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terça-feira, 30 de abril de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues


Chego ao final do relato sobre a história de minha primeira banda na carreira, portanto, é a hora para agradecer aos amigos e familiares que apoiaram o nosso trabalho. 

Inicio a mencionar os colegas que gravitaram nos primórdios da formação do Boca do Céu, em 1976, invariavelmente colegas da oitava série do curso fundamental da Escola Municipal Maria Antonieta D’Alckmin Basto, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Além dos que foram membros da banda, cito Gabriel (o "espanhol"), Nelson e Toninho que foram colegas de classe e acompanharam com constância no início, a nossa movimentação para formar a banda, além de outros tantos, incluso colegas que eu conhecia desde 1968 (Grupo Escolar de Vila Olímpia) e outros tantos de da turma de 1973 (Ginásio Estadual de Vila Olímpia), em diante, e com maior ou menor profundidade, eles observaram os nossos esforços, nessa determinação. 


Irmãos Vicino, em foto de 1976, bem nos primórdios do Boca do Céu. Osvaldo a tocar na companhia de suas irmãs. Foi no apartamento residencial da família Vicino que as primeiras reuniões do Boca do Céu ocorreram. Acervo e cortesia de Osvaldo Vicino 

Sou muito grato à família do Osvaldo Vicino, na figura de seu pai que era/é um gentleman, sua mãe (in memorian), e irmãs que torceram bastante e apoiaram-nos, além de Nelson Gravalos, namorado (hoje, marido). de sua irmã, Beth Vicino, pela filmagem da banda sob uma película em Super-8, filmada em junho de 1977. 


Agradeço à família de Fran Sérpico que aturou-nos por muitos ensaios barulhentos, além das sessões de televisão na sala de estar da família, quando o ensaio dava pausa para assistirmos o programa “Rock Concert”, da Rede Globo de Televisão, onde prestávamos a máxima atenção desde a introdução da vinheta do programa, a mostrar uma colagem de imagens de shows de Rock de bandas clássicas setentistas e internacionais, ao som da canção: “Led Boots”, do LP “Wired”, de Jeff Beck, até o último segundo dessa atração televisiva... 

A figura sensacional de Dona Olga Falci (in memorian), mãe do Laert Sarrumor, que protagonizou muitas histórias boas naqueles anos todos. E acredito que a sua torcida pelo filho, que foi impressionante, produziu uma energia vitoriosa que o acompanhou doravante, tornando-o o artista celebrado que é, e com todos os méritos. 

O primo freak do Wilton Rentero, Sidnei Miranda (e a sua simpática namorada, hoje esposa, Adelaide Giantomaso), que foi uma figura sensacional, com mil histórias fascinantes sobre o movimento hippie no Brasil. Saudade do convívio que foi super prazeroso pelas conversas, hospitalidade e muitos sons incríveis advindos de sua pick-up alimentada por uma coleção de discos, primorosa. 

A família de Pollyana Alves, nas figuras de seus pais e da sua irmã, Eliana Rímole Alves, que foram pessoas de uma docilidade impressionante. A acolhida em seu lar para os nossos ensaios, foi mais que uma gentileza, pois sentíamos o entusiasmo cativante deles em torcer pelo nosso sucesso.


A turma do bairro do Tatuapé que gravitava em torno dos meus primos, os irmãos Turci, que lá moravam e misturavam-se aos meus colegas de escola, em conexões comuns, até por coincidência. Cito pessoas como Luis Canton, Cri, Amaury Martins, Alcides “Cidão” Trindade (Cido), Eduardo Viscome, Chaím, Luiz Antonio Galvão, Norinho, Fábio Malatesta, “Piu-Piu”(in memoriam), “Cabelo”, Marcos e Regina de Fátima Nunes Galassi (que foi minha namorada na época), e mais outros que foge-me da lembrança sobre os seus nomes (perdão ao leitor e também para quem eu omiti o nome!), das turmas do meu colégio, Oswaldo Catalano, em que fui aluno entre 1977 e 1979, além do quase vizinho, mas morador da mesma rua, cujo nome esqueci-me completamente (mil perdões, amigo!), mas que se tratou de um "freak" e só por ver-me cabeludo a chegar para morar na Rua Jacirendi, mostrou-se hospitaleiro e sem nem conhecer-me direito, tocou a campainha de minha nova residência e emprestou-me os LP’s: triplo do Festival de Woodstock e Mutantes ao Vivo...”I wanna take you higher”, “que os Anjos do Sul já vão chegar”...
E a minha família por apoiar-me, ainda que nessa fase, principalmente ao pensar no meu pai, creio que tratou-se em princípio de apenas uma tolerância estratégica, pois seguramente que ele não levou a sério os meus esforços. Mas agradeço (é claro), por tudo, principalmente pela paciência nas fases em que a banda ensaiou em nossa residência e não deve ter sido nada fácil para eles, pois além de não termos condições acústicas adequadas para promover ensaios de uma banda de Rock, pesou contra o fato do nosso equipamento ser precário e sobretudo, a nossa condição musical como iniciantes, ter sido insípida, portanto, deve ter sido um tormento... 

