quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A Cantora que Sofria de "Stage Fright" - Por Luiz Domingues



Houve tempo em que tal distúrbio era tratado como uma “frescura” da parte de artistas temperamentais, mas nos dias atuais, é sabido que o dito “Stage Fright”, ou na tradução livre para o nosso idioma, “medo do palco”, é na verdade um problema de ordem psicológico, grave, a requerer tratamento conduzido por profissionais habilitados e que infelizmente acomete muitos artistas, além de palestrantes e políticos que precisam falar em público.

Tal dificuldade pode ocorrer com qualquer pessoa, independente de seu talento e / ou fama, ou seja, para qualquer um que tenha que expressar-se diante de uma audiência. Quem possui tal doença, sofre muito e prejudica demais a sua carreira, seja lá qual for o ramo de sua atividade. Talvez seja mais visível em artistas, que precisam estar 100% seguros, a fim de garantir uma boa performance sobre o palco, onde muitas vezes, um mau desempenho pode arruinar sua carreira e claro que poucas pessoas presentes na audiência vão ter a paciência em relevar e compreender que o artista em questão sofre desse mal.



Pois foi assim, num festival de música popular, realizado num famoso teatro da cidade, com muitos artistas populares e alguns emergentes, que uma cantora com relativa fama no panorama artístico, demonstrava na coxia que estava muito tensa, momentos antes de chegar a sua vez de subir ao palco. Até aí, momentos de nervosismo podem acometer qualquer artista, por vários motivos, mas dentro de um limite de tolerância, dentro de um padrão de normalidade, digamos assim. Assim como existem os que não demonstram nenhuma apreensão e pelo contrário, portam-se nos bastidores como se estivessem na sala de estar de suas respectivas residências a conversar descontraidamente sobre assuntos completamente desvinculados do espetáculo que cumprirão minutos depois, sob absoluto controle emocional. E tem também os que estão tensos, mas por outros motivos, preocupados com falhas técnicas detectadas em cima da hora e mais portam-se como patrões irascíveis a distribuir broncas com funcionários, técnicos etc.


Mas no caso dessa cantora, era nítido observando-a, que estava muito incomodada pelo dito “Stage Fright”, pois seu descontrole só aumentava à medida que sua vez de encarar a plateia, aproximava-se. Amparada pelos músicos de sua banda de apoio e muitos outros artistas ali presentes, deu para notar que muitos ali sabiam de seu problema e solidarizaram-se com esse seu momento difícil. Talvez mesmo por isso, não houve nenhuma cogitação em cancelar sua participação, o que para algum desavisado, poderia até ser interpretado como um ato imprudente, mas na verdade denotava que sabiam que a crise que enfrentava ali era dura, mas ela conseguiria superá-la e no fundo, mais do que isso, sabiam que ela mesma não cogitava cancelar e queria apresentar-se. Em síntese, havia ali a compreensão de seus amigos que acostumados com sua síndrome, sabiam que era inevitável a pane e que mais forte que o medo, havia a vontade de vencê-lo e poder assim exercer a sua arte.


A suar em píncaros e tendo que retocar sua maquiagem, ela foi, paradoxalmente em relação ao que sofria, corajosa. E mesmo ainda a possuir um pouco de reação espasmódica e a ostentar um semblante tenso, conseguiu adentrar o palco e cantou. Cantou e encantou com sua voz macia e afinada, sua graça gestual e sua beleza física que era grande, diga-se de passagem. E foi aplaudida, merecidamente pela sua performance, todavia, implicitamente também pela sua coragem, que poucos da plateia sabiam que ela teve para lutar e vencer seu medo, ao menos daquela vez. E assim, noite após noite, a catarse dolorosa a consumia, a somar-se com sua entrega artística, e assim adquirisse um valor inestimável e oculto da maioria de seus fãs.

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