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domingo, 7 de maio de 2023

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Caio Durazzo Trio) - Capítulo 122 - "Uma tarde de 2023, com sensação de 1957" - Por Luiz Domingues

Foi em meados de fevereiro de 2023, que eu recebi um recado do excelente guitarrista, Caio Durazzo, a me formular um convite para que eu participasse de uma apresentação do seu ótimo grupo de Rock'n' Roll/Rockabilly, "Caio Durazzo Trio" em um evento a ser realizado em abril do mesmo ano. Na ocasião, ele me dissera que a sua banda estaria desfalcada de seus dois companheiros fixos da formação por algum problema de agenda conflitante dos rapazes e que convocara a "cozinha" d'Os Kurandeiros, ou seja, eu (Luiz Domingues) e Carlinhos Machado para suprir a ausência de seus colegas e assim cumprir o compromisso.

Na mesma ocasião desse recado que eu recebera, inclusive, encontrei-me por coincidência com o Carlinhos Machado nos bastidores de um show do Língua de Trapo no Sesc Belenzinho de São Paulo e comentei com ele que tocaríamos juntos com o Caio, brevemente. Um mês depois, durante a ocasião de um ensaio d'Os Kurandeiros, o Carlinhos avisou-me que o Caio sinalizara que o baterista titular da sua banda, Rick Vecchione, tocaria normalmente e assim, somente eu seria o convidado especial desse aventado compromisso.

Dada a constatação de que o repertório escolhido seria formado por uma série de Rocks, Country-Rocks e Rockabillys de origem cinquentista, mediante harmonia simples, a dita "quadrada" em torno dos três acordes no padrão do Rock primordial, o Caio resolveu cancelar o ensaio previamente marcado e assim, só me passou a lista e a respectiva seleção de canções anotadas em uma "playlist" por ele elaborada para que eu a ouvisse durante a semana que precedeu o show.

O meu set de baixo pronto para ser usado na Cervejaria Madalena de Santo André-SP, a favor do "Caio Durazzo Trio" durante o evento "Retro Wheel's/Carburator Day". 2 de abril de 2023. Click e acervo: Luiz Domingues

Muito bem, fui confiante para a casa de espetáculos, "Cervejaria Madalena" de Santo André-SP, baseado na certeza de que apesar da falta de ensaio, não teria problema de tocar o longo repertório, mesmo por que, teria total respaldo do Caio e do Rick para me guiar no palco em algum momento de dúvida sobre algum arranjo das canções escolhidas.

Fui o primeiro a chegar e fiquei impressionado positivamente com o fato de que a instalação da casa se mostrara muito grande. De fato, como sugerira o cartaz do evento, se tratou de uma ambientação em torno dos aficionados de motos, principalmente as antigas, com caráter "retrô" ou "vintage" como queira o leitor e além do mais, fora a grande quantidade de pessoas devidamente paramentadas a sinalizar o seu comprometimento com escuderias de moto-clubes & afins, impressionou-me também a quantidade grande de fãs da cultura cinquentista, homens e mulheres inclusive vestidos à moda dos anos cinquenta, a denotar ser um público cultuador de Rockabilly, sobretudo. Em suma, como diz uma letra de uma canção autoral do Caio Durazzo (e que inclusive nós tocamos nesse dia), "estou me sentindo em 1957".

Um casal com nítida predileção cinquentista acentuada, dança embalado pelos nossos Rocks clássicos direto dessa década primordial da história do estilo musical que defendemos. "Caio Durazzo Trio" durante o evento "Retro Wheel's/Carburator Day". 2 de abril de 2023. Click, acervo e cortesia: Kadu Castro

E sob um forte calor, tocamos aquela seleção proposta pelo Caio Durazzo e de fato, devo confessar que me diverti muito ao interpretar um repertório tão raiz do Rock, algo inclusive inédito na minha carreira, pois eu já havia tocado clássicos cinquentistas muitas vezes em diversos momentos anteriores e com bandas e circunstâncias diferentes, mas jamais havia participado de uma apresentação temática desse porte a tocar exclusivamente um repertório tão centrado nessa década em específico.