Aproveito, para estender o agradecimento aos meus tios e primos que apoiaram-me diretamente essa etapa, inclusive ao ceder a sua residência para o Laert poder estudar no piano da família, fora o apoio e entusiasmo pela banda. Grato, família Barretto Turci, tios José Rubens & Hortência e meus primos: José Rubens Junior, Marco Antonio, Siomara, e Alcione Turci.
E sou muito grato aos companheiros dessa primeira etapa da minha jornada musical... hora para agradecer a cada personagem dessa fase inicial da minha trajetória musical. Começo a falar dos que tiveram participação menor na banda. 

Bernardão “Janjão”

Bernardo Lopes de Almeida (vulgo “Bernardão” ou “Janjão”), foi o terceiro membro do grupo, além de Osvaldo e eu mesmo, no início. Convivemos desde 1974, como colegas de escola, e também dividimos sonhos Rockers, ao ouvirmos os discos do “Deep Purple”, “Nektar” e tantas outras bandas que adorávamos. Fora os “Mutantes”, cujo LP, “Tudo Foi Feito pelo Sol”, ele sabia de cor e salteado. Fomos juntos assistir o show do Rick Wakeman em 1975, outra lembrança positiva de nossa amizade e convívio... sobre o Bernardo, perdi o contato com ele desde que saiu do Boca do Céu, em 1976. Espero que esteja bem!
Edson Coronato

Edson Coronato, a quem apelidávamos como: Edson "Coverdale", embora ele gostasse mais do Ian Gillan... (que ironia!). Sujeito cem por cento do bem, e certamente o melhor centroavante de nossa escola, no futebol. 

Edson Coronato encontrou-me um dia nos anos oitenta, a caminhar pelas proximidades da Av. Santo Amaro, na altura da Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo. Acho que foi em 1988, mais ou menos, quando eu estava a atuar com a banda "The Key", a dissidência d'A Chave do Sol (e pejorativamente conhecida como "A Chave sem Sol"). 

Em 2006, eu ainda não acessava a internet, e soube que ele mandara um depoimento muito bom, por e-mail, a relatar ter visto-me em ação com o Pedra, quando esta banda abriu o show do Uriah Heep, no Via Funchal, em São Paulo, através do site da nossa banda. Mas apesar de eu ter respondido rápido, de forma manuscrita como rascunho, ninguém ajudou-me de imediato e a resposta demorou tanto a ser digitalizada e enviada, que ele deve ter ficado bravo comigo, pois não respondeu-me depois. Se estiver a ler este relato, ficam aqui as minhas sinceras desculpas, e esteja convidado a adicionar-me em qualquer rede social onde eu estiver presente! Vamos relembrar os bons tempos da nossa escola, o nosso time de futebol, o "Universal", e a nossa paixão pelo Rock.
Pollyana Alves    
    Pollyana Alves, em foto bem mais recente, dos anos 2000 

Pollyana Alves e a sua irmã, cujo nome é Eliana Rímoli Alves. E certamente, a sua abnegada família, que foi muita entusiasmada pela música. Foi curta a sua participação, mas Pollyana teve a sua parcela de ajuda, também. Fiquei anos sem o contato pessoal com ela e sua irmã, desde 1978, mas o Laert disse-me em 2011, que elas eram suas amigas na extinta Rede Social Orkut. Recentemente, 2016, finalmente conectamo-nos na rede social Facebook, onde conversamos com bastante entusiasmo.

