sábado, 16 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 135 - Por Luiz Domingues


Pedra em Ribeirão Preto em janeiro de 2009. Acervo de Junior Muelas

Passada a tentativa de contarmos com uma abertura sem precedentes através de uma revista de circulação nacional do mundo "mainstream" e já a sabermos que não lograria êxito por fatores alheios à nossa vontade e também da parte do jornalista, Sérgio Martins, estávamos novamente a enfrentarmos a nossa realidade underground e permeada pelos seus obstáculos inerentes. 

Os meses de fevereiro e março foram escassos em termos de oportunidades e só houve um show agendado, do qual logo mais eu o analiso. 

O que animara-nos um pouco foram as matérias e resenhas a exaltarem o CD Pedra II, mas naquela altura, com a internet solidificada e a maioria das pessoas a gastarem o seu tempo nas Redes Sociais, notadamente o Orkut (este já desgastado em 2009 é bem verdade, mas ainda com relativa força), publicações impressas tradicionais estavam a perder espaço e por ter sido assim, uma boa resenha foi comemorada por nós, logicamente, mas não repercutiu como em épocas passadas, infelizmente. Eis alguns exemplos:

 
1) Roadie Crew n° 120 

Logo no início de 2009, através de uma enquete promovida pelos colunistas da revista Roadie Crew, o jornalista Antonio Carlos Monteiro citou-nos duas vezes entre os melhores de 2008 em sua opinião, nas categorias: "melhor álbum" e "melhor capa".

2) Roadie Crew nº 123

"O som é calcado no Rock dos anos 60 e 70, com o maravilhoso órgão Hammond, à frente - se bem que a turma não se constrange em colocar em vários momentos aquele groove gentilmente cedido por gêneros como Soul Music e Funk. Já as letras são em português e vez por outra enveredam por temas que tem tudo a ver com a psicodelia dos mesmos anos 60 e 70. E aí que vem a questão : como fazer tudo isso funcionar sem soar datado, sem gosto de comida requentada ou cheiro de naftalina? 

Pois é isso o que faz o segundo disco do quarteto paulistano ser especial ser especial. Rodrigo Hid (guitarra, vocal, violão e teclados), Xando Zupo (guitarra e vocal), Luiz Domingues (baixo e vocal) e Ivan Scartezini (bateria) são veteranos na cena rockeira brasileira, e já aprenderam, na base da abnegação, do sacrifício e de uma autêntica paixão pela música, como operar esse tipo de, digamos assim, pequeno milagre. Então, "II" consegue evocar aqueles tempos que, para muitos, foram determinantes e inesquecíveis na história do Rock deixando claro que se trata de uma produção do Terceiro Milênio. Ousado, o Pedra se permitiu até mesmo abrir o disco com "Filme de Terror", tema do "maldito" Sérgio Sampaio, compositor à frente do seu tempo e que jamais conseguiu o seu devido reconhecimento.

Como se o repertório impecável, a execução irretocável, e até uma produção eficientes não bastassem, a banda ainda se deu ao luxo de ser diferente na "embalagem", que vem em formato inovador e traz uma história em quadrinhos assinada pelo ilustrador Diogo Oliveira.

Nota 9,0"

Antonio Carlos Monteiro 


Bem, já falei diversas vezes ao longo da minha autobiografia que tenho muita consideração, respeito e uma admiração enorme pela categoria do jornalista Antonio Carlos Monteiro. Ele, nessa altura, 2009, já acumulava muitas resenhas de discos meus através de bandas diferentes, desde 1985, sempre a enxergar com o seu olhar clínico cada obra e com isenção ética exemplar, visto que a nossa amizade pessoal desde os anos 1980, ele nunca obscureceu a sua opinião sobre qualquer resenha, entrevista ou matéria que escreveu sobre diversos trabalhos que eu realizei e não foi diferente nessa resenha sobre o CD Pedra II. 

Outro ponto que eu já destaquei quando citei-o em capítulos anteriores, trata-se do fato de que por trabalhar em publicações mais fechadas no nicho do Heavy-Metal (Revista "Metal", Revista "Rock Brigade" e Revista "Roadie Crew"), Tony Monteiro mantinha por hábito situar ao seu leitor padrão, duas questões que são verdadeiras obsessões para os adeptos do Heavy-Metal: cantar ou não em português, e aparentar ser "datado".

Não foi por culpa dele, naturalmente, mas eu compreendo a sua necessidade de sempre tocar nesses dois pontos que são nevrálgicos para os amantes do Heavy-Metal e só lastimo que isso o fizesse perder espaço na lauda a que tinha direito, para poder eventualmente falar de outros aspectos do nosso disco e sei que ele gostaria de assim proceder. Fora isso, só tenho a agradecer por uma resenha tão bem escrita e a enaltecer a nossa obra.

