terça-feira, 25 de julho de 2017

Autobiografia na Música / Atualizações - Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 54 - Por Luiz Domingues

Produção do disco em estúdio encerrada, no tocante à parte visual / gráfica, seguiu-se o mesmo padrão de extrema praticidade, com uma capa sóbria, porém bela, ostentando um vistoso logotipo em tons avermelhados, criada pelo grande ilustrador / desenhista e design gráfico, Johnny Adriani. Tal artista já havia feito essa ilustração, tempos antes, portanto o Kim só resgatou uma arte que já dispunha e estava arquivada, aguardando oportunidade em ser aproveitada. E a hora de utilizá-la chegou enfim, e posso afirmar sem dúvida alguma que encaixou-se como uma luva ao espírito desse novo álbum dos Kurandeiros. Eu já havia tido trabalhos meus ilustrados pelo Johnny Adriani, antes, inclusive capa de disco, no caso o CD "Chronophagia", da Patrulha do Espaço, lançado no ano 2000. E agora mais uma vez teria o prazer de ter uma bela obra assinada por esse incrível ilustrador. 



Sobre a contracapa, uma foto da banda ao vivo, capturada em maio de 2016, na Feira da Vila Pompeia, mostra a formação com o Power Trio base reforçado por seus membros honorários, Nelson Ferraresso; Renata "Tata" Martinelli e Phil Rendeiro. Veio a calhar, pois todos, com exceção do Phil, participaram da gravação do disco. 

EP Seja Feliz - Os Kurandeiros
Gravado no Estúdio Curumim / São Paulo - SP / 24 canais / Gravação Digital - entre julho e agosto de 2016
Técnico de Som e Produtor de estúdio : Fernando Ceah
Mixado e masterizado no estúdio Foka / São Paulo - SP - entre setembro e outubro de 2016
Técnico de Mixagem; masterização e produção de estúdio : Carlos Perren
Capa : arte e criação : Johnny Adriani
Foto : Juja Kehl
Arte final de capa & contracapa : Kim Kehl
Assistência : Lara Pap
Produção geral : Kim Kehl

Faixas :
1) A Noite Inteira (Kim Kehl)
2) Faz Frio (Kim Kehl)
3) O Filho do Vodu (Kim Kehl)

Formação da banda nesse álbum :
Kim Kehl : Guitarra, Voz e Violões
Carlinhos Machado : Bateria
Luiz Domingues : Baixo
Nelson Ferraresso : Teclados
Renata "Tata" Martinelli : Voz

Músicos convidados :
Marcos Soledade "Pepito" : Percussão nas três faixas
Carlos Perren : Trompa em "Faz Frio"

"A Noite Inteira" (Kim Kehl)

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=P0R6P6KAuqo

Essa música, conforme já citei anteriormente, tem uma junção de estilos setentistas do Rock, bem marcantes. Trata-se de uma feliz transição entre o Blues Rock, com certa identidade Hard-Rock, porém com muito do Glitter Rock britânico daquela década. Começa com um riff clássico de Rock'n Roll, que lembra bastante o trabalho de bandas como o "Humble Pie", fortemente influenciada pelo Blues. Mas o elemento Glitter logo pronuncia-se, com diversos signos, entre os quais o uso e abuso de backing vocals fazendo o clássico "Uh Uh", que faz com que a sonoridade fique absolutamente festiva, ao sabor de bandas dessa escola "Glam", como "T.Rex"; "Mott the Hoople"; "Silverhead" e "Glitter Band", entre outras. Gosto muito da voz da Renata "Tata" Martinelli, que canta com uma voz rasgada, tanto na voz solo, quanto em contra vozes, onde impressiona pela afinação e alcance agudo. Suas intervenções lembram-me a Silvinha, que cantava muito, por sinal.

