quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Aila - Por Marcelino Rodriguez


Chegou a hora de falar de Aila, minha cadela marrom de olhos de papaleguas, aquele mesmo do desenho animado. 

De vez em quando eu e ela trocamos olhares desafiadores.

Ela, como algumas personagens femininas de Machado de Assis, tem olhos oblíquos e dissimulados. Dá mole que eu te fodo, parece que os olhos dela me dizem, ou então não tente me decifrar que sou mulher, portanto, sou selvagem e é melhor que você me espanque de vez em quando para a coisa não sair dos trilhos. 

Quando ela rosna no prato os machos saem acanhados e esbaforidos. Os olhos dela, se você a encarar, vão para a direita e para a esquerda, buscando esquemas mentais indecifráveis e diabólicos e quando param no centro para te fitar você já sabe que com ela nunca vai entender coisa alguma. Ela está perto de você e longe léguas dentro dela mesma, além. 

No fundo, tímida. Não gosta muito de mostrar seus reais sentimentos, mas você tem vontade de mata-la as vezes, devido a seus exageros femininos. Por que toda vez que saio de casa a vizinhança toda tem que saber, por que ela grita desesperada como uma mulher quando finge um orgasmo, levando meus nervos ao desespero e me deixando corado de vergonha. 

O exagero é tão grande que jovens viúvas perdem no enterro. Quando vou sair, sou transformado em celebridade pela minha cadela. Adeus, discrição da minha vida. Um dia um rapaz parou o carro enquanto ela continuava o escândalo no portão. “olha, meu amigo. Aquela cachorra é sua? Acho que ela tá esganada no portão”. Não, amigo, é humor negro dela, sacanagem mesmo. Ele ri e vai embora.

Para que se entenda como ela me leva ao céu e ao inferno em instantes, um dia eu limpei a casa com capricho e ia dar-me um justo relaxamento com uma cervejinha e uma linguiça mista frita no capricho. Com uma ingenuidade de anjo pus um instante a linguiça na varanda. A cena foi cinematográfica e poderia ser feita em câmera lenta. Menos de um minuto e com a destreza de papaleguas Aila bateu com arte a minha linguiça, no talento. Em segundos, sequer eu podia recuperar pois parece que ela triturou e engoliu na velocidade da luz. Fiquei possesso e nesse dia fiz valer meus direitos de homem e espanquei-lhe um tanto. 

Desisti da linguiça e fui deitar, deprimido como um suicida. Depois que parei para pensar no pitoresco da situação, desatei a rir como um demônio na noite. Essa é Aila dos olhos de papaleguas, “dá mole que eu te fodo”.




Marcelino Rodrigues é colunista fixo do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica falando sobre Aila, uma cadela faceira, mas muito amiga dele.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Descoberta - Por Tereza Abranches


Se os teus sonhos se desfizerem 
e os teus pés sangrarem na caminhada,
se o céu escurecer
e se fizer dura e fria a tua jornada,
se os teus anseios sinceros
se chocarem com a dureza 
do coração humano,
se as tuas noites forem frias 
e houver chuva e neblina na estrada
e as tuas mãos antes quentes e macias
e então ocas, indecisas e vazias
desesperadamente espalmarem o Nada,
se a tua cabeça pender
e só te restar amargo e obscuro gemido,
se a tua canção de ninar
se desfizer na realidade da vida
e, devagarinho e calada
te brotar uma mágoa distante,
dolorosa, triste e doída...
Rasga o peito valente
e faz com que os teus sonhos
sejam a Coragem e a Força;
Luta bravamente pra que as tuas cavernas
jorrem Luz e Esperança;
Que o teu Céu seja um ninho louco
de estrelas cadentes;
Que o teu grito se solte mais alto e bonito
do que o riso limpo, alto e bonito de uma criança
e que os teus olhos se acendam a cada Dia
com o lume bendito da Vida,
e que esse grito alto e profundo
repleto e transbordante de Cor e Luta,
se converta em música celeste
abraçando, envolvendo e imantando o Mundo !
Pois nessa luta sem tréguas
teu Ser brotará claro e límpido !

