segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 54 - Por Luiz Domingues

O segundo caso que tenho a relatar desse período abril/junho de 1983, também teve desdobramentos e talvez tenha começado até antes um pouco, em fevereiro ou março, mas realmente não tenho nada anotado que possa me garantir tal afirmativa, e minha memória realmente é imprecisa nesse detalhe.

Esse caso não tem nada a ver com música, tampouco com a própria Chave do Sol como personagem central, mas julgo importante relatar, pois envolveu à todos, e a despeito de ser apenas uma grande brincadeira, produziu momentos prazerosos, e ouso dizer, de uma certa criatividade.

Foi o seguinte :

Estávamos reunidos com diversos amigos da banda, aquele grupo de amigos do Rubens que tornaram-se também meus amigos e do Zé Luis, desde o começo da banda, em 1982.

Era uma noite quente e estávamos no bairro do Bexiga, circulando pela Rua 13 de maio, sem um objetivo definido, pois A Chave do Sol não faria apresentação naquela noite, e nós não iríamos assistir uma outra banda se apresentar.

Então, o Rubens sugeriu que fôssemos à sua residência e aproveitando o fato de que sua família viajara, poderíamos ouvir música num volume considerável, pois a casa era enorme, e a possibilidade de incomodar os vizinhos, mesmo com som alto, era bem pequena pela proporcionalidade.

Claro, todos toparam e seria muito mais agradável do que ficar andando no meio daquela multidão de doidos e bêbados que forravam (literalmente), a Rua 13 de maio.

Enfim, chegando à casa do Rubens, alguém puxou uma conversa sobre filmagens caseiras e nesta época, começo de 1983, poucas pessoas tinham o privilégio de possuir uma câmera caseira "moderna" de formato VHS. O normal era ter um de Super-8 e ter que revelar o filme etc etc.

Então o Rubens foi buscar a câmera de sua família, e todo mundo ficou encantado com a engenhoca que era moderna, e incrível para os padrões da época.

Papo vai, papo vem, alguém cogitou a hipótese de a usarmos ali mesmo, filmando qualquer coisa.

Na hora, todo mundo se contagiou com a ideia, e aquilo virou um caldeirão efervescente. E se filmássemos pequenos sketches que criássemos ali mesmo, e os filmássemos imediatamente ?

De minha parte, particularmente isso acendeu meu lado cinematográfico de uma forma intensa. Ardoroso fã de cinema desde criança, enxerguei numa prosaica brincadeira, a possibilidade de criar alguma coisa interessante.

E assim, passei a mão num bloco de anotações e uma caneta, e escrevi algumas ideias básicas num esboço de roteiro, e os caras compraram a brincadeira.

Era por volta de meia-noite quando essa loucura começou, e só terminamos quando fomos vencidos pelo cansaço, literalmente, por volta das 11:00 h. da manhã do domingo...

Filmamos muitos sketches malucos, improvisando a casa do Rubens como set, usando adereços, objetos de cena etc.

Não tínhamos iluminação, é claro, e dessa forma, improvisamos o reforço de luz com lanternas e abatjour, de uma forma absurda. 

Claro que não havia possibilidade de fazer uma edição com o que tínhamos, portanto eram filmagens de take único, e se não a curtíssemos, tínhamos que rebobinar e apagar para regravar em cima, no mesmo espaço.

Não havia uma sequência lógica de continuidade, portanto, cada sketche era uma historieta com começo, meio e fim. 

Mas como essa brincadeira repetiu-se posteriormente em noites seguintes, tentamos fazer novas cenas que remetessem há algumas antigas, anteriormente filmadas, mas não se tratava de uma preocupação propriamente dita.

De minha parte, recordo-me bem de algumas cenas, que posso relata-las agora.

1) Lembro-me que tivemos a ideia de colocar o Zé Luis numa bicicleta ergométrica, e ao som de "Bicycle Race" do Queen, ele acelerou aquela bicicletinha numa velocidade absurda e simulou a morte, caindo no chão enquanto o "sonoplasta" da nossa equipe de produção, fazia a rotação do disco mudar e depois tirando o pick-up da tomada, produziu a ruptura final...

2) Outra cena muito interessante foi filmada comigo caracterizado como "bruxo". Usando uma colcha de "chenile" da residência como capa, e o clássico chapéu de bruxo que usei em muitos shows, tive a companhia de um crânio humano, que era um ornamento do gabinete interno da casa, onde o pai do Rubens costumava trabalhar em seus textos (o Rubens afirmava ser de um antepassado da família, mas eu sempre achei se tratar de uma réplica, dessas usadas em clinicas médicas).

 "Still" da cena que fiz nesse audiovisual, interpretando um alquimista medieval, em busca da "Pedra Filosofal"...

Improvisei uma voz cavernosa, e fiz um monólogo falando sobre a "Pedra Filosofal" e coisas do gênero. Ficou um absurdo de canastrice.

3) Criamos a ideia de um Circo Romano, onde o Rubens teve que lutar contra uma "fera", enquanto o "público" exigia que a fera matasse o gladiador...

A fera em questão era um dos dois Dobermans que o Rubens possuía, chamado "Jimi", por conta do Jimi Hendrix...

Essa cena foi filmada por volta das 8:00 h da manhã, já dia claro portanto, e ainda bem que era um domingo, pois pessoas que passassem pela rua naquele instante, poderiam ter chamado o resgate de um sanatório, visto que era um bando de cabeludos sentados em cima de um muro bem alto, usando "túnicas romanas" imaginárias, que na verdade eram lençóis brancos da residência...

4) Uma cena quase cerebral foi criada para o poeta Julio Revoredo participar. Ele jogava xadrez em silêncio contra o Celso, quando um outro "ator" (acho que era o Carlão Muniz Ventura, não tenho certeza), chegou sorrateiramente, e deu um chute no tabuleiro, quando laconicamente falou : "cheque-mate"...

Qualquer semelhança com o "Sétimo Selo"de Ingmar Bergman, não foi mera coincidência...

Essas são as que me lembro mais claramente, mas muitas outras foram produzidas. 

E como já disse, não se resumiu somente à essa noite onde surgiu a ideia, mas desdobrou-se em outras noitadas, onde a casa do Rubens estivesse sem a presença da família, naturalmente.

Recentemente (escrevendo este trecho em janeiro de 2014 e referindo-me ao ano de 2013), o Rubens mencionou no Facebook que ainda tem essa VHS. Se estiver ainda em condições de ser revertida digitalmente e postada no You Tube, seria muito legal relembrar essa loucura toda, claro, fazendo a ressalva de que seria bacana filtrar o material e só postar o que não fosse absolutamente constrangedor...

Foi só uma brincadeira interna, mas todos divertiram-se muito, principalmente eu, que sou cinéfilo de carteirinha, e brinquei de ser roteirista, diretor e até ator...

Continua...

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