terça-feira, 30 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourréebach - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues


Chegando ao final, hora de agradecer aos amigos e familiares que apoiaram a nossa banda. Os colegas que gravitaram nos primórdios da formação do Boca do Céu em 1976, invariavelmente colegas da oitava série do curso fundamental da Escola Municipal Maria Antonieta D’Alckmin Basto, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Além dos que foram membros da banda, cito Gabriel; Nelson e Toninho que eram colegas de classe e acompanharam com constância no início a nossa movimentação para formar a banda, além de outros tantos, incluso colegas que conhecia desde 1968 (Grupo Escolar de Vila Olímpia) e outros tantos de 1973 (Ginásio Estadual de Vila Olímpia), em diante e que com maior ou menor profundidade, observaram nossos esforços nessa determinação. 
Irmãos Vicino em foto de 1976, bem nos primórdios do Boca do Céu. Osvaldo tocando na companhia de suas irmãs. Acervo e cortesia de Osvaldo Vicino 

Sou muito grato à família do Osvaldo Vicino, na figura de seu pai que era / é um gentleman; sua mãe (in memorian), e irmãs que torceram bastante e apoiaram-nos, além de Nelson, namorado de sua irmã Beth Vicino pela filmagem da banda num Super-8 em junho de 1977. 

Agradeço à família de Fran Sérpico que aturou-nos por muitos ensaios barulhentos, além das sessões de televisão na sala de estar da família, quando o ensaio dava pausa para assistirmos o programa “Rock Concert” da Rede Globo de Televisão, onde grudávamos nossos olhos e ouvidos da introdução da vinheta, mostrando uma colagem de imagens de shows de Rock de bandas clássicas setentistas internacionais ao som da canção “Led Boots”, do LP “Wired”, de Jeff Beck, até o último segundo... 

A figura sensacional de Dona Olga (in memorian), mãe do Laert Sarrumor, que protagonizou muitas histórias legais naqueles anos todos. E acredito que sua torcida pelo filho, que era impressionante, produziu uma energia vitoriosa que acompanhou-o doravante, tornando-o um artista celebrado que é, e com todos os méritos. 

O primo freak do Wilton Rentero, Sidnei Miranda (e sua simpática namorada, hoje esposa, Adelaide Giantomaso), que era uma figura sensacional, com mil histórias fascinantes sobre o movimento hippie no Brasil. Saudade do convívio que era super prazeroso pelas conversas, hospitalidade e muitos sons incríveis advindos de sua pick-up alimentada por uma coleção de discos primorosa. 

A família de Pollyana Alves, nas figuras de seus pais e sua irmã, Eliana Rímole Alves, que eram pessoas de uma docilidade impressionante. A acolhida em seu lar para os nossos ensaios, foi mais que uma gentileza, pois sentíamos o entusiasmo cativante deles em torcer pelo nosso sucesso.
A turma do bairro do Tatuapé que gravitava em torno dos meus primos que lá moravam e misturavam-se aos meus colegas de escola, em conexões comuns até por coincidência. Cito Canton; Cri; Amaury Martins; Alcides “Cidão” Trindade (Cido); Eduardo Viscome; Chaím; Luiz Antonio Galvão; Norinho, Fábio Malatesta; “Piu-Piu”(in memoriam); “Cabelo”; Marcos e Regina de Fátima Nunes Galassi, que foi minha namorada na época, e mais outros que fogem-me da lembrança seus nomes (perdão !!); das turmas do meu colégio, Oswaldo Catalano, em que fui aluno entre 1977 e 1979, além do quase vizinho, mas morador da mesma rua, cujo nome esqueci-me completamente (mil perdões, amigo !!), mas que era um "freak doido" e só de ver-me cabeludo chegando para morar na Rua Jacirendi, mostrou-se hospitaleiro e sem nem conhecer-me direito, tocou a campainha de minha nova residência e emprestou-me os LP’s : triplo do Festival de Woodstock e Mutantes ao Vivo...”I wanna take you higher”, “que os “Anjos do Sul já vão chegar”...
E minha família por apoiar-me, ainda que nessa fase, principalmente pensando no meu pai, era apenas uma tolerância estratégica, pois seguramente que ele não levava a sério os meus esforços. Mas agradeço (é claro), por tudo, principalmente pela paciência nas fases em que a banda ensaiou em nossa residência e não devia ser nada fácil para eles, pois além de não termos condições acústicas adequadas para promover ensaios de uma banda de Rock, pesava contra o fato de nosso equipamento ser precário e sobretudo, nossa condição musical como iniciantes, insípida, portanto, deve ter sido um tormento... 

