sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 131 - Por Luiz Domingues

O acerto que Junior Muelas conseguiu com a direção das duas casas onde apresentar-nos-íamos, representava um pouco mais do que toda a nossa despesa logística para viajar à essas duas cidades interioranas. Portanto, sob outras circunstâncias, seria bastante discutível aceitar tais condições, apenas baseado na efêmera perspectiva de angariar-se novos fãs e ter um eventual apoio de mídia local. Pagando um aluguel caro para uma van servir-nos em uma micro tour de cerca de mil Km de rodagem, só mesmo pelo investimento concreto de carreira que era estar numa mega reportagem de muitas páginas de uma famosa revista semanal, e com forte chance de ser a reportagem principal da edição, com direito a capa.

Preparamo-nos ensaiando um bom set list, fazendo um mix de nossos dois álbuns já lançados e se havia uma coisa que não preocupava-nos, era a parte musical. Contratamos a van e mais uma vez o Rodrigo indicou-nos aquele senhor que levara-nos para Piracicaba no ano interior. Um motorista bastante competente, seguro na direção e gente boa, e conforme já contei, quando empolgava-se, gostava de contar "causos" que são impublicáveis aqui, mas que invariavelmente tornava o percurso, um show de stand up comedy, como bônus do seu serviço de transporte. Sérgio Martins chegou na hora combinada, acompanhado de seu repórter fotográfico, um rapaz chamado Otávio Dias, que estava junto com ele nessa pauta, e viajara com os outros artistas que mencionei antes, também. Seguimos viagem com muita tranquilidade, assistindo vídeos que o Xando levou de sua casa, mas muito mais focados em conversar. Paramos para um "pitstop" na altura de Rio Claro, e a primeira ocorrência engraçada da viagem aconteceu sob uma árvore. Estávamos do lado de fora do posto, quando esperávamos companheiros que ainda estavam pagando a conta de seu lanche. Lembro-me que eu estava com Xando e o roadie Edgard Veçoso (que substituíra Daniel "Kid" que não pode viajar conosco dessa vez), além do fotógrafo Otávio, da revista Veja, quando pássaros que estavam na árvore resolveram soltar seus dejetos escatológicos sobre nós, de uma única e súbita vez, como se fosse uma "molecagem" proposital. Fomos ágeis e ninguém sujou-se, mas a cena foi das mais hilárias, posso garantir. Nem Mel Brooks parodiando Alfred Hitchcock, poderia conceber uma gag tão engraçada.
Seguimos em frente, e quando a tarde começava a cair, avistamos a bela São José do Rio Preto à nossa frente, com seu porte de cidade grande mediante uma pequena selva de pedra urbana e bem proeminente. Encontramo-nos com o pessoal da "Estação da Luz" num ponto previamente combinado, e estes conduziram-nos como guia até a porta do estabelecimento. Que prazer ver Junior Muelas, um amigo leal nos ideais como poucos que conheci nesses meus tantos anos de carreira. Muelas é um ferrenho Rocker aquariano e vive o sonho, não tenho dúvida disso.
Com ele, a vocalista da banda e sua esposa, Renata Ortunho, que na época ainda era sua namorada. Simpática ao extremo, foi / é a companheira ideal que os Deuses do Rock designaram para Junior Muelas. Alberto Sabella, o tecladista da banda e um multi instrumentista brilhante, na verdade, estava junto também.
Descarregamos a van e rapidamente fizemos o procedimento para o soundcheck. Com apoio do equipamento da Estação da Luz e sua camaradagem ímpar, foi tudo muito prazeroso nesse processo, atenuando o cansaço pela viagem e o forte calor que fazia, marca registrada de toda aquela região do estado, e ainda mais sendo janeiro... estava um mormaço incrível.
Estabelecimento bem montado, parecia ser a típica casa noturna que devia atrair a juventude burguesa da cidade e de localidades vizinhas. Mas Muelas garantiu-nos que apesar disso ser um fato, os rockers locais a frequentavam também, e que pelo fato dos proprietários serem generosos com a cena Rock autoral, havia uma tradição de shows de Rock na casa, apesar do aspecto burguês. De fato, informaram-nos que os gaúchos do "Cachorro Grande" haviam tocado ali uma semana antes com casa lotada, e apreciando o som deles, bem influenciado pelos sixties.
Enfim, tudo apontava para uma noitada prazerosa, com um som legal e com a possibilidade do jornalista Sérgio Martins assistir uma boa performance nossa, e também da Estação da Luz, que era / é uma banda que eu gosto muito e sei que luta com enorme dificuldade para manter-se ativa em meio à uma cena hostil. Bem, sobre esse panorama, nenhuma novidade para a minha existência, que na época já passava dos 48 anos de idade, caminhando para os 49...
Na viagem, Sérgio agiu como um amigo, conversando e rindo sobre vários assuntos que surgiram dentro da van, mas agora ele nitidamente estava trabalhando, pois observava tudo e eu via-o fazendo anotações. O fotógrafo Otávio Dias flagrou-me observando-o e disse-me : -"o Sérgio observa e anota tudo. Não  engane-se que no percurso dentro da van, ele prestou atenção em todos os detalhes, ele não para nunca de trabalhar, mesmo quando parece relaxado e distraído".
Achei incrível, pois apesar de não ter formado-me, eu sempre admirei o jornalismo e o destino fez-me interagir com inúmeros profissionais dessa área, desde os remotos tempos da formação do Língua de Trapo, portanto, apreciei muito ver a metodologia de um jornalista da estatura profissional de um Sérgio Martins, em ação.
Brincamos muito durante o percurso, sobre ele ser "o inimigo", ou seja, uma menção aos jornalistas que costumavam cobrir turnês de bandas de Rock nos anos sessenta e setenta, e que o cineasta Cameron Crowe tão bem retratou no seu filme autobiográfico, "Almost Famous" ("Quase Famosos"), contando sua trajetória antes do cinema, como crítico de Rock da Revista Rolling Stone.
O próprio Sérgio divertia-se com as piadas e brincava também, mas não deixava de ser lúdico estarmos viajando com um jornalista de uma revista Top do mercado editorial brasileiro. E mesmo sendo a pauta focada no mote das comparações entre três artistas de condições muito diferentes do show business, e não a nossa obra e performance em si, claro que dava um "frio na barriga" saber que dois jornalistas estavam ali cobrindo e prestando atenção em tudo. Feito o soundcheck, jantamos e fomos para o hotel para descansar e arrumarmo-nos. O casal de fãs fiéis do Pedra, Fausto & Alessandra, viajou para ver-nos nos dois dias e hospedou-se no mesmo hotel que nós. Era impressionante a fidelidade que demonstravam, estando presentes em quase todos os shows que fizemos, desde 2006, e até em cidades distantes de São Paulo, não furtavam-se à oportunidade de estar sempre presentes e uniformizados, ostentando camisetas com o logotipo da banda.
  Sergio Kaffa, já envelhecido, como o vi em Rio Preto, em 2009 

