terça-feira, 30 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues


Chego ao final do relato sobre a história de minha primeira banda na carreira, portanto, é a hora para agradecer aos amigos e familiares que apoiaram o nosso trabalho. Inicio a mencionar os colegas que gravitaram nos primórdios da formação do Boca do Céu, em 1976, invariavelmente colegas da oitava série do curso fundamental da Escola Municipal Maria Antonieta D’Alckmin Basto, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Além dos que foram membros da banda, cito Gabriel (o "espanhol); Nelson e Toninho que foram colegas de classe e acompanharam com constância no início, a nossa movimentação para formar a banda, além de outros tantos, incluso colegas que eu conhecia desde 1968 (Grupo Escolar de Vila Olímpia) e outros tantos de da turma de 1973 (Ginásio Estadual de Vila Olímpia), em diante, e com maior ou menor profundidade, observaram nossos esforços, nessa determinação. 

Irmãos Vicino, em foto de 1976, bem nos primórdios do Boca do Céu. Osvaldo a tocar na companhia de suas irmãs. Acervo e cortesia de Osvaldo Vicino 

Sou muito grato à família do Osvaldo Vicino, na figura de seu pai que era / é um gentleman; sua mãe (in memorian), e irmãs que torceram bastante e apoiaram-nos, além de Nelson Gravalos, namorado (hoje, marido). de sua irmã, Beth Vicino, pela filmagem da banda sob uma película em Super-8, filmada em junho de 1977. 


Agradeço à família de Fran Sérpico que aturou-nos por muitos ensaios barulhentos, além das sessões de televisão na sala de estar da família, quando o ensaio dava pausa para assistirmos o programa “Rock Concert”, da Rede Globo de Televisão, onde prestávamos a máxima atenção desde a introdução da vinheta, a mostrar uma colagem de imagens de shows de Rock de bandas clássicas setentistas e internacionais, ao som da canção : “Led Boots”, do LP “Wired”, de Jeff Beck, até o último segundo... 

A figura sensacional de Dona Olga Falci (in memorian), mãe do Laert Sarrumor, que protagonizou muitas histórias boas naqueles anos todos. E acredito que sua torcida pelo filho, que foi impressionante, produziu uma energia vitoriosa que acompanhou-o doravante, tornando-o o artista celebrado que é, e com todos os méritos. 

O primo freak do Wilton Rentero, Sidnei Miranda (e sua simpática namorada, hoje esposa, Adelaide Giantomaso), que foi uma figura sensacional, com mil histórias fascinantes sobre o movimento hippie no Brasil. Saudade do convívio que foi super prazeroso pelas conversas, hospitalidade e muitos sons incríveis advindos de sua pick-up alimentada por uma coleção de discos, primorosa. 

A família de Pollyana Alves, nas figuras de seus pais e sua irmã, Eliana Rímole Alves, que foram pessoas de uma docilidade impressionante. A acolhida em seu lar para os nossos ensaios, foi mais que uma gentileza, pois sentíamos o entusiasmo cativante deles em torcer pelo nosso sucesso.
A turma do bairro do Tatuapé que gravitava em torno dos meus primos que lá moravam e misturavam-se aos meus colegas de escola, em conexões comuns, até por coincidência. Cito pessoas como Luis Canton; Cri; Amaury Martins; Alcides “Cidão” Trindade (Cido); Eduardo Viscome; Chaím; Luiz Antonio Galvão; Norinho, Fábio Malatesta; “Piu-Piu”(in memoriam); “Cabelo”; Marcos e Regina de Fátima Nunes Galassi (que foi minha namorada na época), e mais outros que fogem-me da lembrança seus nomes (perdão !); das turmas do meu colégio, Oswaldo Catalano, em que fui aluno entre 1977 e 1979, além do quase vizinho, mas morador da mesma rua, cujo nome esqueci-me completamente (mil perdões, amigo !), mas que era um "freak doido" e só por ver-me cabeludo a chegar para morar na Rua Jacirendi, mostrou-se hospitaleiro e sem nem conhecer-me direito, tocou a campainha de minha nova residência e emprestou-me os LP’s : triplo do Festival de Woodstock e Mutantes ao Vivo...”I wanna take you higher”, “que os Anjos do Sul já vão chegar”...
E minha família por apoiar-me, ainda que nessa fase, principalmente ao pensar no meu pai, creio que tratou-se em princípio de apenas uma tolerância estratégica, pois seguramente que ele não levou a sério os meus esforços. Mas agradeço (é claro), por tudo, principalmente pela paciência nas fases em que a banda ensaiou em nossa residência e não devia ser nada fácil para eles, pois além de não termos condições acústicas adequadas para promover ensaios de uma banda de Rock, pesou contra o fato do nosso equipamento ser precário e sobretudo, nossa condição musical como iniciantes, insípida, portanto, deve ter sido um tormento... 

