domingo, 30 de setembro de 2018

Autobiografia na Música / Atualizações - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 85 - Por Luiz Domingues



Avancei um pouco para narrar a gravação da canção, "Andando na Praia", com duas sessões ocorridas em 18 de fevereiro e 4 de março, respectivamente, no estúdio Prismathias, na zona leste de São Paulo, mas na verdade, antes da segunda sessão, ocorrida em 4 de março, Os Kurandeiros cumpriram dois compromissos ao vivo, portanto, vou retroagir na narrativa em alguns poucos dias, para arrolá-los.



Com a presença sempre bem vinda e enriquecedora do tecladista, Nelson Ferarresso, eis que voltamos ao Santa Sede Rock Bar, de São Paulo, em 1º de março de 2018. Clicks : Lara Pap

Conforme houvera acontecido em novembro de 2017, com cinco quintas e a gerar uma pequena extensão em dezembro, sob formato de mini temporada, o Santa Sede Rock Bar convidou-nos para mais uma ação nesses termos, agora com cinco quintas de março. Portanto, no dia 1º de março de 2018, iniciamos essa nova etapa na simpática casa noturna da zona norte de São Paulo, um reduto Hippie & Rocker, aconchegante e resistente aos modismos trôpegos etc e tal. Uma boa nova, Nelson Ferraresso tocou conosco a enriquecer o nosso som, certamente. Mesclamos muitas músicas antigas, que não tocávamos há tempos, para aproveitar a boa performance do Nelson e foi um bom começo para a nova temporada. 



De volta à simpática casa, Rockers Self Garage, de São Paulo, em 3 de março de 2018. Clicks : Lara Pap

Dois dias depois, voltamos ao Rockers Self Garage, um agradabilíssimo espaço de shows, híbrido de oficina mecânica de luxo para motos e casa de shows de Rock. Nesse show, tocamos para uma plateia animada, com muitos Rockers veteranos presentes e assim a vibrar sob a nossa inteira sintonia e coadunação com o espírito da casa e da cultura Rocker / Motorcycler. Ocorreu no dia 3 de março de 2018, mas sem a presença do tecladista, Nelson Ferraresso. Tudo bem, com ele era sempre muito rico para o nosso som, mas em formato Power Trio, dávamos o recado igualmente e assim ocorreu a apresentação, sempre prazerosa naquela casa, pela hospitalidade de seus proprietários e também por ser ali um assumido reduto Rocker, conforme já descrevi em capítulos anteriores, com detalhes, inclusive.
"Desprevenida", ao vivo no Rockers Self Garage de São Paulo, em 3 de março de 2018

Eis o Link para assistir no Yoy Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=DfHPqon01SU  

"Andando na Praia" (Luiz Domingues / Kim Kehl), ao vivo no Rockers Self Garage de São Paulo, em 3 de março de 2018

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=2j9WH2unroE



No dia seguinte, Kim e Nelson, além do amigo Marco "Pepito" Soledade, compareceram ao estúdio Prismathias, para a segunda sessão de gravação do novo single, "Andando na Praia", conforme já narrei, igualmente. E o próximo compromisso, foi cumprido pela continuidade da temporada no Santa Sede Rock Bar. 
A contar com Nelson Ferraresso, novamente no Santa Sede Rock Bar, em 8 de março de 2018. Click : Lara Pap

Dia 8 de março de 2018 e lá estávamos nós a tocar com prazer e com a boa companhia de Nelson Ferraresso e seus teclados sempre bem executados. Nesse ínterim, a artesã, Pat Freire, em associação com o amigo, Jones Senoj, criou uma coleção de pulseiras e pingentes super Hippies, com a inclusão do Logotipo dos Kurandeiros. Mais um reforço para o merchandising da banda, sempre em expansão, sob a visão gerencial de Lara Pap e do próprio Kim.

