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sábado, 17 de abril de 2021

Crônicas da Autobiografia - Estigmas Alheios & Preconceito - Por Luiz Domingues

  Aconteceu no tempo da minha sala de aulas, por volta de 1992...

É fato cabal que nós vivemos em uma sociedade regida por paradigmas de toda ordem, que se enraízam e são perpetuados ad nauseam, até que alguém lute (e muito aliás), para quebrá-los e assim se estabeleça algum tipo de avanço para se mudar a mentalidade generalizada e dessa forma, trate por melhorar o panorama sociopolítico e cultural na civilização humana. 

Matérias como antropologia, psicologia, sociologia e filosofia, entre outros estudos e especialidades, servem para estudar tais mudanças comportamentais e a apontar-nos novos caminhos mais avançados, mas o fato é que os estigmas demoram para serem superados.

Eu nem quero entrar nesse mérito, mas é público e notório o quanto os preconceitos arraigados causam sofrimento de toda a monta e no caso, a imagem do Rocker sempre entrou nesse mesmo rol de estigmatizações padronizadas. 

E não importam as inúmeras graduações e até antagonismos entre as mais diversas tribos surgidas nesse bojo ao longo de muitas décadas, pois no imaginário popular, o Rocker, seja lá de que vertente ou época for representante, é sempre considerado um pária ante os olhos das ditas pessoas ''normais", regidas pelos usos & costumes de uma sociedade absolutamente padronizada e preconceituosa em diversos aspectos.

Posto isso, eu recordo-me que enquanto ministrei aulas de música entre 1987 e 1999, eu tive um relacionamento maravilhoso com muitos pais de alunos adolescentes com os quais eu lidei e em alguns casos, forjei até amizade com alguns desses progenitores de meus pupilos. 

No entanto, eu sempre esperei reações de cautela como um modus operandi, principalmente da parte de pais de alunos recém-ingressos no meu curso e diga-se de passagem, como algo absolutamente natural, visto que como pai, eu não deixaria um filho meu frequentar a residência de um professor, sem certificar-me da idoneidade de tal profissional, obviamente. 

Por sorte, em meio a um universo com mais de duzentos alunos que eu tive ao longo dos anos em que mantive tal atividade, nunca observei problemas com essa questão de natural desconfiança natural da parte dos pais de alunos e pelo contrário, só colecionei boas lembranças por conta desse relacionamento amistoso, cordial e muitas vezes a se transformar em amizade de fato. 

Porém, houveram dois casos que foram amenos e não me aborreceram de forma alguma. Um deles, eu já relatei dentro da autobiografia oficial (disponível no capítulo "Sala de Aulas", nos meus Blogs 2 e 3 e também na versão do livro impresso: "Quatro Décadas de Rock"), a dar conta de um pai, por volta de 1990, que fez questão de acompanhar a sua filha em sua primeira aula para me conhecer e tudo bem, foi uma investigação velada, porém cordial na forma de uma visita social em minha residência.

A outra ocorrência foi menos invasiva, mas curiosa por conta da questão do preconceito que a envolveu. Pois eis que um então novo aluno, recém-ingresso em algum momento de 1992 e já depois de estar bem ambientado na minha sala de aulas, contou-me que o seu pai lhe indagara, logo quando ele iniciou os seus estudos comigo: -"qual é a desse tal de Luiz?"

Bem naquele espírito de um pai que estabelece uma comunicação direta com o filho e veja bem, eu acho esse tipo de abordagem bem salutar na relação entre pai & filho, o progenitor do meu aluno, avançou na especulação e quis saber que tipo de drogas eu, Luiz, usava costumeiramente, se bebia, tomava ácido ou até mesmo heroína pela via da introdução venosa (-"ele injeta nos canos?"), e se eu exibia muitas tatuagens no meu corpo.

As respostas negativas da parte do meu aluno ao seu pai, a dar conta que eu, Luiz, não mantinha tatuagens no meu corpo, não usava nenhum tipo de droga ilícita e nem mesmo lícita, ao colocar-me como abstêmio e não tabagista, foram comprovadas a posteriori por esse preocupado pai e não haveria como ser de outra maneira.

E o engraçado nessa história, foi que o senhor em questão ostentava tatuagens grafadas em seus braços e pernas e mantinha um histórico de alcoolismo com gravidade, além de ser um tabagista inveterado. 

Portanto, não me queixo dele, que inclusive foi sempre gentil comigo a posteriori, enquanto o seu filho estudou comigo, visto que eu achei legítima a sua preocupação inicial de querer me investigar e ter a segurança de que eu não seria uma dita "má companhia" para o seu filho adolescente.

A minha estupefação foi institucional na realidade, pois mais uma vez o estigma do Rocker drogado se fez presente. Nesse âmbito, se o sujeito toca em uma banda de Rock e não corta os seus cabelos como uma "pessoa de bem", só pode ser um vagal errante à margem dos bons costumes regidos pela sociedade e certamente a se colocar como um contumaz usuário de drogas, não é mesmo?

quarta-feira, 3 de março de 2021

Crônicas da Autobiografia - A Deselegância como Modus Operandi - Por Luiz Domingues

                 Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol em 1982

Os primeiros ensaios d'A Chave do Sol ocorreram de fato no palco do Café Teatro Deixa Falar, conforme eu já narrei no texto do meu livro autobiográfico. Ali, por conta do espaço ter sido uma propriedade da mãe da noiva do Rubens Gióia na ocasião, obviamente que se abriu oportunidade para tal. 