Aproveitando, estendo o agradecimento aos meus tios e primos que apoiaram diretamente essa etapa, inclusive cedendo sua residência para o Laert estudar no piano da família, fora o apoio e entusiasmo pela banda. Grato, família Barretto Turci, tios José Rubens & Hortência e meus primos; José Rubens Junior; Marco Antonio; Siomara; e Alcione Turci.
E sou muito grato aos companheiros dessa primeira etapa da minha jornada musical...hora de agradecer a cada personagem dessa etapa inicial da minha trajetória musical. Começo falando dos que tiveram participação menor na banda. 

Bernardão “Janjão”
Bernardo Lopes de Almeida (vulgo “Bernardão” ou “Janjão”), foi o terceiro membro do grupo, além de Osvaldo e eu no início. Convivemos desde 1974, como colegas de escola, e também dividimos sonhos rockers. Ouvindo os discos do “Deep Purple”; “Nektar” e tantas outras bandas que adorávamos. Fora “Mutantes”, cujo LP “Tudo Foi Feito pelo Sol”, ele sabia de cor e salteado. Fomos juntos ver o show do Rick Wakeman em 1975...
Sobre o Bernardo, perdi o contato desde que saiu do Boca do Céu, em 1976. Espero que esteja bem !
Edson Coronato
Edson Coronato, a quem apelidávamos de Edson "Coverdale", embora gostasse mais do Ian Gillan...(que ironia !). Sujeito cem por cento bacana, e certamente o melhor centroavante de nossa escola, no futebol. Edson Coronato encontrou-me um dia nos anos oitenta, andando nas proximidades da Av. Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Acho que foi em 1988, mais ou menos, quando eu estava na dissidência da Chave, "sem Sol". Em 2006, eu ainda não acessava a internet, e fiquei sabendo que ele mandou um depoimento bacana, relatando ter visto-me em ação com o Pedra, abrindo o Uriah Heep, no Via Funchal em São Paulo, através do site da banda. Mas apesar de eu ter respondido rápido, ninguém ajudou-me de imediato e a resposta demorou tanto a ser digitalizada e enviada, que ele deve ter ficado bravo comigo, pois não respondeu depois.
Se estiver lendo este relato, ficam aqui as minhas sinceras desculpas, e esteja convidado a adicionar-me em qualquer rede social onde eu estiver !! Vamos relembrar os bons tempos da nossa escola; nosso time de futebol, o "Universal", e nossa paixão pelo Rock.
Pollyana Alves    
             Pollyana Alves em foto bem mais recente, dos anos 2000 

Pollyana Alves e sua irmã, cujo nome é Eliana Rímoli Alves. E certamente, sua abnegada família, que era entusiasmada pela música. Foi curta a sua participação, mas teve sua parcela de ajuda, também. Fiquei anos sem contato pessoal com ela e sua irmã, desde 1978, mas o Laert disse-me em 2011, que elas eram suas amigas na extinta Rede Social Orkut. Recentemente, 2016, finalmente conectamo-nos na rede social Facebook, onde conversamos com bastante entusiasmo.

Eva

Quanto à outra vocalista, Eva (um caso lamentável para a narrativa, onde não recordo-me do seu sobrenome), também perdi o contato faz anos. A última vez que a vi, foi num ensaio do Língua de Trapo em 1982, na casa dos irmãos Luiz & João Lucas, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Também espero que esteja bem e feliz. E cantando “Mercedes Benz” "a capella", ao estilo “Janis Joplin”, como gostava de fazê-lo quando a conhecemos em 1978.

Zé Claudio
    Zé Claudio em ação com o Violeta de Outono, nos anos oitenta

O baterista Zé Claudio, tocou anos depois no “Violeta de Outono”. Encontrei-me com ele no meio / fim dos anos oitenta, e fiquei contente por vê-lo numa banda de renome. Curiosamente, um outro baterista de estreita relação profissional comigo, José Luiz Dinola (meu companheiro de A Chave do Sol; Sidharta, e alguns trabalhos avulsos, e tudo isso relatado também em seus respectivos capítulos desta autobiografia), tornou-se baterista oficial do Violeta de Outono, muitos anos depois, reforçando o elo de árvore genealógica em comum que estabeleci com o grande guitarrista Fábio Golfetti.

Paulo Estevam Andrade

O guitarrista Paulo Estevam Andrade, vulgo “Tevão”, também teve passagem curtíssima, e logo depois da criação do "Grupo de Poesia e Música" da Faculdade Cásper Líbero, perdi o contato, também. Não sabia de nada sobre ele, desde 1979, quando retomamos o contato recentemente no Facebook, em 2014. Hoje é professor e mora em Marília, no interior de São Paulo. Conversamos então sobre o curto espaço de tempo em que convivemos, no ano de 1979.