Outra boa nova, em contato estabelecido com o histórico produtor musical, Luiz Carlos Calanca, proprietário da loja / gravadora, Baratos Afins, o Kim selou parceria para a venda digital do novo single que estávamos a produzir, "Andando na Praia". Positivo ter a sensação de que o tempo passou e mais uma vez eu teria uma ligação direta com o Calanca, uma figura tão importante na minha trajetória musical, sendo crucial para A Chave do Sol nos anos oitenta, e com mais um pouco de influência sobre a Patrulha do Espaço e o Pedra, nos anos dois mil. Fiquei feliz por saber dessa parceria estabelecida para Os Kurandeiros, agora, quase ao chegarmos aos anos vinte do novo século.

Continua... 

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Autobiografia na Música / Atualizações - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 84 - Por Luiz Domingues

Kim Kehl a preparar o seu som para o momento de gravação do solo da canção, "Andando na Praia", no estúdio Prismathias de São Paulo, em 18 de fevereiro de 2018. Click, acervo e cortesia : Danilo Gomes Santos

Começamos os trabalhos preliminares de captura de timbres dos instrumentos básicos da banda. Eu e Kim gravamos na mesma sala e à nossa frente, víamos por um vidro grande, a sala onde Carlinhos tocara e na outra ao lado, também separado por vidro, a sala da técnica, com Danilo Gomes Santos a operar, sob os olhares atentos do seu jovem assistente, Malcolm-X Bezerra Góes. Aliás, em conversa informal, o próprio Malcolm contou-nos que o seu nome fora escolhido pelo seu pai, por este ter sido um grande fã do ativista norteamericano, Malcolm X. 

Kim Kehl a usar seu smartphone enquanto Danilo Gomes Santos trabalhava na mesa de gravação. Os Kurandeiros a gravar o single : "Andando na Praia", no estúdio Prismathias de São Paulo, em 18 de fevereiro de 2018. Click : Luiz Domingues
 
O plano de gravação foi o clássico, com a base a ser gravada ao vivo, como um ensaio gravado. No entanto, já nos testes preliminares, notei que o técnico, Danilo, além de demonstrar conhecimento técnico, conhecia o seu estúdio na palma da mão, pois apesar de ser composto por salas minimalistas no tocante ao espaço físico disponível, ele sabia extrair o máximo de suas possibilidades acústicas naturais. Ora, que bom ouvir o som de uma bateria com um corpo sonoro in natura, mediante robustez nos graves dos tambores e sobretudo o bumbo, além do chimbau e pratos a soar sem aquele excessivo agudo que abusa do sinal dos twitters e agride os tímpanos mais sensíveis. Logo nas primeiras amostras de equalização que fez com o Carlinhos, eu já gostei de ouvir aquele som encorpado, com jeito de gravação de Rock, Soul e MPB dos anos setenta.

Foi com esse baixo, um Tajima, cópia de Fender Precision clássico, que gravei a canção "Andando na Praia", dos Kurandeiros. Estúdio Prismathias de São Paulo, em 18 de fevereiro de 2018. Click : Luiz Domingues
 
Eu e Kim tocamos na mesma sala e sem separação acústica alguma entre os nossos respectivos amplificadores, mas o Danilo mostrou-nos que a sua metodologia era muito boa nesse sentido e simplesmente não houve vazamento de um instrumento na gravação do outro. Mediante algumas poucas tomadas, gravamos a base com relativa calma e ficamos muito entusiasmados com a "rough mix" que o Danilo executou ali, só para ouvirmos cada performance solada e posterior audição com a base inteiramente pronta. Animados com o resultado sonoro da captura inicial e com o Danilo bem disposto a prosseguir, o Kim gravou o seu solo e alguns contrasolos a seguir. Após a adição do pedal Fuzz, sem nenhuma parcimônia e a soar "super sixties", estava claro para nós que a feição psicodélica da canção estava assegurada e mesmo com a bateria do Carlinhos e o meu arranjo pessoal de baixo a manter a pegada jazzística anterior da composição, quando de seu arranjo inicial, praticamente, mesmo por que o compasso em 6/8 induziu-nos a isso, e certamente que a carga psicodélica proposta pelo Kim nas modificações feitas em seu arranjo, assegurou tal prerrogativa.