E se a vida insana te sangrar,
apesar da mágoa, do medo e da dor,
inunda e devolve a essa vida insana a tua Paz,
a tua Teimosia que vem da Força Divina
que mora na Coragem do teu peito único
e na descoberta rodopiante de si mesmo,
dos teus abismos de Luz
e na força sideral do teu Amor !




Tereza Abranches é colunista fixa do Blog Luiz Domingues 2. Artesã, poetisa e escritora, realiza estudos no campo da literatura e espiritualidade.

Nesta participação, nos traz um belo poema, exaltando a força interior que todos temos, mas que poucos notam-na, infelizmente. Fica a dica contundente da poetisa, para que a busquemos no Eu interior.  

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 67 - Por Luiz Domingues

De fato, nesse show que fizemos na cidade de Limeira / SP, tivemos muito o que comemorar.

 1) O simples fato de ter sido o nosso primeiro show fora da cidade de São Paulo;

2) Abrir o show da Patrulha do Espaço, um ícone do Rock Brasileiro, e nós em contraste, com poucos meses de vida;

3) Tocar com P.A. e equipamento de luz sob grande porte, pela primeira vez, além do palco com grande proporção;

4) A possibilidade em tocar muitas músicas autorais;

5) Viajar junto com a Patrulha do Espaço, e todo esse equipamento, que foi incrível, e...

6) A oportunidade para fazermos um show sob condições muito boas e para um grande público, possibilitou-nos adquirir uma grande confiança para enfrentarmos o público do Sesc Pompeia, três dias depois, e isso foi vital para uma mudança radical na nossa carreira, doravante. Tirante tudo isso, que foi muito importante naquele momento de 1983, acrescento um fato a mais, como fato novo ocorrido vinte e nove anos depois !

Como comentei anteriormente, conservei uma fita K7 a conter quase todo esse show, por todos esses anos. Finalmente providenciei a sua digitalização no ano de 2011, e o pessoal do Site / Blog "Orra Meu", que é um site especializado em difundir cultura paulista, propôs editar uma canção inédita d'A Chave do Sol, extraída justamente desse show de Limeira. Dessa forma, ao utilizar material de portfólio e fotos d'A Chave do Sol dessa época, o promo de "Intenções" foi postado no You Tube. Fiquei imensamente feliz por esse apoio do Site / Blog Orra Meu, onde sou também colaborador, ao escrever matérias para o seu Blog, quinzenalmente, desde 2011. Esse resgate de uma música inédita, que jamais foi gravada oficialmente pela A Chave do Sol, é claramente um tesouro para a memória da banda, e um presente aos fãs do trabalho. Tecnicamente a falar, trata-se de um áudio precário, evidentemente. O simples fato em ter sido preservado na limitada tecnologia obsoleta de uma fita K7, já comprometeria completamente a sua qualidade, mas ainda há agravantes a ser consideradas. Por exemplo, não obstante tal fato, a forma pela qual foi gravada no momento do show, também fora equivocada. Por inexperiência nossa, só entregamos a fita para o técnico do P.A. Claro que ele foi simpático por tomar tal providência, e atesto que é raro um técnico ser camarada nessas circunstâncias, ao tratar-se de uma simples e obscura banda de abertura. Mas, esse rapaz poderia ter caprichado na forma de captura. Ao "espetar" o tape deck na mandada do monitor, anulou a possibilidade do áudio ficar melhor, pois o que ouve-se, foi exatamente o que ouvimos nos monitores do palco no momento do show, com a bateria mais alta do que tudo, baixo quase inaudível etc. O segundo aspecto, é o dessa fita ter ficado por longos vinte e oito anos, armazenada em armários fechados. A possibilidade em ter contraído fungo, ficara enorme, portanto, foi um milagre ter sido salva, e digitalizada em 2011. Portanto, feitas essas ressalvas, que fique bem claro para quem for ouvir, que o áudio é bastante precário. A voz solo é mal mixada e ambientada; tem muita bateria, principalmente o chimbau; o baixo é quase nulo, e a guitarra deixa a desejar. Ao falar da canção em si, "Intenções" foi uma das minhas músicas prediletas, da primeira safra de composições da banda. Seu estilo mesclava elementos do Prog Rock; Hard Rock, e Jazz Rock setentistas, com várias passagens, em uma autêntica suíte. A letra trata de um tema de motivação ecológica, ao criticar as corporações e suas práticas predadoras; a cupidez de lucros a atropelar as pessoas, e a falta de critério no tocante a sustentabilidade. Na fase Pós-Verônica, dividimos a responsabilidade pelos vocais da banda, quando tornamo-nos um trio, novamente, e nesse caso, Rubens e Zé Luiz assumiram 90 % dessa responsabilidade vocal por ter, ambos, dotes vocais muito maiores que o meu. Mas, eis que eu assumi o vocal de duas músicas nos shows, nesse período : "Intenções", e o cover dos Rolling Stones, "Jumpim Jack Flash". Portanto, nesse promo extraído desse show de Limeira, o vocal solo é meu, e assumo que não foi nem perto do ideal do que a música mereceria, se tivéssemos nessa ocasião um bom vocalista, como Fran Alves ou Beto Cruz, que entrariam na banda oficialmente, tempos depois. Infelizmente, essa canção sairia do set list dos shows, e foi descartada quando escolhemos o repertório a ser gravado nos discos oficiais, por mudanças de estratégia que a banda teve ao longo da carreira, mas sinceramente, em minha opinião, deveria ter sido gravada, e essa é uma frustração que guardo. Lamento muito ter disponível apenas essa versão (na verdade, existe outra versão ao vivo que também pretendo lançar, posteriormente), precária em termos de áudio.  Bem, essa é "Intenções", música composta por Rubens Gióia, Zé Luiz Dinola e eu, Luiz Domingues, com a participação efetiva de todos nas ideias e arranjos, sendo a letra escrita por eu mesmo, Luiz.
Eis abaixo o áudio da música "Intenções", ao vivo no Gran São João, de Limeira / SP, em 9 de julho de 1983