Cido Trindade

E vale lembrar também de Cido Trindade, que nunca foi membro da banda, mas acompanhou seus passos, e chegou a fazer um show ao vivo, como convidado especial, num momento de reformulação em 1978, e relatado devidamente.

Falando agora do núcleo mais sólido do Boca do Céu :

Wilton Rentero

Wilton Carlos Rentero, a quem agradeço pelo companheirismo; pelo impulso técnico e confiança que transmitiu à banda nos meses em que tocou conosco em 1977. Não o vejo desde 1978, quando ele saiu da banda, alegando que iria dedicar-se ao estudo de violão erudito. Soube pelo Laert, que apareceu num show do Língua de Trapo em Guarulhos, onde mora e trabalha como professor universitário na Universidade de Guarulhos. Graduou-se em Letras com várias especializações; escreveu muitos livros acadêmicos e é bem atuante no sindicato da sua categoria.
Fica aqui uma menção ao primo dele, que chamava-se Sidnei Miranda (estendido à sua então namorada e hoje, esposa, Adelaide Giantomaso), e que deu muito apoio ao Boca do Céu. Além de ser uma referência para nós, por ser mais velho e hippie dos primórdios do movimento, tendo muitas histórias para contar e com uma bela coleção de discos. Saudade das visitas que fazíamos à casa dele, no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo, onde varamos madrugadas ouvindo sons incríveis na vitrola "Gradiente" (Syd Barrett - Madcap Laughs...).


Fran Sérpico
           Fran Sérpico, em foto bem mais atual, dos anos 2000


Francisco Sérpico, que apesar de ter não ter tido a mesma tenacidade, teve sua parcela de colaboração grande, é claro. Sobre a tenacidade, nada a reclamar, pois era questão de fórum íntimo e ele tinha suas outras prioridades em mente e que aliás, diga-se de passagem, garantiu-lhe o sucesso na vida ao levá-lo à uma carreira profissional muito bem sucedida e a construção de uma bela família. Falando de sua participação conosco, incrível a sua trajetória ao instrumento sem o uso de uma caixa, peça fundamental no kit, mas mesmo assim ele levou adiante. Sua generosidade em transformar a sua residência em nosso “QG”, foi imensa. E cabe aqui também um agradecimento à sua família, que aturou-nos por um bom período, com ensaios semanais barulhentos, com direito a entra-e-sai de convidados etc. Saudade dos ensaios na casa dele, no bairro do Campo Belo, com direito às idas ao recém inaugurado Shopping Ibirapuera, onde causávamos estranheza pelo nosso visual hippie, contrastando com os playboys ali presentes. Poucos dias antes do natal de 2016, Fran Sérpico deu-nos um presente de natal inesquecível ao providenciar enfim a digitalização e edição do histórico vídeo em Super 8, que filmamos com a banda no quintal de sua residência, no dia 12 de junho de 2016. Tal documento tornou-se o único, raro e histórico documento da banda em ação, portanto, nem sei o que dizer para agradecer-lhe por ter guardado-o nesses anos todos e providenciado sua digitalização para apresentação pública ad eternum. Sou-lhe grato também, pois prestou um bonito depoimento no Facebook, falando do Boca do Céu, e enaltecendo o Laert e eu, por termos profissionalizado-nos e construído uma carreira artística, incluso com pontos em conjunto, caso do Língua de Trapo.

Laert “Sarrumor” Julio
       Laert Sarrumor em foto bem mais recente, dos anos 2000


Laert Júlio Pedro Jesus Falci... nome de imperador do século XIX, com essa profusão toda. Talento; criatividade; garra; poder de organização; empreendedor; visionário...
Com o Laert, saímos do patamar de uma banda sem condições mínimas nem para ensaiar, para algo palpável, fazendo planos de expansão etc. Laert Sarrumor tornou-se anos depois, conhecido pelo Língua de Trapo, mas também pela carreira de ator (já atuou no cinema várias vezes); especiais de TV; apresentador de programa de TV; dublador do Topo Gigio (versão anos 1980); escritor de livros best Seller; redator de humor; radialista (está desde 1983 com o programa "Rádio Matraca" no ar, na USP FM); cartunista; ilustrador; garoto propaganda em comercias de TV...
O Boca do Céu é o embrião mais remoto do Língua de Trapo, e ele sabe disso. Eu também toquei no Língua de Trapo em duas passagens por essa banda : desde a fundação, até 1981, e depois no período 1983 / 1984. Tenho contato permanente com o Laert. E vale relembrar a Dona Olga, sua mãe. Figura sempre presente na vida do Boca do Céu.