Danilo Gomes Santos, o competente técnico e proprietário do Estúdio Prismathias de São Paulo. Click (selfie), acervo e cortesia de Danilo Gomes Santos.

O Kim gravou com muita rapidez. Em menos de uma hora, solo e contrasolo estavam anexados à canção e houve até margem para inserir ideias de última hora que ocorrem-lhe ali no calor da gravação. Feito isso, imediatamente ele foi enfrentar o microfone e a voz principal e uma segunda via em dobro, foi também gravada. Agrupamo-nos na sala da técnica, cerca de quarenta minutos depois para ouvir a rough mix com tudo gravado e apreciamos muito a captura inicial. Danilo ao mostrar-se não só muito competente, mas criativo, enquanto ouvíamos, já foi a experimentar vários "plug-ins" interessantes com compressão e efeitos que só enriqueceriam esse áudio.

Luiz Domingues a posar orgulhosamente ante o painel instalado na sala de espera do Estúdio Prismathias de São Paulo, em 18 de fevereiro de 2018. Acervo de Luiz Domingues. Click : Kim Kehl
 
E a canção estava a soar tão agradável, que foi unânime a opinião de que tal resultado, artístico e técnico pelo áudio, superara as nossas mais otimistas expectativas. Diante dessa pequena euforia ali instaurada, o Danilo reforçou a ideia de que deveríamos comunicarmo-nos nos dias subsequentes pelo grupo criado dentro da rede social, Whatsapp e que opinaríamos sobre o processo da mixagem e posterior, masterização. Saímos do estúdio Prismathias, muito felizes por tudo. A gentil oferta do Danilo, por si só já fora maravilhosa, mas naquele domingo, dia 18 de fevereiro, o desenrolar dos acontecimentos em gradual crescente, fizera com que subisse ainda mais alto o nosso conceito sobre a sua pessoa e competência técnica, a gerar assim um sentimento que veio à baila : a constatação de que muitas vezes gravar em um estúdio luxuoso não significa que o resultado será automaticamente no mesmo padrão. Muito pelo contrário, muitas vezes é decepcionante e por uma série de fatores. Na contrapartida, o Prismathias em sua simplicidade pelas instalações, mostrou-se muito eficaz na sua atribuição, portanto, Danilo angariou mais que a nossa gratidão pela empreitada ali realizada, mas certamente a certeza de que o nosso esforço para indicar seu trabalho e seu estúdio para amigos músicos de várias vertentes, seria uma constante, doravante.

Despedimo-nos dos simpáticos Danilo e Malcolm-X e já no carro, a caminho de casa, eu estava a oferecer carona para Kim Kehl e ele sugeriu a imediata gravação de teclados, a chamar o Kurandeiro nem sempre presente, mas considerado por todos como membro oficial, Nelson Ferraresso e quiçá a inclusão de alguma percussão. Confesso que na hora, achei que sugerir isso ao Danilo seria excessivo pelas circunstâncias de seu oferecimento para uma gravação rápida, sob fácil resolução técnica, mas recondidamente, sabia também que a ideia em inserir teclados, seria uma quase necessidade artística para enriquecer a obra. Argumentei sobre tais aspectos com o Kim, mas ele garantiu-me que isso não causaria nenhum desconforto com o nosso simpático anfitrião.

Danilo Gomes Santos, técnico e Nelson Ferraresso aos teclados. 2ª sessão de gravação do single "Andando na Praia", dos Kurandeiros, no estúdio Prismathias de São Paulo. 4 de março de 2018. Click : Kim Kehl
 
