sábado, 6 de janeiro de 2018

Crônicas da Autobiografia - O Ingênuo Aspirante a Freak/Junkie - Por Luiz Domingues

               Aconteceu no tempo do Boca do Céu, em 1977...

Não me recordo do seu nome verdadeiro e talvez eu seja lembrado sobre tal pormenor caso alguém que o tenha conhecido também naquela época, aborde-me ao ler esta crônica, a fim de colaborar com tal informação, mas por enquanto, digo apenas que o seu apelido era: “Qua-Qua” e assim ele foi conhecido no bairro em nós morávamos como vizinhos.
 
Tratou-se de um rapaz ainda que ainda vivia o fim de sua adolescência e que notabilizara-se por um aspecto negativo, a grosso modo, embora fosse um bom menino em essência, oriundo de uma família de classe média que lhe deu tudo em termos de estrutura, mas por conta de um deslize seu, de ordem pessoal, eis que ele colocou tudo a perder, infelizmente.
Foi o seguinte: tal rapaz, assim como muitos que viveram intensamente aquelas duas décadas (1960 & 1970), foi fortemente impactado pelo ideal contracultural, quando este ganhara força a popularizar-se e assim a adquirir o contorno de movimento social e comportamental. 
 
Muitos jovens como ele inebriaram-se por tal ideal, mas infelizmente ao enxergá-lo pelo viés do hedonismo puro e simples. A sensação de liberdade total para buscar o prazer através das drogas alucinógenas, como mera recreação e a perspectiva do sexo livre, formou dois pilares irresistíveis e tudo isso a se amalgamar à arte em geral, música e ao Rock, sobretudo, claro que tratou por produzir um apelo fortíssimo.
 
Nesses termos, quem não possuía uma estrutura psíquica muito firme e não raciocinou sobre a contracultura sob aspectos mais sérios, quiçá com visão filosófica e sob ditames espiritualizados, ou no mínimo, sob uma visão macro da sociopolítica, “dançou”, para se usar uma gíria da época a designar quem fracassara, em linhas gerais.
E foi o que ocorreu com esse rapaz, que desde a tenra idade encantara-se com toda essa movimentação contracultural e a ter o Rock como carro chefe.
 
Ele era articulado, em contraste com a sua ingenuidade por outros aspectos, pois havia estudado desde pequeno em bons colégios, portanto continha consigo um bom grau de instrução, cultura geral e era bastante inteligente.
 
Todavia, pelo estilo de sua criação familiar e a se levar em conta o nicho social em que nascera, apesar dele ter estado mergulhado nos ideais da fraternidade, manteve outrossim, o seu padrão pessoal de aparência, bem comportado, no sentido do que a sociedade conservadora esperava de todos, a evitar se vestir com roupas usadas por hippies, freaks & Rockers e mantinha um corte de cabelo tradicional bem curto de visão militarizada, a parecer ser um bom menino matriculado em um colégio católico e que costumava acompanhar a sua vovó nas missas dominicais.
 
Na contrapartida da sua formação tradicionalista, a sua perspicácia era grande, pois entre amigos, vangloriava-se dessa sua predisposição de manter um visual “careta”, mesmo a nutrir a vontade recôndita de se parecer com um “freak”, pois isso dava-lhe a camuflagem necessária para não ser incomodado pela sua família e sobretudo, evitava-lhe os inevitáveis conflitos com uma polícia truculenta e arbitrária que atazanava a vida dos cabeludos pelas ruas, mediante blitz e prisões, em uma época em que a ditadura estava no seu auge e tal perseguição era inevitável.
Então, o “Qua-Qua” a se considerar um genuíno “freak”, mas devidamente disfarçado dentro de seu quarto, protegido dos perigos inerentes que tal opção de vida poder-lhe-ia proporcionar, mergulhou de cabeça em seus discos e livros importados que consumia avidamente e até aí, tudo bem, foi sorte dele que teve uma família que ofertava-lhe tudo o que pedia e nessa altura, a sua coleção de discos mostrava-se gigantesca, ao ponto de chamar a atenção dos freaks do bairro, que reconheciam o seu bom gosto musical.
 
E também pelos livros, muitos a respeito da contracultura e do Rock, com biografias, compêndios, HQ com motivações "freaks" (obras de Robert Crumb, sobretudo), textos mais pesados de filósofos libertários como Herbert Marcuse, Photo Books sobre turnês de bandas de Rock internacionais etc. 
 
