Vermelho, e ao Herva Doce, que não foram frutinhas da árvore punk, e mantinham as suas raízes no Rock e no Blues. E que fique bem claro, nessa primeira safra de artistas, o BR-Rock 80's fora predominantemente carioca (com exceção do Paralamas do Sucesso, mas estes estavam radicados no Rio, também). Paulistas e brasilienses começaram a ter espaço após, 1984. Mas tivemos um contato discreto com uma delas, em uma sexta-feira onde havíamos passado ali só para apanhar o nosso equipamento, que não fora possível remover na madrugada anterior, quando tocamos. 
Foi em uma tarde quente de sexta, quando vimos dois carros com placas do Rio de Janeiro, abarrotados com equipamentos e cabeludos a chegar. Tratou-se do Herva Doce a aportar na Alameda Lorena em São Paulo. Foi engraçado ver os rapazes em uma situação não glamorosa, esbaforidos da viagem, e a descarregar o carro, eles mesmos, sem apoio da parte de roadies. Lembro de um dos carros ser uma "Belina", anos setenta, abarrotada com coisas.

O guitarrista, Marcelo Sussekind, perguntou-nos a hora certa. Engraçado o destino, pois alguns anos depois, o Rubens em sua fase pós-Chave do Sol, e pré Patrulha do Espaço, chegou a gravar um LP com uma banda que prometera estourar. Esse disco foi gravado no Rio de Janeiro, com toda a mordomia de gravadora major, e o Marcelo Sussekind seria o seu produtor... só a complementar, acho (não tenho certeza, corrijam-se se for o caso, por favor), que a tal banda chamar-se-ia : "Catedral"). Particularmente eu tinha um respeito grande pelos músicos do Herva Doce, pela sua árvore genealógica boa. ram oriundos da Bolha, e do Bubbles, além de ramificações com Os Mutantes, Veludo etc. Não eram da turminha do "Do It Yourself", pelo contrário, tinham história e estrada.
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 37 - Por Luiz Domingues


3) Sobre os bastidores :

Conforme já descrevi, o Victoria era uma casa labiríntica. A fachada não dava ideia do quanto era grande, e com tantos emaranhados de ambientes; câmaras secretas; saídas inusitadas para outros ambientes etc. 

A decoração era riquíssima em detalhes, e fora um luxo naquele começo de anos oitenta, já ter um serviço de TV interna, com monitores em todos os ambientes, e a exibir filmes sob orientação Sci Fi, recém lançados tais como  : "Tron", e "Blade Runner", por exemplo. O ambiente era burguês, mas apesar de ser dispare, não havia nenhuma hostilidade por parte do público formado predominantemente por playboys. Pelo contrário, mesmo não sendo Rockers, bastava qualquer uma das três bandas fixas começar a tocar, e eles dançavam; gritavam e aplaudiam. Na verdade, queriam mesmo divertir-se; beber; drogar-se, e arrumar parceiras sexuais. Muita gente do meio musical circulava ali. Lembro-me do Peninha Schimdt, Kid Vinil, e outras figuras. 

Uma vez, um sujeito cujo nome não recordo-me, "alugou-nos", eu e Rubens, por uns vinte longos minutos... com cabelo cor de laranja e corte de cabelo esquisito, bem ao gosto do modismo "New Wave", abordou-nos ao dizer ser produtor musical. Queria que o procurássemos no decorrer da semana, para que entregássemos o nosso material, pois (supostamente), dizia que esteve envolvido na produção dos shows do Van Halen, que viera recentemente ao Brasil, e aventava a possibilidade em colocar-nos para "abrir" o Kiss, que segundo ele, viria em junho. Deu-nos várias palhetas customizadas do Van Halen, e seu cartão. Não era empresário, devia ser um subalterno, mas ficava a circular pela noite a botar banca de. 
Só fez uma observação : teríamos que cortar os cabelos à New Wave, e repaginar o figurino. Ao pensar bem, ele não estava errado. Éramos anacrônicos em 1983, principalmente eu e o Rubens, com visual de Rockers setentistas. O rapaz falou em cada um ter o cabelo de uma cor diferente, e usar aquele visual de Duran Duran... se fosse algo realmente concreto ao menos... mas sair por aí a modernizar-se à toa, seria uma estupidez, principalmente pelo fato do principal quesito ser incompatível com esse visual trôpego : teríamos que mudar o som também...


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 36 - Por Luiz Domingues


2) Entre o pessoal do Tutti-Frutti, o convívio foi muito bom com o Luiz Sérgio Carlini. Logo o líder da banda, mostrou-se o mais receptivo, juntamente com o segundo guitarrista, Ronaldo Paschoa.
O baixista era Renato Figueiredo, e o baterista era o Marinho Thomaz, ex-Casa das Máquinas, e já no vocal, outro ex-Casa das Máquinas, Simbas, que foram mais reservados. A banda soava muito boa ao vivo, com o Simbas a cantar muito, e cumprir as vezes de um frontman  / entertainer, com a desenvoltura dos velhos tempos. Infelizmente, mesclavam muitos covers, talvez sob uma proporção 70 / 30 %. 