Eva

Quanto à outra vocalista, Eva (trata-se de um caso lamentável para a narrativa, onde não recordo-me do seu sobrenome), também perdi o contato faz anos. A última vez em que a vi, foi em um ensaio do Língua de Trapo em 1982, na casa dos irmãos Luiz & João Lucas, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo e inclusive eu estive ali como visitante também, pois eu não era mais componente da banda. Também espero que esteja bem e feliz. E a cantar “Mercedes Benz”, a capella, ao estilo da Janis Joplin, como ela gostava de fazê-lo, quando a conhecemos em 1978.

Zé Claudio
    Zé Claudio em ação com o Violeta de Outono, nos anos oitenta

O baterista, Zé Claudio, tocou anos depois no “Violeta de Outono”. Encontrei-me com ele no meio / fim dos anos oitenta, e fiquei contente por vê-lo a tocar em uma banda de renome. Curiosamente, um outro baterista de estreita relação profissional comigo, José Luiz Dinola (meu companheiro de A Chave do Sol; Sidharta, e alguns trabalhos avulsos, e tudo isso relatado também em seus respectivos capítulos, desta autobiografia), tornou-se baterista oficial do Violeta de Outono, muitos anos depois, para reforçar o elo de árvore genealógica em comum, que estabeleci com o grande guitarrista, Fábio Golfetti, fundador dessa significativa banda do Rock brasileiro.

Paulo Estevam Andrade

O guitarrista, Paulo Estevam Andrade, vulgo “Tevão” (apelidado igualmente como: "Paulo Sustenido"), também teve passagem curtíssima pela nossa banda, e logo depois da criação do "Grupo de Poesia e Música" da Faculdade Cásper Líbero, perdi o seu paradeiro. Não sabia de nada sobre ele, desde 1979, quando retomamos o contato recentemente no Facebook, em 2014. Hoje em dia ele é professor e mora na cidade de Marília, no interior de São Paulo. Conversamos então sobre o curto espaço de tempo em que convivemos, no ano de 1979.

Cido Trindade

E vale lembrar também de Cido Trindade, que nunca foi membro oficial da banda, mas acompanhou os seus passos, e chegou a fazer um show ao vivo, como convidado especial, em um momento de reformulação que fizemos, na metade de 1978, e fato relatado devidamente, no texto.

A falar agora do núcleo mais sólido do Boca do Céu :

Wilton Rentero

Wilton Carlos Rentero, a quem agradeço pelo companheirismo, pelo impulso técnico e confiança que transmitiu à banda nos meses em que tocou conosco, em 1977. Não o vejo desde 1978, quando ele saiu da banda, ao alegar que iria dedicar-se ao estudo de violão erudito. Soube pelo Laert, que Wilton apareceu em um show do Língua de Trapo na cidade de Guarulhos-SP, onde mora e trabalha como professor universitário na Universidade de Guarulhos. 

Ele graduou-se em Letras com várias especializações, escreveu muitos livros acadêmicos e é bem atuante no sindicato da sua categoria.
Fica aqui uma menção ao primo dele, que chamava-se Sidnei Miranda (estendido à sua então namorada e hoje, esposa, Adelaide Giantomaso), e que deu muito apoio ao Boca do Céu. Além de ser uma referência para nós, por ser mais velho e hippie dos primórdios do movimento, tendo muitas histórias para contar e com uma bela coleção de discos que colocou à nossa disposição, gentilmente, para a nossa audição. Saudade das visitas que fazíamos à residência dele, no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo, onde varamos madrugadas a ouvir sons incríveis proporcionados por sua vitrola, "Gradiente" (Syd Barrett/Madcap Laughs, entre eles...).


Fran Sérpico
           Fran Sérpico, em foto bem mais atual, dos anos 2000


Francisco Sérpico, que apesar de ter não ter tido a mesma tenacidade (mas é claro, foi uma opção sua por mirar em outros objetivos pessoais), teve a sua parcela de colaboração grande, é claro. Sobre a tenacidade, nada a reclamar, pois foi questão de fórum íntimo e ele detinha as suas outras prioridades em mente e que aliás, diga-se de passagem, garantiu-lhe o sucesso na vida ao levá-lo à uma carreira profissional muito bem sucedida e também pela construção de uma bela família. 