Então, no dia 4 de março de 2018, eu e Carlinhos não pudemos comparecer, mas Kim levou Nelson Ferraresso e o nosso amigo, o grande percussionista, Marco "Pepito" Soledade, que já houvera participado com brilhantismo, na gravação de nosso EP, lançado em 2016, denominado : "Seja Feliz". Sugerimos ao Nelson que buscasse a sonoridade do órgão Farfisa, ou mesmo do "Vox", dois teclados muito usados por bandas de Rock nos anos sessenta e portanto a conter aquela sonoridade psicodélica típica daquela década. No entanto, antes de ouvir o nosso apelo por tal timbre, já havia elaborado arranjos e pensado em termos de órgão Hammond, a fugir um pouco da nossa ideia original, mas certamente que haveria de ser muito bom, igualmente. Bingo... quando ele gravou, a sonoridade do Hammond, mais a ver com o final dos anos sessenta e sobretudo a marcar intensamente a primeira metade dos anos setenta, tratou por mudar um pouco a meta inicial. Ainda assim a soar psicodélica, pelo arranjo geral, e principalmente pelo uso & abuso do pedal Fuzz na guitarra, com a inclusão do Hammond, o elemento Prog Rock também inseriu-se. Tudo bem... além de também adorar essa escola e essa sonoridade, quando ouvi o arranjo executado pelo Nelson, achei que ficou excelente e se perdeu um pouco aquela ideia original em soar como uma banda sessentista como o The Doors e dúzias de outras similares daquela década, ganhou ares setentistas maravilhosos e ainda teve mais um fator.

Danilo Gomes Santos (na mesa de gravação) e Nelson Ferraresso (aos teclados. 2ª sessão de gravação do single "Andando na Praia" dos Kurandeiros. Estúdio Prismathias de São Paulo, 4 de março de 2018. Click : Kim Kehl
 
Nelson acrescentou muitos detalhes com sintetizador, Mini Moog, e dessa forma, quando ouvi o resultado, pensei na hora que tais detalhes levaram-nos a soar como a espetacular banda italiana de Rock Progressivo, o Le Orme, que particularmente eu admiro muito. E a percussão do Pepito, foi simples, ao fazer uso de um "Egg" e do Carrilhão, tão somente. Ele optou pela economia no seu arranjo e foi feliz na sua escolha, visto que o som estava muito encorpado de uma maneira geral e de fato, eu concordei com a sua decisão, pois realmente instrumentos mais pesados como Congas e Timbales, não caberiam ali.

O excelente percussionista, Marco "Pepito" Soledade, a gravar sua participação super especial na canção "Andando na Praia", dos Kurandeiros. Estúdio Prismathias de São Paulo em 4 de março de 2018. Click : Kim Kehl
 
E assim, ocorreram as duas sessões de gravação da música "Andando na Praia", com otimização total do tempo, graças à competência do técnico e proprietário do estúdio Prismathias, Danilo Gomes Santos e empenho dos Kurandeiros nessa produção. Dali em diante, viriam as audições para chegar-se a um consenso geral sobre a mixagem e masterização, em conversas virtuais, a culminar em sua finalização, ao início de maio de 2018. No entanto, março foi um mês intenso para os Kurandeiros, pela agenda de shows, a lembrar-nos o nosso pico excelente, ocorrido no ano interior, 2017.
Da esquerda para a direita : Danilo Gomes Santos (técnico e proprietário do estúdio Prismathias). o tecladista, Nelson Ferraresso; o percussionista, Marco "Pepito" Soledade e Kim Kehl. Gravação do single : "Andando na Praia" dos Kurandeiros. 4 de março de 2018. Click (selfie) : Kim Kehl

Continua... 

domingo, 23 de setembro de 2018

Pessoas Especiais - Por Marcelino Rodriguez

Já contei em um de meus Best-Sellers, O Tigre de Deus Em Seu Jardim, que fui amigo próximo de uma mãe de Santo numa época da minha vida, e ela destruiu um gráfico que estava atrapalhando meu trabalho. Quem leu, sabe. Naquele tempo, eu era um escritor relativamente pobre. Sequer podia ter uma garrafa de Ballantines em casa. 
Também conto que eu e ela emprestávamos pequenas quantias de dinheiro um para o outro. Era um rito nosso. Um dia Mãe Nancy me pediu uma quantia, eu não tinha, e ela então disse o seguinte :
-- Olha, já que você está sem dinheiro e eu estou com pouco, vamos celebrar nossa vida que miséria pouca é bobagem. 
-- Filho, vem cá - Gritou para o menino que estava na vila. - Toma esse dinheiro aqui e me traz uma cerveja.