Mas devo reconhecer que algumas interpretações eram brilhantes.
O solo em duo que Carlini e Paschoa faziam em "Hotel California", dos Eagles, foi memorável em todas as noites em que os vi a tocar tal canção. Lembro-me em ter conversado com o Carlini pela primeira vez em uma dessas tardes, no boteco ao lado do Victoria Pub. Fiquei muito contente em poder conversar com ele, e verificar que ele era extremamente humilde e acessível, sem nenhum estrelismo. 

Recordo-me também de num outro dia, onde ele mostrou ao Rubens o seu novo amplificador, uma espécie de coqueluche do momento, e tipicamente oitentista, aquele cubo da marca "Roland", cor de laranja.Parecia uma caixa de sapatos. Alguns dias depois, o Rubens comprou um combo da Music Man, e o Carlini apreciou muito o som, que ultrapassava o Roland e muito. Em uma outra ocasião, um outro membro do Tutti-Frutti chegou em uma tarde ao Victoria Pub, e sem ninguém para ajudá-lo a descarregar uma bateria de seu carro. Eu e o Zé Luiz fomos ajudá-lo, mas diferente do Carlini e do Paschoa, esse componente mantinha normalmente aquele distanciamento, do gênero : "eu famoso, vocês desconhecidos". O Zé aborreceu-se bastante com tal postura altiva, mas eu relevei, e não senti-me incomodado. Em um outro dia o Zé deu o troco, ao gerar uma situação desagradável que prefiro não revelar...

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 35 - Por Luiz Domingues

E dessa forma, fui apresentado a Nelson Brito e Paulo Zinner, que depois, apresentaram-me ao Raul Müller. Instantaneamente estreitamos amizade pela proximidade de ideais, e logo de imediato, fui ser ajudado gentilmente pelo Nelson, conforme já revelei. Isso por que eu estava sem amplificador, e a casa fornecia equipamento de palco (backline), mas por alguma circunstância excepcional, esse trato foi rompido, e assim, vimo-nos na situação em não ter equipamento disponível, mais. Todavia, o Nelson prontamente ofereceu o seu amplificador e caixa, de marca Acoustic, um equipamento que sempre fora um sonho de consumo meu, pois cresci a ver fotos e vídeos de muitos ídolos internacionais, a usá-los. John Paul Jones; Gary Thain; Tim Bogert; John Deacon, e tantos outros mestres das quatro cordas, por exemplo. E de fato, tratava-se de um amplificador maravilhoso, pois oferecia possibilidades em termos de equalização, com muito brilho, e um peso de arrasa-quarteirão. Meu Fender Jazz Bass roncou forte nesses quatorze shows... 

E o Fickle Pickle, apesar de não tocar músicas autorais, era uma banda impressionante ao vivo. Tocavam The Rolling Stones; The Beatles e The Who , principalmente, mas com uma volúpia tal, que pareciam estar no Marquee Club de Londres, nos anos 1960. Eu apreciava muito a performance deles.

2) Outra curiosidade, foi que um dos dirigentes do Victoria Pub, tinha muitos contatos no meio fonográfico, e dessa forma, propôs aos instrumentistas do Fickle Pickle, que formassem uma banda paralela, onde ele mesmo seria o vocalista.

Dessa forma, a aproveitar-se do "Boom" do Br-Rock 80's que estava só a nascer, Paulo; Nelson, e Raul gravaram e lançaram com esse sujeito, um single. A banda tinha estética "New Wave", para seguir os ventos do Pós-Punk, e recebeu o ridículo nome de : Pepino Irritadiço"... 
Os amigos não gostavam disso, mas claro que aceitaram e gravaram, pois foram oportunidades e nesses termos, não podiam mesmo dar-se ao luxo em recusar... 

A banda tinha ainda duas "vocalistas", e na verdade, era uma espécie de "Trio Los Angeles" do Pseudo-Rock New Wave... o som que produziam, era realmente uma porcaria, perdoem-me pelo termo forte, e pela sinceridade. Entre nós, o Zé Luis Dinola apelidou a banda como : "Cenoura Raivosa". 
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domingo, 29 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 34 - Por Luiz Domingues


Como tenho vários fatos a contar sobre esses shows no Victoria Pub, mas sem relacionar ao dia específico, falarei sem essa preocupação. Que fique subentendido que aconteceram durante esses quatorze shows que fizemos ali, entre 1°de fevereiro e 6 de abril de 1983.