Osvaldo Vicino
          Osvaldo Vicino em foto bem mais atual, dos anos 2000

O responsável pela pedra fundamental da fundação da banda e a quem quero agradecer efusivamente, é Osvaldo Vicino, meu colega da 8ª série, que fez o convite para formarmos uma banda de Rock, em abril de 1976. Foi ele também que teve a paciência de esperar eu aprender o be-a-bá da teoria musical, e adestramento ao baixo.
Seu segundo impulso para ajudar-me, foi tentar adaptar uma guitarra Giannini velha que ele possuía, como baixo e santa ingenuidade, claro que não deu certo...
Depois, viu um baixo usado, “handmade” numa loja de instrumentos velhos e baratos. Era um baixo "imitação" de Hofner, meu primeiro instrumento. Ele só afinava com o uso de um alicate, pois as tarraxas estavam emperradas, era grosseiro no seu acabamento e tinha captadores horríveis, mas foi o meu primeiro baixo. Adoraria tê-lo comigo hoje, como memorabilia, pois não daria para tocar com um negócio daqueles, mas que importância sentimental teria se estivesse comigo...pois tenho essa dívida moral com Osvaldo Vicino, porque foi efetivamente o amigo que abriu-me as portas para a música de uma forma concreta, além dos devaneios que tinha até então, antes de ter aceito o seu convite para entrar numa banda "real", num dia de abril de 1976...
Com o Osvaldo, eu retomei contato pelo Orkut em 2010. Ele viveu no Nordeste muitos anos, tendo morado em Fortaleza, e também no Recife. Tem três filhos, trabalhou em vários hospitais como administrador, e nunca deixou de tocar, apesar de eu ter pensado isso, quando ele saiu da banda (ainda bem !!). Quando retomamos o contato pelo Orkut, fiquei muito contente por saber que ele não parou, e teve por anos, uma banda cover do Whitesnake, chamada "Snakebite". Ele também desenvolveu-se no baixo, e hoje em dia toca os dois instrumentos com desenvoltura. Em 2015, voltou a morar em São Paulo e participou da festa de aniversário do Laert, em maio, ocasião em que infelizmente não pude comparecer por estar adoentado na ocasião. Mas em agosto do mesmo ano, foi ver-me tocando com a Magnólia Blues Band e conversamos bastante sobre os velhos tempos.
Osvaldo Vicino e Laert Sarrumor na festa de aniversário do Laert em maio de 2015, na primeira foto com seu autor do click desconhecido. Luiz Domingues e Osvaldo Vicino num reencontro em agosto de 2015. Fotos : Lara Pap


Este capítulo de minha trajetória musical está encerrado. 
Viva o Boca do Céu, o verdadeiro “centro de loucos” que promoveu uma “revirada” na minha vida... 



O Boca do Céu em ação, em 12 de junho de 1977, único documento de imagem da banda e o mais remoto da minha própria carreira. Cortesia de Fran Sérpico e Jani Santana Morales

Eis o link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=LHiL27bRGOs

Muito grato por ter lido essa etapa inicial do meu relato autobiográfico ! 

A vida prosseguiu, e logo, eu estaria envolvido com o Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero, que na prática era o "proto" Língua de Trapo. É daqui que segue a minha história, portanto... Língua de Trapo !  

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourrèbach - Capítulo 57 - Por Luiz Domingues