Aproveito, para estender o agradecimento aos meus tios e primos que apoiaram-me diretamente essa etapa, inclusive ao ceder a sua residência para o Laert poder estudar no piano da família, fora o apoio e entusiasmo pela banda. Grato, família Barretto Turci, tios José Rubens & Hortência e meus primos; José Rubens Junior; Marco Antonio; Siomara; e Alcione Turci.
E sou muito grato aos companheiros dessa primeira etapa da minha jornada musical... hora para agradecer a cada personagem dessa fase inicial da minha trajetória musical. Começo a falar dos que tiveram participação menor na banda. 

Bernardão “Janjão”

Bernardo Lopes de Almeida (vulgo “Bernardão” ou “Janjão”), foi o terceiro membro do grupo, além de Osvaldo e eu mesmo, no início. Convivemos desde 1974, como colegas de escola, e também dividimos sonhos rockers, ao ouvirmos os discos do “Deep Purple”; “Nektar” e tantas outras bandas que adorávamos. Fora os “Mutantes”, cujo LP, “Tudo Foi Feito pelo Sol”, ele sabia de cor e salteado. Fomos juntos assistir o show do Rick Wakeman em 1975... sobre o Bernardo, perdi o contato desde que saiu do Boca do Céu, em 1976. Espero que esteja bem !
Edson Coronato

Edson Coronato, a quem apelidávamos como : Edson "Coverdale", embora ele gostasse mais do Ian Gillan... (que ironia !). Sujeito cem por cento do bem, e certamente o melhor centroavante de nossa escola, no futebol. Edson Coronato encontrou-me um dia nos anos oitenta, a caminhar pelas proximidades da Av. Santo Amaro, na altura da Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo. Acho que foi em 1988, mais ou menos, quando eu estava na dissidência da Chave, "sem Sol". Em 2006, eu ainda não acessava a internet, e soube que ele mandara um depoimento bacana, por e-mail, a relatar ter visto-me em ação com o Pedra, quando esta banda abriu o show do Uriah Heep, no Via Funchal, em São Paulo, através do site da nossa banda. Mas apesar de eu ter respondido rápido, ninguém ajudou-me de imediato e a resposta demorou tanto a ser digitalizada e enviada, que ele deve ter ficado bravo comigo, pois não respondeu-me depois. Se estiver a ler este relato, ficam aqui as minhas sinceras desculpas, e esteja convidado a adicionar-me em qualquer rede social onde eu estiver ! Vamos relembrar os bons tempos da nossa escola; nosso time de futebol, o "Universal", e nossa paixão pelo Rock.
Pollyana Alves    
             Pollyana Alves, em foto bem mais recente, dos anos 2000 

Pollyana Alves e sua irmã, cujo nome é Eliana Rímoli Alves. E certamente, sua abnegada família, que foi muita entusiasmada pela música. Foi curta a sua participação, mas teve sua parcela de ajuda, também. Fiquei anos sem contato pessoal com ela e sua irmã, desde 1978, mas o Laert disse-me em 2011, que elas eram suas amigas na extinta Rede Social Orkut. Recentemente, 2016, finalmente conectamo-nos na rede social Facebook, onde conversamos com bastante entusiasmo.

Eva

Quanto à outra vocalista, Eva (um caso lamentável para a narrativa, onde não recordo-me do seu sobrenome), também perdi o contato faz anos. A última vez em que a vi, foi em um ensaio do Língua de Trapo em 1982, na casa dos irmãos Luiz & João Lucas, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Também espero que esteja bem e feliz. E a cantar “Mercedes Benz”, "a capella", ao estilo da Janis Joplin, como gostava de fazê-lo, quando a conhecemos em 1978.

Zé Claudio
    Zé Claudio em ação com o Violeta de Outono, nos anos oitenta

O baterista, Zé Claudio, tocou anos depois no “Violeta de Outono”. Encontrei-me com ele no meio / fim dos anos oitenta, e fiquei contente por vê-lo a tocar em uma banda de renome. Curiosamente, um outro baterista de estreita relação profissional comigo, José Luiz Dinola (meu companheiro de A Chave do Sol; Sidharta, e alguns trabalhos avulsos, e tudo isso relatado também em seus respectivos capítulos, desta autobiografia), tornou-se baterista oficial do Violeta de Outono, muitos anos depois, para reforçar o elo de árvore genealógica em comum, que estabeleci com o grande guitarrista, Fábio Golfetti, fundador dessa significativa banda do Rock brasileiro.

Paulo Estevam Andrade

O guitarrista, Paulo Estevam Andrade, vulgo “Tevão” (apelidado igualmente como : "Paulo Sustenido"), também teve passagem curtíssima, e logo depois da criação do "Grupo de Poesia e Música" da Faculdade Cásper Líbero, perdi seu paradeiro. Não sabia de nada sobre ele, desde 1979, quando retomamos o contato recentemente no Facebook, em 2014. Hoje é professor e mora em Marília, no interior de São Paulo. Conversamos então sobre o curto espaço de tempo em que convivemos, no ano de 1979.

Cido Trindade

E vale lembrar também de Cido Trindade, que nunca foi membro oficial da banda, mas acompanhou seus passos, e chegou a fazer um show ao vivo, como convidado especial, em um momento de reformulação que fizemos, na metade de 1978, e fato relatado devidamente, no texto.