1) Primeiro foi o convívio com o pessoal do Fickle Pickle. Logo que entramos no Victória Pub, a primeira pessoa que reconheci, foi o Catalau. Eu o conhecera em 1980, por ele ser amigo dos membros do Terra no Asfalto, minha ex-banda cover, e amigo de vários amigos em comum daquela turma de freaks do bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo.


A famosa pensão São Geraldo, no bairro das Perdizes, onde Geraldo "Gereba" e Wilson Canalonga Junior  moravam, e onde muitas reuniões do Terra no Asfalto aconteceram...

Lembro-me em tê-lo conhecido em uma tarde no quarto de pensão onde Wilson e Gereba dividiam na Travessa São Geraldo. Ele estava lá com uma guitarra Fender Telecaster, e foi naquela fase onde já sabíamos que o Fernando "Mu" sairia da banda. Chegou-se a cogitar a entrada dele na banda, para ficar então uma formação com três guitarras. Mas isso não avançou, e ele culminou em não entrar. Alguns meses depois, eu e Paulo Eugênio fomos visitá-lo em seu apartamento da Rua Ministro Godoy, nas Perdizes. Foi uma fase de reformulação da banda, mas que não deu certo novamente, pois o Aru Júnior estava a voltar dos Estados Unidos e assumiria a vaga deixada pelo Gereba, que mais uma vez estava a viajar para o Nordeste. Mas isso eu revelo no capítulo do Terra no Asfalto, detalhadamente e no momento oportuno da cronologia. 

Nessa visita, o Catalau recebeu-nos, e ficou a estabelecer exercícios exóticos vocais e faciais que acabara de aprender, por ter lido o livro de um guru indiano. Foi hilário, mas ao mesmo tempo, o meu lado hippie vibrou com essa loucura que parecia perdida no tempo, em contraste com a fase dura em que estávamos a ingressar.
E foi o dia 18 de setembro de 1980... por quê gravei essa data ? Simplesmente fora o aniversário de dez anos da morte do Jimi Hendrix, e foi exibido um especial na TV sobre o Jimi Hendrix, no instante em que estávamos ali. Por isso, fiquei contente em encontrar o Catalau, ali em fevereiro de 1983, e ver que a banda dele estava bem, a tocar de uma forma fixa em um lugar badalado da noite paulistana.

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 33 - Por Luiz Domingues


Foto promocional do Harppia no início dos anos oitenta, com Hélcio Aguirra no line-up da banda. Ele é o segundo da esquerda para a direita.

Conheci o Hélcio quando ele tocava no Harppia. Lembro em vê-lo num evento ao ar livre, tocando com essa banda, chamado: "Praça do Rock", realizado na concha acústica do Parque da Aclimação, onde A Chave do Sol tocaria também algumas vezes, futuramente. Isso só aconteceria em 1984. Mas só tornamo-nos amigos de fato, alguns meses depois dessa apresentação, quando encontramo-nos em um show no Teatro Lira Paulistana (não lembro-me ao certo, mas acho que foi um show duplo, com apresentações das bandas : Korzus e Sabotage), e nessa ocasião, voltamos juntos no mesmo ônibus que servia-nos em comum. 

Para falar do público do Victoria Pub, a sua reação costumava ser boa, no sentido de que dançavam e aplaudiam os shows, mas na prática, não fora um público Rocker. Eram playboys em sua maioria, e não estavam nem aí para ninguém, nem mesmo para o Tutti-Frutti, supostamente com muito maior fama. Aliás, o Tutti tocava mais covers que suas músicas autorais naquelas apresentações. Para nós, era ótimo estar ali pela badalação toda, a oportunidade em conhecer pessoas do mundo empresarial e fonográfico; artistas famosos etc. Logo mais farei um relato de curiosidades sobre esses shows.

Contudo, euforia no sentido de deslumbramento, acredito que não. Estávamos felizes e confiantes. Quem deu uma balançada, infelizmente, foi a Verônica, conforme relatarei logo mais, e decorrente dessa instabilidade dela, precipitou-se a sua saída da banda, de uma forma triste.

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 32 - Por Luiz Domingues


Nessa época em que conheci o Fickle Pickle, eles haviam abandonado a questão autoral quase completamente. Tocavam 99 % de covers, e a base era Rolling  Stones; The Beatles, e The Who. Anos depois, a banda voltou em paralelo ao Golpe de Estado, e chegou a lançar disco autoral, com o André Christovam de volta à guitarra. 

O Catalau era o vocalista, mas eu já o conhecia desde 1980, pois ele era amigo do pessoal do Terra no Asfalto, banda cover em que toquei naquela época. Sim, essa formação do Fickle Pickle, fora sem dúvida o pré "Golpe de Estado". Representava 3/4 do Golpe, que só nasceria, contudo, ao final de 1985. Nessa época eles nem conheciam o Hélcio Aguirra. Eu conheci o Hélcio antes deles, em 1984, só para você, leitor, ter uma ideia. 