O solo de guitarra do Kim é melódico e lembra muito o som do Mick Ronson, tanto nas resoluções, quanto no timbre. Nelson toca piano, pontuando com intervenções bem Rock'n Roll e tem também um órgão Hammond sedimentando uma base sutil, com uso de caixa Leslie, sempre bem vinda. A bateria toca reta, como nos discos do "Status Quo", e eu gosto dessa firmeza na condução e dos timbres, incluso o bumbo grave e a quase completa ausência de reverber nela, o que é uma dádiva na minha percepção. Gosto do som abafado, ao estilo do áudio dos anos setenta. A percussão do Marcos Soledade "Pepito" é bastante criativa, com o uso de diversos instrumentos ao longo da canção, mas predominando o som das congas na parte final, conferindo-lhe um balanço incrível. Mas dá para ouvir pandeirola; guiro; cowbell e timbales. Todavia, tudo muito bem distribuído, com critério e bom gosto.

Sobre o baixo, usei Fender Precision e ele soa mais comedido que o normal. Não é o registro mais agressivo, com estalo metálico que eu mais uso, mas ele ronca em alguns trechos da canção, não resta dúvida.

A respeito da opção do Kim Kehl gravar o vocal solo em duo com a Tata, creio que a explicação é simples. O fato dela não estar em todos os shows, talvez condenasse a canção ao engavetamento, com execuções sazonais, só quando ela participasse das apresentações dos Kurandeiros, mas com a voz do Kim registrada igualmente, a canção é peça permanente do repertório dos shows desde o seu lançamento e posso atestar, faz sucesso.

E finalmente sobre a letra, trata-se de uma opção festiva. Pode não ter pretensões intelectuais, mas cumpre seu papel ao encaixar-se como uma luva na sonoridade da canção. A temática é simples, falando de aproveitar-se o embalo de uma festa etc e tal. Nada diferente do que todo mundo que escute os Rolling Stones ou Faces cantando em inglês em suas canções e aprove o seu teor, ao não entender a língua estrangeira, falemos objetivamente...

"Faz Frio"  (Kim Kehl)


Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=sc4r0cQZHXU

Essa canção é uma balada clássica, com forte identidade sessentista em sua essência, lembrando muito o estilo pop e sofisticado de Burt Bacharach, mas ao longo dos arranjos que foram incorporando-se dos diversos instrumentistas convidados, ganhou outras nuances, igualmente instigantes a meu ver, e enriqueceu-se sobremaneira.
A inclusão da trompa, um instrumento de sopro sinfônico e não muito usual em gravações de música pop em geral, reforçou a ideia da influência de Burt Bacharach. Muito mais comum, se fosse uma canção do Burt, teria sido a inclusão de trompete, um tipo de instrumento de sopro muito usado nas suas canções da década de 1960, mas a simples inclusão da trompa fazendo uma linha melódica doce, cumpriu a mesma função e deu esse ar sofisticado, como se a canção fosse trilha de um filme daquela década. É ouvir esse começo e imaginar Audrey Hepburn com uma xícara de chá esfumaçante, olhando pela janela de seu apartamento em Queens, lá em Nova York, olhando a rua sob nevasca e pessoas super agasalhadas andando apressadas pela calçada. Mas quando o Nelson Ferraresso colocou seus teclados, novas influências trouxeram um colorido diferente à canção. Com seu piano Fender Rhodes super criativo, a música parece uma balada dos Rolling Stones, daquelas tantas, uma mais linda que a outra, dos discos da banda nos anos setenta. O espírito de Billy Preston baixou no estúdio Curumim, graças a uma intervenção direta dos Deuses do Rock e o Nelsinho foi muito feliz em dar vazão a tanta inspiração e criatividade. Fora o piano Fender Rhodes que ficou lindo, tem intervenções de órgão Hammond e strings ultra setentistas, lembrando trilhas de seriados policiais de TV, daquela década. Desta vez é o Kojak que espia da janela da sua delegacia, olhando para o bairro do Bronx, e enquanto degusta seu pirulito, pensa em como surpreender os bandidos nas ruas. Mais uma vez, o Carlinhos Machado brindou-nos com uma bateria sóbria, segura e com belos timbres. O nosso convidado, Marcos Soledade "Pepito" trouxe uma percussão contínua, com uso de caxixis mantendo ritmo e usando pontuais intervenções em carrilhão, produzindo efeitos. Simples, mas bonito.