No entanto, eu também detinha a simpatia da velha senhora, Dona Sabine, pois me apresentara ali naquele palco algumas vezes com o "Terra no Asfalto", a minha ex-banda cover e sobretudo por ter participado recentemente (ocorreu em julho de 1982 e esta história está contada com detalhes no texto do meu livro autobiográfico), de uma apresentação super improvisada com dois músicos argentinos (Rudi e Nacho Smilari), que eram componentes da banda argentina, "Jamaica Band" e lembro-me bem, foi um pedido especial que ela me fez e sobretudo pelo fato de eu atendido prontamente tal situação, fez com que ela aumentasse a simpatia de sua parte para com a minha pessoa.

Enfim, eis que através de um dia de ensaio marcado para A Chave do Sol, no histórico palco do Deixa Falar, que outrora vivera o glamour da sua encarnação anterior como "Be Bop A Lula", eu cheguei primeiro e enquanto preparava o meu baixo e amplificador para participar do ensaio, notei que entrou no ambiente um músico muito famoso e que inclusive eu admirava bastante por conta da sua atuação como baixista de uma grande banda de Rock formada ao final dos anos setenta e que fora uma das poucas que avançaram pela década de oitenta, incólume aos modismos, ao manter uma identidade Rocker tradicionalista e por conta disso, eu a admirava ainda mais por esse sinal de resistência.

Dona Sabine apresentou-me formalmente para esse artista e ele, nitidamente se colocou de uma forma antipática, a tratar-me com um grau de desdém explícito, a denotar que se considerava muito superior pelo seu status adquirido, em contraposição à minha condição ali a representar um reles aspirante a artista, desconhecido, e a preparar-me para ensaiar com uma banda em uma tímida fase de construção, longe de alcançar a proeminência que ele já possuía em sua carreira, há tempos. 

Ora, isso não me incomodou, pois eu sabia exatamente o baixo degrau que eu ocupava na minha iniciante escalada e a ostentar por conseguinte uma modestíssima posição no meio artístico. E também a respeito da envergadura artística de sua parte e na minha avaliação ali na hora, achei deselegante, mas não me ofendi com a empáfia da parte dele.

Entretanto, o rapaz não se contentou em exalar o seu complexo de superioridade apenas com bravatas e a fazer pose de "Super Star" e aí sim, ele exagerou na dose de sua arrogância ao cometer um ato de deselegância bem maior. 

Eis que subitamente ele passou a elogiar o meu baixo e pediu para tocá-lo um pouco, quando teceu algumas observações sobre ele e eu, de uma forma incauta, abaixei a guarda indevidamente ao sorrir para demonstrar a minha satisfação em poder ter sido gentil com um artista que eu de fato admirava. 

Foi quando ele tocou um pouco e afastou o instrumento do seu corpo para poder pegar a carteira que carregava em sua jaqueta. Sem me falar nada, ele simplesmente abriu a carteira e apanhou um pedaço de papel, leu o que estava ali anotado e virou o corpo do meu baixo para olhar a placa de identificação e assim conferir acintosamente a sua numeração de fábrica. 

Bem, eu comprara esse baixo nos Estados Unidos e quem me trouxe efetivamente foi o guitarrista do "Terra no Asfalto", Aru Junior, que o achou em uma loja de uma cidade do interior de Connecticut, e assim, ele estava sob a minha posse, há um ano naquela ocasião. 

Portanto, não havia a menor possibilidade do baixo que esse artista citado, perdera ou fora roubado, fosse o meu. Eu não lhe disse nada, no entanto, apenas peguei o meu baixo de novo e logo os meus companheiros d'A Chave do Sol chegaram para participar do nosso ensaio e ele anunciou a sua partida do ambiente.

No entanto, achei aquela atitude tão descortês de sua parte, que aí sim, deixei de admirá-lo doravante. Ainda acho que ele tocava muito bem e teve o seu valor assegurado por esse mérito artístico conquistado, mas fica por aí o grau de consideração que sobrou de minha parte sobre tal artista e que aliás, já não está mais entre nós, portanto, preservarei a sua identidade por respeito à sua partida deste mundo.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Crônicas da Autobiografia - Questionário Compulsório - Por Luiz Domingues

              Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol em 1982...

Entre os Rockers, é comum a presença de pessoas que se apresentam como grandes conhecedoras desse extenso universo, a manter uma visão enciclopédica sobre o assunto. Houve época em que essa característica se provou notória para dez a cada dez donos de lojas de discos especializadas e haja vista que esse fator foi preponderante para a formação da dita: "Galeria do Rock", em São Paulo, local que em seu auge chegou a conter quase duzentas lojas a operarem no mesmo centro comercial, em plena avenida São João, no centro velho da capital paulista. 

Bem, trata-se de uma capacidade de armazenamento de dados impressionante a denotar o bom conhecimento de causa, memória prodigiosa e sobretudo, amor ao Rock, portanto, qualidades admiráveis da parte desses Rockers.