3) Revista Guitar Player nº 155

"Se o trato visual de um disco fosse suficiente, Pedra II estaria no topo das paradas. A banda caprichou e colocou o CD dentro de uma história em quadrinhos. mas, como o que conta é a qualidade das músicas, vamos em frente. No caso do Pedra, a banda já havia mostrado a sua competência no trabalho anterior. A banda é a mesma : Rodrigo Hid (guitarra , voz e teclados), Xando Zupo (Guitarra , voz), Luiz Domingues (baixo e voz) e Ivan Scartezini (bateria). Os principais compositores das 12 faixas, são os guitarristas Zupo e Hid, mas há faixas de outros músicos, como "Filme de Terror", de Sérgio Sampaio- figura lendária da música brasileira. Tudo bem que há o "II" no título do disco, mas Pedra II vai além de apenas uma continuação.Está repleto de boas ideias e vitalidade. 

A sonoridade do repertório está mergulhada na sonoridade dos anos 1970. O Rock do Pedra mantém seu peso, mas ganha o groove de Soul, a ginga do baião, pitadas de Folk e a sombra do Deep Purple. Se "Rock'n Não" tem um solo cuspindo faísca, a balada "Longe do Chão" se desenrola no belo riff amarrado por um solo denso. A dobradinha de solos em "To Indo a Mil", também ficou legal. No miolo do disco está a instrumental "Megalópole", que emoldura alguns dos predicados técnicos da banda. O suingue da levada nos encara a encarar a saraivada de solos. O clima é meio Tommy Bolin. Depois, Zupo e Hid se alinham em uma elegante sequência de guitarras harmonizadas. Uma música que chama atenção".

H.I.S.


Uma excelente resenha escrita pelo colunista cujas iniciais não consegui identificar (desconfio tratar-se de Henrique Inglêz de Souza). Ele exaltou a capa, a sonoridade, o potencial técnico e a qualidade das músicas, além de realçar a ideia de conter uma releitura de Sérgio Sampaio. 

Revista especializada em guitarra, claro que ele prestou mais atenção nesse quesito e no caso, os seus protagonistas em nossa banda, caso de Zupo e Hid. Mas ao contrário do que pensar-se-ia, não exagerou em analisar com minúcias tal quesito e a sua resenha foi construída sob um formato tradicional, sem ater-se apenas à performance dos guitarrista e seus equipamentos e instrumentos usados etc.

4) Revista Rock Brigade nº 259

"A alquimia ficou popular por misturar elementos da química, física, astrologia, arte, metalurgia, medicina, misticismo e religião. E a música, seja como límpida expressão artística ou como força particular interior, continua cada vez mais como uma espécie de elixir da vida. Seja na tradição da Yoga ou da própria alquimia, a busca do elixir da imortalidade provém de práticas de purificação espiritual- que pode ocorrer através da música. 

Num mar de energias e emoções, a música da banda Pedra transmuta metais inferiores em ouro; criando uma panaceia musical universal. Se depender dessa Pedra II, todos os males musicais que atormentam o mundo atual serão erradicados de forma sublime e prazerosa. Os capitães dessa missão são Rodrigo Hid (violão, guitarra, teclados e voz), Xando Zupo (guitarra e voz), Luiz Domingues  (baixo e voz) e Ivan Scartezini (bateria e voz). Em seu segundo registro, o Pedra traz um som único, esbanjando frescor pelos poros, como na instrumental, "Megalópole", ou no clima único de "Longe do Chão", uma faixa com mais de sete minutos de pura inspiração e com uma linha de baixo como há muito não se vê por aí...

"Projeções" tem um leve aroma de Rock Rural, só que com um viajante som de cítara para embalar; enquanto que "Jefferson Messias" nos remete aos deliciosos e incomparáveis anos sessenta. Se recusando a ficar amarrado nas influências do passado, o Pedra avista o horizonte com "Letras Miúdas", se recusando a acreditar em algo que não venha do coração. 

Outra agradável surpresa é a versão da banda para a clássica "Filme de Terror", peça chave da carreira de um dos nossos maiores compositores, Sérgio Sampaio. Falando em música brasileira, "Meu Mundo é Seu" é um exemplo vigoroso da qualidade da música que continua sendo cunhada aqui na Terra do Sol. Acompanhando as vibrações sonoras, o Pedra alarga ainda mais as possibilidades interativas desse novo ainda século, fornecendo também uma história em quadrinhos que acompanha o CD, cortesia do artista multimídia, Diogo Oliveira. Para esse grupo paulistano, a busca pela Pedra Universal, ou pelo Santo Graal chegou ao fim. Não é exagero dizer que Pedra II é a Opus Magna da banda; ou seja, sua grande e mais definitiva obra".

B.A.


Bem, aqui eu sei quem é o resenhista e "B.A." a designar a persona de Bento Araújo, um jornalista de grande poder cultural, que eu admiro muito e tenho o prazer de manter amizade pessoal. Editor da espetacular revista Poeira Zine, nessa época ele assumira o cargo de editor da revista Rock Brigade, que passava por profunda reformulação em sua redação. 

Alheio aos maneirismos do mundo do Heavy-Metal, que sempre caracterizaram a linha de conduta dessa publicação, Bento não ateve-se aos paradigmas típicos de jornalistas desse nicho, tampouco de seus leitores padrão, portanto, não tocou em tópicos "tabu" como o fato de "cantarmos em português" ou sermos ou não "datados".