Mas fora isso tudo, veio a reboque a sua pior escolha, pois inebriado por tais ideais mal interpretados de sua parte, ele mergulhou de cabeça no consumo das drogas pesadas, no afã de viver a “experiência”, e aí, foi a destruir a sua vida, paulatinamente. 
 
Os primeiros sinais de sua decadência vieram quando os pais começaram a desconfiar de que o dinheiro reivindicado por ele para comprar mais discos e livros, não estava a reverter no aumento da coleção, visivelmente a se falar, ao analisar-se a sua estante. 
 
Depois, o comportamento começou a mudar mais acintosamente, com dificuldade de aprendizado na escola, apatia no cotidiano e momentos de confusão mental, ou seja, o dito “não falar coisa-com-coisa”.
Paralelamente, a família observou que ele passara a adotar a rotina diária de sair com pilhas de discos debaixo do braço e voltar para a casa sem os mesmos. Indagado, ele alegava que emprestava-os aos amigos, mas a sua vasta coleção diminuía a olho nu e somados aos outros sinais, claro que finalmente a família caiu na realidade e viu que o filho estava a vender os seus discos importados a “preço de banana”, como se diz popularmente, para poder saldar dívidas contraídas com traficantes de drogas que ele recorria no seu bairro. 
 
Veio a seguir uma fase com internações e consultas a psicólogos, mas o estrago maior já fora efetuado e o inevitável ocorreu.
 
Eu demorei meses para saber, até que perguntei para um amigo que o conhecia igualmente, sobre o seu paradeiro, pois estranhei a sua ausência, visto que ele passava em minha casa ao menos duas vezes por semana para oferecer-me discos da sua coleção e a cobrar preços reduzidos ao extremo por tais álbuns.
 
Pois é, vencido pelos excessos, “Qua-Qua” entrou para a estatística dos freaks que perderam a vida, vinculados ao vício contraído pelo uso e abuso das drogas pesadas. 
Ao pensar bem, creio que efeitos químicos nocivos das drogas à parte, o que realmente ceifou a vida do “Qua-Qua”, foi a sua falsa compreensão da contracultura e dessa forma, ele foi vítima de sua própria ingenuidade, pois mergulhou sem critério e sem respaldo algum em uma aventura alucinógena, "sem eira nem beira", talvez a pensar que encontraria respostas ao adentrar um recinto extra-dimensional, acessado por uma possível porta da percepção que abrir-se-ia através das drogas, motivado que ficara por buscar a experiência do dito, “open mind”.
 
Mas o que ele encontrou na verdade, foi o oposto, ao abraçar a morte.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Autobiografia na Música - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 80 - Por Luiz Domingues

Quase véspera de natal e Os Kurandeiros ainda em atividade a coroar o ótimo ano em que 2017 revelara-se para a nossa banda, dada a profusão de apresentações a formatar uma agenda robusta e de certa forma a contrastar com a cena estagnada de uma forma geral observada naqueles dias. Portanto, fomos com alegria novamente ao palco do Santa Sede Rock Bar, para mais uma quinta-feira especial, desta feita em 21 de dezembro de 2017.
Os Kurandeiros em ação no Santa Sede Rock Bar de São Paulo, em 21 de dezembro de 2017. Clicks: Lara Pap

E para coroar a ótima temporada que realizamos nessa casa em novembro, com direito a dois shows extras em dezembro, o show do dia 21 de dezembro foi espetacular pelo quesito da "animação". Casa muito cheia e com momentos de euforia bem proeminentes, deu-nos assim a sensação boa da reverberação perfeita que provocamos e cujo eco veio forte da parte do público, isto é, aquela decantada "sinergia" que sempre gostamos de estabelecer e nem sempre acontece, mas desta feita, veio forte, eu posso garantir e guardo na memória essa feliz conjunção de fatores que levaram-nos a tal resultado.

O tradicional "Walk Solo" de Kim Kehl pelas dependências da casa. Foto 1: Kim Kehl a tocar com o guitarrista, Adilson Oliveira (Lee Recorda) e sua esposa sentada a gesticularem. Foto 2: A artista plástica e artesã, Pat Freire e Kim Kehl, além de estranhos nas imediações. Foto 3: Da esquerda para a direita: Rogério Utrila (radialista e produtor musical), Sandra Marque (produtora musical), Gigi Jardim (produtora musical), Kim Kehl e mais afastados, Jani Santana Morales (produtora musical) e Adilson Oliveira (guitarrista e radialista. Os Kurandeiros no Santa Sede Rock Bar de São Paulo, em 21 de dezembro de 2017. Clicks: Lara Pap

Prestigiado por muitos amigos, foi também o show de natal Rocker que veio a calhar para uma confraternização tão especial.

