quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 212 - Por Luiz Domingues

As gravações avançaram bastante em julho, culminando com o encerramento das vozes. Estávamos satisfeitos com toda a captura, e agora viria a mixagem.

Sei que o que vou contar aqui poderá causar um choque para alguns leitores, e entendo que realmente não tem o menor cabimento, sob qualquer hipótese.

Todavia, a mixagem foi feita numa sessão só, estendida, é verdade, mas sob o aspecto da economia máxima que um selo de pequeno porte como era a Baratos Afins, poderia nos disponibilizar, era o melhor que tínhamos, infelizmente.


Então, num sábado, entramos no estúdio por volta das 18:00 h. e com o objetivo de mixar o álbum inteiro, ou até onde a condição humana permitisse.

Nem perderei tempo em dizer o quanto é um procedimento errado, pois tudo o que eu disser, poderá ser mal interpretado pelo leitor leigo, no sentido de que poderá considerar como uma mera desculpa. 


Quem é músico, e já gravou, sabe, no entanto, que a mixagem é a etapa mais delicada e para tanto, o ideal é que cada faixa do disco, seja trabalhada numa sessão em separado, e se possível, com um intervalo de pelo menos um dia entre uma sessão e outra.

Hoje em dia, com as gravações sendo feitas em processo digital, é possível fazer mixagem por etapas, levando dias para fazer, sem perder nada, o que facilita demais o processo, mas naquela época, e gravando num estúdio comercial com dezenas de clientes, se você interrompesse uma sessão para recomeçar em outro dia, simplesmente teria que começar tudo da estaca zero, a cada sessão. 


Além de ser muito extenuante, o técnico/produtor e os próprios artistas envolvidos, tem que estar com o ouvido totalmente descansados para prestar muita atenção em detalhes ínfimos que até gente muito experiente tem dificuldade de perceber.

Por isso, estou tomando todo o cuidado para deixar claro, que não estou falando tudo isso em tom de crítica pelo fato da Baratos Afins não ter nos proporcionado essa mordomia, porque sei bem o quanto era cara a hora do estúdio, e ao mesmo tempo, curta, a verba de uma pequena gravadora.

Numa gravadora major, em grandes produções, costumava-se destinar meses para um artista gravar seu álbum, com até desperdício de tempo. Mas a nossa realidade era bem diferente... 


Posto isso, a mixagem foi assim, a toque de caixa, praticamente buscando um padrão geral de equalização para todas as canções.

Dessa forma, quando levantamos o som de bateria da primeira música, praticamente mantivemos o mesmo padrão para as outras músicas, mesmo procedimento adotado para o baixo, guitarra e voz.

Antes que me esqueça, tivemos uma pequena participação especial do guitarrista/tecladista Daril Parisi, do Platina , que gentilmente gravou uma "cama" de arp-strings na faixa "Crisis (Maya)". Mas com um arranjo bem simples, nada marcante que pudesse fazer falta nas apresentações ao vivo, e de fato, nós tocávamos essa canção instrumental desde o início de 1983, nos shows.

Enfim, a mixagem transcorreu nesse ritmo, mas mesmo com toda essa pressa, demorou muitas horas. Mesmo que estivéssemos trabalhando numa única música, com o avançar das horas, não é só o cansaço auditivo que prejudica o trabalho, mas o cansaço mental faz com que o ambiente vá se tornando um barril de pólvora, prestes a explodir.

Não aconteceu nada nesse sentido mais exacerbado, mas claro que houveram momentos de tensão.

Como se fala popularmente "mixagem é o momento onde as bandas brigam e acabam"...

De fato, trata-se de um momento tenso, onde o ego de cada um se faz presente, e não necessariamente em prol do bem comum da banda.

Fora isso, tem o produtor cobrando rapidez porque os ponteiros do relógio voam, literalmente, e refletem incisivamente no seu bolso, e algumas vezes existem embates estéticos com o técnico que está operando a máquina.

Não era fácil lidar com o Zé Luiz, o técnico, que tinha uma personalidade forte, por exemplo. 


A nossa sorte, era que a banda estava coesa e sabia bem o que queria. E essa coerência interna entre nós, já era um tremendo agente facilitador, numa mixagem feita inadequadamente numa sessão só, para o disco inteiro.

Demos pequenas pausas para comer e espairecer, é verdade. Mas mesmo assim, foi bem cansativo.

Lógico, muitas operações finais ainda usavam o recurso de muitas mãos fazendo as pilotagens e que demandavam pequenos ensaios sincronizados. Para a garotada de hoje em dia que nunca gravou à moda antiga, com gravador de fita e sem nenhuma automação digital, parece bizarro, mas com aquela quantidade absurda de botões para serem operados em tempo real, o único recurso era o de todos os músicos da banda cooperarem, ajudando a fazer a pilotagem, junto com o técnico e bastava um apenas errar uma marcação, e a mixagem estava arruinada, precisando que se começasse tudo de novo... 


Eram quase nove horas da manhã quando decidimos dar uma pausa maior, para um café reforçado na padaria da esquina...

Estávamos todos extenuados, mas ainda faltavam duas músicas para mixar e fechar o disco.

Mais ou menos às 13:00 h., o trabalho encerrou-se, mas aí, um fato dramático (em se considerando o cansaço), ocorreu...



Continua...

2 comentários:

  1. pulei algums capitulos de proposito ta bom grande Mestre Luiz domingos...Tive que viajar fim de novembro para visitar minha mamys e a correria , dai entrei sorry somente hoje (portanto sao em torno de 3 semanas ) sem vir aqui e voce ta no cap 212 heheheh...carambam ..ufaaaaa....parabens por sempre estar aqui escrevendo as autobiografia dessa grande banda que fez parte de sua Hisotira e da nossa como fãs.Mas vou ler tudo ....hehehehehe,Um grande Abraço e to do lado de cá te acompnhando no face e aqui heheheheh.

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    1. Que sensacional saber que está acompanhando com esse entusiasmo todo !

      Em breve, dou continuidade com mais capítulos !

      Grande abraço, Oscar !!

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