Mas nem todo "expert" no assunto, usa o seu conhecimento vasto com o bom propósito para difundir o Rock, formar novas gerações de adeptos ou trabalhar como um potencial arquivista a preservar a memória do gênero, pois ao contrário, tais pessoas dotadas de intenções escusas, mais usam a sua bagagem cultural avantajada para o exibicionismo e assim proceder para alimentar a soberba, infelizmente. 

Bem, isso não acontece somente com Rockers, se é que possa servir como consolo, pois, é um fenômeno generalizado em qualquer meio, aliás, não é preciso nem divagar muito, basta ver o comportamento padrão de certas categorias profissionais bastante corporativistas e que por conseguinte se colocam como uma espécie de casta superior dentro da sociedade e também no meio acadêmico onde o excesso de erudição de certos "scholars", geram alguns transtornos bem visíveis.

Então, o caso que eu cito nesta crônica, não caracterizou o primeiro e tampouco foi o último com o qual eu tive contato direto. Isso sempre ocorreu, acontece e arrisco dizer, se repetirá mais vezes no futuro, pois eu não vejo perspectiva de que não se repita.

Eis que bem no começo das atividades d'A Chave do Sol e exatamente no show de estreia da nossa segunda vocalista, Verônica Luhr, nós tocamos como atração musical convidada para entreter a plateia de um festival estudantil, enquanto o corpo de jurados se reunia para deliberar as notas das bandas que ali concorreram. Tal acontecimento deu-se no auditório do Colégio Manuel de Paiva, situado no bairro do Campo Belo, na zona sul de São Paulo.

Foto d'A Chave do Sol de 1983, nas a exibir a formação d'A Chave do Sol que vinha desde 1982, época em que esta crônica trata. Click de Seizi Ogawa

Bem, nós fizemos o show com excelente desenvoltura e receptividade da parte do público que ali compareceu e ficamos muito felizes pelo desempenho da Verônica Luhr, que já em sua primeira atuação conosco, mostrou-se exuberante. Tanto foi assim, que o assédio no camarim foi forte e muito nos animou, visto que aquele fora apenas o nosso quinto show na carreira iniciante de nossa banda. 

Todavia, alegria a parte, eis que um rapaz entrou no camarim para nos cumprimentar, mas logo a seguir ele adotou uma posição desagradável, ao nos questionar com bastante ironia, sobre uma questão que levantou, e que na prática, se mostrara irrelevante dentro do contexto da nossa apresentação. 

O fato, foi que nesse início de atividades da nossa banda, nós fomos a compor o nosso material com a banda já a atuar ao vivo, portanto, nas primeiras apresentações que fizemos, tivemos poucas músicas autorais para executarmos e dessa forma, preenchíamos espaço com a inclusão de releituras de clássicos do Rock internacional em predominância e alguns nacionais, também. 

Pois foi nesse exato detalhe que o rapaz se apegou para nos afrontar com um tipo de abordagem que não foi exatamente agressiva e desrespeitosa, mas certamente se mostrou desagradável pela sua intenção velada. 

Aconteceu que nós havíamos tocado a música: "Cocaine" (também apelidada informalmente como: "She Don't Lie", uma ironia que faz parte da letra da canção), cuja autoria é do grande astro norte-americano do Folk-Rock, J.J. Cale, mas no imaginário popular, tal canção seria do guitarrista, Eric Clapton que a regravara. 

Cabe dizer que J.J. Cale a lançara em seu LP "Trombadour" de 1976, e Eric Clapton a regravou em 1977, ou seja, logo a seguir, através do seu disco, "Slowhand". Clapton a gravara por ser um grande fã do trabalho de J.J. Cale, portanto não foi à toa, visto que em 1970, já havia gravado uma outra canção do mesmo autor, "After Midnight", em seu primeiro LP solo, homônimo. 

Então, com síndrome de "expert", esse rapaz ficou a ironizar-nos por termos tocado a canção, "Cocaine", sem sabermos quem seria o seu real autor, ao nos julgar incautos que pensavam ser a autoria de Eric Clapton. 

Ora, estávamos felizes naquele camarim, a atendermos as pessoas que gentilmente ali nos procuraram para cumprimentar e elogiar a nossa apresentação e esse rapaz ali ficara a insistir com brincadeiras sem graça, a nos impor ironia gratuita e a contestar se teríamos ou não a real noção sobre essa questão e pior ainda, a colocar em cheque a nossa banda, pois segundo a sua lógica, se nós não soubéssemos desse pormenor, ele insinuara que não teríamos condições de pleitear notoriedade na carreira, ou seja, questionara o nosso valor como artistas, acaso fôssemos ignorantes em tal quesito, como ele deduzira.

Ora, para ter noção do campo cultural que estávamos a atuar e com pretensões artísticas bem delineadas, realmente denotaria a necessidade de se contar com uma noção geral sobre tal espectro, isso eu concordo, mas daí a depender de se ter certeza sobre uma informação tão específica, como se fosse uma pergunta capciosa contida em uma prova do vestibular a decidir se entraríamos na Universidade do Rock para merecermos pleitear um diploma de tal cátedra, realmente caracterizou um enorme exagero de sua parte e pior, a revelar a sua real intenção de nos humilhar para se impor como alguém que realmente conhecia mais do que nós sobre o ramo.