A falar agora do núcleo mais sólido do Boca do Céu :

Wilton Rentero

Wilton Carlos Rentero, a quem agradeço pelo companheirismo; pelo impulso técnico e confiança que transmitiu à banda nos meses em que tocou conosco, em 1977. Não o vejo desde 1978, quando ele saiu da banda, ao alegar que iria dedicar-se ao estudo de violão erudito. Soube pelo Laert, que apareceu em um show do Língua de Trapo na cidade de Guarulhos / SP, onde mora e trabalha como professor universitário na Universidade de Guarulhos. Graduou-se em Letras com várias especializações; escreveu muitos livros acadêmicos e é bem atuante no sindicato da sua categoria.
Fica aqui uma menção ao primo dele, que chamava-se Sidnei Miranda (estendido à sua então namorada e hoje, esposa, Adelaide Giantomaso), e que deu muito apoio ao Boca do Céu. Além de ser uma referência para nós, por ser mais velho e hippie dos primórdios do movimento, tendo muitas histórias para contar e com uma bela coleção de discos que colocou à nossa disposição, gentilmente, para a nossa audição. Saudade das visitas que fazíamos à residência dele, no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo, onde varamos madrugadas a ouvir sons incríveis proporcionados por sua vitrola, "Gradiente" (Syd Barrett / Madcap Laughs, entre eles...).


Fran Sérpico
           Fran Sérpico, em foto bem mais atual, dos anos 2000


Francisco Sérpico, que apesar de ter não ter tido a mesma tenacidade, teve sua parcela de colaboração grande, é claro. Sobre a tenacidade, nada a reclamar, pois foi questão de fórum íntimo e ele tinha suas outras prioridades em mente e que aliás, diga-se de passagem, garantiu-lhe o sucesso na vida ao levá-lo à uma carreira profissional muito bem sucedida e a construção de uma bela família. Para falar de sua participação conosco, foi incrível a sua trajetória ao instrumento sem o uso de uma caixa, peça fundamental no kit de uma bateria, mas mesmo assim, ele levou adiante. Sua generosidade em transformar a sua residência em nosso “QG”, foi imensa. E cabe aqui também um agradecimento à sua família, que suportou-nos por um bom período, com ensaios semanais barulhentos, com direito a entra-e-sai de convidados etc. Saudade dos ensaios na casa dele, no bairro do Campo Belo, com direito às idas ao recém inaugurado Shopping Ibirapuera, onde causávamos estranheza pelo nosso visual hippie, a contrastar com os playboys ali presentes. Poucos dias antes do natal de 2016, Fran Sérpico deu-nos um presente natalino, inesquecível, ao providenciar enfim a digitalização e edição do histórico vídeo em Super 8, que filmamos com a banda no quintal de sua residência, no dia 12 de junho de 1977. Tal documento tornou-se o único, raro e histórico registro da banda em ação, portanto, nem sei o que dizer para agradecer-lhe por ter guardado-o nesses anos todos e providenciado sua digitalização para apresentação pública, ad eternum. Sou-lhe grato também, pois prestou um bonito depoimento no Facebook, ao falar sobre o nosso Boca do Céu, e a enaltecer o Laert e eu, Luiz Domingues, por termos profissionalizado-nos e construído uma carreira artística, incluso com alguns trabalhos posteriores em conjunto, caso do Língua de Trapo, onde nós dois atuamos.

Laert “Sarrumor” Julio
       Laert Sarrumor, em foto bem mais recente, dos anos 2000


Laert Júlio Pedro Jesus Falci... nome de imperador do século XIX, com essa profusão toda. Talento; criatividade; garra; poder de organização; empreendedorismo; um visionário...
Com o Laert, saímos do patamar de uma banda sem condições mínimas nem para ensaiar, para algo palpável, ao ponto de pleitearmos planos de expansão etc. Laert Sarrumor tornou-se anos depois, conhecido pelo Língua de Trapo, mas também pela carreira como ator (já atuou no cinema, várias vezes); especiais de TV; apresentador de programa de TV; dublador do Topo Gigio (versão anos 1980); escritor de livros "Best Seller"; redator de humor; radialista (está desde 1983 no ar com o programa, "Rádio Matraca" na USP FM); cartunista; ilustrador; garoto propaganda em comercias de TV...
O Boca do Céu é o embrião mais remoto do Língua de Trapo, e ele sabe disso. Eu também toquei no Língua de Trapo em duas passagens por essa banda : desde a fundação, até 1981, e depois no período 1983 / 1984. Tenho contato permanente com o Laert. E vale relembrar a Dona Olga, sua mãe, que foi uma persona sempre presente na vida do Boca do Céu.