A banda em ação. "Caio Durazzo Trio" durante o evento "Retro Wheel's/Carburator Day". 2 de abril de 2023. Click, acervo e cortesia: Kadu Castro 

Outro ponto interessante dessa experiência, deu-se ao se constatar que nem só de clássicos genuinamente oriundos de astros cinquentistas nós tocamos, pois eu notei que algumas canções eram de artistas mais "modernos", dos anos oitenta em diante e que tinham ou tem essa característica como mote de suas respectivas obras, o que foi interessante.

A receptividade do bom público presente foi ótima, muito além do que eu esperava, aliás, no sentido de que eu dimensionei inicialmente que as pessoas ali presentes estariam mais interessadas em motos do que prestar atenção em uma banda e nesse sentido a se considerar o fato de que tenderiam a tratar a banda como uma atração de "lounge" e não como o centro das atenções da festa. Claro que muita gente agiu dessa forma e de fato, o ambiente era enorme e induzia as pessoas à dispersão. No entanto, fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que se aglomerou para nos assistir a tocar de perto e que não se furtou de prestar atenção, se divertir, dançar e aplaudir a apresentação.

A banda em ação. "Caio Durazzo Trio" durante o evento "Retro Wheel's/Carburator Day". 2 de abril de 2023. Click, acervo e cortesia: Kadu Castro

O calor se mostrou muito forte. Da primeira para a segunda entrada, eu me senti cansado e desidratado, apesar de ter bebido bastante água. Não que tal fato tenha me surpreendido, pois eu sei que a idade já estava a pesar nos meus ombros nessa altura da carreira e vida, e isso fora uma constatação paulatina e não súbita a grosso modo. 

Todavia, tirante o efeito do calor e o fato de estar com uma agenda mais fraca em relação aos anos anteriores e com isso sem o devido traquejo natural para suportar a regularidade de apresentações constantes, eu sabia que o efeito da idade a avançar chegara como uma nova realidade para a minha carreira e dessa forma, eu precisava aprender a dosar a energia do palco, para não ficar sem forças em cima de qualquer palco. 

Bem, sentei-me no intervalo em um local mais arejado, bebi mais água ainda e na segunda entrada, me movimentei com maior precaução, a driblar o instinto juvenil de vibrar naturalmente com o Rock, mas a preservar o sexagenário que eu já era nessa ocasião, a caminhar rápido para a idade septuagenária naquele instante.

Mais um flagrante do espetáculo. "Caio Durazzo Trio" durante o evento "Retro Wheel's/Carburator Day". 2 de abril de 2023. Click, acervo e cortesia: Kadu Castro

Tudo foi perfeito nessa apresentação, inclusive no tocante ao equipamento que usamos, bastante comedido em termos de potência sonora na teoria, mas que na prática, supriu de uma forma muito surpreendente e agradável a demanda. Tocamos confortavelmente e sem forçar o equipamento, apesar do ambiente ser enorme e a dispersão do som, ter sido inevitável.     

Só houve uma ocorrência desastrosa e que se revelou como um acidente. Ainda na primeira entrada e empolgado com tantos Rocks vibrantes e com reposta ótima do público, eis que eu fiz um movimento de "mise-en-scène" cuja resolução foi com o braço do instrumento apontado para baixo e por azar, uma mulher que estava bem perto do palco foi atingida no seu rosto pelo "headstock" do meu baixo. Bem, não foi por minha culpa, claro que eu não a atingi de propósito, e nem dela em tese, embora neste momento ela tenha sido um pouco imprudente ao colocar o seu copo de cerveja sobre o palco e estar ali naquele momento a apanhá-lo para beber. 

Assim que o choque ocorreu, eu vi que ela sentiu o impacto e se contrariou bastante, logicamente. Ainda a tocar, fiz contato visual com ela para lhe pedir desculpas e perguntar se havia se machucado com maior seriedade, mas ele evitou fitar-me, talvez constrangida ou com raiva da situação em si, acredito. Ninguém mais percebeu o acidente e logo a avistei a se divertir novamente, inclusive a dançar na frente do palco, portanto, deduzi que não se ferira com gravidade e que já esquecera do ocorrido.