Por ser uma persona fora desse nicho, tais questões nem passavam pela sua cabeça e assim, a sua resenha foi escrita como se estivesse a publicar em outro tipo de revista, quiçá na sua própria, o "Poeira Zine". 

Outro fato a ser destacado, trata-se de que esta resenha é uma das mais poéticas que eu já li. Inspirado ao extremo, Bento fez várias citações subliminares a trechos de letras de nosso disco, e a evocar aspectos místicos, a sua linha mestra de raciocínio, a falar em alquimia/busca da elevação via Santo Graal, justificou-se. 

Ao ir além, creio que a inspiração nesses aspectos, digamos, "iniciáticos", ficou muito bonita ao meu ver, embora eu faça a ressalva de que o Pedra nunca desfraldou tal bandeira e se houve misticismo embutido na nossa obra, foi sutil e perpetrado pelas letras do Rodrigo nesse sentido, poucas aliás, pois o Xando não gostava dessa linha de criação. 

Mas em suma, gostei muito que o jornalista Bento Araújo tenha tido essa visão do Pedra II e convenhamos, apesar de alguns aspectos destoantes, há sim um misticismo implícito, não só pela canção "Projeções", mas também pela capa, por conta de alguns signos desenhados pelo Diogo Oliveira, principalmente a mandala. 

Sobre as considerações mais musicais, Bento foi preciso e isso não surpreendeu-me, pois eu sabia de antemão e de muito tempo, aliás, sobre a sua avassaladora cultura sobre o Rock das décadas de sessenta e setenta e por isso, ficara óbvio que a sua antena aguçada notaria diversas influências nas nossas músicas e arranjos, nesse aspecto.

Por fim, foi quase um voto de esperança para que o Pedra atingisse os seus objetivos, mas a estender a de uma súplica para que dias melhores viessem para a música (e se em 2008/2009, esteve difícil de aguentar o panorama mainstream, o que dizer de 2016, quando escrevo este trecho e vemos com estupefação uma queda vertiginosa em relação ao panorama da época que citei?). 

Sempre foi um teste de resiliência e tanto para quem cresceu a absorver a música em geral e o Rock em específico, sob patamares estratosféricos. 

Não por que falou bem, pois o leitor atento que leu toda a minha autobiografia, sabe muito bem que eu aceito crítica negativa, desde que com embasamento e senso construtivo, mas esta resenha foi uma das melhores que eu já tive sobre um trabalho meu e creio que para o Pedra, também em sua história.

5) Revista Guitar Player nº156 

Uma excelente entrevista específica com nosso guitarrista, Xando Zupo, na qual perguntas técnicas foram feitas, a se honrar as tradições de uma revista setorizada, obviamente. Todavia, com bastante espaço para o artista falar sobre os aspectos mais subjetivos da criação da banda e do novo álbum como foco, naturalmente.

Continua...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 134 - Por Luiz Domingues

Depois do susto com o urubu e talvez a contrariar a superstição de que tal animal dá azar (na verdade, acredito que quem deu azar foi ele, que morreu daquele jeito triste ali na estrada), nós chegamos a Ribeirão Preto-SP com aquele calor típico que é marca registrada da cidade o ano inteiro, mas em janeiro e com o verão no auge, realmente se trata de um calor muito forte. 

Ficamos muito surpreendidos, positivamente a falar, com as instalações da filial da casa Vila Dionísio de Ribeirão Preto, pois se mostrara como nitidamente melhor decorada, com tudo novo em folha e segundo apuramos, foi essa mesma a razão, ou seja, tratava-se de uma unidade bem mais nova.

O palco era infinitamente superior, ao dar-nos a impressão que houve planejamento ali e lembrou-me de certa forma, alguns palcos de casas de médio porte que existiram em São Paulo nos anos oitenta e noventa, casos do Aeroanta e Woodstock, por exemplo. Havia também um bom camarim, e com direito a um caminho labiríntico que ligava à ótima cozinha industrial ali instalada.

O equipamento era de qualidade, e nitidamente superior ao da matriz de São José do Rio Preto. Com PA de porte, já animamo-nos por saber que haveria uma pressão sonora de show de Rock em teatro, portanto, claro que isso motivou-nos ainda mais. 

E havia um bom backline na casa, portanto, sobre o som estava tudo resolvido, e a iluminação era boa para o tamanho da casa, mas no tocante à luz, depende muito da criatividade do iluminador e por não conhecer o trabalho do Pedra, tampouco d'A Estação da Luz, dificilmente seria algo além de uma iluminação mecânica, sem mapeamento inteligente algum. 

Feito o soundcheck com relativa rapidez, ficamos satisfeitos e o técnico se mostrou gentil e foi bastante objetivo, sem postergações.

Deu tempo para aproveitarmos um bom descanso ali mesmo na casa, antes de voltarmos ao hotel para um providencial banho e arrumação. Deu tempo para aproveitarmos um bom descanso ali mesmo na casa, antes de voltarmos ao hotel para banho e arrumação. Localizado em um bairro nobre da cidade (Sumaré), através de uma rua paralela da Avenida 9 de julho, eu já esperava que a casa atendesse aos anseios da jovem burguesia da cidade e não haveria de atrair Rockers, e além do mais, as duas bandas não gozavam de grande projeção midiática, portanto, não tivemos uma grande ilusão de que tocaríamos para uma casa lotada e formada por Rockers inveterados. 