Minutos depois estávamos com a espuma subindo no copo como se fossem as cataratas de Iguaçu e a gente sorria mais que artista de Hollywood em dia de Oscar. Acredito que Mãe Nancy, apesar de ser macumbeira das boas, ou exatamente por isso, vai ser uma daquelas cinquenta e cinco que vão pro céu entre os sete bilhões de pessoas desse globo estranho.
As pessoas especiais são sempre generosas. A miséria e a escassez são invenções humanas. Os fortes celebram seus encontros



Marcelino Rodriguez é colaborador do Blog Luiz Domingues 2. Escritor com vasta e consagrada obra, oferece aos leitores deste Blog uma crônica curta sobre a solidariedade humana, em linha geral.
 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Crônicas da Autobio - A Gaiola dos Doutores Alegres - Por Luiz Domingues


Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol... em agosto de 1982


Estávamos bem no princípio das atividades da nossa banda e nesses primeiros dois meses em que estávamos em atividade, ainda não havíamos estabelecido o nosso QG, em um quarto disponível na edícula da residência da família Gióia, fato que ocorreu logo após a realização de nossos primeiros dois shows, em setembro de 1982. Dessa forma, os primeiros ensaios realizados em meados de julho e no decorrer de agosto e setembro desse ano, foram realizados nas dependências do Café Teatro Deixa Falar, bem próximo da residência da família Gióia, por sinal, e por uma extrema gentileza de sua proprietária, uma senhora francesa, chamada, Sabine. Tal espaço estava decadente naquela ocasião, mas obtivera seus dias de glória, anos antes, quando na metade dos anos setenta, ostentara o nome de : “Be Bop a Lula”, uma casa de espetáculos que apresentou em seu palco, quase todos os grandes nomes do Rock Brasileiro dessa década. Portanto, mesmo em declínio acentuado, ainda mantinha a velha estrutura do palco; uma coxia; camarim e uma iluminação em mau estado de conservação, mas ainda em condições de ser usada, razoavelmente. Portanto, ensaiar ali, apesar dos pesares, teve seu lado bom, afirmo com certeza. E por estar decadente e naquele instante por ser um mero bar maltratado, Dona Sabine fazia o que estava ao seu alcance para gerar receita e no caso, costumava alugar o espaço para ensaios musicais; teatrais; espetáculos de dança e o que mais aparecesse. Foi em um dia de ensaio d'A Chave do Sol, que recebemos o comunicado da parte de Dona Sabine, que teríamos um atraso para poder usar o palco em nosso ensaio, visto que uma trupe de teatro que alugara o espaço, atrasaria para entregar-nos a instalação. Bem, não podíamos reclamar, ensaiávamos ali gratuitamente, portanto resignamo-nos prontamente.

Esperamos do lado de fora por um bom tempo e cansados do atraso, resolvemos entrar para verificar o andamento desse ensaio dos atores e assim que chegamos ao salão central, deparamo-nos com a trupe a todo vapor, ainda a trabalhar. Os atores passavam o seu espetáculo inteiro, como ensaio geral, daí a demora e dessa forma, sentamo-nos em uma mesa e assistimos um pouco a performance. Tratava-se de uma espécie de revival do Teatro de Revista dos anos quarenta ou cinquenta, com sketches musicais, dança, muita piada maliciosa à moda antiga e vedetes a sensualizar. Só que houve um detalhe a mais nessa equação : todos os atores eram homens e a desmunhecada foi total ali. Foi quando Dona Sabine abordou-nos e pediu-nos mais paciência pela demora, e aproveitou para revelar-nos que esses rapazes eram atores amadores, ali a ensaiar e que na verdade eram todos médicos de um famoso hospital público da zona sul de São Paulo. Enquanto rebolavam travestidos e desmunhecados, cantavam aquela velha canção carnavalesca do Ari Barroso, imortalizada pela Carmem Miranda, chamada : “Como Vaes” (“Como vaes você ? Vou navegando,  vou temperando / pra baixo todo santo ajuda / pra cima a coisa toda muda”...). Mas o mais surpreendente mesmo foi ver a completa transformação pós ensaio dessa orquestra de senhoritas, quando saíram do estabelecimento a usar suas roupas brancas e seus jalecos; a carregar suas malas típicas para médicos; falar grosso; pisar firme e ao tratar uns aos outros como : “Doutor”, na maior seriedade...