Todavia, que bom que nenhum componente da nossa banda, incluso eu mesmo, se deixou levar pela armadilha que o rapaz quis lançar sobre nós, portanto, não houve um grande aborrecimento que estragasse a nossa noite, que fora ótima. 

Essa história apenas marcou pelo fato extra de ter surgido mais um "sabichão" a querer se exibir e pior, a querer nos diminuir por conta de uma disputa de conhecimento forjada por ele próprio, com o claro intuito de buscar se alimentar da sua própria empáfia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Crônicas da Autobiografia - Soft-Rock na Hora do Pesadelo de uma Sexta-Feira 13 - Por Luiz Domingues

                       Aconteceu no tempo do Pedra, em 2007

Nos anos setenta e oitenta, para uma banda independente aparecer em um programa de popular da TV aberta, não era exatamente uma tarefa impossível. Eu mesmo posso comemorar o fato de que tive inúmeras oportunidades nesse sentido, como membro de bandas pelas quais eu atuei, casos do Língua de Trapo, A Chave do Sol e The Key e mesmo nos anos noventa, com maiores restrições, oportunidades interessantes surgiram para a minha banda nessa década, o Pitbulls on Crack, ainda que mais restritas aos espectro da MTV, mas por outro lado, pode-se afirmar sobre tal emissora, que se revelou como uma estação dentro do campo da TV aberta e convenhamos, canal esse a desfrutar de um certo modismo à época. 

Depois disso, as portas cerraram-se de vez e no avançar dos anos 2000 em diante, através de outras bandas pelas quais eu toquei, como: Patrulha do Espaço, Pedra, Kim Kehl & Os Kurandeiros e Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada, todas elas ficaram todas relegadas ao mais completo obscurantismo em termos televisivos, a se apresentarem quase que exclusivamente em programas a operarem no limbo subterrâneo de emissoras irrelevantes de canais obscuros da TV a cabo, a se tratarem geralmente de emissoras comunitárias compulsórias que as operadoras eram obrigadas a manter nas suas respectivas grades, a guisa de serem supostamente agentes de prestação de serviço público. Ou nas iniciantes TV's de Internet, no caso do final dos anos noventa/início dos dois mil.

Mesmo ao se considerar que A Patrulha do Espaço fora uma banda com história grandiosa, e no caso do Ciro Pessoa, individualmente ele também mantinha o seu prestígio artístico por ter sido um ex-membro dos Titãs e de Kim Kehl & Os Kurandeiros, por também manter uma longa trajetória na cena.

No caso do Pedra, tratava-se diferentemente de uma banda que começara a sua a trajetória da estaca zero e há pouco tempo. Havia o apelo em torno de pelo menos três de seus componentes contarem com uma trajetória individual bastante respeitável em termos de currículo, visto que apenas o Ivan Scartezini, o nosso baterista, apresentava uma trajetória um pouco mais nova na música, mas mesmo assim, para todos os efeitos, éramos uma banda nova no mercado. 

Então, ao contar com o panorama difícil de metade de primeira década do novo século e sobretudo pelo espaço fechado para artistas independentes, sequer com abertura na emissora outrora interessada em música, a MTV, nós participamos de programas nesses moldes e foram poucos na verdade.

Um deles, ocorreu em um curioso programa produzido por pessoas abnegadas, músicos e agitadores culturais apaixonados pelo que faziam, chamado: "Sleevers", exibido pela "TV Alterna" e sob a condução de Fabio Macarrão. 

E assim, o Pedra foi convidado por esse programa e lá fomos nós em uma noite de maio de 2007, filmarmos a nossa participação que seria com duas músicas capturadas ao vivo em um estúdio ("Tonelada", localizado no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo), e a contar com mais um bloco de entrevista, ou seja, algo muito positivo.

Mas a despeito da extrema boa vontade e hospitalidade de seu produtor e apresentador, além dos membros da sua equipe, houve ali de forma implícita uma característica com a qual não contávamos. 

O fato, foi que essa rapaziada era mais entusiasta das correntes pesadas do Heavy-Metal e por conseguinte, a proposta do programa foi montada no sentido de reproduzir uma atmosfera de filme de terror, na linha mais moderna desse gênero cinematográfico, em torno das películas com histórias sobre psicopatas sádicos que torturam e matam pessoas a esmo, sem maiores explicações etc. e tal. 

Então, quando fomos gravar a nossa participação, esses rapazes entraram no estúdio para cumprirem a função de cinegrafistas a usarem macacões de cor laranja e máscaras macabras, dentro desse espírito e a movimentarem-se entre nós para filmar de uma maneira frenética, a estabelecer uma atmosfera perturbadora. 

Claro que eu achei bastante divertida e criativa tal linha de atuação, embora na realidade, fosse algo absolutamente antagônico à estética da nossa banda. De fato, fazia mais sentido com bandas sedimentadas na estética do Heavy-Metal e de preferência as mais radicais, do dito Metal extremo ou mesmo orientadas pelo Punk-Rock. 