Ficamos instalados em um ótimo hotel moderno no centro da cidade, perto da Praça XV de novembro e quando voltamos ao Vila Dionísio, já começava a escurecer e chegavam as primeiras pessoas na casa.

A Estação da Luz em ação, no Vila Dionísio de Ribeirão Preto. Acervo e cortesia de Junior Muelas

O ótimo grupo, "A Estação da Luz" subiu ao palco e começou o seu show. Assisti o início da apresentação dessa banda pela coxia e o som de palco, mesmo com o retardo típico do áudio (refiro-me ao "delay"), pareceu estar muito bom. 

Fui assistir mais um pedaço do show pela perspectiva da plateia, ao fazer aquele caminho labiríntico pela cozinha e na frente do palco estava muito bonito, com uma pressão sonora agradável mas com altura equilibrada, com tudo a soar bem mixado e sob um patamar de altura agradável, sem agressões sonoras para o público. 

A iluminação, exatamente como prevíamos deixara a desejar, com o trabalho medíocre de um iluminador preguiçoso, praticamente a operar a mesa como uma iluminação sequencial de árvore de natal e a observarem-se diversos pontos de escuridão, por que, claro que ele não se deu ao trabalho de afinar os "spots" conforme o mapa de palco das bandas, ou seja, o básico do básico e assim a ser desrespeitado por preguiça, seguramente. 

Eu não entendo a postura de um iluminador que não tenha a hombridade de pegar uma escada e pessoalmente ir ao palco para afinar os spots durante a passagem de som vespertina, pois se está ali, supõe-se que desejou ser iluminador, portanto, se não afina os spots, como é possível ter algum prazer de operar uma iluminação de um espetáculo com as luzes fora de foco? 

Bem, é incompreensível, mas é o que mais acontece quando lida-se com iluminador que não conhece o trabalho do artista.

    A Estação da Luz em ação. Acervo e cortesia de Junior Muelas

O show do grupo, A Estação da Luz foi encantador ao meu ver. O seu repertório de música própria era muito bom, municiado por ótimas intenções, influências e lembrava muito a determinação que eu tive com o Sidharta e consegui implantar na Patrulha do Espaço, com um conceito total de compromisso com o aspecto retrô, com o vintage, através de resgate não só musical, mas amplo, sob múltiplos ícones. Pois A Estação da Luz vivia/vive isso intensamente e para a minha percepção, foi algo muito estimulante e emocionante.

             A Estação da Luz. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Voltei para o camarim quando notei que o show d'A Estação da Luz caminhava para o seu final e lá aguardei os seus componentes no seu momento de pós-show, onde pude cumprimentá-los efusivamente sobre a sua ótima performance. 

Chegou a nossa vez e digo que fizemos um show melhor que o de São José do Rio Preto. Talvez pela maior qualidade de equipamento, , sim, a nossa performance foi muito mais robusta pela minha lembrança pessoal.

Pedra em ação em Ribeirão Preto / SP. 25 de janeiro de 2009. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Não houve a presença de um bom público na casa, certamente bem menos que o show na outra cidade e claro, tratara-se de um domingo, portanto um dia mais difícil para se atrair público. 

Mas ao contrário da juventude burguesa e baladeira que viu-nos na noite anterior (e que foi a dispersar pelo fato de não encontrar motivação na nossa música desconhecida aos seus ouvidos, para gerar a euforia que sempre esperam encontrar em baladas de sábado a noite), o público de Ribeirão Preto se mostrou jovem, mas não adolescente, dessa maneira, educadamente tais pessoas assistiram-nos sentadas em mesinhas e a nos aplaudirem com educação a cada música encerrada.

              Pedra em ação. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Um momento que poderia ter tornado-se um baixo astral para nós, soou no entanto até leve pela abordagem ingênua de um rapaz que mandou um garçom enviar-nos um recado manuscrito, onde perguntara-nos: -"vocês não tocam nenhuma música do Creedence Clearwater Revival?"

Quando o bilhete chegou para nós, o Xando antecipou-se e respondeu-lhe ao microfone, que nós éramos uma banda autoral e que infelizmente não tocaríamos nenhuma canção do "Creedence Clearwtaer Revival", mas que esperava que ele, o rapaz, estivesse a apreciar as nossas composições". 

O rapaz respondeu em voz alta de sua mesa que: -"tudo bem e que éramos uma banda muito boa"...

Pedra em Ribeirão Preto em janeiro de 2009. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Sendo assim, isso refletiu bem o tipo de público educado que esteve ali presente e mesmo não ao não manter sintonia com o nosso trabalho, teve ao menos paciência e educação para apreciar uma banda de qualidade a tocar, o que no mínimo, foi muito respeitoso ao se considerar toda a situação. 