Osvaldo Vicino
          Osvaldo Vicino, em foto bem mais atual, dos anos 2000

O responsável pela pedra fundamental da fundação da banda e a quem quero agradecer, efusivamente, é Osvaldo Vicino, meu colega da 8ª série, que fez o convite para formarmos uma banda de Rock, em abril de 1976. Foi ele também que teve a paciência em esperar que eu aprendesse o fundamental inicial teoria musical, e adestramento ao baixo. Seu segundo impulso para ajudar-me, foi tentar adaptar uma guitarra Giannini velha que ele possuía, como baixo e santa ingenuidade, claro que não deu certo...
Depois, viu e avisou-me sobre um baixo usado, “handmade” em uma loja de instrumentos velhos e baratos. Era um baixo "imitação" de Hofner, meu primeiro instrumento. Ele só afinava com o uso de um alicate, pois as tarraxas estavam emperradas, era grosseiro no seu acabamento e tinha captadores horríveis, mas foi o meu primeiro baixo. Adoraria tê-lo comigo hoje, como memorabilia, pois não daria para tocar com um negócio daqueles, mas que importância sentimental teria se estivesse comigo... pois tenho essa dívida moral com Osvaldo Vicino, porque foi efetivamente o amigo que abriu-me as portas para a música de uma forma concreta, além dos devaneios que tive até então, antes de ter aceito o seu convite para entrar em uma banda "real", sob um dia de abril de 1976...
Com o Osvaldo, eu retomei contato pela rede social extinta, o Orkut, em 2010. Ele viveu no Nordeste por muitos anos, em Fortaleza, e também no Recife. Tem três filhos, trabalhou em vários hospitais como administrador, e nunca deixou de tocar, apesar de eu ter pensado isso, quando ele saiu da banda (ainda bem !). Quando retomamos o contato pelo Orkut, fiquei muito contente por saber que ele jamais parou, e teve por anos, uma banda cover do Whitesnake, chamada "Snakebite". Ele também desenvolveu-se no baixo, e hoje em dia toca os dois instrumentos com desenvoltura. Em 2015, voltou a morar em São Paulo e participou da festa de aniversário do Laert, em maio, ocasião em que infelizmente não pude comparecer por estar adoentado na ocasião. Mas em agosto do mesmo ano, foi ver-me a tocar com a Magnólia Blues Band e conversamos bastante sobre os velhos tempos.
Osvaldo Vicino e Laert Sarrumor na festa de aniversário do Laert, em maio de 2015, na primeira foto com seu autor do click desconhecido. Luiz Domingues e Osvaldo Vicino em um reencontro em agosto de 2015. Fotos : Lara Pap


Este capítulo de minha trajetória musical está encerrado. 
Viva o Boca do Céu, o verdadeiro “centro de loucos” que promoveu uma “revirada” na minha vida... 


O Boca do Céu em ação, em 12 de junho de 1977, único documento com imagens da banda em ação, e o mais remoto da minha própria carreira. Cortesia de Fran Sérpico e pós produção de Jani Santana Morales

Eis o Link para assistir no You Tube :

http://www.youtube.com/watch?v=LHiL27bRGOs

Muito grato, amigo leitor, por ter lido esta etapa inicial do meu relato autobiográfico ! A vida prosseguiu, e logo eu estaria envolvido com o Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero, que na prática, foi o "proto" Língua de Trapo. É daqui que segue a minha história, portanto... Língua de Trapo ! 

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 57 - Por Luiz Domingues

O Boca do Céu teve um significado enorme em minha trajetória musical. Mas mesmo assim, o fim da banda não causou-me melancolia ou insegurança alguma à época. Ao analisar hoje em dia, sinto até uma ponta de orgulho por ter sido maduro o suficiente, apesar de meus dezenove anos incompletos na ocasião, para superar essa perda, e ter tido assim, a coragem para seguir em frente. E por outro lado, ao relembrar isso, tenho um carinho muito grande pelo Boca do Céu ("Bourréebach", na sua fase final). Foi com essa banda formada por iniciantes na música que transmutei um sonho impossível em realidade, ao proporcionar-me a transição do onírico à matéria. Responsável pelo impulso inicial, que tirou-me do sonho à realidade, teve papel fundamental nessa transição. Tenho muita saudade desse tempo, principalmente os primeiros instantes, entre 1976 e 1977, onde a força de vontade foi o motor que manteve-me nessa senda. O Boca do Céu tem um significado muito especial na minha trajetória, conforme já disse anteriormente. Apesar de ter sido, tecnicamente, uma banda com parcos recursos, pelo fato de seus membros ter sido iniciantes na música, naquela ocasião (principalmente, eu mesmo). E certamente por isso, é que tem esse valor sentimental enorme na minha carreira.Tenho muito carinho por esse tempo primordial, por tudo o que vivi e não foram poucas as impressões e vivências. Foi o meio / final dos anos setenta e ainda tive o privilégio de vivenciar o final de uma Era.