Da esquerda para a direita: Caio Durazzo, Rick Vecchione e eu (Luiz Domingues). "Caio Durazzo Trio" durante o evento "Retro Wheel's/Carburator Day". 2 de abril de 2023. Click (selfie), acervo e cortesia: Caio Durazzo

Encerrada a apresentação, eu estava bem cansado, contudo, menos debilitado do que ao término da primeira parte da apresentação, ou seja, acho que entendi o recado da natureza e ao economizar o dispêndio da energia, me preservei melhor. Ficou o recado do meu próprio corpo para estabelecer a postura a ser usada doravante, certamente.

Sobre o convívio e atuação com Caio e Rick, foi algo magnífico. Além de me ajudarem o tempo todo com sinalizações sobre o arranjo das músicas, foi um prazer enorme tocar com ambos. Eu já havia tocado com o Caio por sete ou oito vezes a bordo do grupo "Uncle & Friends", a defender o trabalho do nosso amigo em comum, Lincoln Baraccat, e em uma dessas ocasiões inclusive, com o Rick Vecchione na bateria. Portanto não foi uma novidade atuar com ambos, mas desta feita foi uma apresentação bem mais longa e recheada por clássicos cinquentistas, inclusive com algumas peças autorais do "Caio Durazzo Trio" que são centradas tematicamente nessa cultura da década de cinquenta. 

Foto da banda antes do show. Na ordem, da esquerda para a direita: Caio Durazzo, Rick Vecchione e eu (Luiz Domingues). "Caio Durazzo Trio" durante o evento "Retro Wheel's/Carburator Day". 2 de abril de 2023. Click (selfie) e acervo: Luiz Domingues

E assim foi essa minha boa experiência de tocar por mais de duas horas um repertório mergulhado na produção cinquentista e como diz uma das letras das músicas do Caio Durazzo Trio, algo como: "estar vendo as meninas dançarem para fazer a suas saias rodadas levantarem, os rapazes a balançar os longos topetes no afã de se parecerem com o Elvis Presley e os Cadillacs imensos e reluzentes a passar pelas ruas, como se estivéssemos em uma noite de sábado de 1957"...

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Uncle & Friends) - Capítulo 97 - Por Luiz Domingues

Em janeiro de 2019, nos bastidores de um show dos Kurandeiros, o guitarrista, Lincoln "The Uncle" Baraccat, esteve presente e comentou comigo que já estaria confirmada com a produção da famosa Feira de Artes da Vila Pompeia, a apresentação de seu combo, o simpático, "Uncle & Friends", para uma participação na edição de número 32, a ser realizada em 19 de maio. Ele perguntou-me se eu aceitaria participar e desta feita, a constituir-se em minha terceira participação com tal trabalho. Bem, respondi-lhe que sim, na medida em que se não surgisse nenhum compromisso com a minha banda. 

Luiz Domingues & Lincoln "The Uncle" Baraccat, nos bastidores de um show dos Kurandeiros, no Santa Sede Rock Bar de São Paulo, em 31 de janeiro de 2019, ocasião essa em que ele comunicou-me que já detinha uma nova data em vista para o seu "Uncle & Friends" e convidou-me a participar, desta feia a caracterizar-se como a minha terceira participação nesse trabalho entre amigos. Acervo e cortesia: Kim Kehl. Click: Lara Pap

Foi então que o "friend" disse-me que dificilmente haveria um conflito, pois de antemão ele sabia que Os Kurandeiros provavelmente seriam escalados para tocar igualmente no mesmo festival, ou no horário anterior ou posterior, no mesmo palco, graças a uma informação da qual já dispunha na ocasião, por conta de ser bem relacionado com a cúpula da organização de tal Feira anual. 

