Neste meu segundo Blog, convido amigos para escrever; publico material alternativo de minha autoria, e não publicado em meu Blog 1, além de estar a publicar sob um formato em micro capítulos, o texto de minha autobiografia na música, inclusive com atualizações que não constam no livro oficial. E também anuncio as minhas atividades musicais mais recentes.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 58 - Por Luiz Domingues
Lembro-me bem do dia em que fomos levar o nosso material na sede da TV Cultura. Ficamos admirados com a simplicidade das pessoas envolvidas na produção, e como trataram-nos bem, visto que esse comportamento é bastante incomum nesse meio. Quando recebemos a notícia de nossa escalação no programa, ficamos empolgados, é claro. E sabíamos que precisávamos estar muito afiados, para causar a melhor impressão possível, pois seria a nossa melhor chance, sem dúvida, desde a fundação da banda em 1982.
Só esse fato, por si só, mudou o astral completamente. O que foi desolador no Pós-Victoria, com a perda da Verônica, a gerar assim a consequente e deprimente falta de shows (e uma dose de humilhação pela recusa de vários bares), mudou abruptamente para euforia, e esperança por dias melhores. O astral ficou muito bom, e até um show bizarro como o do "Morro da Lua" (que relatarei a seguir), passou a ser encarado como uma oportunidade boa a ser cumprida. No aviso telefônico da TV Cultura, fomos informados sobre data; horário de soundcheck e da apresentação. E a melhor notícia : poderíamos tocar três músicas, e a depender da duração de cada uma, até duas músicas poderiam ir ao ar, posteriormente.
Continua...
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 57 - Por Luiz Domingues
Enfim, além do rapaz ser apenas um subalterno na engrenagem, e assim não possuir em tese, nenhum poder de decisão, nós não tínhamos cacife para encarar tal empreitada, de forma alguma. Mesmo por que (hoje eu sei disso, muito bem), para abrir um show internacional, se você não for minimamente conhecido, com músicas a tocar nas rádios e aparecer na TV, não tem a mínima chance. Mesmo nessas condições, já é muito difícil entreter o público de um artista internacional, que deseja mais é que você não toque antes, preferencialmente...
Mas, reconheço que o sujeito foi mesmo muito gentil, pois realmente levou o nosso material simplório que representava o que tínhamos de melhor na ocasião, e na sequência, diante da negativa, brindou-nos com vários ingressos para os shows do Kiss. Lembro-me do Rubens chegar no ensaio, com pelo menos quinze deles, em mãos. O outro contato, foi para tentarmos uma vaga no Festival de Iacanga, cuja próxima edição realizar-se-ia no carnaval de 1984, mas cuja organização, obviamente já estava a receber materiais de muitos pleiteantes. Levamos o nosso material ao estúdio de ensaio da banda de baile, "Placa Luminosa", onde também funcionava o seu escritório de produção. Certamente que seria incrível sermos selecionados, pois seria um festival sob grande porte, com muitas estrelas da MPB, e do Rock a apresentar-se, e mesmo a tocar em horários alternativos, antes das grandes estrelas, seria fantástico para nós. Claro, nem resposta obtivemos, ao interpretar o silêncio como a negativa... o que eu não imaginaria, é que tocaria nesse mesmo Festival, mas não com A Chave do Sol. No capítulo do Língua de Trapo, já relatei com detalhes, sobre essa minha participação em Iacanga' 84. E finalmente o terceiro contato, concretizou-se !
Um novo programa de TV, veiculado pela TV Cultura de São Paulo, começava a fazer sucesso massivo. Chamava-se : A Fábrica do Som".
Tratava-se de um programa musical que abria espaço para artistas completamente desconhecidos apresentar-se, sem nenhuma restrição, e sem caráter de competição. Apenas eram apresentados como em uma grande mostra, sem julgamentos. Levamos o nosso humilde material à produção do programa, na sede da TV Cultura, e em um dia de junho, recebemos o telefonema a avisar-nos da data em que participaríamos pela primeira vez ! O que não conseguíamos enxergar, foi que esse telefonema mudaria a nossa vida, pois daí em diante, pois estávamos a entrar em uma nova e promissora fase da carreira da banda.
Continua...