 http://www.youtube.com/watch?v=PoVXIgAjD4c

Acima, o Link para escutar no You Tube



Continua...
   

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 66 - Por Luiz Domingues

Foi uma tremenda experiência para nós, e de certa forma foi uma preparação para uma grande mudança na carreira da banda, pois três dias depois, estaríamos no Teatro do Sesc Pompeia, para gravar a nossa participação no programa : "A Fábrica do Som", e a boa reação que despertamos em Limeira / SP, seria intensificada de uma forma incrível na TV, conforme contarei logo mais. A reação dos membros da Patrulha do Espaço foi cordial, mas comedida. Sei bem como funciona essa dinâmica de "banda grande" em relação às pequenas, pois toquei na Patrulha muitos anos depois, e muitas vezes tivemos boas bandas de abertura. 

Eu não sou assim, particularmente, mas a tendência dos artistas com maior fama, é de ser blasé, sem demonstrar muito entusiasmo.
Acho isso uma bobagem muito egoísta e no meu caso, sempre digo o que penso e se a banda é boa, elogio abertamente e incentivo os rapazes. Ainda tenho algumas particularidades para contar sobre o show de Limeira, e outros fatos, antes de finalmente começar a relatar sobre a apresentação na TV.
Zé Luiz "a aquecer" em um dia qualquer de 1983, em nossa sala de ensaios

Ficamos por saber que o borderô do show havia acusado o n° de duas mil e quinhentas pessoas pagantes, mas seguramente tinha mais gente presente a contar com convidados por cortesia e penetras etc. O Junior falou-me que havia três mil e quinhentas pessoas, e minha lembrança foi mesmo a de uma multidão maior que a aferição oficial. O show da Patrulha foi bom, mas deu para sentir um clima de apreensão entre os seus membros, desde a passagem de som deles. Foi o segundo show que fizeram após o acidente que deixou de molho o baterista Rolando Castello Junior, logo após a banda ter aberto os shows do Van Halen, em janeiro daquele ano de 1983. Voltamos para São Paulo no mesmo dia, e ao chegarmos na porta do estúdio da banda de bailes, "Phobus", despedimo-nos e dispersamos, cada um para a sua casa, rumo a um merecido descanso na manhã de domingo. 

Não ganhamos cachet, mas o lucro que obtivéramos foi inestimável, porque ganhamos a confiança necessária para entrar no palco do Sesc Pompeia, com tudo, na terça-feira posterior. Tenho uma cópia K7 desse show do clube Gran São João, de Limeira, com razoável qualidade. Penso em digitalizá-la e quem sabe lançar um bootleg, mas isso é só projeto, por enquanto. Mas por enquanto, extraí uma música que considero uma joia rara para A Chave do Sol, sua história e seus fãs. No próximo capítulo, falo detidamente sobre essa música.