O Boca do Céu tem um significado enorme na minha trajetória musical. Dessa forma, o fim da banda não causou-me melancolia ou insegurança alguma à época. Vendo hoje em dia, sinto até uma ponta de orgulho por ter sido maduro o suficiente, apesar de meus dezenove anos incompletos, para superar essa perda, e ter tido a coragem para seguir em frente. E por outro lado, ao relembrar isso, tenho um carinho muito grande pelo Boca do Céu / Bourréebach. Foi com essa banda de garagem que transmutei um sonho impossível em realidade, fazendo a transição do onírico à matéria. Responsável pelo impulso inicial, que tirou-me do sonho à realidade, teve papel fundamental nessa transição. Tenho muita saudade desse tempo, principalmente os primeiros instantes, entre 1976 e 1977, onde a força de vontade foi o motor que manteve-me nessa senda. O Boca do Céu tem um significado muito especial na minha trajetória, conforme já disse anteriormente. Apesar de ser tecnicamente uma banda de parcos recursos, pelo fato de seus membros serem iniciantes na música, naquela ocasião (principalmente eu mesmo). E certamente por isso, é que tem esse valor sentimental enorme na minha carreira.Tenho muito carinho por esse tempo primordial, por tudo o que vivi e não foram poucas as impressões e vivências; era o meio / final dos anos setenta e ainda tive o privilégio de vivenciar o finzinho de uma Era.
Hoje, contando essas reminiscências minhas, vejo muitos jovens de olhinhos brilhando com meus relatos e fico contente por ter vivido essas coisas na música, e no Rock em específico. Tenho carinho também pela minha tenacidade juvenil. Esse entusiasmo, essa convicção e força de vontade, fizeram de minha pessoa um músico de fato. Se fosse por vocação; aptidão natural, ou ouvido musical, jamais conseguiria. Eu só tornei-me músico e construí uma carreira com dezessete discos lançados no mercado (na somatória de todas as bandas até 2016), porque tinha uma vontade ferrenha. E o Boca do Céu teve esse papel de mola propulsora, inicial e fundamental. Mesmo sendo uma banda formada por jovens sem condições técnicas ideais para começar um trabalho autoral (com exceção do guitarrista Osvaldo Vicino, que já tocava), acho que essa força de vontade não era exclusividade minha e nós tivemos essa vontade coletiva ao conseguimos sair da inércia inicial, levando a banda para patamares muito significativos, em se considerando as suas condições técnicas e pela ingenuidade juvenil de seus membros. O fato de termos tocado em festivais, principalmente o FICO, com direito à transmissão televisiva, foi uma grande vitória coletiva, que eu particularmente, orgulho-me. Sei que o Laert pensa o mesmo, e acho que o Osvaldo também, para citar os dois que tenho contato até hoje (recentemente, 2013, retomei o contato com Fran Sérpico, também).
Sou muito grato ao destino, que numa improvável ação de um anúncio classificado numa revista, colocou o Laert no nosso caminho. Com sua inteligência e talento nato, impulsionou a banda.
Sem ele, não teríamos evoluído tão depressa. Claro que o grosso do material era aquém do que faríamos no futuro, tanto eu quanto o Laert, mas chegamos a ter músicas interessantes, apesar de sermos tão fracos tecnicamente. Músicas como "Revirada", "No Mundo de Hoje", "Centro de Loucos", "Serena", "Diva"; "Na Minha Boca" e “Instante de Ser”, tinham qualidade, em se considerando as condições. Anos depois, "Na Minha Boca" e “Instante de Ser” entraram para o repertório do Língua de Trapo, e fizeram sucesso nos shows, por exemplo.
Tenho saudade desse tempo pelos shows que assisti. Pelas andanças por teatros; salas de cinema; exposições; museus; palestras...
Foi uma época em que fui um consumidor voraz de cultura em geral, mas a amálgama era o Rock, e os ideais hippies, contraculturais etc. Tenho saudade da alegria que sentia quando acordava na manhã de um sábado, e sabia que ensaiaria naquele dia. Cada ensaio representava mais um passo em direção ao sonho. O cabelo pela cintura; as batas indianas, e a calça boca de sino, com remendos coloridos... meus pais achavam que era roupa de festa junina, mas eu achava o máximo andar vestido parecido com ícones meus que assim trajavam-se, como Roger Daltrey ou Neil Young...

Continua...

Autobiografia na Música - Boca do Céu/Bourreèbach - Capítulo 56 - Por Luiz Domingues