Hoje, ao relatar essas reminiscências minhas, vejo muitos jovens a ouvir-me com atenção e a ostentar os seus olhos a brilhar, com meus relatos e fico contente por ter vivido essa experiência forte na música, e no Rock em específico. Tenho carinho também pela minha tenacidade juvenil. Esse entusiasmo, essa convicção e força de vontade, fizeram de minha pessoa, um músico de fato. Se fosse por vocação; aptidão natural, ou ouvido musical, jamais conseguiria. Eu só tornei-me músico e construí uma carreira com dezessete discos lançados no mercado (na somatória de todas as bandas até 2016), porque tive uma vontade ferrenha. E o Boca do Céu teve esse papel como mola propulsora, inicial e fundamental. Mesmo ao constituir-se em uma banda formada por jovens sem condições técnicas ideais para começar um trabalho autoral (com exceção do guitarrista, Osvaldo Vicino, que já tocava), acho que essa força de vontade não foi exclusividade minha e portanto, nós tivemos essa determinação coletiva ao conseguimos sair da inércia inicial, e levarmos a banda para patamares muito significativos, ao considerar-se as suas condições técnicas precárias e pela ingenuidade juvenil de seus membros. O fato de termos tocado em festivais, principalmente o FICO, com direito à transmissão televisiva, foi uma grande vitória coletiva, da qual, eu particularmente, orgulho-me. Sei que o Laert pensa o mesmo, e acho que o Osvaldo também, para citar os dois com que tenho contato até hoje (recentemente, 2013, retomei o contato com, Fran Sérpico, também).


Sou muito grato ao destino, que sob uma improvável ação perpetrada por um anúncio classificado, publicado em uma revista, colocou o Laert "Sarrumor", em nosso caminho. Com sua inteligência e talento nato, impulsionou a nossa banda. Sem ele, não teríamos evoluído tão depressa. Claro que o grosso do material mostrou-se aquém do que faríamos no futuro em outros trabalhos, tanto eu quanto o Laert, mas chegamos a ter músicas interessantes, apesar de sermos tão fracos tecnicamente. Músicas como "Revirada", "No Mundo de Hoje", "Centro de Loucos", "Serena", "Diva"; "Na Minha Boca" e “Instante de Ser”, tinham qualidade, ao considerar-se as nossas condições humildes nessa época. Anos depois, "Na Minha Boca" e “Instante de Ser” entraram para o repertório do Língua de Trapo, e fizeram sucesso nos shows, por exemplo.

Tenho saudade desse tempo pelos shows que assisti. Pelas andanças por teatros; salas de cinema; exposições; museus; palestras...
Foi uma época em que fui um consumidor voraz de cultura em geral, mas a amálgama fora o Rock, e os ideais hippies, contraculturais etc. Tenho saudade da alegria que sentia quando acordava na manhã de um sábado, e sabia que ensaiaria naquele dia. Cada ensaio representava mais um passo em direção ao sonho. O cabelo pela cintura; as batas indianas, e a calça boca de sino, com remendos coloridos... meus pais achavam que era roupa de festa junina, mas eu achava o máximo andar vestido parecido com ícones meus que assim trajavam-se, como Roger Daltrey ou Neil Young...


Continua...

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 56 - Por Luiz Domingues



Vale lembrar que o ano de 1978, foi difícil também por muitos aspectos pessoais, e sócio / comportamentais. No campo pessoal, foi o ano em que meu pai começou a notar que aquele negócio de "tocar em uma banda de Rock", não seria um desejo passageiro e típico de adolescente, e dessa forma, eis que começou a pressionar-me em direção oposta, com questionamentos sobre eu cortar meu cabelo; modo de vestir-se; pensar em emprego formal e faculdade etc. Claro, posicionamentos normais de pai, e hoje em dia, em que eu tenho mais que a idade que ele ostentava naquela época, posso entender perfeitamente a sua preocupação comigo, mas à época, foi um conflito e tanto, visto que aqueles questionamentos aviltavam meus sonhos, convicções etc.