E certamente se tratava do tipo de sonoridade que esses rapazes gostavam (inclusive eles formavam uma banda a atuar com esse espectro) e praticamente só filmavam outras bandas desse mesmo mundo correlato.

Bem, foi bem curiosa a nossa presença ali a tocar: "Sou Mais Feliz", por força de ser o nosso maior sucesso na ocasião, mas a tratar-se de uma canção no estilo Soft-Rock com alto teor Pop, portanto a destoar bastante da linha do programa, mas foi divertido, não posso negar.

Tocamos também, a música: "Se agora eu Pulo Fora", teoricamente um tema mais pesado para o nosso consenso interno, mas que na prática, deve haver soado como uma pluma para aqueles rapazes, entusiastas do Heavy-Metal. 

A minha lembrança de um dos personagens a dançar dentro do ritmo da canção, com uma máscara de porco, a trajar paletó, gravata, cueca por cima da calça e a distribuir notas falsas de dólares a satirizar o capitalismo, foi a mais divertida do que as dos monstrengos representados pelos demais, em minha avaliação. 

E ainda introduzimos ao final da nossa performance um trecho da música: "The Mule" do Deep Purple, para tornar tudo ainda mais bizarro dentro daquela ambientação. 

Gravamos essa participação na noite de 29 de maio, porém, o programa foi ao ar em 15 de junho de 2007. E assim, mesmo ao nos sentirmos como estranhos no ninho, eis que participamos desse bizarro programa.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Crônicas da Autobiografia - Brinquedo Novo que Fascina - Por Luiz Domingues

          Aconteceu no tempo de um Trabalho Avulso, em 1979

Em início de carreira, qualquer músico sofre os arroubos oriundos da sua pequena vivência no meio. É um tipo de fenômeno verificado não apenas nesse meio, mas que na verdade, trata-se de um conceito generalizado e que vale para qualquer ramo de atividade. 

No caso, a falar sobre a nossa profissão, é comum que músicos inexperientes fiquem inebriados por conta do uso de equipamentos e instrumentos e que ao não saber dosar o seu entusiasmo por um eventual novo artefato que lhes seja disponibilizado. E foi exatamente o que ocorreu comigo e com o baterista que estava envolvido nesse mesmo trabalho.

Corria o ano de 1979, e a minha primeira banda, o Boca do Céu, havia encerrado a sua atividade em abril. A partir de junho do mesmo ano, iniciara-se o embrião remoto do que viria a se tornar o "Língua de Trapo" e no decorrer do segundo semestre, ainda de uma forma bem tímida, esse embrião deu os seus primeiros passos.

Nesse cenário de oportunidades tímidas, foi em outubro que eu recebi o convite para participar de uma atividade paralela e que se constituiu do meu primeiro trabalho extra, fora das minhas bandas autorais, ao fazer parte da banda de apoio do ator/diretor de teatro/cantor/compositor e pianista, Tato Fischer. 

Eu fora convidado pelo meu amigo, Cido Trindade, que já atuava como baterista dessa banda e que o conhecera em 1978, por ocasião de uma montagem teatral/musical produzida pelo Tato Fischer e cuja banda que dera suporte ao vivo nas encenações, foi liderada pelo próprio, Tato, que também tocava piano ao vivo e dirigia o espetáculo. 

Bem, convite aceito de minha parte, eu ensaiei e passei a ser componente dessa banda de apoio do Tato Fischer, já a participar de um show realizado na cidade de Cubatão-SP e a seguir, nós cumprimos uma temporada encenada em dois teatros, Martins Penna e Paulo Eiró, ambos pertencentes à Prefeitura de São Paulo. 

Pois foi em um dos show que fizemos no Teatro Paulo Eiró, que o primeiro arroubo aconteceu, desta feita perpetrado pelo meu amigo, o baterista, Cido Trindade. 

O fato, foi que ele chegou em determinado dia no teatro para o soundcheck vespertino e a carregar consigo uma novidade: um cowbell, que acabara de comprar e muito excitado por tal aquisição, rapidamente instalou a peça de percussão acoplado ao seu bumbo e o tocou com bastante ímpeto, durante todo o soundcheck. Inebriado, ele naturalmente abusou muito do uso, mas fora algo compreensível, na medida em que esteve encantado com a nova possibilidade sonora da qual dispunha.

Então, veio o show e ... bingo, o Cido se mostrou apaixonado pelo cowbell e em toda as músicas, tratou de usá-lo a tornar tal recurso que é lindo, se usado nos momentos certos, como algo enjoativo e não deu outra, o Tato reclamou no camarim no momento do pós-show e já a partir do dia seguinte, o Cido diminuiu drasticamente o seu uso. 

Eu deveria ter absorvido bem essa lição que o colega teve, mas ainda na mesma turnê com Tato Fischer, eu cometi o deslize igual, atraído pelo mesmo sentimento de uma criança que ganha um presente novo no dia de Natal.

Aconteceu em um show posterior da mesma turnê, realizado no interior de São Paulo, especificamente na cidade de Penápolis-SP, que foi provido tecnicamente pelo uso do equipamento integral de uma banda de bailes local. 

