segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 53 - Por Luiz Domingues


Como já expliquei no capítulo anterior, relatarei agora dois casos ocorridos mais ou menos entre abril e junho de 1983, mas sem uma data precisa que eu possa mencionar.

Em ambos, ocorreram desdobramentos, tornando-os portanto, não  fatos únicos de um dia, ou de um momento apenas.

Vamos aos fatos :

Na primeira ocorrência, recordo-me que o Zé Luis chegou um dia no ensaio da banda dizendo que um conhecido seu, que não via há tempos, o encontrara, e sabedor que o Zé Luis estava com uma banda autoral e "na luta", propôs um intercâmbio com a banda que ele estava tocando, e que também era autoral.

Naquela altura, vivendo os dias amargos do Pós-Victória Pub e voltando à realidade da "terceira divisão" da música, toda ideia nova que surgisse, era válida e desta forma, por que não considerar a proposta ?

Dessa forma, o Zé Luis repassou o nosso interesse oficial por uma conversa preliminar com o rapaz, e verificar assim, como nossas respectivas bandas poderiam colaborar uma com a outra.

O rapaz veio acompanhado de seus companheiros ao nosso ensaio, e ficamos com uma boa impressão dele e dos demais. Aparentavam serem um pouco mais novos do que nós ("pero no mucho"), e sem dúvida tinham o sonho de dar certo na música, como nós, norteando seus esforços.

O único senão nessa equação, era o fato deles se definirem como uma banda "Punk", o que naquela época era bastante discrepante com a nossa proposta artística e vice-versa.

Mas, relevando essa questão estética, e pelo contrário, valorizando o fato dos caras serem jovens educados, de boa formação cultural e articulados, não havia nenhum cabimento em rejeitarmos a proposta de ajuda mútua, apesar da suposta disparidade das respectivas propostas artísticas.

Poderia haver no entanto, reações negativas por parte de terceiros, pois ali no meio do furacão oitentista, a ultra segmentação de tribos era uma realidade indiscutível, e dentro dessa perspectiva de animosidades radicais, não era recomendável que uma banda Punk se apresentasse no mesmo show com uma banda de cabeludos hippies, e de orientação setentista, por motivos óbvios, e de nada importava dizer aos radicais xiitas, que as bandas eram amigas, e se respeitavam mutuamente, e indo além, tinham pacto de colaboração.

Mesmo assim, alheios aos perigos que poderíamos enfrentar em situações desse nível, prosseguimos nos encontrando e planejando ações.

Uma primeira oportunidade surgiu quando o Rubens arrumou um contato de um salão localizado no bairro do Sacomã, próximo ao Ipiranga, na zona sudeste de São Paulo. Tal salão estaria abrindo as portas para bandas autorais e do mundo underground, se apresentarem.

Naquela circunstância de termos perdido nossa ótima vocalista, Verônica Luhr, e o embalo construído ao longo de meses tocando em casas noturnas, precisávamos nos reinventar, e bem rapidamente, portanto, buscar espaços alternativos onde pudéssemos fazer shows autorais, sobretudo, e não em casas noturnas tendo que tocar covers, parecia ser um caminho de curtíssimo prazo para nos reerguermos.

E como estávamos numa colaboração com tal banda do guitarrista amigo do Zé Luis, claro que tentamos inseri-la nessa perspectiva do salão rústico, do bairro do Sacomã.

Fomos lá para conhecer o espaço, e a viabilidade de marcarmos um show, num dia de semana a tarde. Era realmente um lugar muito rude, numa avenida de forte circulação de caminhões de carga, pois nos arredores, notamos a presença de muitos galpões de transportadoras etc.

O sujeito que nos atendeu era uma figura sem muitos recursos educacionais e culturais. Era o dito "mal articulado" e dessa forma, a abordagem foi muito prejudicada pelo fato da conversação não encontrar eco, digamos assim, para não ofender ninguém.

O pessoal da banda amiga também não curtiu a conversa e saímos dali convictos de que não aconteceria nada e convenhamos, duas bandas autorais desconhecidas fazendo show numa espelunca daquelas, e super mal localizada, tinha tudo para ser um fiasco.