Para efeito da matéria da revista "Veja", isso foi uma síntese da nossa situação por estarmos no patamar underground da música e por ser Sérgio Martins um jornalista com sexto sentido muito aguçado, eu conjecturava em silêncio comigo mesmo, que não poderia ter sido melhor como fator de impressão perante aos seus olhos, pois muito mais desastroso para a nossa imagem seria um ambiente hostil.

    Pedra em Ribeirão Preto. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Claro, eu sei perfeitamente que Sérgio relevaria um revés desse porte, mesmo por que ele tinha um bom conceito sobre a nossa banda e obra, portanto, teria o discernimento para separar as coisas como homem culto e também um profissional experiente que o era. Todavia, eu comemorei internamente o fato da reação ter sido bastante educada da parte daquele público ali presente. 

O meu primo Emmanuel estava na cidade e avisou um outro primo nosso em comum, chamado Rogélio (com "L" mesmo, eu não errei), que detinha uma produtora de vídeo na cidade. Claro que filmar show de Rock não era sua especialidade, pois costumava filmar festas, cerimônias de casamento, mas ele foi gentilmente ao espaço e registrou o nosso show, e o do Estação da Luz, também.


"Longe do Chão" no Vila Dionísio, de Ribeirão Preto em 25 de janeiro de 2009

Eis o Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=04AEWu6mDpk


Algumas músicas desse nosso show foram postadas no YouTube, posteriormente, mas não todas. Torço para que o Xando lance as demais e o show inteiro, em algum momento na sua versão na íntegra desse show. E assim foi nosso show no Vila Dionísio de Ribeirão Preto, em 25 de janeiro de 2009, com cerca de oitenta pessoas presentes na casa.

Um casal vindo de uma cidade vizinha chamada: "Sertãozinho", compareceu ali para nos ver e abordou-nos no camarim no pós-show. Eram fãs da Patrulha do Espaço e ao saberem que eu, Luiz e Rodrigo éramos egressos daquela banda, interessaram-se em conhecer o Pedra tornaram-se nossos fãs, ao adquirirem os dois discos para a sua coleção. 

Fomos para o hotel descansarmos com o sentimento do dever cumprido. Foram shows bons, tecnicamente a se analisar e o nosso principal objetivo nessa empreitada interiorana fora alcançado, sem dúvida, pois viajáramos com um jornalista de primeira grandeza a serviço de uma revista de enorme circulação nacional, acompanhado de seu repórter fotográfico que clicara-nos não apenas em ação nos shows em si, mas a documentar todos os bastidores da viagem, soundcheck, check in e check out de hotéis, as nossas refeições etc. 

"Reflexo Inverso" no Vila Dionísio de Ribeirão Preto em 25 de janeiro de 2009

Eis o Link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=FwpFA06Zxko

Em suma, Sérgio mantinha em suas anotações e respaldado por amplo material fotográfico, uma reportagem em mãos em seu estado bruto e assim que chegasse à redação de sua revista seria apenas sentar-se em frente ao seu monitor de computador e digitá-la. 

E por falar em Martins, ali no saguão do hotel despedimo-nos, pois ele não voltaria conosco, visto que tinha passagem de avião comprada e de Ribeirão Preto ele foi direto para o Rio de Janeiro onde na segunda-feira entrevistaria um figurão do mundo do samba. 

Acordamos na segunda-feira e despedimo-nos dos amigos d'A Estação da Luz que seguiriam para São José do Rio Preto. A sua boa vontade em viabilizar essa micro turnê fora notória, principalmente da parte do amigo, Junior Muelas, um autêntico "amigo, irmão de fé e camarada" que prazerosamente eu fiz durante a minha trajetória musical inteira, eu diria. Muelas vibra o Rock como se deve, é um Rocker de "R" maiúsculo.

A viagem de volta para São Paulo foi tranquila, sem urubus na nossa vida e mais silenciosa pelo fato de estarmos cansados pela somatória do final de semana todo de trabalho e rodagem. 

Ao chegarmos em São Paulo, nós conduzimos o fotógrafo Otávio Dias até sua residência no bairro do Brooklin, na zona sul da cidade. 

O tempo foi a passar e o Sérgio não sinalizara que a matéria na revista sairia e claro que não o pressionaríamos para saber dessa informação. Mas o tempo passou e nada aconteceu. 

Não sou jornalista, mas como o leitor já sabe desde os primeiros capítulos da minha autobiografia musical, eu sempre tive relação estreita com essa profissão e os seus bastidores, portanto, claro que eu deduzi que a revista em questão, apesar de manter uma linha editorial ampla, tinha na política e na economia, os seus principais pilares, portanto, matérias grandes sobre cultura em geral, só aconteciam ali quando não havia nada bombástico em Brasília ou no mundo para falar-se de política, sobretudo.

Ao ir além, com o tempo a passar a matéria, mesmo antes de ser publicada padece do processo natural de envelhecimento e chega-se a um ponto que nem faz mais sentido, jornalisticamente a falar e foi o que aconteceu. 

Uma grande pena, pois esmeramo-nos para realizarmos esses shows e uma banda com os graves problemas gerenciais que tínhamos, foi um raridade termos dois shows em cidades diferentes, colados, a provocar a sensação sequencial de uma "turnê". 

