quarta-feira, 12 de março de 2025

Autobiografia na música - Boca do Céu - Capítulo 157 - Por Luiz Domingues

E mais um dado extraordinário ocorreu para essa banda. Como se não bastasse ela ter se reagrupado em 2020, ou seja, 41 anos após a sua dissolução, ter gravado e lançado o seu primeiro single oficial em 2023 (com direito a um grande número de execuções radiofônicas), participar de entrevista ao vivo em programa de rádio e acumular mais material de portfólio do que jamais conseguira nos anos da sua existência tão juvenil e incipiente nos anos setenta, eis que nesse ponto de setembro de 2024, ela também   já estava a finalizar a gravação de mais quatro músicas, havia feito dois shows ao vivo e um bem recentemente em um belo teatro e pasmem, anunciara a sua primeira participação com show para fora da cidade de São Paulo!

Tudo bem, eu sei muito bem que no contexto de uma banda formada por adolescentes essas conquistas todas que elenquei anteriormente soam e o são na verdade, bastante pueris. Contudo, o extraordinário dessa situação, foi constatar que mesmo ao se considerar que esta banda em pleno momento de 2024, era formada por senhores no avançar da terceira idade e que três deles já tinham longa carreira na música e experientes ao extremo (eu mesmo incluso), portanto, acostumados há décadas com a movimentação inerente a uma carreira musical, eu me reservei ao direito de analisar e sobretudo me regozijar com tais feitos, justamente pela situação atípica do Boca do Céu no contexto das suas distintas fases construídas ao longo das décadas. 

Exatamente por ter sonhado com tudo isso nos idos de 1976, mas na prática tendo conseguido resultados pífios naquela época, eu me resignei completamente com o fato de que a banda tivera alcançado tal situação modestíssima como conquista e tratado isso como um primeiro passo, heroico, certamente pelas circunstâncias todas envolvidas e principalmente pela minha própria condição individual completamente despreparado para sequer aspirar me tornar músico.

É óbvio que eu sempre me orgulhei desse estopim da minha carreira que foi o Boca do Céu, tanto é que tal linha de raciocínio está devidamente expressa a exprimir tal sentimento no texto da minha autobiografia e nesses tempos de setembro de 2024, finalmente impresso em livro tradicional e que eu acabara de lançar, inclusive.

Entretanto (aliás, algo que é muito evidente), essa reunião da banda após 2020, com a posterior ideia de gravarmos um disco e as oportunidades que advieram por conta dessa resolução, registraram fatos novos à história da banda e isso se tornou também uma novidade para a minha trajetória, como uma adendo inédito e também inusitado, devo acrescentar. 

Por outro lado, ocorreu que por ter forjado uma longa carreira e nesse bojo ter construído uma história multifacetada por haver participado de várias bandas, cada uma com a sua história própria muito bem delineada e a arregimentar muitos admiradores, eu me acostumei com a ideia de que todas, sem exceção, produzem novidades póstumas o tempo todo, praticamente.

Sejam discos, vídeos e material impresso produzidos por ex-membros, produtores musicais ou midiáticos e até por eu mesmo, tais bandas estão sempre a ser relembradas nas páginas das redes sociais ou veículos da mídia. E fora disso, são incontáveis as menções em tom de homenagem feitas espontaneamente por fãs e admiradores em geral, portanto, o fato é que se tornara rara a semana em que eu não fosse abordado nas redes sociais com pelo menos uma citação desse porte e sempre fiquei muito enaltecido por saber que tais trabalhos frutificaram tanto, a gerar um impacto incomensurável ao ponto das pessoas guardarem com tanto carinho as suas lembranças pessoais, ao relembrar com emoção dos shows que assistiram, ou o sentimento bom de ter ido a uma loja com a finalidade de comprar um disco de qualquer uma dessas bandas mencionadas.

E o tempo todo eu me senti muito feliz ao receber tais manifestações, a agradecer, repercutir e me regozijar com essa longevidade artística alcançada.

No entanto, essa retomada do esforço do Boca do Céu para se reunir e formatar um disco, ganhou um sabor completamente diferente na minha percepção, no sentido de que sobre essa banda em específico, dadas as circunstâncias, eu nada mais esperava e como em um passe de mágica, ela ressurgiu das cinzas e criou uma nova etapa, cheia de conquistas incríveis e nesse aspecto, o fato de eu estar com a idade avançada em 2024, e ter uma carreira cheia de conquistas bem significativas, não normalizou o que o Boca do Céu dos anos 2020 conseguiu arrolar e nesses termos, eu passei a achar incrível cada passo dado, a raciocinar pelo ponto de vista do adolescente dos anos 1970, que eu fui. E confesso, isso me encheu de orgulho pelo desempenho do Boca do Céu.

Em suma, quando surgiu o convite para fazermos um show fora da cidade de São Paulo e amalgamado com mais uma tarde de autógrafos do meu livro, foi um momento especial para a nossa banda e no meu entendimento pessoal, igualmente.

Ao longo da minha carreira toda eu viajei muito para tocar com inúmeras bandas e até a realizar trabalhos avulsos, desde 1979. Fiz muitas turnês organizadas, com shows em cidades diferentes a cada dia, saí do estado de São Paulo inúmeras vezes, tudo devidamente narrado nas páginas da minha autobiografia, porém, não acreditei quando foi marcado esse show do Boca do Céu em uma livraria na cidade de Santos, no litoral paulista e dessa forma, comemorei muito e arrolei tal fato como uma outra grande conquista dessa banda em sua fase vivida em pleno século XXI.

Continua...   

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