Fomos para a casa noturna e logo que entramos, vimos que havia um ambiente reservado com uma outra banda tocando. Era uma atração paralela que tocava num lounge distante do palco principal. Reconheci no veterano baixista uma figura conhecida do Rock brasileiro setentista. Era Sergio Kaffa, que tivera passagem pelo Terço no final dos anos setenta. Muelas falou-me que conversava sempre com ele, mas que ele mostrava-se arredio com rockers que queriam que ele contasse histórias dos anos setenta. Bem, o negócio era respeitar o sentimento dele, que devia ter seus motivos para não gostar de lembrar do passado. A Estação da Luz começou seu show. Mesclando canções próprias do futuro CD que planejavam gravar com vários clássicos do Rock brasileiro setentista, aos meus ouvidos e percepção, foi agradável ao extremo. Sou suspeito para falar, conhecia Muelas e Sabella desde 2001, e agora com os ótimos Vagner Siqueira no baixo e Christiano Carvalho na guitarra, mais a voz doce de Renata Ortunho, o quinteto era a meu ver, simplesmente espetacular, pela excelência musical, acrescido das intenções retrô que particularmente eu adoro.
Onde seria possível, numa casa noturna em pleno 2009, ouvir uma banda tocando "Os Pingo da Chuva" ("Pingo" no singular, de propósito), dos Novos Baianos com uma excelência dessas ? Falei para o Muelas depois do show : -"não ouvia essa música sendo tocada ao vivo, desde os shows dos Novos Baianos que assisti nos anos setenta"...
Show impecável, aqueceram bem o público, apesar de não haver muitos rockers na casa, e a predominância ser de Maurícios & Patrícias no saguão...
Chegara a nossa vez e vendo o Sérgio Martins ajeitar-se num lugar de boa visibilidade para assistir-nos, e Otávio Dias com suas câmeras a postos, começamos o nosso show...

Continua...

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