Foi quando um colega de minha banda, cujo nome não revelarei, soltou a frase : -“se eu passar mal, fiquem avisados para não levar-me para esse hospital”... 

Foram outros tempos, não era “politicamente incorreto” fazer piada com isso, eu sei, mas naquela época, creio que não ofendia ninguém...

domingo, 16 de setembro de 2018

No Mês que Vem, Eu Vou à Falência - Por Luiz Domingues

Havia uma loja de objetos de decoração, instalada em uma famosa galeria comercial no cento da cidade, que começara humildemente, mas decorridos alguns poucos anos, viu-se em plena expansão. Ao tornar-se referência nesse setor, inspirou a abertura de diversos estabelecimentos similares, ao estabelecer uma concorrência, que visto por uma visão macro, fora saudável para fomentar ainda mais os seus negócios. Bem, seu mandatário, o senhor Calanggiaro, era um imigrante italiano, apaixonado pelos objetos que vendia, e dessa paixão, vinha muito do seu sucesso pessoal, visto que fazia o que gostava e para ele, não era um trabalho, tampouco um empreendimento pura e simplesmente, mas representava o seu prazer pessoal, poder respirar, 24 horas por dia, o seu ofício. Quanto a isso, a sua postura pessoal era irrepreensível. Contudo, havia uma marca registrada sua, que com o passar do tempo tornou-se acentuadamente visível e pela qual municiou seus invejosos detratores, pois paradoxalmente, tratara-se de uma reserva pessoal, que Calanggiaro ostentava acintosamente.
Ocorre que ainda bambino na velha Itália, o babbo de Calanggiaro repetia um ensinamento quase diariamente, preocupado com o futuro de seu filho e no intuito legítimo em prepará-lo para a vida, mas sobretudo pela visão pessimista que tinha do mundo e das relações sociais em geral, notadamente no âmbito comercial, quando alertara o seu figlio com veemência : -“jamais ostente sua condição financeira, mesmo entre pessoas de confiança, e principalmente para estranhos”.


Impressionado e quiçá pressionado com tal máxima, Calanggiaro tomou tal ensinamento paterno com absoluta convicção e assim procedeu quando chegou ao Brasil, onde mediante a sua labuta pessoal, abriu sua loja. Ocorre que com a prosperidade advinda, foi nítido pela movimentação frenética de sua clientela, que sua situação era ótima, mas para todos os efeitos, ele mantinha o discurso com teor inverso, a falar sobre dificuldades, dívidas, e invariavelmente a afirmar que estava à beira da falência, o que contrastava frontalmente com a verdade expressa em sua loja, sempre em franca evolução.


Tornou-se folclórica a sua afirmação padrão, ao dar conta de que estava temeroso por não aguentar mais um mês com o seu estabelecimento aberto, pois a falência seria inevitável etc. De fato, vivemos em meio a um padrão comportamental na sociedade onde a imensa maioria vive o seu cotidiano sob o signo dos apelos materiais. Em meio a um bombardeio violento de estímulos que geram paradigmas a ditar normas e condutas, é rara a pessoa que não pense o tempo todo em ganhar dinheiro, ao visar alcançar o seu bem estar pessoal mediante o ultra consumo, a gerar bem estar e prazer. E visto pelos aspectos positivos e negativos que tal predisposição gera no inconsciente coletivo, é praticamente inevitável que o sentimento de inveja não seja muito forte para uma imensa maioria que acha mais fácil derrubar quem julga estar acima, do que efetivamente trabalhar para alcançar o mesmo patamar. Isso é ponto pacífico e claro que o pai de Calanggiaro tinha razão, ao raciocinar dessa forma.