Dito isso, eu confirmei a minha participação e nessa altura, nós já sabíamos e lamentamos muito a notícia de que o excepcional baterista, Franklin Paolillo, havia recentemente tido um problema de saúde com bastante gravidade. Personalidade fantástica, além de ser um super músico, Franklin costumava participar com frequência dos shows dos Friends. Comentamos, naturalmente, que seria ótimo que ele recuperasse-se o quanto antes, para poder estar conosco em mais esta oportunidade. No entanto, à medida que o tempo pôs-se a passar, as notícias que recebemos sobre o restabelecimento do grande Franklin, não foram otimistas. A sua recuperação mostrava-se lenta, em decorrência da grave lesão que acometera-o e assim, tivemos que resignarmo-nos em compreender que não poderíamos contar com ele em tal apresentação marcada para o mês de maio.

Show dos Kurandeiros no Santa Sede Rock Bar de São Paulo, onde Lincoln "The Uncle" Baraccat foi o nosso convidado de honra e assim, inserido em nosso show, revivemos o "Uncle & Friends" mediante uma energia impressionante! 8 de março de 2019. Acervo e cortesia: Kim Kehl. Click: Lara Pap

Em 8 de março 2019, Lincoln "The Uncle" Baraccat, foi o nosso convidado de honra, em mais uma apresentação dos Kurandeiros e ali fizemos um bom revival do som de "Uncle & Friends", com os Kurandeiros, a dar o sustentáculo e apesar de ter sido um show de choque tão somente, inserido em meio ao show regular dos Kurandeiros, foi uma apresentação espetacular, a conter uma energia absurda e assim caracterizar que uma feliz química Rock'n' Roll ali estabelecida, foi responsável por uma combustão natural. 

Nesta altura, o Lincoln já mostrava-se resignado com a ausência forçada do grande, Franklin Paolillo e então, ele convidou o baterista dos Kurandeiros, Carlinhos Machado para participar e de antemão, comunicou-nos que também convidara outro baterista com ótimo nível para apresentar-se a caracterizar duas baterias em ação, no caso a tratar-se do ótimo, Rick Vecchione. 

Excelente ideia, portanto, com duas baterias, haveria de ser uma homenagem ao Franklin e uma boa maneira para enviarmos-lhe as melhores vibrações para que a sua recuperação, se acelerasse. Ao final de abril, eu recebi o material, via e-mail e basicamente haveria poucas mudanças no repertório. Também estava confirmada a presença dos excelentes guitarristas, Caio Durazzo e Roy Carlini, além da voz privilegiada de Amanda Semerjion, portanto, praticamente a mesma turma dos dois shows anteriores dos quais eu participara em 2018, em agosto e dezembro, curiosamente em outras feiras organizadas no mesmo bairro da Vila Pompeia, em São Paulo. 

Continua...

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Hid Trio) - Capítulo 89 - Por Luiz Domingues

O Hid Trio com a minha presença, Luiz Domingues, José Luiz Dinola e Rodrigo Hid, em ação. Sidharta, Pedra, A Chave do Sol e Patrulha do Espaço neste palco a interligar os três amigos ali a tocar. Hid Trio no Finnegans Pub de São Paulo, em 28 de abril de 2018. Click, acervo e cortesia de Priscilla Scardoa Hid
  
Eis que uma nova oportunidade para tocar sob total improviso com o Hid Trio, surgiu-me. E exatamente como ocorrera na apresentação em que participei, no início de janeiro de 2018, foi muito prazeroso tocar com meu velho amigo, Rodrigo Hid, parceiro de tantos trabalhos em conjunto e com um adendo sensacional, eu diria. 

Conforme relatado no capítulo anterior, naquela ocasião, ocorrida na casa noturna, "Kildare Irish Pub", fora um prazer tocar com Hid & Scartezini, meus velhos companheiros do Pedra. E desta feita, Scartezini não poderia participar, mas o convidado seria um outro grande amigo de longa data, pelo qual eu tenho grande apreço pela amizade construída, desde 1980, com intensificação total a partir de 1982, quando tornamo-nos de fato, fraternos e sócios no empreendimento artístico e negócio, chamado: "A Chave do Sol". Portanto, exatamente como fora um prazer tocar com Hid & Scaterzini, onde relembramos os bons tempos do "Pedra', nessa nova noite proporcionada pelo Hid Trio, eu reencontraria o grande: José Luiz Dinola!