Vale lembrar que o ano de 1978 foi difícil também por muitos aspectos pessoais, e sócio / comportamentais. No campo pessoal, foi o ano em que meu pai começou a notar que aquele negócio de "tocar numa banda de Rock", não era coisa passageira de adolescente, e dessa forma, começou a pressionar-me em direção oposta, com questionamentos sobre eu cortar meu cabelo; modo de vestir-se; pensar em emprego formal e faculdade etc. Claro, posicionamentos normais de pai, e hoje que tenho mais que a idade dele naquela época, posso entender perfeitamente a sua preocupação comigo, mas à época, era um conflito e tanto, visto que aqueles questionamentos aviltavam meus sonhos, convicções etc.
E outro ponto triste, era a guinada estética que o sinal dos tempos trazia. O Rock brasileiro desmanchava-se em 1978. Os ventos da "revolução" punk começavam a soprar por aqui, e todas as suas consequências pareciam apodrecer todos os meus alicerces Rockers. Muitos amigos saíram correndo pelos sebos, vendendo seus LP's de Rock, muitos, para não dizer a maioria, correram aos salões de barbearia, e rasparam as cabeleiras. Eu sentia-me isolado, vendo aquela manifestação toda com a estupefação de quem assiste de camarote, o fim do mundo. Por que eu deveria aderir àquela estética anti-Rock ? As primeiras notícias que li sobre o movimento punk, causaram-me absoluta ojeriza. O que para muitos representava uma novidade libertadora, esfuziante, era na minha percepção um sinal incrível de decadência; desolação; retrocesso. A ideia de tocar simples, sem sofisticação, era normal e passível de convivência pacífica na minha concepção. Na minha estante de discos, conviviam harmonicamente os discos do Gentle Giant, com seu prog ultra-sofisticado, e o som cru, e quase mal tocado do T.Rex. E a ambos, eu chamava de Rock, sem nenhum conflito. Mas a reboque desses elementos que não sabiam tocar, veio toda uma mística perpetrada por marqueteiros e jornalistas, trazendo a maldita ideia do niilismo e deixo bem claro, a péssima interpretação desse conceito. Esse é o grande ponto nevrálgico dessa questão, desse rompimento. Eu nunca acreditei no niilismo como padrão de procedimento. Não acredito que uma estética deva ser aniquilada, para que outra surja renovada. Eu era apenas um adolescente com dezoito anos de idade na ocasião, mas esse sentimento já era claro no meu entendimento e daí, foi difícil ver o estrago que essa terrível mentalidade imposta ditatorialmente, causou ao Rock, com respingos em outras áreas, também. Foi em janeiro de 1978 que tomei contato pela primeira vez com essas ideias de Malcolm McLaren e seus seguidores, lendo uma matéria sobre tal assunto numa revista especializada. Mais ou menos em setembro de 1978, fui ao MIS (Museu da Imagem e do Som ), e vi um documentário sobre o Punk-Rock. A maioria das pessoas saiu entusiasmada do cinema, mas eu saí deprimido com aqueles conceitos. Por que eu deveria passar a odiar os Beatles, como eles pregavam ? Por que ???
E no meio dessa desolação, eu enxergo um aspecto pessoal benéfico, ao menos. Era preciso ter uma vontade obstinada para seguir em frente, pois tudo apontava para o "Fim do Sonho". 
A frase deslocada de outro conceito, da música "God", do John Lennon, foi usada à exaustão pelos jornalistas e publicitários mal intencionados, gerando uma formação de opinião, estagnada.
Cansei de ouvir "o sonho acabou", seguido do indefectível sorriso irônico dos detratores do Rock, e contracultura sixtie. Regozijavam-se do nosso sonho ter acabado e ofereceram-nos o que em troca ? O pesadelo punk da truculência, da péssima música e um caminhão de valores terríveis, que ditaram as tendências nos anos 1980, e esparramam-se como praga, até hoje. Mas nem todos encantaram-se com essa "revolução pusilânime". Muitos bandearam-se para o Jazz-Rock; Fusion, e outros tantos foram engajar-se de cabeça na MPB, que ainda tinha ventos hippies. Lembro-me por exemplo de ter visto inúmeros shows de MPB nessa fase, entre 1978 e 1981. Vi Elis Regina; Fagner; Sá & Guarabyra; Caetano; Gilberto Gil; Beto Guedes; Zé Ramalho; Moraes Moreira; Milton Nascimento, e até medalhões da velha guarda, como Jackson do Pandeiro, Demônios da Garoa etc. 
Um dos shows mais legais que vi de MPB, foi um do Beto Guedes em 1978, no teatro da GV (Fundação Getúlio Vargas), na Av. 9 de julho.Casa abarrotada, lembro-me de pessoas acomodadas pelos corredores, escadas etc. Curiosidade : perto de meus amigos e eu, estavam dois jogadores famosos do Corinthians, e acompanhados de belas mulheres : Wladimir e Solito. Quem acompanha o futebol, há de lembrar-se dos dois. O show foi impecável, e o som do Beto tinha arranjos complexos, certamente influenciados pelo Rock progressivo setentista.

E como multi-instrumentista, ele tocou baixo em várias músicas, e deixou todo mundo de boca aberta com o som incrível que tirou de um belo Rickenbacker de cor creme (“mapleglow”), igual ao do Chris Squire do “Yes”, e assim arrancando suspiros dos corações “proggers” machucados pelo intenso vilipêndio, com toda aquela desolação punk de final de década.