Nessa circunstância, era muito diferente de tocar numa espelunca como o Devil's Bar, no sentido de que se a infraestrutura era péssima igualmente, pelo menos o Devil's localizava-se na rua 13 de maio, onde o agito era mastodôntico na noite paulistana, ao contrário desse salãozinho remoto, que mais parecia-se com um galpão do Ceasa.

Todavia, um fato muito curioso ocorreu nessa visita ao tal salão. 

Quando já estávamos de saída, ouvimos o som de uma banda tocando. Foi quando descobrimos que anexo ao salão, havia uma sala de ensaios, ainda que bastante improvisada à moda antiga, com a clássica vedação de caixas de ovos forrando as paredes, e ausência de ar condicionado. 

Portanto, só descobrimos que havia uma banda ensaiando ali, quando naturalmente, seus integrantes não aguentaram mais ficar trancafiados naquele calor e fumaça, pois naquela época, ninguém cogitava em parar de fumar, mesmo em condições insalubres para tal prática, como essa.

Nos aproximamos e fomos convidados a assistir um pouco o ensaio da banda em questão, que se chamava "Crisálida". 

E o baixista desse "Power-Trio", era uma figura conhecida no metiér do Rock Paulistano, por ter sido baixista de uma banda que quase ficou famosa nos anos setenta, chamada "Rock da Mortalha". 

Seu nome era Orlando Lui.
Eu inclusive cheguei a assistir um show dessa banda em 1978, com bastante público, e ao ar livre, no Boulevard da estação São Bento do Metrô, e minha lembrança desse show era de que o som deles assemelhava-se bastante ao Black Sabbath, pela densidade e peso.

Enfim, o "Crisálida" que ali ensaiava, fazia um som ultra setentista, na linha do Rush, incisivamente, e era ainda mais anacrônico que A Chave do Sol, para aquele ambiente oitentista hostil a tais manifestações explicitamente simpáticas às estéticas do passado.

Pelo pouco que ouvi e vi naquele ensaio, os caras tinham um som consistente, muito bem tocado etc, mas era um som sem chance alguma para o momento oitentista, até mesmo em termos undergrond.

Algum tempo depois, A Chave do Sol conviveria bastante com o Orlando Lui, por outras situações e inclusive, esperto, ele também tentou adequar-se ao mundo oitentista, buscando alojar-se com outra banda, mas no mundo do Heavy-Metal. Relatarei tudo na cronologia adequada.

Encerrando, falei de muitas coisas e deixei um suspense sobre quem seria essa banda Punk, amiga. A banda, de fato, nunca fez nada significativo, e logo encerraria atividades. 

O nome dessa banda, era "Ignose".

Apesar desse acordo de cooperação, de nossa parte, essa tentativa no salãozinho não deu em nada e da parte deles, também nada deu certo, e seus contatos eram de barzinhos ainda mais underground dos que A Chave do Sol tinha tocado nos primeiros meses de existência.

Após mais alguns telefonemas, o nosso contato dispersou-se, e nunca mais nos falamos.

Contudo, dois anos e tanto depois, tomamos um susto quando vimos que uma banda, dessas que tinham título de sigla (essa tendência era uma febre entre os seguidores da onda Pós-Punk), e possuíam sonoridade de plástico, com os seus membros usando visual de dândis e fazendo caras & bocas de artistas metidos a "avant-garde", estava ensaiando uma situação de mega exposição midiática.

Sabíamos de sua existência já desde 1984, mas era só mais uma banda com nome de sigla tocando no "Madame Satã", e casas similares que promoviam artistas dessa seara do Pós-Punk.

Foi quando vimos um show ao vivo, no estacionamento da loja de departamentos, "Mappin", no bairro do Itam-Bibi, muito próximo da residência do Rubens, onde ensaiávamos regularmente. 

O Zé Luis reconheceu o guitarrista imediatamente, assim que a banda subiu ao palco, e era mesmo o seu amigo que tocava guitarra no "Ignose", em 1983 !!

Seu nome era Fernando Deluqui, e sua nova banda que decolava era um tal de RPM...

Logo mais, conto a segunda história que ocorreu também nesse período entre abril e junho de 1983.


Continua...  

Nenhum comentário:

Postar um comentário