José Luiz Dinola e Rodrigo Hid a conversar, em um intervalo da apresentação. Hid Trio no Finnegans Pub de São Paulo, em 28 de abril de 2018. Click: Luiz Domingues

Mais do que minha ligação fraternal e artística com Dinola e ante a nossa história construída em parceria com Rubens Gióia, Verônica Luhr, Chico Dias, Fran Alves e Beto Cruz, em torno d'A Chave do Sol, houve uma tríplice relação histórica ali, pois eu, Luiz, Hid & Dinola trabalhamos juntos no projeto, que na verdade fora revestido pelas nuvens psicodélicas  e reluzentes a espalhar cores, e que denominou-se: "Sidharta", ali entre o final de 1997 e o início de 1999. 

O Sidharta não foi para a estrada e nem deixou algum registro fonográfico oficial, mas o seu legado, foi levado adiante como a base Chronophágica da Patrulha do Espaço, renascida em 1999, portanto, fora devidamente honrado. 

Em suma, se em janeiro de 2018 nós misturamos: 3/4 de Pedra, 1/2 Patrulha do Espaço e 1/2 Sidharta, na receita do Hid Trio, e desta feita, o nosso confeito foi produzido por ingredientes diferentes, mas dentro da mesma árvore genealógica, com 2/3 (ou 2/4) d'A Chave do Sol, 3/4 de Sidharta, 1/2 Patrulha do Espaço e 1/2 Pedra. Portanto, a certeza de que com tais ingredientes, mesmo a improvisar completamente um repertório escolhido na hora e sem a presença de set list manuscrito para servir como orientação, daria tudo certo mesmo assim e o público receberia um produto saboroso. 

Dessa forma, com tal ótima perspectiva, desloquei-me até as dependências do "Finnegans Pub", localizado no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, na noite de 28 de abril de 2018.

Na mesma configuração da foto anterior. Hid Trio no Finnegans Pub de São Paulo, em 28 de abril de 2018. Click: Luiz Domingues

De fato, tocamos três entradas muito boas a destilar Rocks, Blues, R'n'B, e Soul Music, para agradar o público jovem ali presente e divertirmo-nos muito. Fora isso, o prazer de tocar com os meus amigos e poder conversar animadamente com ambos nos intervalos, foi imenso. Relembramos várias passagens que tivemos em comum através das bandas pelas quais atuamos no passado, inclusive os três, no Sidharta, e assim rimos muito e a noite valeu muito a pena.

As esposas de Hid e Dinola, respectivamente: Priscila Scardoa Hid (esquerda) e Carla Lemos (direita). Trio no Finnegans Pub de São Paulo, em 28 de abril de 2018. Click: Luiz Domingues

Cabe registrar a simpática presença das esposas de Hid & Dinola, das quais também também sou amigo. Priscila Scardoa Hid e Carla Lemos interagiram bastante na prazerosa conversação travada aos intervalos. 

E para não dizer que não houve mais nenhum registro extra, devo relatar que algo engraçado ocorreu-nos nessa noite. Um grupo formado por jovens com feições orientais, pareceu estar a divertir-se muito com o nosso som. Riam, aplaudiam e dançavam, a demonstrar alegria e até uma certa euforia pela vibração que gerávamos ali no pequeno espaço do Finnegans Pub. 

Então, assim que encerramos a primeira entrada, um dos rapazes, aproximou-se e a expressar-se com um português bem razoável, embora com forte sotaque, disse-me ser chinês, como os demais, rapazes e moças ali presentes em sua turma e que estavam a gostar. Até aí, tudo bem, foi uma abordagem simpática, respeitosa etc. e tal. Mas aí, no decorrer da segunda entrada, o rapaz passou a gritar entre uma música e outra para tocarmos a música: "Despacito", um hit Pop cafona e com origem latino-americana/hispânica, que tornara-se uma "febre" nas redes sociais da internet, entre 2017 e 2018. Sem noção alguma sobre o despropósito de seu pedido, é claro, porém foi inacreditável o rapaz pedir isso para nós que estávamos ali a tocar The Beatles, The Rolling Stones, Ray Charles e outros artistas dessa esfera cultural tão dispare ante os seus anseios expressos, verbalmente. 

