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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Meu Amor Culto e Profundo - Por Marcelino Rodriguez

No tempo que as pessoas ainda tinham algum senso de sagrado, as tragédias sentimentais eram menores. Hoje em dia, na era da descartabilidade, temos que tomar cuidado para não sermos deletados. Nos tornamos todos muito solitários e frágeis, porque o amor parece ter abandonado a humanidade. Na verdade, a capacidade de amar, que já não era muita coisa no passado, hoje, tá quase extinta. 
 
Jesus Cristo foi parar na cruz, Gandhi e outros ganharam balaços e martírios por acreditarem no amor. Com as mentes mecanizadas pela web, nos tornamos em geral apenas uma imagem e as pessoas não querem ter trabalho de cultivar relacionamentos que aparentemente dão algum tipo de trabalho. 
A web nos promete milhões de sorrisos "colgates" com apenas um click. Os amores de hoje são profundos como plástico de bolhas. 
Já aconteceu comigo acordar numa manhã, em dúvidas se devia mandar flores ou não para minha amada virtual e um presente que ia pelo correio logo pela manhã, um belo livro de cabala explicando o que era a luz, afinal sou um cara esperto e sábio, quase um erudito em comparação com o país analfabeto, quando ela já tinha antecipado que eu tinha páginas demais no Facebook e era um indeciso que não sabia o que queria. Além do mais, implicou com minhas ex namoradas e fotos antigas do meu perfil dizendo que eu tinha um Harém.
Quando eu percebi, estava deletado do Facebook dela como seu eu fosse um mosquito da dengue. Virei homem de apenas uma noite. Olhando meu perfil, sem a foto dela, me sentia um idiota e não sabia o que fazer nem com minha flor, nem com meu amor e muito menos com meu livro de cabala. Ela descobriu," virtualmente", que eu era um Don Juan, um inconstante de quinta categoria. 
E me deletou, sumariamente, sem direito de defesa. 
Meu amor culto e profundo chorou feio.

Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica falando de dor, perplexidade ante o ser humano com seu caráter volátil e incompreensão, fundamentalmente.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Para Viver um Grande Amor - Por Marcelino Rodriguez

As pessoas em geral , quase todas, sonham em viver um grande amor. Dia desses, um amigo meu solteirão que já andou quebrando a cara, disse-me com ar melancólico que gostaria de estar casado. Na primeira tentativa ele viu que sua amada falava, quando zangada, muitos nomes feios, como se fosse o Teodoro do bar.

Não fomos feito no projeto original para solidão. Adão se queixou no paraíso, suspirando, e Deus criou a mulher. O mundo de hoje, porém, anda perigosamente subvertendo a ordem natural das coisas e isso tem causado muita frustração em ambos os sexos ortodoxos e mesmo nos novos sexos modernos que estão surgindo.
A internet também criou o fenômeno dos cérebros e seres sem profundidade. Temos que ter cuidado com isso. Para viver um grande amor é preciso ir além dos cliks e das curtidas. Para viver um grande amor é preciso viajar para o coração do outro. Ai é que começa a ruir o castelo dos amantes modernos. Eles só querem receber do outro lado da tela, da linha, da ponte, da cidade, do país. Os amantes modernos são consumistas. Falta-lhes a grandeza literária e poética do ideal. O amor verdadeiro, que vai além mesmo do instinto, tem a ver com dar, não com receber.

As mulheres querem ser amadas, mas não se preocupam mais em agradar os homens. Existem até aquelas que nem pintam as unhas, o que é uma aberração. Já vi amigos meus em Copacabana chorando por seus travestis ultra-femininos.

Os homens estão perdidos. As mulheres de mercado não conhecem a grandeza do amor nos seus prejuízos e renúncias. São programadas para o falso sucesso das vitrines e slogans.

Os intelectuais ficam esperando encontrar a amada que dirá que seu poeta preferido é esse ou aquele, ou então que a amada aprendeu domar sua mente e sabe aplicar um reiki ou uma massagem. Ou que fale razoavelmente dois idiomas.
 
Uma mulher que não saiba cozinhar é um homem. O amor, acreditem, está acima da mediocridade. Quem não for capaz de matar ou morrer por amor, demita-se da pretensão de viver uma grande e verdadeira história. Não é coisa para covardes e acomodados. Viver um grande amor é coisa para quem tem um coração valente.

Para viver um grande amor é preciso estar comprometido com a vida do ser amado. O amor não é um acústico. Trata-se de coisa épica.


Marcelino Rodriguez é colunista sazonal do Blog Luiz Domingues 2. Escritor de vasta e consagrada obra, aqui nos traz uma crônica sobre um assunto que mexe profundamente com as pessoas, mas o foco nem sempre é o mais adequado para se lidar com a problemática...

Ilustração final: Carl Moroder