Para falar de sua participação conosco, foi incrível a sua trajetória ao instrumento sem o uso de uma caixa (snare drum), peça fundamental no kit de uma bateria, mas mesmo assim, ele levou adiante. 

A sua generosidade em transformar a própria residência em nosso “QG”, foi imensa. E cabe aqui também um agradecimento à sua família, que suportou-nos por um bom período, com ensaios semanais barulhentos, com direito ao movimento de "entra-e-sai de convidados" etc. Saudade dos ensaios na casa dele, no bairro do Campo Belo, na zona sul de São Paulo, com direito às idas ao recém inaugurado Shopping Ibirapuera, onde causávamos estranheza pelo nosso visual hippie, a contrastar com os playboys ali presentes em profusão. 

Poucos dias antes do natal de 2016, Fran Sérpico deu-nos um presente natalino, inesquecível, ao providenciar enfim a digitalização e edição do histórico vídeo em formato Super-8, que filmamos com a banda a tocar no quintal de sua residência, no dia 12 de junho de 1977. Tal documento tornou-se o único, raro e histórico registro da banda em ação, portanto, nem sei o que dizer para agradecer-lhe por tê-lo guardado nesses anos todos e providenciado a sua digitalização para a apresentação pública, ad eternum. 

Sou-lhe grato também, por haver prestado um bonito depoimento através da Rede Social, Facebook, ao falar sobre o nosso Boca do Céu, e a enaltecer o Laert e eu, Luiz Domingues, por termos profissionalizado-nos e construído carreiras artísticas, incluso com alguns trabalhos posteriores em conjunto, caso do Língua de Trapo, onde nós dois atuamos.

Laert “Sarrumor” Julio
       Laert Sarrumor, em foto bem mais recente, dos anos 2000


Laert Júlio Pedro Jesus Falci... com esse nome de imperador do século XIX, a apresentar essa profusão toda. Ele possui talento nato, criatividade, força de vontade inabalável, poder de organização muito forte, senso de empreendedorismo e é também  um visionário como artista que sempre enxerga na frente.
Com o Laert, saímos do patamar de uma banda sem condições mínimas nem para ensaiar, para algo palpável, ao ponto de pleitearmos planos de expansão etc. 

Laert Sarrumor tornou-se anos depois, conhecido pelo Língua de Trapo, mas também pela carreira como ator (já atuou no cinema, várias vezes), especiais de TV, apresentador de programa de TV, dublador do personagem infantil, Topo Gigio (versão dos anos 1980), escritor de livros arrolados na lista "best seller", redator de humor, radialista (está desde 1983 no ar com o programa, "Rádio Matraca" pela emissora USP FM), cartunista, ilustrador, garoto propaganda em comercias de TV...
O Boca do Céu é o embrião mais remoto do Língua de Trapo, pelo nosso ponto de vista particular, certamente. Eu também toquei no Língua de Trapo em duas passagens por essa banda: desde a fundação, até 1981, e depois no período 1983/1984. Tenho contato permanente com o Laert. E vale relembrar a Dona Olga, a sua mãe, que foi uma persona sempre presente na vida do Boca do Céu.

Osvaldo Vicino
          Osvaldo Vicino, em foto bem mais atual, dos anos 2000

O responsável pela pedra fundamental da fundação da banda e a quem quero agradecer, efusivamente, é Osvaldo Vicino, meu colega da 8ª série, que fez o convite para formarmos uma banda de Rock, em tarde de abril de 1976. 

Foi ele também que teve a paciência em esperar que eu aprendesse o conhecimento fundamental da teoria musical e adestramento ao baixo. O seu segundo impulso para ajudar-me, foi tentar adaptar uma guitarra Giannini velha que ele possuía, como baixo e santa ingenuidade, claro que não deu certo.
Depois disso, ele viu e avisou-me sobre um baixo usado, “handmade” em uma loja de instrumentos velhos e baratos. Se tratou de um baixo cópia de um "Hofner", e assim foi o meu primeiro instrumento. Ele só afinava com o uso de um alicate, pois as tarraxas estavam emperradas, era grosseiro no seu acabamento e tinha captadores horríveis, mas foi o meu primeiro baixo. Adoraria tê-lo comigo hoje, como memorabilia, pois não seria possível para tocar com um simulacro daqueles, mas que importância sentimental teria se estivesse comigo... 