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 56 - Por Luiz Domingues
Nossos esforços para conseguir novas perspectivas, nessa fase, prosseguiram. E nesse ínterim, mais três acontecimentos desviaram um pouco a nossa frustração pela falta de shows, e o baque pela perda de nosso status por atuar em uma casa badalada como o Victória Pub, e com a saída da Verônica Luhr de nossa banda. Contatos haviam sido feitos, e levamos material para três lugares que poderiam abrir algumas portas. Em dois desses, não deu em nada, e um logrou êxito, ao abrir-nos uma grande perspectiva.
Um deles, fora da parte daquele sujeito que abordara-nos no Victoria, ao dizer ser da produção que trouxera o Van Halen ao Brasil, recentemente. No Victoria, ele veio com aquela história de que estavam a trazer o Kiss, etc e tal. Claro que achamos ser uma tremenda bravata e ficamos chateados com os conselhos dele para adotarmos o "moderno" visual da New Wave oitentista, e tudo o mais. Então, vimos que o Kiss realmente vinha para o Brasil e ligamos para o sujeito. Fico a dever o seu nome, pois realmente não lembro-me, e quem marcou o encontro para a entrega do material foi o Rubens. Entregamos, mas é óbvio que nesta altura de 1983, o nosso material mostrava-se bem fraco. O nosso portfólio continha apenas uma matéria de jornal grande, até então, e o restante foi composto por filipetas de shows em bares, e nem mesmo o impresso do Victoria Pub com o nosso nome, revelava-se significativo para impressionar alguém que trazia um artista internacional mainstream, do porte do Kiss. E o básico do básico : não tínhamos disco gravado ! Nesse material, nem uma demo-tape decente, tínhamos. Na realidade, só tínhamos um demo caseira, e gravada de forma precaríssima.
No texto do release, nossos respectivos currículos individuais eram raquíticos, também. No meu caso, por exemplo, eu dizia que tocava desde 1976, e após passar por bandas de garagem (nem citava o Boca do Céu / Bourrébach, pela insipidez desses trabalhos muito iniciantes), e que havia participado da fundação do Língua de Trapo.
Certo, o Língua de Trapo estava por acontecer desde 1982, mas dizer que fui da pré-história de uma banda que mal começava a estourar, foi muito pouco.
José Luiz Dinola a tocar com o "Contrabando", em local e data indefinidos. Pode ser entre 1978 e 1981
O Zé Luiz falava do Contrabando, cuja maior proeza fora abrir shows do Made in Brazil; e o Rubens citava uma passagem efêmera pela Santa Gang, uma obscura banda, também filhote do Made in Brazil.
Em suma : foi muito pouco para impressionar...
Continua...
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 55 - Por Luiz Domingues
De volta à cronologia, passada essa aventura de autoprodução bem mal sucedida no ponto de vista financeiro, esvaziamos as nossas reservas acumuladas na fase de bonança adquirida após tantas apresentações dos últimos meses pelas casas noturnas, principalmente no Victoria Pub, onde o cachet fora realmente robusto.
Dessa maneira, passamos a ensaiar uma série de covers, onde o Rubens e o Zé Luiz dividir-se-iam entre os vocais, principalmente. Quando ensaiamos um material suficiente, gravamos uma demo-tape caseira, e começamos a peregrinação por bares, à cata de novas oportunidades para apresentações. Não queríamos mesmo voltar a tocar no Devil's, e no Café Teatro Deixa Falar, além do Café Palheta, então buscamos algo que fosse o meio termo entre essas casas, e o Victoria Pub. Essa busca iniciou-se por volta da metade de maio de 1983. A maioria das casas abordadas, não dignou-se nem a responder. Mas vou contar a história de um que foi, digamos, muito "gentil", pois respondeu por telefone que não havia gostado de nós, mas que devolveria o material que enviamo-lhes.
Ficamos surpresos, pois a realidade teria sido fazer do material, rascunho de mesa de telefone, no caso dos impressos, e sumir com fitas e / ou Lp's (a referir-me à "mídias"daquela época, é claro). Tratava-se de um bar bem famoso, chamado : "Calabar", que ficava em Cerqueira César, bairro nobre, e próximo à Av. Paulista. Fomos buscar o material e ficamos estupefatos ! Pois devolveu-nos o material gráfico todo amassado, e quando fomos ouvir a fita K7 no carro do Zé Luiz... pasmem ! Eis que haviam gravado a narração de um jogo do Santos FC, em cima do nosso trabalho ! -"Lino passa para Pita, que abre para João Paulo, que cruza e ...Goooollll ! Serginho Chulapa de cabeça"... quanta gentileza do barzinho...
Continua...