E os donos desse equipamento nos cederam tudo gentilmente: PA, backline, iluminação, kit de bateria com todas as peças e pratos, teclados vintage de alta categoria e até pedais de efeitos. 

Como não tínhamos um guitarrista na formação dessa banda base, atuávamos como um Power-Trio com baixo/bateria e teclados a la Emerson/Lake and Palmer, portanto, o nosso grande tecladista, Sérgio Henriques pegou os pedais que desejou para acoplar ao seu kit de teclados e eu fiquei tentado a usar alguns também no baixo. 

O detalhe contraditório dessa minha decisão, foi que eu nunca gostei de usar efeitos no baixo e de fato, depois dessa noite, nunca mais usei um pedal ligado ao meu baixo. Entretanto, nessa tarde, ali enquanto fazíamos o soundcheck e motivado pelo fato dos donos do equipamento terem sido tão gentis em nos prover tudo o que a sua banda de bailes possuía, eu sucumbi e liguei um pedal "Phase 90", no meu set, o clássico da marca, "MXR".

Muito bem, sem sentido prático para o baixo a grosso modo, a não ser por estabelecer um detalhe a ser usado com extrema parcimônia e em um momento específico de uma música, o fato é que eu sabia disso e nem gostava de efeitos no baixo, mesmo naquela época a deter pouca experiência na música que eu tinha, porém, mesmo assim eu me deixei levar e quando o show se iniciou, eu passei o espetáculo inteiro a ligar o pedal para realçar os trechos que elegia na hora para receber tal efeito e claro, portei-me na verdade como uma criança tola que faz uso de um brinquedo novo, assim que o retira do pacote, enquanto os seus pais e avós tecem comentários sobre o quanto ela está encantada com o artefato ao seu redor.

Em resumo, não fui admoestado pelo Tato como ele o fizera com o Cido por conta do uso excessivo do cowbell em um show anterior, mas exagerei da mesma forma ao cometer o excesso por conta da fartura de recursos que nos foi oferecida, ou seja, a se tratar de uma atitude bastante inconveniente da minha parte. 

O lado bom foi que eu aprendi na prática, algo que eu já sabia na teoria, ou seja: "menos é mais" e por extensão, adquiri mais um ensinamento: "em uma festa, coma moderadamente e não motivado pelo caráter gratuito da fartura ali colocada à mesa" e que na verdade fora algo que eu também já sabia em tese, mas que infelizmente eu cometi o desatino de não seguir à risca. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Crônicas da Autobiografia - Poucos, Porém Bons Fãs - Por Luiz Domingues

                 Aconteceu no tempo do Boca do Céu, em 1977

Entre 1977 e 1980, pelo menos, eu perdi as contas de quantos shows assisti do grupo: "Papa Poluição", uma banda de Rock híbrida, que mantinha uma forte dose de aproximação com a MPB, contudo, tal banda atuava bem naquela perspectiva setentista de uma MPB hippie a absorver tendências múltiplas da Folk-Music generalizada e profundamente comprometida com a contracultura sessentista. 

Mais que bem situada no espectro cultural, a banda era muito boa artisticamente e as suas composições se mostravam como bem inspiradas, com forte senso melódico e letras compostas mediante profundidade, bem construídas sob o ponto de vista poético e cheias de citações, a evocar signos múltiplos, da literatura de cordel aos Beatles. 

Formada por artistas nordestinos radicados em São Paulo (apenas um dos componentes era paulistano nato), tal grupo surgiu ali no início dos anos setenta e começou a despontar na cena do Rock underground na metade dessa década, mas infelizmente, não cresceu como deveria e dissolveu-se por volta de 1980. 

De sua formação, um dos componentes, José Luiz Penna, houvera sido ator na montagem brasileira da peça teatral, "Hair" em 1969 e ele mesmo, enveredou para a política nos anos oitenta em diante, quando chegou a ser presidente nacional do Partido Verde (PV). 

Além do mais, tal banda era parceira do compositor cearense, Belchior, portanto, algumas músicas que nós costumávamos ouvir em seus shows, ficaram famosas a posteriori na interpretação desse famoso artista, graças à sua maior projeção, fator que o Papa Poluição, a despeito do seu quilate artístico, nunca alcançou, infelizmente. 

Enfim, o fato é que nós que éramos aspirantes a artistas a labutarmos com o Boca do Céu, a nossa primeira banda e gostávamos muito do Papa Poluição, tanto que sempre que podíamos, íamos assistir os seus shows, em diversos teatros de São Paulo. 

O nosso guitarrista, Wilton Rentero, em visita que fez ao camarim do show d'Os Doces Bárbaros em 1976, com Gilberto Gil atrás de si. Click de Nelson Rodrigues Rentero. Acervo de Wilton Rentero

Eis que um dia de 1977, eu estava na companhia dos meus amigos e colegas de banda, Wilton Rentero (guitarrista) e Laert Sarrumor (vocalista e tecladista), em um ambiente absolutamente contrário à movimentação pela qual marcávamos presença (um malfadado Shopping Center), quando deparamo-nos com um dos componentes do grupo, Papa Poluição, a se tratar do guitarrista, Paulinho da Costa, e este a conduzir o seu filho pequeno, com cinco ou seis anos de idade, aproximadamente. 