E outro ponto triste, foi a guinada estética que veio a reboque do sinal dos tempos. O Rock brasileiro desmanchava-se em 1978. Os ventos da "revolução" punk começavam a soprar por aqui, e todas as suas consequências pareciam apodrecer todos os meus alicerces Rockers. Muitos amigos meus saíram a correr pelos sebos, para vender seus LP's de Rock, e muitos, para não dizer a imensa maioria, correu aos salões de barbearia, para raspar as suas respectivas cabeleiras. Eu sentia-me isolado, ao analisar aquela manifestação toda, com a estupefação de quem assiste de camarote, o fim do mundo. Por que eu deveria aderir àquela estética anti-Rock ? As primeiras notícias que li sobre o movimento punk, causaram-me absoluta ojeriza. O que para muitos representara uma novidade libertadora, esfuziante, em minha percepção, fora na verdade o contrário, tal como um sinal incrível de decadência; desolação; retrocesso. A ideia de tocar-se sob formas musicais simples, sem sofisticação, parecia-me algo normal e passível de convivência pacífica sob a minha concepção. Na minha estante de discos, conviviam harmonicamente os discos do Gentle Giant, com seu Prog-Rock, ultra-sofisticado, e o som cru, e quase mal tocado do T.Rex. E a ambos, eu chamava de Rock, sem nenhum conflito. Mas a reboque desses elementos que não sabiam tocar, veio toda uma mística perpetrada por marqueteiros e jornalistas, a criar o paradigma da maldita ideia do niilismo e deixo bem claro, a péssima interpretação desse conceito. Esse é o grande ponto nevrálgico dessa questão, desse rompimento. Eu nunca acreditei no niilismo como padrão de procedimento. Não acredito que uma estética deva ser aniquilada, para que outra surja renovada. Eu era apenas um adolescente com dezoito anos de idade na ocasião, mas esse sentimento já mostrava-se claro em meu entendimento e daí, foi difícil ver o estrago que essa terrível mentalidade imposta ditatorialmente, causou ao Rock, com respingos em outras áreas, também. Foi em janeiro de 1978 que tomei contato pela primeira vez com essas ideias de Malcolm McLaren e seus seguidores, ao ler uma matéria sobre tal assunto em uma revista especializada. Mais ou menos em setembro de 1978, fui ao MIS (Museu da Imagem e do Som ), e assisti um documentário sobre o Punk-Rock. A maioria das pessoas evadiu-se sob entusiasmo do cinema, mas eu saí deprimido com aqueles conceitos. Por que eu deveria passar a odiar os Beatles, como eles pregavam ? Por quê ?
E no meio dessa desolação, eu enxergo um aspecto pessoal e benéfico, ao menos. Foi preciso ter uma vontade obstinada para seguir em frente, pois tudo apontava para o "Fim do Sonho". 
A frase deslocada de outro conceito, da música "God", do John Lennon, foi usada à exaustão pelos jornalistas e publicitários mal intencionados, deliberadamente a gerar uma formação de opinião, estagnada em oposição aos ideais da contracultura. Cansei de ouvir "o sonho acabou", seguido do indefectível sorriso irônico dos detratores do Rock, e contracultura "sixtie". Regozijavam-se do nosso sonho ter acabado e ofereceram-nos o que em troca ? O pesadelo punk da truculência, da péssima música e uma série de valores terríveis, que ditaram as tendências nos anos 1980, e esparramam-se como praga, até hoje. Mas nem todos encantaram-se com essa "revolução pusilânime". Muitos bandearam-se para o Jazz-Rock; Fusion, e outros tantos foram engajar-se de cabeça na MPB, que ainda tinha ventos hippies a soprar por mais um tempo. Lembro-me por exemplo de ter visto inúmeros shows de MPB nessa fase, entre 1978 e 1981. Assisti artistas tais como : Elis Regina; Fagner; Sá & Guarabyra; Caetano Veloso; Gilberto Gil; Beto Guedes; Zé Ramalho; Moraes Moreira; Milton Nascimento, e até medalhões da velha guarda, como Jackson do Pandeiro, Demônios da Garoa etc. 
Um dos shows mais sensacionais dos quais recordo-me, sob teor da MPB, foi um do Beto Guedes em 1978, no teatro da GV (Fundação Getúlio Vargas), na Av. 9 de julho, em São Paulo. Casa abarrotada, lembro-me de pessoas acomodadas pelos corredores, escadas etc. Curiosidade : perto de meus amigos e eu, estavam dois jogadores famosos do Corinthians, nessa ocasião e acompanhados de belas mulheres : Wladimir e Solito. Quem acompanha o futebol, há de lembrar-se dos dois. O show foi impecável, e o som do Beto tinha arranjos complexos, certamente influenciados pelo Rock progressivo setentista.

E como multi-instrumentista, que era / é, ele tocou baixo em várias músicas, e deixou todo mundo boquiabert com o som incrível que tirou de um belo baixo, Rickenbacker, de cor creme (“mapleglow”), igual ao do Chris Squire, do “Yes”, e assim, a arrancar suspiros dos corações “proggers” machucados pelo intenso vilipêndio, com toda aquela desolação punk de final de década.


O Bourréebach viveu seus últimos suspiros nos quatro primeiros meses de 1979. Com a saída do Osvaldo Vicino, muito da inocência inicial do Boca do Céu foi-se embora, naturalmente, pois estávamos mais amadurecidos. O Laert conhecera um colega na faculdade em que recém havia ingressado (Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero), logo nos seus primeiros dias, chamado Paulo Estevam Andrade. 
Era guitarrista, mas vivia aquela crise de identidade típica que acometeu à (quase) todos no final daquela década, ao negar o Rock, e a bandear-se para a MPB. Mesmo assim, ele interessou-se em conhecer o trabalho da nossa banda, e chegou a ensaiar conosco, algumas vezes. Lembro-me que ele possuía uma guitarra nacional, da marca, “Ookpik”, imitação de Gibson SG, com cor branca. Ele tocava bem, e parecia que encaixar-se-ia nessa nova formação da banda. Por incrível que pareça, o baterista, Zé Claudio também ficara após a reformulação geral no início de 1979, e a banda deu-nos uma remota esperança de continuidade, com essa nova formação. 
Contudo, o Laert mostrava-se cada vez mais empolgado com os colegas que havia conhecido recentemente, por conta de sua entrada na faculdade. Ali, nos corredores da Faculdade Cásper Líbero de jornalismo, conhecera : Guca Domenico; Carlos Mello (Castelo); Pituco Freitas; Paulo Elias Zaidan; Dico; Paulo Estevam Andrade; Nilma Martins e Saulo, entre outros, e a conversa a girar em torno de música; poesia; quadrinhos; cinema e tudo amalgamado pela política, estava a influenciá-lo fortemente. Com as coisas a caminhar devagar para o Bourréebach, foi natural que estivesse cada dia mais focado nesse novo ambiente, e assim que surgiu a ideia para realizar-se um Sarau literário / musical na própria faculdade, empolgou-se, e praticamente, aí nesse ponto, esgotou-se o seu foco no Bourréebach. Então, após alguns poucos ensaios, a banda desintegrou-se...