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 65 - Por Luiz Domingues


Do nosso repertório autoral, lembro-me que tocamos as canções : "Luz"; "18 Horas"; "Intenções"; "Utopia", e Átila". Entre os covers, "Tie Your Mother Down" (Queen); "Hey, hey, my, my" (Neil Young); "Blue Wind"(Jeff Beck); "Blue Suede Shoes"; (Carl Perkins), "Purple Haze" e "Foxy Lady", do Jimi Hendrix. O público reagiu bem, apesar de um coro composto por cerca de vinte sujeitos, sistematicamente a gritar : -"pauleira, pauleira", nos intervalos das músicas. Foi uma manifestação isolada, pois o grosso do público aplaudiu e teve picos de euforia, ao surpreender-nos, pois não esperávamos nada além do desprezo, ou da hostilidade. 

Em alguns momentos, empolgamo-nos mesmo, pois o público reagia como se conhecesse-nos, fato raro em um show de abertura feito por um artista desconhecido. 

Alguns momentos mais marcantes ocorreram justamente em que a banda mais soltou-se, ao deixar a atitude defensiva de uma banda resignada com a frieza, e ousou mais. Por exemplo, quando o Rubens fez seus malabarismos a la Jimi Hendrix, ao tocar com a guitarra na nuca, ou nos dentes. O solo de bateria do Zé Luiz arrancou gritos da plateia. Aliás, que tremenda ousadia fazer um solo de bateria... isso só seria tolerável para uma banda famosa, mas ousamos, e o Zé Luiz arrebentou ! Também fiz um solo, e o coro que pedia "pauleira", mudou para "debulha", pois ficaram eufóricos com a minha performance. 

Pelo canto do olho, via a Patrulha do Espaço inteira na coxia a assistir-nos. O próprio Júnior sinalizou para tocarmos mais, quando a meia hora inicial prevista para usarmos, esgotou-se, pois além de simpatizar conosco, ele percebeu que estávamos a aquecer bem o público, e o entregaríamos excitado para a Patrulha deslanchar a seguir. Foi em um palco enorme, e nem o fato da bateria do Zé Luiz ter sido colocada à frente da enorme bateria Ludwig do Júnior, diminuiu o nosso espaço. Tirante o show do Teatro do Colégio Piratininga, onde tínhamos tocado com um P.A. sob pressão maior a que estávamos acostumados, estava por ser o nosso melhor show da carreira até então, com som e luz de gente grande à nossa disposição !

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 64 - Por Luiz Domingues


Chegamos ao ponto de encontro na hora marcada, e tanto os roadies do equipamento de P,A. alugado, quanto os roadies da Patrulha do Espaço, trabalhavam a todo vapor, a carregar o ônibus fretado pela banda. A nossa comitiva mostrara-se modesta.A contar com apenas nós três, músicos, e a namorada do Rubens, Mônica Maya. Não tínhamos equipe técnica profissional, e nem mesmo pensamos em levar amigos para ajudar, amadoristicamente.
Estávamos eufóricos pois iríamos abrir o show da Patrulha do Espaço, que era um ícone do Rock brasileiro, e diante de uma plateia grande, com bom equipamento, portanto a tratar-se de uma grande oportunidade, sem dúvida. E três dias depois, gravaríamos a nossa participação no programa : "A Fábrica do Som", o que seria algo muito importante, como o primeiro passo grande na carreira. A viagem foi tranquila, com o pessoal da Patrulha a deixar-nos a vontade. Viajar em um ônibus com todo aquele equipamento, e para abrir o show de uma banda famosa, foi algo muito excitante para nós. 

Chegamos cedo ao clube, "Gran São João", e já ficamos contentes por saber que havia saído uma matéria sobre o show em um dos jornais de Limeira, e o nosso nome foi citado como banda de abertura do evento. A passagem de som foi tranquila e rápida, pois a Patrulha já havia acertado tudo anteriormente, ao usar a praxe do soundcheck ao contrário, ou seja, quem toca primeiro passa o som por último, e deixa a mixagem toda "setada" para a abertura do evento. Algum tempo depois que encerramos, os portões do ginásio do clube foram abertos, e um grande público lotou as suas dependências. Quando recebemos o sinal verde para entrar no palco, o ginásio já estava praticamente lotado. 