Pois eu tenho essa dívida moral com Osvaldo Vicino, por que foi efetivamente o amigo que abriu-me as portas para a música de uma forma concreta, além dos devaneios que eu tivera até então, antes de ter aceito o seu convite para entrar em uma banda "real", sob um dia de abril de 1976.
Com o Osvaldo, eu retomei contato pela rede social extinta, o Orkut, em 2010. Ele viveu no Nordeste por muitos anos, em Fortaleza, e também no Recife. Tem três filhos, trabalhou em vários hospitais como administrador, e nunca deixou de tocar, apesar de eu ter pensado isso, quando ele saiu da banda (ainda bem!). 

Foto do grupo de Rock cover do Whitesnake, "Snakebite". Osvaldo é o quinto da esquerda para direita entre os seus companheiros. 

Quando retomamos o contato pelo Orkut, fiquei muito contente por saber que ele jamais parou, e teve por anos, uma banda cover do Whitesnake, chamada "Snakebite". 

Ele também desenvolveu-se no baixo, e hoje em dia toca os dois instrumentos com desenvoltura. Em 2015, voltou a morar em São Paulo e participou da festa de aniversário do Laert, em maio, ocasião em que infelizmente eu não pude comparecer por estar adoentado na ocasião. Mas em agosto do mesmo ano, ele foi ver-me a tocar com a Magnólia Blues Band e conversamos bastante sobre os velhos tempos.

Osvaldo Vicino e Laert Sarrumor na festa de aniversário do Laert, em maio de 2015, na primeira foto com seu autor do click desconhecido. Luiz Domingues e Osvaldo Vicino em um reencontro em agosto de 2015. Fotos: Lara Pap


Este capítulo de minha trajetória musical está encerrado. 
Viva o Boca do Céu, o verdadeiro “centro de loucos” que promoveu uma “revirada” na minha vida... 



O Boca do Céu em ação, em 12 de junho de 1977. Único documento com imagens da banda em ação, e o mais remoto da minha própria carreira. Filmagem de 1977 a cargo de Nelson Gravalos em formato Super-8. Digitalização e cortesia de Fran Sérpico e pós produção para o YouTube de Jani Santana Morales

Eis o Link para assistir no You Tube:

http://www.youtube.com/watch?v=LHiL27bRGOs

Muito grato, amigo leitor, por ter lido esta etapa inicial do meu relato autobiográfico! 

A vida prosseguiu, e logo eu estaria envolvido com o Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero, que na prática, foi o embrião mais remoto do Língua de Trapo. 

É daqui que segue a minha história, portanto... Língua de Trapo! 

domingo, 31 de março de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 55 - Por Luiz Domingues