Dessa forma, o nosso esforço foi em vão nesse sentido da matéria não ter sido publicada, mas valeu por tudo e claro que nem eu, e nenhum dos companheiros lamentou por nada. 

E Sérgio Martins sinalizaria com uma oportunidade tão boa quanto, ao final de 2009 e dessa vez aconteceria de fato, mas no momento oportuno da cronologia eu detalharei, certamente. 

Vida que seguia, teríamos um novo compromisso em março de 2009, mas algumas matérias e resenhas a comentarem sobre o álbum "Pedra II", estavam a surgirem nas revistas.

Continua...

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 133 - Por Luiz Domingues

                                Acervo e cortesia de Junior Muelas

Acordamos refeitos do cansaço, almoçamos ainda em São José do Rio Preto e partimos para Ribeirão Preto no início da tarde. 

Por ter que voltar para Rio Preto e nós para São Paulo no pós-show, o pessoal do Estação da Luz viajou em carros particulares para Ribeirão Preto, em comboio conosco. Uma pena pois havia espaço na nossa van para o quinteto em questão e teria sido um enorme prazer viajarmos juntos, a aproveitarmos um clima de "turnê", tão raro para as nossas respectivas bandas, infelizmente.

Um fato assustador ocorreu-nos nesse percurso e foi algo absolutamente insólito. Conversámos e ríamos, bastante despreocupados, pois a condução do "Seu" Valdir era ótima no volante da van, quando sentimos que ele freou bruscamente e um objeto indefinido sob um primeiro instante, de cor preta, veio a voar rasante em nossa direção e foi tão rápido que tornou-se impossível evitar o impacto no para-brisa da van.

Tratou-se de um enorme urubu que morrera em pleno ar e veio a mergulhar em nossa direção, mas de uma forma repentina, que o motorista não pôde evitar a colisão com o seu corpo desfalecido. 

O impacto foi tão grande que além de provocar um barulho enorme, naturalmente, avariou o para-brisa do carro, mas por sorte, não o estilhaçou e assim nós pudemos seguir viagem. 

Paramos logicamente para avaliar o estrago e de fato, o "seu" Valdir assegurou-se de que seria possível prosseguirmos e apenas a jogar um balde d'água básica para extrair dali o sangue da pobre ave, fomos em frente para o nosso destino. 

Segundo o "seu" Valdir e o Otávio Dias que viajavam na frente, a ave deve ter morrido de causas naturais, talvez um infarto, pois voava normalmente ao lado de outras aves, quando mergulhou subitamente para uma queda mortal.

Mundo animal a parte, tínhamos um show de Rock para fazer em Ribeirão Preto!.

Continua...

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 132 - Por Luiz Domingues

Iniciamos com uma energia muito forte, no afã de ganhar o público não acostumado à nossa música e o Pedra detinha essa carência por não estar exposto na mídia e quando enfrentava um plateia desconhecida, padecia por não conseguir estabelecer uma sinergia adequada. 

Não havia nada de errado com nossa música, muito pelo contrário, o padrão de excelência das nossas composições se provava como ímpar, todavia, a mais simplória das razões fazia sempre com que a empatia não fosse estabelecida imediatamente e isso foi uma grande pena e claro que frustrava-nos como artistas.

E tal razão foi que o Pedra não se colocou como uma banda que encaixava-se em casas noturnas orientadas para abrigar "baladas". A sua música mais cerebral, digamos e por isso, extremamente bem elaborada & arranjada, não poderia ser absorvida por plateias não interessadas em desejar receber tal carga artística de uma forma deliberada. 

Portanto, o que aconteceu foi que o ânimo da plateia foi arrefecer-se paulatinamente a cada música que tocávamos.

Independente disso e sabedores que a despeito do frenesi que seria ótimo causarmos, mas não conseguimos, o que esteve em jogo ali também foi cumprirmos uma boa performance para os repórteres da da revista Veja que cobriam o nosso show. 

Não foi o mote da reportagem, sabíamos, mas claro que uma performance boa deveria impressioná-los e muito provavelmente respingaria na matéria em si e isso tornara-se muito importante para nós. 

Lembro-me do fotógrafo, Otávio Dias, a falar-me posteriormente, que logo que começou o show, ele havia achado que eu fui o mais "elétrico" no início do espetáculo e naquele conceito bem do métier dos audiovisuais e cuja fotografia também faz parte, ele focou mais na minha performance, ao considerar que eu estava a "explodir".

Foi verdade, pois com a necessidade de imprimir uma boa performance e tentar ganhar o público, não haveria de ser pelo repertório que eles ignoravam retumbantemente, mas pela explosão do mise-en-scène e devo esclarecer que todos tocaram ao darem o seu máximo, não fui só eu, embora o Otávio tenho captado um entusiasmo maior da minha parte naquele instante. 

Enfim, tocamos o set list completo e apesar da sinergia não conquistada em São José do Rio Preto-SP, a missão foi cumprida ao meu ver, pois demos o nosso melhor.

