domingo, 16 de outubro de 2016

Crônicas da Autobio - Cantar Ária de Ópera, Soterrado - Por Luiz Domingues


Aconteceu no tempo do Terra no Asfalto...em 1980

Uma vez o vocalista da minha banda cover entre 1979 /1982, "Terra no Asfalto" (Paulo Eugênio Lima), convidou-me a conhecer um professor com quem estava tendo aulas de canto. Tratava-se de um senhor idoso, com forte sotaque estrangeiro, provavelmente de algum idioma do leste europeu.

Simpático, mas mostrando-se exigente como professor, tinha métodos de ensino não usuais e o Paulo Eugênio, nosso vocalista, estava empolgado, confiando no curriculum do mestre, mas ao mesmo tempo, curtindo muito as loucuras por ele propostas.


Fazer exercícios de cabeça para baixo, era um deles. E lá se pôs o velhinho a falar do fluxo sanguíneo e a pressão na caixa toráxica para se emitir sons nessas circunstâncias adversas. Parecia fazer sentido pela explicação superficial, mas tinha algum fundamento científico ? Nunca soube a resposta.


Mas o Paulo Eugênio estava empolgado, porque achava as loucuras fascinantes, bem naquele espírito Rocker de valorizar tudo que não é usual, quebrando paradigmas e ignorando fronteiras. Visto por esse aspecto, eu até entendia e também apreciava a loucura toda.
Para reforçar o conceito, Beatlemaníaco inveterado que era, Paulo Eugênio citava diversas loucuras perpetradas pelos Beatles nos estúdios Abbey Road de Londres, onde gravaram todos os seus discos e em diversos livros biográficos da banda, constam relatos dando conta que as ideias mais malucas foram tentadas ali para obter sons diferentes. De fato, eu também conhecia algumas dessas histórias, como por exemplo músicas que John Lennon gravara pendurado de cabeça para baixo para extrair um timbre vocal exasperante segundo seu desejo, para canções tensas.


Portanto, encontrar um professor de canto lírico, com formação de música clássica tradicional, mas com a cabeça completamente aberta para métodos malucos, foi um achado que ele comemorava e assim, empolgado, fez várias aulas e fez questão de levar-me para conhecê-lo.
Numa rápida conversa antes da aula começar, falou-nos que amava a música erudita, mas recusava-se a assistir concertos de qualquer natureza no Brasil. Motivo : tinha ouvido absoluto e não suportava a desafinação dos músicos brasileiros... 

Dois pontos aqui para observar :

Primeiro : ouvido absoluto é quando a pessoa tem a percepção de ouvir as notas musicais identificando-as pela sua vibração. É uma precisão tão grande ou maior do que a de afinadores eletrônicos. O lado mau de quem tem essa capacidade, é que qualquer som da natureza pode representar uma tortura constante, pois dificilmente vai soar 100% afinado. O sujeito ouve um toc toc na porta e dependendo da parte da madeira que a pessoa percutiu com a mão, pode ser qualquer nota (digamos que seja uma nota “sol”, como mero exemplo, mas não inteiramente afinada no padrão, todavia alguns “comas” acima ou abaixo da afinação perfeita. E entenda “comas” como subdivisões harmônicas microscópicas de uma nota musical.
Segundo ponto : era para nos ofendermos quando ele, sendo um imigrante estrangeiro aqui radicado falava-nos abertamente que nossos músicos eruditos, incluso os de alto padrão das grandes orquestras, não afinavam seus instrumentos corretamente ?

Creio que não e de fato, nem nos abalamos com tal afirmação.


Então, a proposta da aula que assisti foi bastante exótica numa primeira instância. Eu pelo menos nunca havia visto tal coisa antes. Pois no fundo do quintal da casa onde esse senhor vivia com sua esposa, havia uma caixa de areia. Outros moradores deviam tê-la usado como uma mini horta ou pomar, mas ele tirou a terra e fez uma espécie de cova, onde tinha uma quantidade de areia razoável ao lado, para ser usada.
Pediu ao Paulo Eugênio que se deitasse ali e o cobriu com  areia usando uma pá, deixando-o inteiramente coberto, só com a cabeça de fora e ali, por cerca de uma hora, deu voz de comando para que ele fizesse exercícios vocais. Dava para ver que Paulo fazia um esforço tremendo no diafragma completamente comprimido pela areia sobre seu corpo e a voz saia com dificuldade.

O professor o incentivava a prosseguir, fazendo correções o tempo todo. Quando acabou, o Paulo estava extenuado. Parecia que havia participado da prova da maratona olímpica.


Mas relatou-me que o esforço empreendido o ajudava a cantar enfim com o impulso respiratório do diafragma, como cantor profissional deve fazer e não forçando a garganta. 


Aparentemente fazia muito sentido.


Perguntado se eu desejava matricular-me no curso do velhinho maluco e passar pelo mesmo tipo de exercício, disse a ambos que iria pensar no caso...


Bem, isso aconteceu na metade de 1980, e até hoje não pensei se devo aceitar ou não...

6 comentários:

  1. Hahaha faz muito sentido. Viva a experimentação e a liberdade!

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    1. Exatamente, Luciano !!

      Arte é isso : experimentação e liberdade ! portanto, o velhinho estava coberto, no bom sentido, de razão...

      Valeu por ler e participar !!

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  2. Luiz...Vc cita os Beatles e exercícios de ponta-cabeça visando trabalhar o fluxo sanguíneo na região toráxica...não por acaso, o Yoga tem "ásanas" chamados de "Invertidas" que todo mundo conhece ou já viu, que são aquelas posições de ponta-cabeça...faz sim, todo o sentido...o professor velhinho era muito é sabido de seus conhecimentos...think about...

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    1. Sim, conheço as ásanas e o poder benéfico que tem para a saúde mental e física das pessoas. Falei em tom ameno, tentando colocar bom humor na crônica, mas claro que o velhinho tinha razão na sua metodologia nada convencional de aulas.

      Valeu por ler e participar com rico comentário !

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  3. Respostas
    1. Que bom, Rubens !!

      Grato pela leitura e participação sempre bem vinda !!

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