De volta a falar da minha banda, infelizmente, nos últimos meses de 1978, as faltas do Osvaldo chegaram em um patamar insuportável, e na iminência do prazo limite para enviar nosso material ao festival do Teatro Paulo Eiró, resolvemos desistir de enviá-lo. Ficamos chateados mais uma vez, pois caracterizou mais uma derrota. Ao mesmo tempo em que eu e Laert melhorávamos, a banda andava para trás, com a desanimação do Osvaldo, e a falta de comprometimento mais incisivo do Zé Claudio. Este último, não faltava nos ensaios, mas era nítida a percepção que tínhamos, eu e Laert, que ele não vestia a camisa da banda, e estava ali só a observar o que poderia ocorrer. Tudo bem, era um direito dele pensar e agir assim, mas não era o que desejávamos, ainda mais com o Osvaldo a entrar em uma fase de distanciamento de nossos ideais. Dessa forma, resolvemos adotar o mesmo procedimento que havíamos tido em relação ao baterista, Fran Sérpico, no início do ano, e marcamos um encontro com o Osvaldo, para que ele esclarecesse o motivo de suas faltas constantes. E tudo revelou-se da pior maneira para a nossa banda... ele foi honesto, e disse que não estava mais com vontade de tocar, pois estava a namorar, e assim, por focar em outras motivações na sua vida, naquele momento. Portanto, foi mais que um distanciamento da banda, ele estava a distanciar-se do próprio Rock, como instituição, ideal e modo de vida. Nesses termos, impossível contra-argumentar, e foi assim, que o membro fundador, e iniciador da primeira fagulha, partiu. Fiquei chateado, claro. Na prática, o Osvaldo foi o amigo que abriu-me a primeira porta na música. Se isso borbulhava loucamente na minha cabeça há anos, concretamente a descrever, só fui engajar-me mesmo a partir do convite dele, em um dia qualquer de abril de 1976. Antes, apenas tinha o sonho na cabeça, e formulações fictícias a partir de 1975, quando formei duas bandas que nunca chegaram nem perto de um instrumento musical (Satanaz e Medusa). Aquilo fora apenas uma ideia na cabeça, e embora chegássemos a compor horríveis músicas, só na base de melodias e letras bisonhas, sem a intervenção de instrumentos, foi só a partir daí, que fui engajar-me com a música (Boca do Céu), pois o Osvaldo tocava e tinha uma guitarra "de verdade"... mas, fazer o quê ? O amigo entrou em outra expectativa, cortou o cabelo, passou a andar vestido como o John Travolta, e a frequentar Discothéques. Se perdera o vínculo primordial de 1976 (na verdade não perdeu, muitos anos depois eu tive o prazer de saber disso), nada poderíamos fazer, a não ser acatar sua decisão, e tocar a vida para a frente. O Zé Claudio, por incrível que pareça, surpreendeu-nos, pois aceitou prosseguir, mesmo com a saída do Osvaldo. Dele que tínhamos a impressão de ser um rapaz alheio, ficou essa surpresa positiva. 
As garotas também ficaram divididas com a saída do Osvaldo. Se com ele, as coisas estavam devagar, com a desclassificação prévia do FICO, e a nossa própria desistência em relação ao festival do Teatro Paulo Eiró, agora abatera-se um desânimo, também sobre elas. Dessa forma, nem Eva, nem Pollyana Alves ficou... perdemos Janis Joplin e Karen Carpenter, de uma só vez...
Ao final do ano de 1978, o Laert estava também preocupado com o vestibular, e assim, a precisar estudar, e eu às voltas com o alistamento militar. Estava na quarta chamada, e já havia até tirado medidas de farda; capacete e coturno. Uma quinta e decisiva chamada estava marcada para janeiro de 1979, e mostrava-se como uma perspectiva sombria que poderia atrapalhar-me, e muito, nos meus planos para seguir na banda.
E assim encerrou-se 1978, um ano muito difícil para o Boca do Céu / Bourréebach, onde só tivemos revés; adversidades; perdas, e regredimos em muitos aspectos, praticamente a perder a evolução que tivéramos em 1977.


Continua...

sábado, 30 de março de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 54 - Por Luiz Domingues


Chick Corea também foi incrível, embora mais centrado no Jazz Fusion. O virtuosismo dele, hipnotizou a plateia e os solos ao sintetizador Mini-Moog, principalmente, arrancou uivos dos rockers presentes na plateia, para desconforto de alguns jazzistas arrogantes, e preconceituosos.
O show do tecladista suíço, Patrick Moraz, foi centrado no seu disco solo, denominado : "I". O grande atrativo de sua apresentação residiu pelo fato em ter tido uma meteórica passagem pelo “Yes”, a gravar o álbum, "Relayer". Claro, se não fosse por isso, não teria despertado todo esse interesse, pois sua carreira solo só tinha alguma relevância por essa ligação, e jamais por ser ex-tecladista da obscura banda Prog-Rock, suíça, "Refugee". Pairava também no ar, a expectativa por ele ter envolvido-se com a banda Prog Rock carioca, "Vímana", que causou furor no meio rocker brazuca. E um fato inusitado ocorreu no show do Patrick Moraz : uma participação do guitarrista, Sérgio Dias, dos Mutantes, deixou um mal-estar no ar. Quando o Sérgio entrou no palco, ficou nítida a impressão que aquilo fora improvisado, com roadies a empurrar o amplificador às pressas, e o Sérgio a surgir inesperadamente, a plugar sua guitarra, e sair a solar a esmo. O Patrick Moraz pareceu-nos estar assustado com a situação, e denotou-nos a impressão de que fora surpreendido, e que sobretudo, não gostara da intervenção. Mas particularmente, mesmo com esse mal-estar instaurado, achei que foi o ponto alto da apresentação (pasmem !), que estava entediante até então, com Moraz só a tocar piano acústico, acompanhado de percussionistas de uma Escola de Samba, conduzida pelo músico brasileiro, Djalma Correa. Fãs do Yes frustraram-se com a insipidez musical de Moraz nessa apresentação.