Voltamos para o hotel extenuados na somatória viagem/show e pudemos descansar bastante, visto que a distância entre São José do Rio Preto e Ribeirão Preto é de 203 Km, aproximadamente, portanto, não careceua que viajássemos logo pela manhã e assim, tivemos uma boa noite de sono reparador...

O cartaz do show de Ribeirão Preto-SP, no dia seguinte. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Continua...

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 131 - Por Luiz Domingues

O acerto que Junior Muelas conseguiu com a direção das duas casas onde apresentar-nos-íamos, representara um pouco mais em termos financeiros, do que toda a nossa despesa logística para viajar à essas duas cidades interioranas. 

Portanto, sob outras circunstâncias, seria bastante discutível aceitar-se tais condições, apenas baseado na efêmera perspectiva de angariar-se novos fãs e a se contar com um eventual apoio de mídia local. 

Ao pagar-se um aluguel caro para uma van servir-nos em uma micro turnê de cerca de mil Km de rodagem, só mesmo pelo investimento concreto de carreira que foi era estar inserido em uma mega reportagem de muitas páginas de uma famosa revista semanal e com forte chance de ser a reportagem principal da edição, com direito a capa.

Preparamo-nos a ensaiarmos um bom set list, ao estabelecermos um misto dos nossos dois álbuns já lançados e se houve uma coisa que não preocupava-nos, foi a parte musical. 

Contratamos a van e mais uma vez o Rodrigo indicou-nos aquele senhor que levara-nos para Piracicaba-SP no ano interior. Tratou-se de um motorista bastante competente, seguro na direção, gentil no convívio e conforme eu já contei, quando empolgava-se, gostava de contar "causos" que são impublicáveis aqui, mas que invariavelmente tornava o percurso, um autêntico show de "stand up comedy", como bônus do seu serviço de transporte. 

Sérgio Martins chegou na hora combinada, acompanhado de seu repórter fotográfico, um rapaz chamado, Otávio Dias, que esteve junto com ele nessa pauta e viajara com os outros artistas que mencionei antes em capítulos anteriores, também. 

Seguimos viagem com muita tranquilidade, a assistirmos vídeos que o Xando levou de sua casa, mas muito mais focados em conversar. Paramos para uma recomposição estratégica na altura de Rio Claro-SP e a primeira ocorrência engraçada da viagem aconteceu sob uma árvore. 

Estávamos do lado de fora do posto de combustível, quando esperávamos por alguns companheiros que ainda estavam a pagarem as suas respectivas contas do lanche que haviam feito. Lembro-me que eu estava com Xando e o roadie Edgard Veçoso (que substituíra Daniel "Kid" que não pode viajar conosco dessa vez), além do fotógrafo Otávio, da revista "Veja", quando alguns pássaros que estavam alojados na árvore resolveram despejar os seus dejetos escatológicos sobre nós, de uma única e súbita vez, como se fosse uma "molecagem" proposital. 

Fomos ágeis e ninguém sujou-se, mas a cena foi das mais hilárias, posso garantir. Nem o ator/diretor, Mel Brooks a parodiar Alfred Hitchcock, poderia conceber uma "gag" tão engraçada.

Seguimos em frente e quando a tarde começara a cair, avistamos a bela São José do Rio Preto-SP à nossa frente, com o seu porte de cidade grande mediante uma pequena selva de pedra urbana e bem proeminente. 

Encontramo-nos com o pessoal da banda "A Estação da Luz" em um ponto previamente combinado e estes conduziram-nos como guias até a porta do estabelecimento. 

Que prazer rever Junior Muelas, um amigo leal nos ideais como poucos que eu conheci nesses meus tantos anos de carreira. Muelas é um ferrenho Rocker aquariano e vive o sonho, não tenho dúvida disso.

Com ele, esteve presente a vocalista da banda e sua esposa, Renata Ortunho, que na época ainda era a  sua namorada. Simpática ao extremo, foi (é) a companheira ideal que os Deuses do Rock designaram para Junior Muelas. Alberto Sabella, o tecladista da banda e um multi-instrumentista brilhante, na verdade, esteve junto também.

Descarregamos a van e rapidamente fizemos o procedimento para o soundcheck. Com apoio do equipamento d'A Estação da Luz e a sua camaradagem ímpar, foi tudo muito prazeroso nesse processo, para atenuar o cansaço pela viagem e o forte calor que fazia, marca registrada de toda aquela região do estado e ainda mais por estarmos a viver o mês de janeiro... se tratou de um mormaço incrível.

Estabelecimento bem montado, pareceu ser a típica casa noturna que devia atrair a juventude burguesa da cidade e de localidades vizinhas. Mas Muelas garantiu-nos que apesar disso ser um fato, os Rockers locais a frequentavam também e que pelo fato dos proprietários serem generosos com a cena Rock autoral, havia uma tradição de shows de Rock na casa, apesar do seu aspecto burguês. 

De fato, informaram-nos que os gaúchos do grupo "Cachorro Grande" haviam tocado ali há uma semana antes com a casa lotada e a apreciarem o som deles, bem influenciado pelos anos sessenta.