Uma boa nova, ainda nessa semana, Kim Kehl comunicara à banda que estava a trabalhar em uma nova compilação, desta feita a selecionar tracks ao vivo de diversos shows e assim, abriu-se a perspectiva concreta para o lançamento de um álbum ao estilo "bootleg", a conter material ao vivo oriundo de várias ocasiões e não necessariamente a ter grande apuro no áudio. 

Pois no espírito de disco pirata, o que importa é a energia da banda, a se tornar facilmente um item colecionável e importante para todo fã. Portanto, ficara para o começo de 2018, tal novidade alvissareira.

O Power-Trio base d'Os Kurandeiros em ação no show de 21 de dezembro de 2017, no Santa Sede Rock Bar de São Paulo. Click, acervo e cortesia de Rogério Utrila
 
Mas o ano ainda teria um último compromisso e que realizar-se-ia em um simpático espaço noturno onde apresentáramo-nos anteriormente por três vezes, nesse ano de 2017, que findara-se. O Tchê Café...

E assim, fechamos o ano de 2017 com um show no Tchê Café, simpática casa administrada por gaúchos radicados em São Paulo, próximo ao aeroporto de Congonhas. 

Clima de fim de ano, com a cidade vazia a ostentar uma facilidade incomum para a locomoção, foi fácil ao extremo para eu chegar ao endereço em questão, quando em outras ocasiões, normalmente geraria um certo cansaço pelo trânsito pesado em avenidas como a Rubem Berta e Washington Luiz.

A banda em ação no palco do Tchê Café. Os Kurandeiros no Tchê Café de São Paulo, em 30 de dezembro de 2017. Foto: Lara Pap

Fizemos o soundcheck com tranquilidade e logo a seguir, nós iniciamos a apresentação. No entanto, assim que começamos a primeira entrada, o Kim sofreu com o amplificador ali disponibilizado, que apresentou problemas, mas após efetuarmos uma troca, com um outro aparelho e desta feita em ordem, foi incrível, mas o som no palco e via PA ficou bem encorpado e a preservar os timbres com bastante qualidade, portanto, tal fator técnico aliado ao fato de que a casa lotou e mediante um tipo de público animado que interagiu bastante conosco o tempo todo, empolgamo-nos e fizemos um show bastante inspirado.

Outra foto da banda sob panorâmica geral. Os Kurandeiros no Tchê Café de São Paulo, em 30 de dezembro de 2017. Foto: Lara Pap

Tivemos as presenças ilustres de Fulvio Siciliano e do também guitarrista, Vander Bourbon, a prestigiar-nos, além do vocalista Alexandre Ruger, este que ao ser reconhecidamente um especialista em Rolling Stones/Mick Jagger, atuava há anos em bandas tributos dos Stones (naquela atualidade em ação com a banda cover/tributo, "Rockinstones"), e ele subiu ao palco para cantar conosco, duas canções dos Glimmer Twins: "Honk Tonk Women" e "Jumpin' Jack Flash", com uma atuação vocal e sobretudo pelo mise-en-scène, muito parecida com a performance do Mick Jagger, a demonstrar que realmente esmerava-se em suas apresentações regulares, em bandas Tributo aos Rolling Stones. 

Mais que isso, Kim Kehl relatou-nos que Ruger era um músico com profunda formação erudita, por haver estudado composição e regência na Universidade e por ter nascido em meio a uma família com muitos músicos ligados à música erudita, daí a sua sólida formação musical. Além de tudo isso, ele era um multi-instrumentista brilhante, portanto, mais um desses talentos incríveis que o Brasil não valoriza em detrimento de fomentar uma horrenda ode à subcultura e anticultura de massa no patamar mainstream. Acostumamo-nos a conviver com tal realidade atroz, mas um dia essa inversão de valores há de cair. 

A banda a posar na parte externa da casa, minutos antes de dar início ao espetáculo. Os Kurandeiros no Tchê Café de São Paulo, em 30 de dezembro de 2017. Foto: Lara Pap

Foi uma noitada memorável pela euforia gerada e certamente coroou a última apresentação d'Os Kurandeiros em 2017, a poucas horas do encerramento desse ano e a anunciar o novo ano, 2018, que teria tudo para manter a boa fase em que a nossa banda se encointrava.