Achei na internet, essa resenha escrita por vários jornalistas da saudosa revista : "Rock, a História e a Glória", sobre o Festival de Jazz de SP' 1978 :

http://www.clubedejazz.com.br/noticias/noticia.php?noticia_id=695

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Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 53 - Por Luiz Domingues


Concentramos nossas forças no objetivo em participarmos do Festival do Teatro Paulo Eiró, a manter a mesma dinâmica de ensaios.


Conforme já havia comentado anteriormente, nosso guitarrista, Osvaldo Vicino, dava sinais de dispersão já há algum tempo, mas nesse segundo semestre, parece que degringolou mesmo, com sistemáticas faltas, e um ar desinteressado nos ensaios, a contrastar com o comportamento norteado pela força de vontade, que exibira desde o começo, em 1976. A gota d'água deu-se no dia em que íamos para o ensaio, a caminho da residência da Pollyana Alves, em um sábado, e o vimos  a caminhar em uma rua próxima à Av. Paulista, com cabelos cortados, e a usar um figurino ao estilo do John Travolta. Dias depois, ele confessou-nos que dirigia-se à uma Discothèque... suportamos tal situação mais um pouco, mas a ruptura estava anunciada.
Nessa época (setembro de 1978), fui com o Laert assistir alguns shows do Festival de Jazz de São Paulo, que causou muito alarde à época. Foi uma edição do famoso Festival de Montreux / Suíça e muitas atrações internacionais excelentes apresentaram-se.
Eu e o Laert (encontramo-nos com Pollyana Alves e sua irmã, a super simpática, Eliana Rímoli Alves, também ali no ambiente do festival), fomos ver “Chick Corea”; “John MacLaughlin”; “Patrick Moraz”; “Hermeto Paschoal”; “Egberto Gismonti” etc. Pela TV, nos outros dias em que não fomos (fomos em dois), vi “B.B.King”; “Etta James”; “Al Jarreau”...
Por exemplo, ao assistir o show pela TV, constatei que Etta James exagerou, ao levantar a blusa, e cantar com os seios desnudos, por alguns instantes e isso provocou uma reação indignada do comentarista da TV Cultura de São Paulo, Zuza Homem de Mello, que ignorou o show sensacional que ela estava a realizar, para centrar a sua indignação pelo ato dela, mediante suas impressões moralistas. 


B.B. King foi maravilhoso. Foi a primeira vez que o Rei do Blues veio ao Brasil e todos ficamos maravilhados com a presença desse grande mestre, em palco paulistano. Anos depois e ele passou a comer pastel, nas feiras livres de São Paulo, tamanha a quantidade de vezes em que voltou para tocar aqui, mas naquela época, foi uma novidade extraordinária.



Nos shows que assisti ao vivo, adorei o John MacLaughlin. Com um quarteto afiado. Lembro-me de que na banda dele, o baixista foi o Fernando Saunders, que posteriormente tocou com Jeff Beck, e outras feras. Na bateria, teve a presença de Tony Franklin, e no violino, L. Shankar, cuja presença aqui causava furor entre os Hippies locais, por este músico ser sobrinho do citarista indiano, Ravi Shankar. Apesar da óbvia influência jazzística, via fusion, esse quarteto tinha pegada, como rockers, a tocar com uma garra incrível, fora o seu virtuosismo habitual.


Continua...

sábado, 9 de março de 2013

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 52 - Por Luiz Domingues



Uma nova edição do festival FICO aproximou-se, e dessa forma, a toque de caixa, gravamos e inscrevemos quatro músicas : "Assim Como", "Desacomodação", "Blues Encanto" e "Consciência Geral", todas do Laert. E nesse ínterim, o Laert conheceu um baterista, através de um amigo seu, do curso colegial, que estava a finalizar, inclusive. O rapaz chamava-se, José Claudio, e tinha um nível técnico semelhante ao do Cido Trindade. 
O baterista, José Claudio, algum tempo depois, nos anos oitenta, a atuar como componente do Violeta de Outono 