Apesar de ter sido um final melancólico, com a banda sendo vencida por inanição, praticamente, não fiquei triste na hora, tampouco fui acometido pelo sentimento de perda ou lamento. Simplesmente aceitei a absoluta falta de forças para prosseguir, mas convicto de que aquilo em nada mudaria a minha trajetória na música. Eu estava naquela altura, muito mais seguro, por ter vencido a etapa inicial, e terrível do aprendizado musical mais primário. Estava a progredir, tocar cada vez melhor, e sentia-me pronto para abraçar outras oportunidades.

Continua...

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 25 - Por Luiz Domingues


Ainda  a falar sobre a prática das dublagens de TV...
Pois é... passam mil coisas na cabeça, do tipo : estou a fazer papel de tolo; estou a ser ridicularizado; ninguém vai levar a minha música a sério, ao assistir-me a fazer esta palhaçada...
No entanto, um fator precisa ser levado em consideração : muitas pessoas, para não dizer a maioria, quando miram um artista a dublar, nem pensam nesses questionamentos, e apreciam a música, e o artista etc.

A questão da praticidade dos técnicos de TV, é muito discutível, se levar-se em consideração que nas décadas de cinquenta e sessenta, a TV era incrivelmente mais tosca, com uma tecnologia precária, e no entanto, abundavam programas de TV com música ao vivo e sob muita qualidade artística. Portanto, tal prática a privilegiar a simplificação total, é uma tremenda de uma desculpa esfarrapada...
São poucos que os questionam esse formato, e no final das contas, apesar dos pesares, eu preferia mil vezes fazer uma dublagem, do que não aparecer na TV, e ficar anônimo com minha dignidade a fazer-me companhia... mas como isso é muito relativo, no entanto, esse conceito eu tinha naquela época, pois hoje em dia, acho que a dignidade artística vale mais do que aparecer a realizar essa pantomima desagradável em programas popularescos, que não acrescentam-lhe nada.
Continua...

domingo, 28 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 24 - Por Luiz Domingues

Eu não tinha nenhuma familiaridade com essas técnicas teatrais, a não ser, por assistir espetáculos, como público. Muito diferente seria fazer parte do espetáculo, e ter a responsabilidade em não errar as marcações, sob o risco de destruir o trabalho, sob um efeito dominó, pois cada componente tinha o seu tempo cronometrado para atuar, e dar a deixa para os demais.
Em relação à costumeira prática da dublagem musical na TV, o trabalho que dá para colocar um equipamento dentro de um estúdio de TV; equalizar a banda; mixar o som e dar parâmetros bons de captação para a TV e monitor adequado para a banda, é gigantesco. E dentro de um estúdio de TV, a pressa é total para fazer tudo a correr, pois tempo é dinheiro e ali mais do que em qualquer outra corporação, isso é intensificado ao cubo. Você já deve ter reparado, leitor, em repórteres de jornalismo televisivo sendo grossos com entrevistados, ao tirar o microfone da boca das pessoas, e cortar sumariamente a sua fala. É que pessoas comuns, vão responder sem essa preocupação, e no meio da primeira frase, o diretor já está aos berros com o repórter no ponto colocado em sua orelha, a ordenar que corte o entrevistado... então, se você vai dublar, a preocupação reduz-se a zero, para eles.

Basta soltar o áudio do teu disco, que supõe-se esteja bem gravado, e apresentar-te ali como um "mico de circo", a fingir estar a cantar e tocar... para minimizar esse vexame, logo os membros do Língua, que já estavam acostumados, instruíram-me a avacalhar, para ficar ainda mais engraçado.
O Pituco Freitas costumava cantar em voz alta, outra música diferente da dublagem, e isso causava um mal-estar entre os técnicos da TV, e nós ficávamos a conter os inevitáveis ataques de riso que tínhamos. E muitas vezes, trocávamos de instrumentos. Em várias dublagens, eu fui tocar bateria (caixa e prato, bem entendido), e o Naminha a tocar baixo... mais para a frente, falarei mais sobre dublagens ridículas feitas na TV. Tenho histórias hilárias, nesse quesito.