O nosso show foi com aproximadamente quarenta minutos, uma cortesia do Júnior que simpatizava conosco, pois geralmente shows de abertura não passam de trinta minutos. Tocamos várias composições nossas, mas também tivemos de tocar alguns covers, visto que completamente desconhecidos, corríamos o risco de sermos hostilizados pelo público, que em tese, nunca tem paciência com novos artistas. Era uma noite de inverno, mas o calor do show fez com que suássemos !


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 63 - Por Luiz Domingues


E a maré pareceu definitivamente ter mudado após a perspectiva da nossa banda em participar do programa da TV Cultura, "A Fábrica do Som", pois concomitantemente, recebemos o telefonema do Rolando Castello Júnior, baterista da Patrulha do Espaço, com um convite irrecusável para nós. Ele convidou-nos para tocarmos como abertura do show da Patrulha, a ser realizado na cidade de Limeira, interior de São Paulo, em julho de 1983.
Antes dessa oportunidade acontecer no entanto, ele mesmo, Rolando, convidou-nos a irmos para Santos / SP, onde a Patrulha do Espaço faria um show em uma casa de espetáculos chamada : Heavy-Metal", bem na avenida da orla, em uma noite de sábado. Ele apresentar-nos-ia ao gerente da casa, e talvez marcássemos um show para A Chave do Sol, nessa casa noturna. Então, o momento mostrara-se muito bom, pois acabáramos de ter a nossa confirmação de aparição na TV; fizemos o show insano no Morro da Lua; talvez arrumássemos um show na cidade de Santos, e estava confirmado um show em outra cidade, Limeira / SP, a 180 Km da capital paulista. Fomos para Santos em uma noite de sábado, e assistimos o show da Patrulha do Espaço. Tratava-se de um ex-cinema e portanto, as instalações eram amplas, com um bom palco; coxia e estrutura de camarins.

Claro, o novo dono desmontou as poltronas e fez uma área com mesas, estilo Cassino em Las Vegas. Bem arrumado e bem frequentado pela jovem burguesia santista, estava lotado, mas não era um público Rocker interessado no show da Patrulha do Espaço.
E para destoar ainda mais, antes da Patrulha, tocou o violonista : Filó, sob uma apresentação de MPB intimista, e nada a ver com o Hard-Rock que a Patrulha do Espaço faria a seguir. Lógico que o Filó era (é) um grande músico, e o seu show foi realizado com bastante qualidade, mas não teve nada a ver com o clima de uma casa noturna daquele tipo, e ainda mais a abrir para uma banda de Rock, como a Patrulha do Espaço. O contato não deu em nada para nós, infelizmente, pois tratava-se de um espaço de shows muito bem montado no litoral. Então, animadíssimos com a proximidade de nossa gravação para a TV, tínhamos esse show em Limeira, no meio do caminho. O show aconteceria no dia 9 de julho de 1983, e estava marcado para ser realizado no Clube Gran São João, em seu salão de festas. O Júnior comunicou-nos que sairíamos juntos com eles em um ônibus fretado, e com todo o P.A. que havia alugado da banda de bailes, "Phobus", a partir da sede deles, ("Phobus"), no bairro da Barra Funda, centro de São Paulo, às seis horas da manhã !

          A banda de bailes "Phobus", e seu ônibus, nos anos 1970

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 62 - Por Luiz Domingues


Antes de falar sobre a nossa primeira aparição na TV (tirante a fortuita e microscópica aparição no programa : "Comando da Madrugada", do jornalista Goulart de Andrade em 1982, e cujo relato está lá para trás nesta narrativa), na "Fábrica do Som", da TV Cultura, preciso mencionar mais um fato ocorrido nesse ínterim. Assim que perdemos a vocalista, Verônica Luhr, e passamos um período a tentar adaptarmo-nos para tocar em bares com o Rubens e o Zé Luiz a cantar, nem chegamos a procurar com grande afinco um(a) novo(a) vocalista. Mas o fato, é que surgiu duas garotas interessadas, e nós chegamos a realizar testes com ambas. Uma delas, chamava-se Soraya e a outra, Regiane. A Soraya era conhecida da irmã do Rubens, e chegou a assistir-nos a tocar no Victoria Pub, ainda com a presença da Verônica Luh em nossa formação. Quanto à Regiane, sinceramente não lembro-me qual foi o elo de ligação que a aproximou de nós. 
Nesta foto recortada, Soraya Orenga a gravar Backing Vocals na música "Luz", em janeiro de 1984, como convidada especial