O Bourréebach viveu seus últimos suspiros nos quatro primeiros meses de 1979. Com a saída do Osvaldo Vicino, muito da inocência inicial do Boca do Céu foi-se embora, naturalmente, pois estávamos mais amadurecidos. O Laert conheceu um colega na faculdade em que recém havia ingressado (Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero), logo nos seus primeiros dias, chamado Paulo Estevam Andrade. 
Era guitarrista, mas vivia aquela crise de identidade típica que acometeu à (quase) todos no final daquela década, negando o Rock, e bandeando-se para a MPB. Ele interessou-se em conhecer o trabalho da nossa banda, e chegou a ensaiar conosco algumas vezes. Lembro-me que tinha uma guitarra da marca “Ookpik”, imitação de Gibson SG, de cor branca. Ele tocava bem, e parecia que encaixar-se-ia nessa nova formação da banda. Por incrível que pareça, o baterista Zé Claudio também estava ficando, e a banda dava esperanças de continuidade, com essa nova formação. 
Contudo, o Laert mostrava-se cada vez mais empolgado com os colegas que havia conhecido recentemente, por conta de sua entrada na faculdade. Ali nos corredores da Faculdade Cásper Líbero de jornalismo, conheceu Guca Domenico; Carlos Mello (Castelo); Pituco Freitas; Paulo Elias Zaidan; Dico; Paulo Estevam e Saulo entre outros, e a conversa girando em torno de música; poesia; quadrinhos; cinema e tudo amalgamado pela política, estava fazendo-lhe a cabeça, fortemente. Com as coisas andando devagar para o Bourréebach, era natural que estivesse cada dia mais focado nesse novo ambiente, e assim que surgiu a ideia de realizar-se um sarau literário / musical na própria faculdade, empolgou-se, e praticamente aí, tirou o seu pé do acelerador do Bourréebach. Então, após alguns ensaios, a banda desintegrou-se...
Apesar de ter sido um final melancólico, com a banda sendo vencida por inanição, praticamente, não fiquei triste na hora, tampouco fui acometido de sentimento de perda ou lamento. Simplesmente aceitei a absoluta falta de forças para prosseguir, mas convicto de que aquilo em nada mudaria a minha trajetória na música. Eu estava naquela altura, muito mais seguro, tendo vencido a etapa inicial, e terrível de aprendizado musical. Estava progredindo, tocando cada vez melhor, e sentia-me pronto para abraçar outras oportunidades.
Continua...

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 25 - Por Luiz Domingues


Ainda falando sobre a prática das dublagens de TV...
Pois é... passam mil coisas na cabeça, do tipo : estou fazendo papel de bobo; estou sendo ridicularizado; ninguém vai levar a minha música a sério, vendo-me fazer esta palhaçada...
Mas, uma coisa precisa ser levada em consideração: muitas pessoas, para não dizer a maioria, quando olham um artista dublando, nem pensam nesses questionamentos, e curtem a música, apreciam ver o artista etc.

A questão da praticidade dos técnicos de TV, é muito discutível, levando-se em consideração que nas décadas de cinquenta e sessenta, a TV era incrivelmente mais tosca, com uma tecnologia precária, e no entanto, abundavam programas de TV com música ao vivo e de qualidade. Portanto, é uma tremenda de uma desculpa esfarrapada...
São poucos que os questionam esse formato, e no final das contas, apesar dos pesares, eu preferia mil vezes fazer uma dublagem, do que não aparecer na TV, e ficar anônimo com minha dignidade fazendo-me companhia...

Como isso é muito relativo, no entanto, esse conceito eu tinha naquela época, pois hoje em dia, acho que a dignidade artística vale mais do que aparecer fazendo essa micagem em programas popularescos, que não acrescentam-lhe nada.
Continua...

domingo, 28 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 24 - Por Luiz Domingues

Eu não tinha nenhuma familiaridade com essas técnicas teatrais, a não ser assistindo, como público. Muito diferente é fazer parte do espetáculo, e ter a responsabilidade de não errar as marcações, sob o risco de destruir o trabalho num efeito dominó, pois cada um tem seu "timing" certo para atuar, e dar a deixa para os demais.
Em relação à costumeira prática da dublagem musical na TV, o trabalho que dá para colocar um equipamento dentro de um estúdio de TV, equalizar a banda, mixar o som e dar parâmetros bons de captação para a TV e monitor bacana para a banda, é gigantesco. E dentro de um estúdio de TV, a pressa é total para fazer tudo voando, pois tempo é dinheiro. Você já deve ter reparado em repórteres de jornalismo televisivo sendo grossos com entrevistados, tirando o microfone da boca das pessoas, e cortando sua fala. É que pessoas comuns, vão responder sem essa preocupação, e no meio da primeira frase, o diretor já está aos berros com o repórter no ponto colocado em sua orelha, ordenando que corte... então, se você vai dublar, a preocupação se reduz a zero para eles.

Basta soltar o áudio do teu disco, que supõe-se estar bem gravado, e apresentar-te ali como um "mico de circo", fingindo estar cantando e tocando...
Para minimizar esse vexame, logo os membros do Língua, que já estavam acostumados, instruíram-me a avacalhar, para ficar ainda mais engraçado.
O Pituco Freitas costumava cantar em voz alta, outra música diferente da dublagem, e isso causava um mal-estar entre os técnicos da TV, e nós ficávamos contendo ataques de riso. E muitas vezes, trocávamos de instrumentos. Em várias dublagens, eu fui tocar bateria (caixa e prato, bem entendido), e o Naminha tocava baixo...
Mais para a frente, falarei mais sobre dublagens ridículas feitas na TV. Tenho histórias hilárias nesse quesito.