No próximo intervalo, ei-lo novamente a abordar-me e desta vez, ele perguntou-me se nós não iríamos cantar em "espanhol". Nesse instante, pensei que talvez por ser oriundo de uma cultura asiática, completamente diferente da nossa, tendia a confundir o português com o espanhol, ao não notar a diferença. Bem, claro que expliquei-lhe que falávamos português e não espanhol, e que ali, a apresentação estava versada em quase 100 % por canções cantadas em inglês. O rapaz entendia e falava o português com uma certa desenvoltura, mas a seguir ficou novamente a pedir, "Despacito", insistentemente, mas ria, ao parecer apenas querer brincar com tal manifestação despropositada. 

Quando chegou o próximo intervalo, eis que o sorridente chinês aproximou-se novamente e não contente em tentar conversar mais uma vez, sentou-se à nossa mesa e colocou-se acintosamente a prestar atenção à fala da namorada do Dinola, Carla Lemos, que contava-nos algo sobre as suas filhas naquele instante, ou seja, um assunto pelo qual o rapaz não deveria nutrir nenhum interesse, mas de uma maneira deselegante, eis que ele ficou ali até a Carla cair na risada e afirmar: -"ai, gente, não consigo falar assim desse jeito", ao fazer menção ao estranho e insólito rapaz ali sentado indevidamente, em profunda atenção ao que ela dizia. Ou seja, se era um louco, sem noção alguma de sociabilidade, um debochado contumaz ou apenas queria ouvir o nosso idioma e aprender o significado das palavras, ficamos sem saber do que se tratou realmente. 

Nesse instante, ao perceber que a atitude dele não fora ofensiva, eu apenas sinalizei em sua direção a gesticular o clássico sinal de "positivo" e disse-lhe em tom de brincadeira: -"Beijing, Beijing", a estabelecer um clima amistoso. Então ele sinalizou positivamente e sempre a sorrir de uma forma desmesurada, talvez a denotar um traço típico desses povos asiáticos, e imediatamente voltou ao seio de sua turma. Os demais chineses, também riam o tempo todo, mas não foram impetuosos, pois acredito que não sabiam comunicar-se em nossa língua, e nem mesmo em inglês ou espanhol. Em síntese, a concordar com os sorrisos do chinês, sem noção, foi mesmo engraçado lidar com esse jovem estrangeiro e tresloucado.

Bem, foi a segunda participação minha com o Hid Trio, um combo para tocar covers clássicos pela noite, sob total improviso e marcado pelo reencontro de grandes amigos. Teoricamente, a formação dessa banda concentra-se entre Rodrigo Hid, Ivan Scartezini & Marcião Gonçalves, outro fraternal colega de longa data. Mas a priori, eu sabia que em qualquer momento eu poderia voltar a ser convidado para atuar e haveria de ser sempre um grande prazer estar por algumas horas a atuar com Hid, Scartezini, Dinola e qualquer outro amigo que estivesse junto em uma noitada dessas e tive também a certeza, sempre seriam divertidas tais noitadas.

Dinola & Hid a conversar, com Priscila Scardoa Hid, atrás. Hid Trio no Finnegans Pub de São Paulo, em 28 de abril de 2018. Click: Luiz Domingues

Portanto, eis que o meu pressentimento veio a concretizar-se em um breve espaço de tempo, ainda em 2018, e assim, esta participação com o Hid Trio ganharia um novo capítulo dentro das histórias construídas ao longo dos meus "Trabalhos Avulsos". Mas antes dessa terceira oportunidade para tocar novamente com o Hid Trio, eis que um convite para participar de um combo formado com muitos outros amigos queridos dentro da música, surgiu. E foi ao ar livre, nas ruas do bairro da Vila Pompeia.

Então, continua...