Mas tal fervor que trouxe das palavras de seu pai, gerou o exagero, e este também estigmatizara-o, ao torná-lo folclórico para alguns, e com a fama de um usurário velado, para outros. De uma maneira sui generis, o antídoto que julgava ser infalível, também envenenara-o, pois tal postura exacerbada foi responsável igualmente por uma onda de inveja gerada, da parte de quem não acreditava que ele estivesse mesmo à beira do colapso financeiro, como alegava, pois visto por outro lado, fora nítida a sua prosperidade. Portanto, a inveja trouxe no seu bojo o sentimento de raiva, igualmente, pela postura que muitos julgavam cínica a debochar e desdenhar da situação de quem realmente não estava bem de vida. Claro que não foi nada disso, Calanggiaro apenas estava a proteger-se, como aprendera com seu pai, mas a verdade é que viver em sociedade não é nada fácil e fatalmente, um indivíduo vai formular um pensamento a respeito do outro, é assim a natureza humana, pelo menos neste estágio onde a civilização encontra-se. Quem sabe um dia isso muda ?

domingo, 9 de setembro de 2018

Superação ! - Por Telma Jábali Barretto

Nada é mais emocionante que qualquer cena, situação ou filme de superação quando, literalmente, exercemos, presenciamos ou assistimos uma SUPER AÇÃO, indo além... transpondo ! E isso é parte constante da trajetória humana... acompanha nossa história, acontecendo desde aquelas situações nem lembradas ou ainda valorizadas, mas que foram fatos e aconteceram. E, como tal, nos trouxeram até aqui... Gratidão !!!


Algumas delas tão instintivas e primitivas, naturais do desenvolvimento que, quando o mecânico em nós falha, não respondem... aí, aí, aí sim ! olhamos com outra atenção! E, enquanto não recuperarmos por completo, estará no nosso campo de observação e importância. Tão logo recuperada a normalidade, de novo, voltaremos ao piloto automático, naquele assunto, não significando, porém, que a Vida em sua sabedoria perene e inexorável, não trará, mais uma vez, de novo, e outra e mais outras ainda, essas circunstâncias nem sempre de fragilidades temporárias...numa pulsação, somente, promotora do contínuo desabrochar, crescer, desse eterno despertar que é do jogo  que não cessa e convida, e propõe, instigando a vencer inércias e confortos, que ficamos diante do sossego e participação, escolhendo ou sendo escolhidos pela rodada que nos alcança.
Quando, por livre decisão buscarmos algo desafiador, mais e melhor, também, será a valorização do ganho, embora e mesmo, quando vindo a nós, espontânea ou aleatoriamente, se vencermos, transpusermos mais um limite, valerá cada gota do empenho e aprendizado que, seguro que terá sido parte de até onde chegarmos, pudermos... fizermos !
Quanto mais soubermos transitar por esses fluxos, nessa consciente disposição, que não lastima quando somos instados ao transpor, a dar mais um passinho, encararmos com o infantil frescor de crianças, com menos medos e mais curiosidade pelo aprender, conhecer, xeretar e investigar, mais encantados que ameaçados pelo novo, confiantes que tanto há para desbravar em toda manifestação, poderemos começar a desfrutar, de forma mais harmoniosa, sabendo utilizar sentidos sutilizados, ampliados e resignificados a cada etapa anterior transposta, dessa maturidade acessada numa participação que aprendeu a acolher e reverberar com a mesma amorosa retribuição, mantendo um olhar vívido da infância e a serenidade calma dos mais sábios !

E vamos lá... conquistando-nos a cada dia e tempo, aceitando, com apetite, aquilo que a Vida tem para servir...saboreando com satisfação, num degustar de outros sabores e saberes !