Gosto muito da base de violão riscado que o Kim manteve, com timbre agudo, muito belo. E as intervenções de guitarra são excelentes, incluso o solo, onde o uso de caixa Leslie, ficou um primor, ultra setentista e extremamente doce. E na parte da voz, gosto também da melodia e da interpretação do Kim, fazendo menção a estar sentindo frio, de fato, trazendo fidedignidade à proposta da temática da letra. Esta por sinal, com forte teor romântico, mas saindo ilesa do verdadeiro tobogã que é para qualquer letrista, em não escorregar na pieguice. Kim passou com louvor nesse perigoso e escorregadio quesito.

Sobre o baixo, usei Fender Jazz Bass, certamente um baixo muito adequado para tocar-se qualquer canção que tenha conexão com a Black Music em geral. Em se tratando de uma balada com sabor R'n'B sessentista em seu âmago, nada melhor portanto que evocar os mestres James Jamerson e Donald "Duck" Dunn... e viva a Motown !!

"O Filho do Vodu" (Kim Kehl)

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=gAkLHthBIiM

Aqui, trata-se de uma canção fortemente comprometida com as mais profundas raízes do Blues-Rock, mas com a carga lisérgica direta do período conhecido como o mais louco da história do Rock, o dito "Late Sixties" / "Early Seventies", traduzida em puro Acid-Rock. É Jimi Hendrix ressuscitado em meio a um ritual vodu com a invocação de zumbis creoles, diretamente de um pântano do Mississipi.

Sobre a gravação em si, claro que o carro chefe é a usina de riffs oriundos da guitarra do Kim e todo mundo vai atrás, conferindo um sustentáculo de peso mastodôntico e por isso mesmo, agradabilissimo. Impressionante o peso e a incidência de registros de frequências graves na bateria de Carlinhos Machado. Com um som "gordo" de bumbo e tambores a moda antiga, sua bateria é um autêntico azougue, soando-me muitíssimo bem. Os teclados do Nelson impressionam também pela massa que ele concebeu. Com órgão Hammond distorcido e percutido ao estilo do grande Jon Lord, realmente confere um peso incrível à canção. Tem strings estridentes em alguns trechos também, e intervenções pontuais de pianos, muito bonitas ainda que bem sutis. O Marcos Soledade "Pepito" "pilotou" congas com muito môlho, lembrando muito algumas canções do LP "Eletric Ladyland" do Jimi Hendrix. Gostei muito de tal acréscimo. E claro, toda a parte de guitarras é muito boa, mesclado timbrões gordos de Gibson Les Paul, com a acidez aguda da Fender Stratocaster, com direito a alavancadas; ruideiras & loucura a vontade, porque "aqui é sixties, bicho"...

Sobre a proposta da letra, a explicação do Kim quando mostrou-nos a canção, foi tão convincente que tirou a possibilidade de qualquer contra argumentação em contrário. Ora, você leitor, se gosta de Blues-Rock, Southern Rock; Acid Rock & afins, tem ideia de quantas músicas clássicas desses gêneros tem esse mesmo teor na temática ? A começar por "Voodoo Child", do Jimi Hendrix,  e passando por incontáveis similares, realmente, digamos que é ideia recorrente, no bom sentido do termo. Sobre sua interpretação, acho-a bem condizente com a proposta e as intervenções com risadas "macabras", tem tudo a ver com o clima de fantasmagoria francófana, ao estilo New Orleans. 

Sobre o baixo, não tinha como fugir da escolha do Fender Precision e evocar o espírito Hendrixiano de Noel Redding e Billy Cox, mas confesso, tem algumas escapadas fora da curva do rio, e o Gary Thain aparece vez por outra... sobre o timbre, ele mostra-se um pouco mais abafado do que geralmente gosto de timbra-lo, mas está com peso e ronca nas entrelinhas.

Encerrando sobre o álbum, creio que o resultado geral do áudio é muito bom, com capa bonita e o fato de ser uma produção simples em termos gerais, em nada atrapalhou seu resultado artístico e pelo contrário, acho que é um mérito a mais, visto que com poucos recursos, tenho a consciência de que fizemos muito, como produto de qualidade, bem acabado. E claro, sinto muito prazer e orgulho em ter esse disco como um registro de minha atuação nessa banda, e espero que seja o primeiro de muitos.


Os Kurandeiros no estúdio Curumim, com o produtor, Fernando Ceah. Julho de 2016. Foto : Lara Pap

Continua...  

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