A Soraya era loira; bonita e tinha uma boa voz. Não era um potencial vocal exuberante como o da Verônica, mas tinha condições de ser vocalista d'A Chave do Sol, certamente. A Regiane era morena, e não tinha o mesmo potencial da Soraya, embora eu não possa afirmar que fosse ruim. Talvez faltasse-lhe um maior "punch" para ser vocalista de uma banda de Rock, e seu negócio fosse cantar MPB mais intimista, a bordo de dinâmicas leves a estilo Bossa Nova. Nenhuma das duas no entanto, empolgou-se com o estágio onde encontrava-se A Chave do Sol naquele momento, que fora crítico para a banda, pela falta de melhores perspectivas. E nem nós por elas, pois não pareciam ser adequadas para a banda. A Soraya cantara anteriormente em duas bandas cover pela noite : "Ferro Velho" e "Alhures". E a Regiane, no "Super Bastião", todas evidentemente obscuríssimas. Nunca mais tive notícias da Regiane, mas a Soraya ficaria um pouco mais na história d'A Chave do Sol, pois em janeiro de 1984, participaria da sessão de gravação dos Backing Vocals da música : "Luz", que gravaríamos para o nosso primeiro compacto simples. Ela está inserida nos créditos da ficha técnica do compacto, assim como Rosana Gióia, irmã do Rubens, que também cantou nessa gravação. E assim foi a quase entrada de uma nova vocalista, ainda no primeiro semestre de 1983.


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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 61 - Por Luiz Domingues

E quando o proprietário do local deu o sinal verde para começarmos, um bom público juntou-se à nossa frente. Sinceramente, achei que ninguém interessar-se-ia em ver-nos a tocar. Todavia, para superar a minha expectativa, havia cerca de trezentas pessoas ali à nossa frente. Isso ocorreu no dia 24 de junho de 1983. Foi mais ou menos esperado por nós, mas muitos motociclistas simplesmente não pararam durante o nosso show, e alguns para exibir-se, resolveram dar pequenos rasantes sobre a banda e sobre o público, ao fornecer uma carga extra de adrenalina à apresentação... 
Evitamos tocar muitas músicas cantadas, pois naquelas condições de equipamento, o jeito foi privilegiar músicas instrumentais. Mesmo assim, estava muito precário tocar e foi um show sofrido para nós, com a pouca potência do equipamento. A turma até que gostou e aplaudiu bastante, mas realmente não foi uma apresentação com condições mínimas e profissionais. Acabado o show, apressamo-nos a desmontar, pois os alucinados motociclistas estavam a pressionar para liberarmos o espaço para que continuassem a executar as suas acrobacias, e a maneira para exercer essa pressão, foi jogar as motos sobre nós. A "iluminação" do show ficou a cargo de vários carros particulares perfilados, e com faróis altos acesos em nossa direção... 

Naquele breu da madrugada, não havia condições em levarmos tudo embora naquela hora. Tivemos que voltar no dia seguinte para realizar essa tarefa braçal. Recebemos o reforço de alguns amigos, e entre eles, um apareceu na residência do Rubens Gióia, a trajar calça de veludo branca. Chegamos ao Morro da Lua, ele foi ajudar a transportar uma caixa do P.A. e através de um escorregão súbito,  esborrachou-se no solo barreado e úmido, e assim teve que voltar para a sua casa, com a calça branca, transformada em marrom. Foi uma aventura insana, mas apesar das dificuldades, foi um show em que conseguimos cumprir na base da força de vontade, e se não foi marcante para a nossa carreira, ao menos rendeu muitas histórias pitorescas.


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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 60 - Por Luiz Domingues

Enfim chegou o dia e fomos tocar no Morro da Lua. Levamos todo o nosso equipamento de ensaio, incluso o nosso mini P.A., mas ele era adequado apenas para pequenos shows em casas de pequeno porte e servia-nos para os nossos ensaios, é claro. 

