domingo, 24 de novembro de 2024

Crônicas da autobiografia - Dr. Phibes trabalha na gráfica ao lado - Por Luiz Domingues

             Aconteceu no tempo da Patrulha do Espaço, em 2001

Por volta de julho de 2001, nós tínhamos marcado uma apresentação para ocorrer em uma famosa casa noturna localizada no bairro da Bela Vista, popularmente conhecido como "Bexiga", próximo ao centro de São Paulo. Como a rua 13 de maio, onde ficava instalada tal casa, apresentava tradicionalmente muita movimentação noturna (pelo fato de que havia muitos estabelecimentos similares no seu entorno), surgiu a ideia de usarmos um velho artifício de divulgação que já era bem obsoleto naquela época e ainda mais se aplicado em uma cidade gigantesca como São Paulo, haja vista que a sua visibilidade era circunscrita a uma campo minúsculo para repercutir a contento.

Todavia, amparados pelo sentimento de que valeria a pena pela movimentação forte que havia pelas calçadas dos dois lados da rua, resolvemos contratar o serviço de uma pequena gráfica de rua que também fazia serviços com placas pintadas a mão e faixas de pano das mesmas características.

Pois é, investimos dinheiro em uma arcaica faixa para ser pendurada entre dois postes, que era pintada com os seus dizeres a mão, demorava uma a duas horas para ficar pronta e no preço cobrado ficava a opção de mandar pendurar nos postes escolhidos ou deixar a incumbência ao cliente, mediante desconto.

A facilidade foi que a tal gráfica ficava localizada a poucos metros da casa na qual apresentar-nos-íamos e assim, em meio ao ritual do soundcheck vespertino, eu mesmo e o colega, Rodrigo Hid, fomos contratar o serviço para ser executado de imediato e cerca de duas horas depois a faixa em questão haveria de estar devidamente exibida para a visualização pública no início da noite. 

Quando estávamos para deixar as dependências da casa noturna rumo à pequena gráfica, um funcionário que ali trabalhava nos indagou se íamos de fato até esse estabelecimento e ao confirmarmos a nossa intenção, o rapaz falou em tom irônico: "ah, vão lá no Dr. Phibes". 

É claro que não entendemos a colocação de imediato, mas de pronto, eu que sou cinéfilo inveterado, lembrei-me do personagem que o rapaz evocou, ou seja, o famoso Dr. Anton Phibes, protagonista do filme: "The Abominable Dr. Phibes", uma produção britânica de 1971, a retratar a tétrica história de um organista erudito que sofre um acidente terrível de automóvel quando ia ver a sua esposa que estava hospitalizada, esta sob estado grave e depois do ocorrido que o impediu de chegar ao hospital, todo deformado e com danos às suas cordas vocais, descobre que a junta médica que assistiu a sua mulher, cometeu erro médico ao deixá-la falecer e ele jura se vingar de um por um dos médicos, ao arquitetar assassinatos de formas diferentes e todos sob um suplício terrível. Em suma, filme de terror gótico. Interpretado por Vincent Price, um ator genial para esse tipo de terror entre o clássico, o gótico e o caricatural, tudo misturado.

Bem, pensei que talvez o dono ou algum funcionário da gráfica fosse parecido com o ator norte-americano Vincent Price, que interpretou o papel do Dr. Phibes, contudo, fiquei intrigado, pois em pleno 2001 era improvável que esse rapaz soubesse dessa referência tão específica e no caso, distante do imaginário popular em voga.

Quando chegamos ao estabelecimento em questão, eis que o seu proprietário em pessoa (e faz-tudo do seu negócio, pois ele não tinha empregados para lhe auxiliar), veio nos atender e quando falou conosco, eu matei a charada, pois o senhor em questão usava uma cânula com válvula fonatória, ou seja, com as cordas vocais prejudicadas, ele se comunicava a usar tal aparelho de apoio e a voz dele que ouvíamos era completamente metalizada a se parecer com um robot de filme Sci-Fi dos anos cinquenta.

Foi difícil entender o que o senhor nos dizia e ele nos cravou de perguntas, pois também não entendera corretamente o que lhe pedíamos ("Patrulha do que?" "Espaço?" "É isso mesmo o que vocês querem?") e esse estranhamento mútuo dificultou a nossa comunicação de início. 

Bem, deu tudo certo, a faixa ficou pronta no horário combinado e os nossos roadies foram pendurá-la no poste. Não acho que tenha surtido um efeito promocional adequado para o nosso show, porém, devo registrar que o senhor em questão era um bom profissional, recomendado como uma referência do ramo no bairro.

Sobre o apelido, além do escárnio embutido que ele carregava da parte de quem o vociferava e atingia o pobre senhor idoso (pois ninguém perde a voz propositalmente porque deseja e muito menos usa uma válvula dessas por querer brincar de imitar o personagem do Dr. Phibes), eu fiquei intrigado, pois a não ser que o rapaz que nos falou sobre essa alcunha tivesse uma afinidade com um tipo de estilo cinematográfico tão específico e remoto, talvez ele apenas repetisse algo que não entendia exatamente, mas certamente alguém apelidou aquele senhor com a referência certeira que tinha na sua memória, a respeito do "abominável" Dr. Phibes.

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