Nessa foto promocional do Papa Poluição, o guitarrista, Paulinho da Costa é o rapaz que segura o exemplar de um jornal 

Com um visual incrível a la Hippie chic que ele usava em seu cotidiano e não apenas como figurino de palco, logo ele chamou a nossa atenção, naturalmente e claro que não perdemos a oportunidade para abordá-lo e mesmo sendo adolescentes sem um grande poder de discernimento à época, foi uma abordagem bastante educada de nossa parte, apenas para repercutir o quanto gostávamos da banda, a envolver o seu trabalho e luta. 

Curioso, o guitarrista do Papa Poluição, Paulinho da Costa, se mostrou muito surpreendido por ter sido reconhecido por nós, seus fãs, e na época, nós não entendemos corretamente tal reação da parte dele. 

No entanto, muitos anos se passaram e a responder por eu mesmo (não sei se o Wilton e o Laert tem essa percepção exatamente igual a minha, nos dias atuais, respondo por mim neste instante), mas eu penso hoje em dia que Paulinho deve ter tido a real percepção sobre o alcance popular que o Papa Poluição detinha e dessa forma, surpreendeu-se, sim, com o nosso assédio. 

Reação normal, eu compreendo que guardasse consigo a baixa expectativa a respeito da popularidade da banda, ou seja, que pena por tal sentimento de resignação, devo acrescentar, pois como eu já disse, a banda era muito boa, a despeito de não haver angariado um maior apelo midiático, como certamente o mereceu. 

Bem, a despeito dessa estupefação de sua parte, a denotar até um certo constrangimento por ter sido flagrado em um momento familiar a passear com o seu filhinho, ele rapidamente desfez essa estranheza inicial, ao nos tratar de uma forma muito cortês e ao final do colóquio, ficou feliz por saber que nós acompanhávamos com vívido interesse o seu trabalho e mais do que isso, ao tomar conhecimento que apreciávamos muito a sua obra. 

Claro que ajudou e muito a quebrar o gelo, o fato de que o Laert teve em mãos alguns exemplares da sua revista artesanal, o grande, "Sarrumorjovem" e mediante a sua apresentação ao Paulinho, este apreciou o teor da publicação, certamente, e por notar que éramos músicos iniciantes e entusiasmados pela nossa banda, assunto que colocamos à baila, igualmente.

Com o tempo, eu também aprendi que manter uma carreira no patamar underground denota contar com as suas muitas particularidades e entre os muitos aspectos negativos, existem também os pontos positivos e entre eles, a questão de se valorizar cada fã do trabalho. 

Mesmo que sejam poucos e que representem sempre os mesmos rostos que você identifica na plateia dos seus shows e até que se chegue ao ponto de você os tratar pelos seus nomes, o que realmente importa é que esses poucos, são muito bons e sinceros, pois estarão sempre contigo. 

Talvez o Paulinho da Costa tenha tido esse sentimento enquanto conversou conosco nesse dia 4 de junho de 1977 (O Laert Sarrumor anotou o acontecimento e passou-me a informação precisa em 2020), quando o abordamos em um corredor do Shopping Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. 

Tomara que sim, pois o nosso apreço ao "Papa Poluição" era muito grande e de minha parte, digo que ainda o é, e sempre será, pois trata-se de uma obra memorável, perpetrada por uma banda muito boa, que eu guardarei com carinho na memória, para sempre.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Crônicas da Autobiografia - Não Bastava "Entender" de Música - Por Luiz Domingues

Aconteceu em 1990, quando eu estava sem atuar em uma banda autoral, mas a realizar diversos trabalhos avulsos

Ainda em 1989, eu já havia escutado muitos boatos a respeito da criação de uma filial da MTV no Brasil. O grupo Abril Cultural tentara obter a sua concessão de TV nos anos oitenta, mas não passara de uma experimento tal ação, quando montara uma programação de sua responsabilidade mediante um espaço alugado da TV Gazeta de São Paulo, para iniciar os seus trabalhos, enquanto a permissão para ter o seu canal próprio, não saia nos gabinetes de Brasília. Mas isso nunca ocorreu e logo a dita, "TV Abril", deixou o espaço da TV Gazeta. 

Mas isso não significou que desistira da ideia, pois ao final dos anos oitenta, não como TV Abril, mas a dar vazão a outro nicho de atuação, eis que a mesma empresa abriu a franquia brasileira da MTV, a famosa "Music Television", um canal exclusivamente dedicado à música, e com o foco na música Pop em geral, com abertura para diversas vertentes do Rock. 

A novidade gerou alvoroço no meio, principalmente no patamar abaixo, o dito underground da música profissional, onde eu habitava e sei bem que o sentimento que eu e todos os colegas que militávamos nesse subterrâneo da música, nutrimos em termos de esperanças para que um canal exclusivo para a difusão musical, no sentido de que este novo canal poderia não estar comprometido com os interesses escusos que regiam as resoluções tomadas pelos canais abertos e o seu odiável "apartheid" em relação aos artistas independentes, o nosso caso. 

