domingo, 17 de dezembro de 2017

O Torpor Inicial - Por Luiz Domingues


Os primeiros tempos são difíceis para todos, não há outra possibilidade dentro dos limites humanos. Numa primeira análise, o fato de que o pequeno Ser humano é completamente frágil e dependente dos adultos que cercam-no, para absolutamente todo tipo de suporte mínimo a suprir suas necessidades mais prementes, parece ser o mais incômodo dos problemas que o novo "serzinho" tem nos seus primeiros dias, contudo, pode não ser apenas isso.

O torpor mental que segue as primeiras semanas é algo bastante perturbador e mesmo sendo uma fase da vida onde raramente um ser humano na vida adulta consiga lembrar-se claramente, ainda sim, tal sensação de absoluta estada numa espécie de limbo mental, onde nada faz sentido, é o que mais aproxima-nos da condição animal de não-raciocínio. Para nossa sorte, isso passa e o poder de estabelecer associações mediante a lógica, vai clareando a nossa percepção da vida e tudo que nela insere-se, mas é bastante assustador esse período inicial onde não temos raciocínio, mas apenas sensações e instintos, motivados por necessidades fisiológicas das quais não conseguimos ter a mínima compreensão.



Dizem os psicólogos infantis que nessa fase inicial, o estímulo cognitivo provocado pelos adultos responsáveis pelos nossos cuidados básicos, é mais que uma forma de aculturação preliminar, mas na verdade, faz-se fundamental para que o bebê inicie o seu aprendizado básico do básico para chegar ao ponto crucial onde consiga sentir-se como um ser vivo em meio a seres inteligentes e que teoricamente esmeram-se para que alcancemos o mesmo grau de sofisticação educacional. É o começo de uma longa jornada, se analisada depois que crescemos e tendemos a avaliar friamente a situação, quando passamos a agir exatamente como os adultos agiram quando nós passamos por essa fase, em relação aos novos bebês que chegam, ou seja, contribuímos para a perpetuação do padrão cultural e mais que isso, enxergamos a experiência pelo viés da razão, e nada há de assustador no processo de um recém nascido que em pouco meses já começa a entender a tudo e a todos, interagir e estabelecer suas associações baseadas na lógica cartesiana. 

Todavia, para o bebê, essa fase inicial oferece uma noção de tempo interminável e sob esse torpor sem capacidade de raciocínio minimamente desenvolvido, é incômodo, parecendo um sonho confuso, onde nada consegue fazer sentido. É como mergulhar num abismo, mas sem ao menos ter a noção do que possa representar o desconhecido, contudo, simplesmente um vagar a esmo. Do nada para o nada, ou seja, creio que é uma sensação semelhante à da morte (não estou afirmando, apenas conjecturando), propriamente dita, onde o “nada” prevalece, mas sem consciência alguma, "não ser nada" não é assustador, mas apenas confuso. Bem, lembrando-me dessa estranha fase da vida, mas agora racionando como ser humano adulto, ainda bem que passou até que relativamente rápido, pois é deveras angustiante a experiência...

4 comentários:

  1. Imagina a importância do meio onde ele viverá, da família que o conduzirá e será responsável pela sua Educação? Referência fundamental para qualquer ser humano, é no ambiente familiar que incorporamos valores éticos e somos submetidos às primeiras regras sociais...E esses "saberes", irão nos acompanhar para a vida toda.. Parabéns pelo texto delicioso... Adorei!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mas que prazer ter sua presença aqui a prestar seu valioso depoimento com a carga dupla por ser mãe e educadora a opinar com propriedade.

      Sobre o que afirmou, não tenho nada a acrescentar e só posso dizer que sou seu signatário, sem reservas.

      Grato por enriquecer a discussão proposta pela crônica !!

      Abração,amiga Tânia !!

      Excluir
    2. Eu que agradeço, por ter o privilégio ,de ter a sua amizade... Abraços e um Feliz 2018!!!

      Excluir
    3. Sensacional, Tânia ! Penso o mesmo !! Feliz 2018 para você e seu menino !!

      Excluir