Continua...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 23 - Por Luiz Domingues


Foi num domingo a noite, que encontrei-me com o pessoal da banda, na Rodoviária do Tietê. Chegamos em Curitiba no início da manhã, e seguimos para o hotel.
Descansamos na parte da manhã, e a tarde já fomos ensaiar no palco do Teatro Paiol, que gentilmente cedeu o espaço nesse período, para que ensaiássemos. No dia seguinte, meu primeiro compromisso oficial com a banda : fizemos uma apresentação dublando, e seguida de entrevista num programa vespertino da afiliada do SBT em Curitiba. Infelizmente, não anotei nada desses programas de TV e rádio que fiz com o Língua, portanto, ficarei devendo o nome, e as datas precisas da maioria que fiz.
Independente disso, foi uma sensação estranha, pois foi a primeira vez na vida que eu fiz a famigerada "dublagem". Foi a primeira de uma série, e logo faria isso bastante com A Chave do Sol, também.
E é bom lembrar que eu já tinha aparecido na TV algumas vezes anteriormente, mas sempre tocando ao vivo, todavia, essa foi de fato a minha primeira vez com a prática constrangedora da dublagem. Senti-me ridículo, ainda mais dublando algo que eu não havia gravado, pois todas as músicas gravadas que dublei com o Língua nesse período, eram obviamente do LP, onde quem gravou o baixo, foi o Luiz Lucas.



Assisti a estreia da banda a noite, nessa temporada no Teatro Paiol de Curitiba, e essa foi a rotina durante a semana toda, com ensaio a tarde, e show a noite para a banda. Eu fiz pequenas participações em alguns shows, apenas para ganhar um pouco de entrosamento com a banda, mas sem comprometer o andamento do espetáculo, que prosseguia com a tradicional troca de roupas e intervenções teatrais.
Meu foco era o show novo, que só estrearia em 15 de novembro, no teatro TUCA (Teatro da Universidade Católica) em São Paulo. E se na parte musical eu sentia-me razoavelmente seguro com as músicas saindo quase boas, sem eu precisar olhar anotações de harmonias, eu estava assustado em não decorar as marcações de teatro, trocas de roupas etc.

Continua...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 25 - Por Luiz Domingues

Em Campinas, o objetivo primordial da apresentação foi cumprido.

Mas mesmo assim, a escola nem esboçou reconsiderar a sua decisão de cancelamento e infelizmente perdemos essa oportunidade.
Sim, era visível a desintegração da banda, mas como se tratava de uma banda cover, e eu estava empolgado com os rumos que o pré-Língua estava ganhando, não me incomodava muito esse processo terminal, mesmo porque paralelamente ao Terra, e ao pré-Língua, eu estava fazendo bicos com trabalhos avulsos, conforme já relatei nos capítulos, "trabalhos Avulsos".

Uma história engraçada que esqueci de contar : nesse período em que o Luis Bola entrou no Terra, ensaiamos de forma acústica diversas vezes na casa dele. 


Era um sobrado bonito na rua Cristiano Viana em Pinheiros, zona Oeste de São Paulo, no quarteirão, próximo à escadaria que dá acesso à Rua Cardeal Arcoverde.
Quem conhece São Paulo, e aquele bairro em específico, sabe que muitos anos depois, aqueles quarteirões próximos da Rua Teodoro Sampaio viraram point de lojas de instrumentos, e equipamentos musicais.

Mas em 1980, não havia nenhuma loja assim por aquelas redondezas.

A esposa do Luis Bola (peço desculpas, mas esqueci seu nome), era atriz, e tinha contatos bons no cinema.

Tanto era assim, que houvera feito uma ponta no filme "Gaijin", da diretora Tizuka Yamazaki. 

E naquele período em que frequentei a residência do casal, eles estavam hospedando um jovem ator carioca, ainda não muito famoso, chamado Jorge Fernando.
Muitos anos depois, ele se tornaria um diretor de novelas muito festejado da Rede Globo. 

Naquela época, havia feito um trabalho apenas que despertou a atenção, chamado "Ciranda Cirandinha", uma espécie de sitcom brasileira, e curiosamente precursora do que seria mais ou menos a série americana "Friends, anos depois.

Eram quatro jovens dividindo um apartamento no Rio, todos mezzo Hippies. Jorge Fernando, Denise Bandeira, Fábio Jr. e Lucélia Santos.

Fez um relativo sucesso em 1979, na TV Globo, mas ainda não o suficiente para torná-lo uma celebridade de não poder andar pelas ruas, longe disso. 

Mas fico contente por saber que ele venceu na carreira, pois ainda me lembro dele circulando pela casa, assistindo nossos ensaios etc.

Continua...