Tocar no palco principal do Victoria Pub, era sensacional, pois a estrutura era muito boa, e o ambiente lembrava o de um cabaré europeu dos anos 1920. E havia a questão do status quo, pois ali era que efetivamente chamava-se a atenção, visto que no palco secundário, o ambiente era mais ao estilo "lounge", para tocar bem baixo, e passar despercebido. E verdade... quase todos os álbuns do Golpe de Estado tem agradecimento à minha pessoa.
De fato, eu já ajudei o Golpe em muitas ocasiões, mas eles (mesmo antes de existir como banda, propriamente dita), que começaram a ajudar-me nessa época do Victória Pub. O fato é que eu estava sem amplificador nessa época, e usei o amplificador do Nelson nessas apresentações no Victoria. O Nelson mal havia conhecido-me, e disponibilizou o seu equipamento, em uma gentileza que selou a nossa amizade, de forma instantânea. Fora o prazer de tocar com um amplificador que era o meu sonho de consumo, e a última foto deste capítulo, explica o por quê disso...


Nunca esqueci-me dessa ajuda, e dali em diante, o ajudei sempre que pude, sob uma retribuição eterna.


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sábado, 28 de dezembro de 2013

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 4 - Por Luiz Domingues

Eu diria que logo no primeiro instante, tratávamos essa diversidade como o nosso maior trunfo. O fato de ser uma banda aberta a várias sonoridades, deu-nos muita esperança em alcançar o mainstream, pois o nosso espectro artístico estava aberto a um público muito mais abrangente do que nossas bandas pregressas mais recentes (Patrulha do Espaço e Big Balls, só para citar duas), essas sim, fechadas em um nicho restrito do Rock underground. No início, almejávamos agregar os fãs menos radicais de nossas bandas de Rock mais recentes, mas poder atingir também fãs do Jota Quest; Skank; Nando Reis, e parcelas de público jovem adulto, seguidores de MPB então "moderna" (Lenine; Zeca Baleiro, Marisa Monte etc), e até o nicho da Black Music.

Com o passar do tempo, essa extrema abertura estrangulou-nos ironicamente sob um outro sentido, eu diria, não artístico, nem midiático, mas no setor empresarial, pois sem conseguir alavancar voos mais altos, os espaços no underground mostraram-se mínimos para a nossa sonoridade. Esse fator foi decisivo para sufocar a banda e matá-la por inanição em um momento futuro, mas uma volta seguir-se-ia mais para a frente (muito longe para falar disso ainda...). Todavia, acredito que no decorrer da narrativa, isso ficará ainda mais claro. Nesses primeiros ensaios o clima mostrava-se com muita camaradagem e descontração. Foi um bálsamo estar em um ambiente de trabalho leve.

Convencionou-se que os ensaios dessa nova banda seriam as segundas, por que três de seus cinco membros, atuavam em trabalhos musicais paralelos ou como side-man de artistas da MPB, caso do guitarrista Tadeu Dias, com Simoninha, ou bandas cover na noite, caso de Alex Soares e Marcelo "Mancha". Eu já era bem experiente na época, e sabia que isso era um problema e uma verdadeira bomba relógio ativada para explodir na frente, mas levantar essa questão ali seria causar um tumulto desnecessário, visto que todos os que tinham esses impedimentos sentir-se-iam incomodados, e negariam que essa vida dupla poderia refletir negativamente no destino da banda autoral que estávamos a criar.

Além do mais, eu fui o último a chegar e para ir além, não tenho essa característica de fazer cobranças, quem conhece-me, sabe que sou flexível e paciente. As primeiras músicas que praticamente já estavam prontas, fecharam-se com a minha entrada, e a definição de linhas de baixo. Os arranjos foram definidos e logo a seguir, mostrei uma ideia de balada que eu tinha, e deveria ter sido aproveitada pela Patrulha do Espaço, mas não aconteceu naquele trabalho. O Xando desenvolveu-a, criou letra e nasceu assim: "Amanhã de Sonho".

O baterista, Alex Soares, em foto de Grace Lagôa, no final de 2004

Poxa... era uma balada Pop, com condições de tocar no rádio, ser trilha de novela, mas ao mesmo tempo de um nível acima de qualquer suspeita, para provar a nós mesmos, que poderíamos trilhar um caminho interessante, ao almejar voos maiores, sem ter que apelar. No entanto, o clima ameno dos primeiros ensaios ficou um pouco tenso quando o Xando ligou-me após um ensaio para expor uma situação que estava por incomodá-lo, em relação ao vocalista, Marcelo "Mancha". Essa situação não era pessoal, tampouco técnica, mas de ordem artística, no tocante à identidade dele para com o trabalho. Após expor os seus motivos, entendi e concordei com a argumentação.



Continua...