quarta-feira, 6 de junho de 2018

Crônicas da Autobio - O Golpe da Falsa Limpeza - Por Luiz Domingues



Aconteceu no tempo da Patrulha do Espaço, em janeiro de 2000


Estávamos a gravar o álbum, “Chronophagia”, da Patrulha do Espaço, em janeiro de 2000, no estúdio Camerati, de Santo André, cidade localizada na região conhecida como Grande ABC, integrante da gigantesca mancha metropolitana de São Paulo. Tal estúdio fora bem usado nos anos anteriores, mas naquela ocasião, estava decadente, a carecer de reformas em sua estrutura física, ainda que a parte operacional do equipamento, propriamente dito, ainda estivesse em ordem, com tudo a funcionar a contento. Entretanto, o seu proprietário na época, já havia desistido em investir nas suas melhorias e mediante o pedido do proprietário do imóvel para a devolução do mesmo, resolvera vender todo o maquinário e fechar as portas. Portanto, éramos os últimos artistas a usufruir de suas instalações e nosso álbum, “Chronophagia”, tornou-se o por conseguinte, o último disco ali gravado, oficialmente.



Esse estúdio tinha uma particularidade interessante em sua arquitetura, pois por tratar-se de uma antiga residência de alto padrão, era muito amplo e com um desenho estrutural arrojado, a fugir do padrão de uma residência familiar tradicional, porém, por  apresentar salões enormes, o que possibilitou que tal empreendimento fosse adaptado para um mini centro cultural, com um auditório na sua parte interna, dentro de um salão que devia ser uma espécie de “living room” muito amplo, anteriormente. E o estúdio em si, ficava alojado em uma instalação igualmente ampla, montada no quintal, ricamente ajardinado, como uma sala de inverno charmosa e sob um belo paisagismo, mas isso, em um tempo anterior, deduzíamos, pois estava tudo muito mal cuidado nesses tempos decadentes e onde a meta era sucatear o estúdio, vender o seu equipamento e entregar o imóvel ao proprietário, que nessa altura já estava apalavrado com um empreendedor que visava montar ali um restaurante de cozinha japonesa, sob alto padrão (e foi o que ocorreu, meses depois).

Foi quando surgiu a ideia para aproveitarmos a nossa maratona de sessões ali e produzir um show no pequeno auditório do complexo, e assim logicamente ao visar aproveitar a estrutura do estúdio para gravar o concerto. Tudo isso eu contei com detalhes no texto do meu livro autobiográfico, mas aqui eu exponho um detalhe inédito e inusitado. O dono do estúdio na ocasião, era o cantor / compositor, Belchior, uma figura sensacional da MPB setentista, autor de muitos clássicos naquela década, etc. Contudo, ele não tinha nenhuma intenção em salvar o estúdio, que já comprara por um preço reduzido da parte do antigo dono, consciente de que estava decadente e dessa forma, seu plano era o de ganhar algum dividendo com a venda do equipamento e nada mais. Portanto, ele nem aparecia por lá e deixara a responsabilidade pela sua administração em seus dias finais ao técnico de som que cuidou de nossa gravação e só havia um funcionário, um faxineiro, que malandramente, ao perceber a decadência e por antever a perda de seu emprego, ficava nos quartos do patamar superior, a aproveitar a calmaria total e simplesmente dormia o dia inteiro, sem pegar em uma vassoura, em hipótese alguma. Quando soube que tencionávamos fazer um show no auditório, veio rapidamente dizer-nos que haveria uma “taxa de limpeza”, que seria supostamente uma ordem expressa de seu patrão. Pura balela, Belchior nem aparecia ali e claro que a intenção fora a de amealhar um dinheiro para o seu bolso.



Então, quando percebemos o golpe do aspirante a astuto, dissemos-lhe que pagaríamos após o show e só ficamos a observar seus movimentos em contrapartida. Claro que ele fingiu empenhar-se, ao passar uma vassoura fortuitamente pelo auditório, mas isso revelou-se risível, pelo serviço mal feito que mal conseguia disfarçar de tão embusteiro que era. Então, enfatizamos que ele deveria esmerar-se em limpar bem não só o auditório e a entrada do estabelecimento, mas sobretudo os banheiros que serviam a parte concernente ao auditório e que seria usado pelo público, que esperávamos. E como havia uma quantidade deprimente de baratas mortas ali nos banheiros, reforçamos a ordem para ele cuidar disso. Infelizmente, ele não fez nada e quando demos conta disso, ficamos chateados, mas certamente que instaurou-se a determinação para não pagarmos absolutamente nada ao elemento. Não dava tempo para tomarmos providências em outro sentido, porque a montagem do equipamento e preparação da gravação do show consumiu-nos horas e assim, envergonhados parcialmente, assumimos a ideia de que o público teria banheiros sujos à sua disposição, com baratas mortas pelo piso, mas por outro lado, se a produção do show era nossa, é bem verdade, a casa estava em más condições e supostamente cobrara uma taxa para tal providência ser tomada e ao não cumpri-la, eximia-nos totalmente de culpa perante o público e principalmente da obrigação em pagar por algo que não fora feito, como um serviço prometido.


Pois bem, fizemos o show no sábado e na segunda-feira posterior, quando o sujeito veio cobrar-nos, ele foi conduzido por um membro da nossa banda a uma inspeção nos banheiros, e ao mostrar-lhe as baratas mortas na mesma posição em que ele as vira na sexta-feira, percebeu que nossa recusa em pagá-lo, não oferecer-lhe-ia a chance de nenhuma contra-argumentação em contrário. Ainda bem que nenhum usuário do recinto, oriundo do público, teve a ideia em “chutar” os corpos inertes dos blatídeos, a destruir assim a nossa prova cabal contra o nosso golpista “barato”...

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