Como se não bastasse tudo isso, ainda tivemos o requinte de executar a releitura de uma canção do "Mixto Quente", banda pregressa da carreira do Kim, chamada: "Desprevenida".

"Desprevenida" (Mixto Quente), ao vivo no Tchê Café de São Paulo, em 30 de dezembro de 2017.

Eis o Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=41PFEl02-QA 

Os Kurandeiros no Tchê Café de São Paulo, em 30 de dezembro de 2017, com cerca de cinquenta pessoas presentes na casa. E assim, encerrou-se o ano de 2017 e cabe uma análise sobre tal período, que revelou-se tão fértil na carreira de nossa banda. 

Bem, o ano de 2017 mostrou-se muito produtivo para a nossa banda, não só pela agenda promissora que arregimentou quarenta e dois shows ao longo do ano, o que foi um expressivo resultado ao levar-se em conta a nossa condição como artista a militar no patamar underground da música. 

Sem medo de cometer exagero algum, esse número foi tão extraordinário, que não tenho dúvida que ultrapassou a marca de muito artista de médio porte, com infraestrutura muito maior do que a nossa, portanto, foi extraordinário ter tido uma agenda tão boa, em meio a uma crise cultural a se mostrar crônica que assolava o Brasil como um todo e com o dramático reflexo no âmbito do show business/área musical e cultural em geral e a amplificar-se ainda mais ao se considerar que especificamente, o funil cruel estreitava o nosso nicho de maneira a sermos tratados como outsiders dentro do minúsculo universo do Rock underground. 

Portanto, ser Rocker e atuante no panorama da avassaladora crise cultural em meio a uma política de difusão completamente dominada pelos artífices da anticultura, representara uma morte lenta por inanição para qualquer artista, mas ante tal resultado, Os Kurandeiros tiveram que comemorar e muito, por termos tocado ao vivo, tantas vezes, a alcançar uma média impressionante em contraste com as dificuldades imensas que desenharam-se à nossa frente.

Mas não foi só pela construção de uma agenda histórica que deveríamos comemorar o ano de 2017. O fato de termos conseguido lançar mais dois álbuns, a se tratar de um CD com inéditas a apresentar formações anteriores ("Sete Anos") e o outro a se mostrar como uma coletânea a mesclar material antigo e/ou engavetado e inéditas/ao vivo de nossa formação, incluso ("O Baú dos Kurandeiros"), também foi um ato heroico, a seguir a mesma linha de raciocínio anterior, ou seja, ante a crise geral, a derrocada da indústria fonográfica, a dispersão completa do público pela pulverização fútil proposta pela internet e principalmente pela massacrante formação de opinião a favor da anticultura etc. 

E ainda tivemos o convite a participar de uma coletânea coletiva produzida por terceiros, outra boa nova, via: "Quem Sabe Faz Autoral/Volume 2". 

No campo do merchandising, graças ao dinamismo da produtora Lara Pap e com o total apoio incisivo de Kim Kehl, também foi um ano promissor, com muitos lançamentos a movimentar bastante não só o caixa da banda, como a produzir fatos novos em ritmo constante, portanto a agregar enquanto notícias geradas e bem comentadas pelas redes sociais da Internet.

Em suma, foi um ano muito bom para Os Kurandeiros e fora tudo isso que eu arrolei para ser comemorado, já abriu por conseguinte uma perspectiva alvissareira para 2018 poder ser igual, quiçá melhor, e assim o desejávamos, certamente. 

E a reforçar tal conceito com um dado concreto, ao final de 2017, houveram os esforços empreendidos da parte do Kim Kehl, ao produzir um novo álbum a ser lançado no início de 2018, a conter material gravado ao vivo pela nossa formação e com acréscimos de material mais antigo, a apresentar também gravações perpetradas por formações anteriores. 

Sendo assim, em 2017, levamos ao pé da letra a máxima proferida em 2016, quando a banda bradou aos quatro ventos: Seja Feliz! 

Pois não só cumprimos tal profecia e passamos a revirar o Baú dos Kurandeiros com bastante vigor, mas também fomos tocar muitas vezes pelos palcos da Grande São Paulo, em 2017, ou seja, como dizia o Sérgio Sampaio: "botamos o nosso bloco na rua"...

Que viesse 2018, com mais um ano de labuta & realizações para Os Kurandeiros!  

Continua...