Dessa forma, começamos a ensaiar com ele, e a dinâmica com a proximidade do FICO, mudou : aos sábados, ensaiávamos na casa da Pollyana Alves, e aos domingos, voltávamos à minha residência, para ensaiar com o Zé Claudio. Mas como tal situação mostrava-se precária pela logística que dispúnhamos, mal acertávamos a banda, e um novo problema começou a surgir. Desta vez foi o guitarrista, Osvaldo Vicino, que começou a faltar nos ensaios, de forma recorrente. Na realidade, ele já vinha a dar mostras de desgaste há algum tempo, mas agora às vésperas de uma nova edição do FICO, tornou-se preocupante a sua falta de assiduidade, e pior, o visível ar entediado que começava a tornar-se uma constante em seu semblante.
E o pior aconteceu... não classificamos nenhuma música para o FICO, o que desalentou-nos muito, visto que encaramos esse revés, como um retrocesso. Foi inadmissível que tivéssemos participado em 1977, com muito menos técnica individual de cada um, fora a inexperiência, em contraste com um ano a mais, onde havíamos crescido nesses aspectos. Por outro lado, em 1978, pesou contra, a nossa desorganização com troca constante de componentes, e ensaios feitos de uma forma improvisada, algumas vezes com teclado, outras com bateria etc. E o pior de tudo : as gravações que mandamos ao Festival, foram precárias por conta dessas dificuldades citadas. Por incrível que pareça, havíamos mandado um material melhor em 1977, e nesse aspecto, merecemos a desclassificação. Mas haveria um último cartucho possível para usado em 1978 : um festival organizado pelo Teatro Paulo Eiró.

Continua...

Autobiografia na Música - Boca do Céu / Bourréebach - Capítulo 51 - Por Luiz Domingues


Após essa frustrante exibição, seguimos na captura de novos membros para a banda. As melhores vocalistas que apareceu-nos, foram mesmo a Eva, e a Pollyana Alves. A Eva tinha mais emissão vocal, aparentemente e o visual mais adequado aos nossos anseios, mas a despeito da voz da Pollyana Alves ser mais comedida, tinha ótima afinação. 


          Pollyana Alves, em foto bem mais atual, dos anos 2000 

Seu visual era bem comportado, mais a parecer-se com Karen Carpenter do que Grace Slick. Ficamos sob uma grande dúvida sobre qual das duas escolher, mesmo por que ambas tinham suas qualidades e para agravar a nossa indecisão em decidirmos, nas reuniões que tivemos com as duas, elas tornaram-se amigas entre si, e cada dia ficou mais difícil tomar uma decisão. Foi quando o Laert ofereceu a sugestão para efetivarmos ambas, na banda. Foi uma ideia exótica em princípio, mas ao pensarmos bem, não seria uma má solução, com duas vozes femininas, e mais o Laert, nós quase teríamos a possibilidade sonora de uma banda como "The Mamas and The Papas", em mãos...

Para a bateria, ainda não tínhamos uma perspectiva em vista, mas sabíamos que poderíamos contar com o Cido Trindade, em alguma eventualidade.


Então, passadas as férias escolares, marcamos um ensaio oficial da nova formação, para o início de agosto. A residência da vocalista, Pollyana Alves foi oferecida-nos por ela mesma, com total apoio dos seus pais, que ajudavam-na demais, e como não tínhamos mais um baterista fixo, ao menos por enquanto, não havia a necessidade em ensaiarmos na minha casa, imediatamente, até segunda ordem. E o argumento definitivo que convenceu-nos sobre sua habitação : ela tinha um piano e um amplificador de guitarra, disponíveis. Dessa forma, eu e o Osvaldo Vicino tocaríamos plugados no mesmo "Bag U65", da Giannini, e o Laert tocaria piano. A Eva tinha uma pandeirola meia-lua e ... bingo ! O barulho estava garantido... foi em um domingo, dia 13 de agosto de 1978, que realizamos o nosso primeiro ensaio. Agora o Bourréebach estava formado por Laert; Osvaldo; Luiz; Eva, e Pollyana, a faltar-nos somente um baterista, para fechar o sexteto. A casa dela, era na verdade um apartamento, localizado no Bairro do Limão, zona norte de São Paulo. Usávamos dois ônibus para chegar lá...

Como tínhamos força de vontade ! Levávamos mais de duas horas, só para chegar lá, e mais duas, para voltar, com instrumentos na mão...

Continua...