sábado, 3 de fevereiro de 2018

A Alcova Secreta do Lord - Por Luiz Domingues



Como todos os jovens que formam-se na Universidade, Joe tinha muitos planos e sonhos. Graduado com méritos e por uma Universidade consagrada, havia recebido convites para empregar-se em boas empresas do mercado, mas o que ele queria mesmo era abrir seu próprio negócio. Na faculdade, conhecera outros amigos com os quais identificou-se e com a amizade solidificada, naturalmente ao verificar que compactuavam nos mesmos ideais, planejaram abrir sua própria empresa em sociedade.


Dessa maneira, Joe abriu a firma, tendo como sócios seus colegas de faculdade, Anthony; Bob e Rupert, mas claro, entre o sonho e a realidade do mercado, havia um abismo. Não importava se eram talentosos, criativos e cheios de vontade para trabalhar e vencer na vida, pois a pressão de uma sociedade construída sob mentalidade competitiva, fez com que seus pequenos progressos, que eram significativos se analisados pela ótica meramente teórica, por outro lado, na prática revelavam-se insípidos, a gerar a discussão interna de que o mais prudente seria ter um respaldo externo a dar-lhes um respaldo. Sendo assim, ao receberem um convite para trabalhar em parceria com uma empresa de maior porte e portanto mais estruturada, aceitaram a oportunidade prontamente. Logo nas primeiras reuniões com o presidente dessa empresa maior, notaram que ali poderiam crescer como sonhavam, tendo tal apoio de uma estrutura melhor preparada e animaram-se, normalmente.

E também notaram que esse senhor era um homem de educação refinada, a parecer-se um Lord inglês, tamanha a sua postura pessoal, na observação impecável da etiqueta e maneira em expressar-se, e a usar um vocabulário muito acima da média coloquial. Chamava-se Michael, o aristocrático empresário. Pensaram os rapazes que tendo um gentleman como interlocutor a representá-los, a tendência seria que em termos de relações públicas, no mínimo, a imagem do trabalho estaria assegurada.

Dentro da equipe de trabalho, além dos funcionários subalternos, havia a secretária pessoal de “Sir” Michael, que era uma mulher de meia idade, mas com aparência muito bem conservada, ao manter ainda um pouco do viço da juventude, quando a maioria das mulheres de sua idade já o haviam perdido. De fato, logo circulou a informação de bastidores que em sua juventude, Amelie, havia sido modelo fotográfico, portanto, dava para imaginar que quando adolescente, houvera sido muito bonita.


A vida seguiu o curso dentro da empresa e os quatro rapazes pareciam entusiasmados com a sua situação ali, mas logo a seguir, ocorreu um estranho distanciamento de Michael, que elegera assessores para tratar diretamente com os rapazes sobre as questões pertinentes ao trabalho, e isso fez com que o entusiasmo sofresse um abalo inicial. Mas independente dessa sutil queda de credibilidade, não havia dúvidas sobre o padrão educacional e cultural avantajado que Michael ostentava, até que um episódio fortuito, começou a mudar a opinião formada pelos quatro amigos. Num dia qualquer, Bob, um dos quatro mosqueteiros dessa trupe, foi à copa do escritório à cata de um copo d’água. Ao entrar subitamente no recinto, flagrou Michael a bulir com Amelie na pia do mesmo, enquanto a secretária empreendia uma simples lavagem de xícaras de chá. OK, Bob raciocinou que fora um momento íntimo e que não dizia-lhe respeito, mesmo porque, se Michael e Amelie tinham uma relação amorosa, não havia nada a reparar ou comentar, pois definitivamente, isso não era de sua alçada.

Talvez fossem casados ou comprometidos com outras pessoas e daí o caráter secreto de seu "affair". Ou simplesmente não queriam misturar as coisas, tratando de manter a extrema discrição dentro de um ambiente inadequado para demonstrações de afeto, caso do escritório. E ainda mais ao considerar-se a personalidade de Michael, toda moldada pela educação em alto padrão, claro que ele evitaria a todo custo ser flagrado em qualquer situação que poder-lhe-ia causar constrangimento. E de fato, Bob observara que quando Michael e Amelie notaram sua súbita chegada, esforçaram-se para disfarçar, numa espécie de sketch teatral improvisada e diga-se de passagem, medíocre, mais a parecer-se com uma cena de comédia soft pornô.

Passados alguns dias, desta feita outro fato testemunhado por Joe, tratou de reforçar a ideia de que Michael e Amelie tinham um relacionamento amoroso e secreto, o qual disfarçavam veementemente.Tal ocorrência deu-se quando Joe estava a passar a esmo por um corredor e verificara que a faxineira trabalhava nesse instante naqueles cômodos, visto que o barulho irritante de um aspirador de pó estava em curso e vários materiais de limpeza espalhados por ali. Foi quando ele viu que uma estranha porta estava aberta, num lugar onde jamais havia pensado que ela existisse, pois anteriormente ali havia um grande panô decorativo, a encobrir a existência de uma portinhola. Mas como a faxineira estava entretida com a limpeza de outros cômodos e deixara a portinhola desvelada e mais que isso, escancarada, Joe não resistiu e adentrou-a, e percebeu que dava acesso para uma escada bem estreita. 
Ao chegar ao patamar superior, Joe vislumbrou um quarto montado, com decoração igual à de um motel, a conter teto espelhado, decoração toda baseada em erotismo e a ostentar a cor vermelha como predominante em cortinas e objetos, além de uma aquarela com a imagem de um casal nu, ao afagarem-se numa cama.

Joe imediatamente ligou tal visão ao fato relatado por Bob dias antes. Era óbvio que tal quarto secreto era a alcova montada por Michael para recepcionar Amelie. Talvez não só ela, mas outras convidadas, também, mas claro, não cabia julgamentos de sua parte, tampouco de seus sócios.


Apenas a constatação de que uma educação refinada não coíbe os desejos recônditos de um homem, e nesse caso, ninguém melhor que Nelson Rodrigues, explorou tal temática, através de seu texto dramatúrgico audacioso.

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