Enfim, tudo apontava para uma noitada prazerosa, com um equipamento de PA de boa qualidade e com a possibilidade do jornalista Sérgio Martins assistir uma boa performance nossa e também d'A Estação da Luz, que era (é) uma banda que eu gosto muito e sei que luta com enorme dificuldade para manter-se ativa em meio à uma cena hostil. 

Bem, sobre esse panorama, nenhuma novidade para a minha existência, que na época já passava dos quarenta e oito anos de idade e a caminhar para os quarenta e nove.

Na viagem, Sérgio agiu como um amigo, a conversar e rir descontraidamente sobre vários assuntos que surgiram dentro da van, mas nesse instante ele nitidamente se colocou a trabalhar, pois observava tudo e eu o vi a fazer anotações. 

O fotógrafo, Otávio Dias flagrou-me a observá-lo e disse-me: -"o Sérgio observa e anota tudo. Não se engane, pois no percurso dentro da van, ele prestou atenção em todos os detalhes. Ele não para nunca de trabalhar, mesmo quando parece relaxado e distraído".

Achei incrível, pois apesar de não haver formado-me, eu sempre admirei o jornalismo e o destino fez-me interagir com inúmeros profissionais dessa área, desde os remotos tempos da formação do Língua de Trapo, portanto, apreciei muito ver a metodologia de um jornalista da estatura profissional de um Sérgio Martins, em ação.

Brincamos muito durante o percurso, sobre ele ser "o inimigo", ou seja, uma menção aos jornalistas que costumavam cobrir turnês de bandas de Rock nos anos sessenta e setenta e que o cineasta Cameron Crowe tão bem retratou no seu filme autobiográfico, "Almost Famous" ("Quase Famosos"), ao contar-nos a sua trajetória antes de se tornar um diretor de cinema, como crítico de Rock precoce da Revista Rolling Stone.

O próprio Sérgio divertia-se com as piadas e brincava também, mas não deixava de ser lúdico estarmos a viajar com um jornalista de uma revista de primeira grandeza do mercado editorial brasileiro. 

E mesmo que fosse a pauta focada no mote das comparações entre três artistas de condições muito diferentes do show business e não a nossa obra e performance em si, claro que gerou-nos uma expectativa sabermos que dois jornalistas estavam ali a cobrir e prestar atenção em tudo. 

Feito o soundcheck, jantamos e fomos para o hotel para descansar e arrumarmo-nos. O casal de fãs fiéis do Pedra, Fausto & Alessandra Oliveira, viajou para ver-nos nos dois dias e hospedou-se no mesmo hotel que nós. Foi impressionante a fidelidade que demonstraram, ao estarem presentes em quase todos os shows que fizemos, desde 2006, e até em cidades distantes de São Paulo, ambos não furtavam-se à oportunidade de estarem sempre presentes e uniformizados, a ostentarem camisetas com o logotipo da banda.

O grande, Sergio Kaffa, já envelhecido, como o vi em São José do Rio Preto-SP, em 2009 

Fomos enfim para a casa noturna e logo que entramos, vimos que havia um ambiente reservado ali no seu complexo, com uma outra banda a tocar. Se tratou de uma atração paralela que tocava em um "lounge" distante do palco principal. 

Reconheci no veterano baixista dessa banda, uma figura conhecida do Rock brasileiro setentista. Foi Sergio Kaffa, que tivera passagem pel'O Terço ao final dos anos setenta. Muelas falou-me que conversava sempre com ele, mas que ele mostrava-se arredio com Rockers que queriam que ele contasse-lhes histórias sobre os anos setenta. Bem, o negócio foi respeitar o sentimento dele, que devia ter os seus motivos para não gostar de lembrar do passado. 

"A Estação da Luz" começou o seu show. Ao mesclar canções próprias do futuro CD que planejavam gravar, com vários clássicos do Rock brasileiro setentista, aos meus ouvidos e percepção, foi agradável ao extremo. 

Sou suspeito para falar, pois conhecia bem os músicos, Muelas e Sabella desde 2001 e agora com os ótimos: Vagner Siqueira no baixo e Christiano Carvalho na guitarra, mais a voz doce de Renata Ortunho, o quinteto ficara ao meu ver, simplesmente espetacular, pela excelência musical, acrescido das intenções retrô que particularmente eu adoro.

Onde seria possível em uma casa noturna em pleno 2009, ouvir uma banda a tocar a música: "Os Pingo da Chuva" ("Pingo" no singular, de propósito), dos "Novos Baianos " com uma excelência dessas? 

Falei para o Muelas depois do show da sua banda: -"não ouvia essa música a ser tocada ao vivo, desde os shows dos Novos Baianos que assisti nos anos setenta". 

Foi um show impecável,  a banda aqueceu bem o público, apesar de não terem comparecido muitos Rockers na casa e a predominância ser de playboys, ou "agroboys" como é comum no interior de São Paulo.

Chegara a nossa vez e ao vermos o Sérgio Martins a ajeitar-se em um lugar com boa visibilidade para assistir-nos e Otávio Dias com as suas câmeras a postos, nós começamos o nosso show...

Continua...