E logo surgiu a nova de que o canal ocuparia como instalação física para os seus estúdios e maquinário para prover o seu aparato técnico, o antigo prédio da extinta Rede Tupi de Televisão, na Avenida Alfonso Bovero, localizado no charmoso bairro do Sumaré, na zona oeste de São Paulo.

Incrível, aquele prédio detinha história, por ter sido o primeiro canal de TV do Brasil a produzir tantos programas, jornalismo e inúmeras novelas que ali foram produzidas a partir de 1950, portanto, um resgate desses, após quarenta anos, haveria de fornecer sorte ao jovem canal musical. 

Já em 1990, por volta de fevereiro ou março, eu recebi o telefonema de um amigo de longa data, que havia tomado conhecimento de que uma seleção houvera sido anunciada pela produção da Abril Cultural a fim de recrutar pessoal para trabalhar na emissora que estava a ser formatada. 

Haveriam vagas para todo o pessoal técnico, redação e claro, os apresentadores do canal, que seriam chamados como: "VJ's", para cooptar a ideia antiga a cerca dos "DJ's", das emissoras de rádio. 

O meu amigo ficara eufórico, pois recebera a informação de que privilegiariam pessoas que tivessem bom conhecimento do mundo da música, não sendo necessário ser jornalista ou ter curso universitário de rádio & TV, para pleitear uma vaga. 

Então, ele exortou-me a ir com ele nessa seleção, que fora marcada para ocorrer em uma famosa casa de espetáculos situada na zona oeste de São Paulo (Aeroanta, localizada no Largo da Batata, no bairro de Pinheiros), em um dia de semana no período da tarde. 

Eu ainda argumentei que não desejava participar dessa seleção, pois a despeito de naquela época estar a viver um breve hiato sem estar inserido em uma banda de carreira, o meu objetivo seria prosseguir na luta, mas ele logo contra-argumentou a dizer-me que isso em nada atrapalharia a minha carreira e pelo contrário, se eu fosse aprovado, muito pelo contrário, eu deveria associar tal fato como uma grande oportunidade para abrir portas e conhecer contatos dos patamares mais altos da esfera musical, ou seja, a facilitar a minha carreira, em qualquer outra banda pela qual eu fosse atuar, doravante. Certo, um argumento sensato.

Então, ele mesmo prontificou-se a datilografar (sim, a maioria das pessoas ainda não acessavam computadores, nessa época) e assim, preparou o meu currículo e se a ideia fosse assim tão simples, a denotar valorizar-se uma história na música e "entender" minimamente desse universo, o meu histórico ficara bem razoável. 

Eu tocava desde 1976, passara por bandas com projeção, gravara discos e participara bastante de programas de TV e rádio, ou seja, acumulara uma significativa bagagem pessoal.

E sobre conhecimentos musicais, é óbvio que eu não era nem um expert, tampouco musicólogo catedrático, mas ao acompanhar o Rock com foco (e outras vertentes, igualmente), desde 1968, pelo menos, a minha vivência não era nada desprezível, convenhamos.

Então, em uma tarde quente de verão de 1990, eu e o meu bom amigo, Carlos Muniz Ventura, fotógrafo de algumas capas de disco que eu gravei, fomos ao apontamento. 

Entretanto, assim que aproximamo-nos da entrada do Aeroanta, eis que toda a nossa inocente expectativa gerada em torno de música, propriamente dita, demoliu-se por completo, ao verificarmos que a gigantesca fila formada na porta de tal estabelecimento, estava composta por modelos, meninas muito bonitas em predominância, com "photobook" debaixo do braço e todas, extremamente produzidas, exatamente prontas para um teste de câmera, para compor elenco. 

Foi quando sob um arroubo de consciência, eu e o Carlão travamos um rápido diálogo a dar conta que não haveria nenhum cabimento em postarmo-nos naquela fila, pois o critério para a seleção seria pautado pela beleza física dos postulantes, desenvoltura diante de uma câmera e talvez a dicção e capacidade para pronunciar palavras em idiomas estrangeiros, notadamente o inglês. 

Eu nada tenho a reclamar sobre tais critérios, é bom fazer a ressalva, mas definitivamente, "entender de música" seria o quesito menos importante ali e então, demos meia volta e abandonamos resolutamente a nossa equivocada pretensão. 

Saber quem foi Ray Davies ou Peter Hammill, ou mesmo citar a discografia do Traffic, seria irrelevante para sensibilizar um recrutador, certamente. 

Antes de encerrar esta crônica, preciso estabelecer uma ressalva: a despeito da maioria dos VJ's e redatores que passaram por tal emissora, certamente não entenderem patavina de música, houveram exceções honrosas e no primeiro time de profissionais que assumiu, em 1990, eu tive ali três amigos que foram (são) muito bem preparados e bem-intencionados, sem dúvida alguma: Gastão Moreira, Fábio Massari e Luiz "Thunderbird". 

Além de pessoal da parte técnica, onde também houveram pessoas muito gabaritadas, tais como Eduardo Xocante e César Cardoso. Mas a imensa maioria que ali trabalhou, fora contratada pelos critérios que animaram aquelas meninas bonitas que ficaram horas na fila do Aeroanta, com o seu Book de modelo em mãos...