Mas daí a tocar em um lugar ermo, ao ar livre, seria realmente uma piada. Todavia, firmado o compromisso, não poderíamos mais desistir da ideia, visto que o dono da pista de motocross já havia tomado as providências para providenciar um gerador de energia, mandado fazer filipetas etc. O local ficava em um lugar inóspito, mesmo ao fazer parte do elegante bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo. Para sinalizar a entrada, foram colocadas tochas de fogo. Chegamos no período da tarde, com o dia claro, logicamente para poder arrumar tudo. O Zé Luiz tomou a dianteira para lidar com o gerador (sempre o super polivalente Zé Luiz...). E à medida que começou a escurecer, tudo estava pronto. 
Onde montamos o equipamento, só absorveria o som minimamente mixado, quem ficasse realmente muito perto, e de frente. Poucos metros fora desse ângulo, e tudo tornava-se uma massa sonora amorfa. Havia um local mais adequado, dentro de um pequeno galpão construído, porém o dono queria a todo custo que ficássemos no meio da pista. Fazia sentido visualmente para a festa dele, mas só funcionaria com uma estrutura de palco e equipamento condizente. 

Então, seguiu-se uma longa e entediante espera, pois o evento só começaria por volta da meia-noite. O frio foi de rachar, pois estávamos em junho, e aquele lugar alto e descampado, dava-nos uma sensação térmica ainda pior, devido ao vento. Começaram as disputas de motocross, e os sujeitos corriam e faziam aquelas loucuras todas no escuro. Era muito perigoso, mas quem estava ali, era um público bastante interessado nessa performance. Foram várias quedas; colisões, e sustos do gênero, a arrancar gritinhos dos aficionados. Entre nós, o Zé Luiz vibrava, pois era / é fã de esportes automotivos radicais. 

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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 59 - Por Luiz Domingues



Foi nessa época também que recebemos um convite inusitado de um sujeito que conhecera-nos a tocar no Victoria Pub. Tal rapaz era um militante de motocross, e que possuía uma pista para a prática desse esporte radical, localizada no Morumbi, na zona sul de São Paulo. Além de ser praticante e produtor de provas desse esporte, o rapaz gostava muito de música e tinha vontade de cantar, portanto,  propôs-nos inicialmente , uma ideia muito insólita. 

Ele queria realizar na sua pista de motocross, um show tributo ao Queen, com A Chave do Sol a cumprir as vezes de May; Taylor e Deacon, para ele assumir o posto como, Freddie Mercury... ele de fato era muito parecido com o Freddie Mercury fase Pós-Glitter, com cabelos curtos e bigode. Ao cultivar um bigode semelhante, realmente parecia um sósia.

Ele apareceu no ensaio d'A Chave do Sol, e quis mostrar os seus dotes vocais e performáticos, a imitar os trejeitos do Mercury, o que foi algo bem inusitado e deveras constrangedor. Nós recusamos a sandice, obviamente, mas então ele veio com outra ideia ainda mais bizarra : para suprir todas as necessidades sonoras de um espetáculo desse vulto, propôs que dublássemos... imitaríamos o Queen, com ele à frente a dublar o Mercury, sob o som do áudio do Queen verdadeiro... nem preciso dizer o que dissemos-lhe. Então, mais realista, fez uma proposta viável, enfim : um show d'A Chave do Sol na sua pista de motocross, simultaneamente a uma exibição de motos e com um elemento exótico, pois haveria por ser um show noturno, no local que não tinha iluminação...

Achamos em princípio, uma bizarrice, mas sem perspectivas melhores, e ao considerar que poderia ser uma promoção interessante, aceitamos a loucura. Ele prontificou-se a providenciar um gerador para suprir as nossas necessidades em termos de equipamento e assim, aceitamos tocar, pela bilheteria do evento. 

Essa pista ainda não tinha grande estrutura, mas hoje em dia é bem famosa e estruturada, conhecida pelos aficionados do gênero e chama-se : "Morro da Lua". E assim, em 24 de junho de 1983, fizemos um dos shows mais bizarros da história d'A Chave do Sol, conforme contarei a seguir...

Continua...