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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Língua de Trapo - Capítulo 23 - Por Luiz Domingues


Foi em um domingo a noite, que encontrei-me com o pessoal da banda, na Rodoviária do Tietê, em São Paulo. Chegamos em Curitiba no início da manhã, e seguimos para o hotel.
Descansamos na parte da manhã, e a tarde já fomos ensaiar no palco do Teatro Paiol, que gentilmente cedeu o espaço nesse período, para que ensaiássemos. No dia seguinte, tive o meu primeiro compromisso oficial com a banda : fizemos uma apresentação a dublar, e seguida por uma entrevista em um programa vespertino da afiliada do SBT em Curitiba. Infelizmente, não anotei nada desses programas de TV e rádio em que participei com o Língua de Trapo nessa fase, portanto, ficarei a dever o nome, e as datas precisas da maioria deles.
Independente disso, foi uma sensação estranha, pois foi a primeira vez na vida que eu estive em uma emissora de TV a empreender a famigerada, "dublagem". Foi a primeira de uma série, e logo faria isso bastante com A Chave do Sol, também. E é bom lembrar que eu já tinha aparecido na TV, algumas vezes anteriormente, mas sempre a tocar ao vivo, todavia, essa foi de fato a minha primeira vez com a prática constrangedora da dublagem. Senti-me ridículo, ainda mais a dublar algo que eu não havia gravado, pois todas as músicas gravadas em que dublei com o Língua de Trapo, nesse período, foram obviamente do primeiro LP da banda, onde quem gravou o baixo, foi o Luiz Lucas.


Assisti a estreia da banda a noite, nessa temporada no Teatro Paiol de Curitiba, e essa foi a rotina durante a semana toda, com ensaio a tarde, e show a noite para a banda. Eu fiz pequenas participações em alguns shows, apenas para ganhar um pouco de entrosamento com a banda, mas sem comprometer o andamento do espetáculo, que prosseguia com a tradicional troca de figurino e intervenções teatrais.
Meu foco residia no novo show, que só estrearia em 15 de novembro, no teatro TUCA (Teatro da Universidade Católica), em São Paulo. E se na parte musical eu sentia-me razoavelmente seguro com as músicas a soar quase boas, sem eu precisar olhar para anotações de harmonia, eu estava assustado em não decorar as marcações de teatro, trocas de figurino etc.

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Terra no Asfalto - Capítulo 25 - Por Luiz Domingues

Em Campinas, o objetivo primordial da apresentação foi cumprido. Mas mesmo assim, a escola nem esboçou reconsiderar a sua decisão pelo cancelamento da temporada a passar por outras unidades e dessa maneira, infelizmente perdemos essa oportunidade.
Sim, foi visível a desintegração da banda, mas como tratou-se de uma banda cover, e eu estava empolgado com o rumo que o Língua de Trapo embrionário estava a ganhar, não incomodei-me muito com esse processo terminal, mesmo por que paralelamente ao Terra no Asfalto, e ao Língua de Trapo, eu estava a empreender trabalhos avulsos, conforme já relatei nos capítulos que descrevem essas atividades musicais extra aos meus esforços em atuar em bandas autorais. 

Uma história engraçada que cabe acrescentar aqui neste ponto da cronologia : nesse período em que o Luis Bola entrou no Terra no Asfalto, ensaiamos de uma forma acústica, diversas vezes na sua residência. Tratava-se de um sobrado bonito, localizado na rua Cristiano Viana em Pinheiros, zona Oeste de São Paulo, no quarteirão próximo à escadaria que dá acesso à Rua Cardeal Arcoverde.
Quem conhece São Paulo, e aquele bairro em específico, sabe que muitos anos depois, aqueles quarteirões próximos da Rua Teodoro Sampaio, no sentido do Hospital das Clínicas, tornou-se um ponto muito forte com a presença de lojas de instrumentos, e equipamentos musicais. Mas em 1980, não havia ainda nenhuma loja dessa natureza, por aquelas redondezas.
A esposa do Luis Bola (peço desculpas, mas esqueci-me de seu nome), era atriz, e tinha contatos bons no mundo do cinema autoral brasileiro. Tanto foi assim, que houvera tido uma pequena participação recente (a chamada "ponta", no jargão do cinema), no filme, "Gaijin", da diretora nipo-brasileira, Tizuka Yamazaki. E naquele período em que frequentei a residência do casal, eles estavam a hospedar um jovem ator carioca, ainda não muito famoso, chamado : Jorge Fernando.
Muitos anos depois, ele tornar-se-ia um diretor de novelas muito festejado da Rede Globo.Naquela época, havia feito um trabalho apenas como ator, que despertara a atenção, chamado, "Ciranda Cirandinha", uma espécie de sitcom brasileira, e curiosamente precursora do que seria mais ou menos a série americana, "Friends, anos depois. Em seu argumento primordial, tratava-se da história de quatro jovens a dividir um apartamento no Rio de Janeiro, todos mezzo Hippies, personagens esses interpretados por : Jorge Fernando; Denise Bandeira; Fábio Jr. e Lucélia Santos. Tal seriado fez um relativo sucesso em 1979, na TV Globo, mas ainda não o suficiente para torná-lo uma celebridade ao ponto de não poder andar pelas ruas, longe disso. Mas fico contente por saber que ele venceu na carreira, pois ainda lembro-me dele a circular pela casa do Luiz Bola, assistir os nossos ensaios etc.

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