Telma Jábali Barretto é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Engenheira civil, é também uma experiente astróloga; consultora para harmonização de ambientes e instrutora de Suddha Raja Yoga. Nesta reflexão, aborda o tema da superação.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Quando até Sonhar é Proibido - Por Luiz Domingues



Vivia-se uma época difícil no país, com recessão acentuada e declarada. Dessa forma, o efeito psicológico coletivo que sempre advém da penúria generalizada, trata sempre em manter a impressão (para cada cidadão comum), sobre a situação real da economia, estar muito pior do que realmente apresenta-se, se fosse analisada por economistas isentos. E um dos sinais psicológicos que ajuda a piorar a percepção desse caos social, é a existência acima do normal de imóveis vazios, residenciais e comerciais, a ostentar placas com os dizeres : “aluga-se” e / ou “vende-se”, por semanas, meses e até anos a fio. E não para por aí, pois os sinais análogos e inerentes tratam em piorar ainda mais os índices. A sujeira acumulada nas casas inabitadas, atrai a bandidagem e a mendicância; as pichações multiplicam-se e tudo isso somado, gera também o desestímulo para possíveis interessados em alugar ou comprar imóveis, a postergar o clima desolador.


Mas tem o lado positivo mesmo nesse cenário caótico, por incrível que pareça. Pois é nessa hora sob carência; sufoco & escassez de recursos, que o fator da esperança, move as pessoas de encontro ao sentimento de reação e quando reagem, efetivamente movimentam a economia, primeiro em uma escala microscópica, mas que tem o poder de uma pequenina pedrinha que bate no rio, e inicia uma movimentação, que demora, mas pode representar uma virada macro, no futuro.


Bem, economia e motivação humana a parte, o fato foi que nesse cenário todo que descrevi, a crise gerara o aumento de placas a anunciar disponibilidade de imóveis em geral, por parte dos corretores. E naquela perspectiva única, em poder sonhar, que seria a única medida que as pessoas podiam contar naquele instante mais agudo da situação, um casal a aparentar estar na meia idade, passou a ocupar o seu tempo a visitar imóveis do bairro onde moravam. Em cada quarteirão havia pelo menos duas ofertas com casas nessas condições e em muitos deles, havia um funcionário de imobiliária disponível para atender visitas de clientes, possivelmente interessados. Empolgados com essa oferta, marido e mulher passaram a fazer dessas visitas, uma ocupação diária, como se estivessem a frequentar museus.


Todavia, mais que um lazer, as visitas representavam sonhos. O bem estar que sentiam ao caminhar pelos cômodos de residências vazias e bonitas, era imenso e não furtavam-se a comentar em voz alta, seus planos para decorá-la, ao projetar-se como futuros proprietários. Geralmente os funcionários esboçavam estreitar a relação, quando sentiam um real interesse dessas pessoas e dessa forma, insistiam em pedir dados pessoais, a convidá-las a preencher ficha cadastral etc e tal... mas o fato, foi que eles só tinham o sonho e a vontade para adquirir tais imóveis, pois em realidade, não possuíam nem um centavo sequer para pleitear nada, concretamente a falar.


Mesmo assim, continuaram o seu périplo diário, a seguir o mesmo padrão em cada imóvel que visitavam. Infelizmente, a atitude sintomática da parte deles gerou uma fama indevida entre os corretores de imóveis e talvez desconfiados, a deduzir que as intenções do casal, seriam malévolas, estabeleceram um pacto entre imobiliárias, a proibir a visitação, veladamente. A ordem que os funcionários receberam foi para exigir que registrassem-se em uma ficha cadastral bem mais detalhada e invasiva, mediante certificação documental, para poder adentrar tais imóveis. Não tratou-se de uma medida ilegal, mas certamente antipática, ao ser adotada doravante. Assim, ao sentir-se oprimidos, encerraram as suas costumeiras visitações.

Portanto, se nem sonhar seria mais possível, a estagnação foi decretada e como consequência direta, as placas continuaram a anunciar imóveis vazios por muito mais tempo, sob um efeito sintomático.