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 54 - Por Luiz Domingues
Estávamos reunidos com diversos amigos da banda, aquele grupo de amigos do Rubens que tornaram-se também meus amigos e do Zé Luiz, desde o começo da banda, em 1982.
Foi uma noite quente e estávamos no bairro do Bexiga, a circular pela Rua 13 de maio, sem um objetivo definido, pois A Chave do Sol não faria apresentação naquela noite, e nós não iríamos assistir uma outra banda apresentar-se. Então, o Rubens sugeriu que fôssemos à sua residência e a aproveitar o fato de que a sua família viajara, poderíamos ouvir música sob um volume considerável, pois a casa era enorme, e a possibilidade em incomodar os vizinhos, mesmo com som alto, era bem pequena pela proporcionalidade. Claro, todos aceitaram e seria muito mais agradável do que ficar a andar no meio daquela multidão de doidos e bêbados que forravam (literalmente), a Rua 13 de maio. Enfim, ao chegarmos à casa do Rubens, alguém iniciou uma conversa sobre filmagens caseiras e nesta época, começo de 1983, poucas pessoas tinham o privilégio em possuir uma câmera caseira "moderna" de formato VHS. O normal seria ter um de Super-8 e ter que revelar o filme etc.
Então o Rubens foi buscar a câmera de sua família, e todo mundo ficou encantado com a engenhoca que era moderna, e incrível para os padrões da época. Foi quando alguém cogitou a hipótese de a usarmos ali mesmo, a filmar qualquer coisa. Na hora, todo mundo contagiou-se com a ideia, e aquilo tornou-se um caldeirão efervescente. E se filmássemos pequenos sketches que criássemos ali mesmo, imediatamente ?
De minha parte, particularmente isso acendeu o meu lado cinematográfico de uma forma intensa. Ardoroso fã de cinema desde criança, enxerguei em uma prosaica brincadeira, a possibilidade de criar alguma coisa interessante. E assim, passei a mão em um bloco de anotações e uma caneta, e escrevi algumas ideias básicas em um esboço de roteiro, e os amigos compraram a brincadeira.
Foi por volta de meia-noite quando essa loucura começou, e só terminamos quando fomos vencidos pelo cansaço, literalmente, por volta das 11:00 hs. da manhã do domingo... filmamos muitos sketches malucos, a improvisar a casa do Rubens como set, e usar o mobiliário familiar com adereços, objetos de cena etc.
Não tínhamos iluminação, é claro, e dessa forma, improvisamos o reforço de luz com lanternas e abatjour, de uma forma absurda. Claro que não houve possibilidade para fazer uma edição com o que tínhamos, portanto foram filmagens com tomada única, e se não a curtíssemos, tínhamos que rebobinar e apagar para regravar em cima, no mesmo espaço. Não havia uma sequência lógica de continuidade, portanto, cada sketche foi uma historieta com começo, meio e fim. Mas como essa brincadeira repetiu-se posteriormente em noites seguintes, tentamos fazer novas cenas que remetessem há algumas antigas, anteriormente filmadas, mas não tratava-se de uma preocupação propriamente dita.
De minha parte, recordo-me bem de algumas cenas, que posso relatá-las agora.
1) Lembro-me que tivemos a ideia de colocar o Zé Luiz em uma bicicleta ergométrica, e ao som da canção :"Bicycle Race" do Queen, ele acelerou aquela bicicleta sob uma velocidade absurda e simulou a morte, ao cair no chão enquanto o "sonoplasta" da nossa equipe de produção, fazia a rotação do disco mudar e depois a tirar o pick-up da tomada, produziu a ruptura final...
2) Outra cena muito interessante foi filmada com a minha própria pessoa em ação, caracterizado como um "bruxo". Ao usar uma colcha de "chenile" da residência como capa, e o clássico chapéu de bruxo que usei em muitos shows, tive a companhia de um crânio humano, que era um ornamento do gabinete interno da casa, onde o pai do Rubens costumava trabalhar em seus textos (o Rubens afirmava ser de um antepassado da família, mas eu sempre achei tratar-se de uma réplica de material plástico, dessas usadas em clinicas médicas).
"Still" da cena que fiz nesse audiovisual, a interpretar um alquimista medieval, em busca da "Pedra Filosofal"...
Improvisei uma voz cavernosa, e fiz um monólogo a falar sobre a "Pedra Filosofal" e coisas do gênero. Ficou um absurdo de canastrice.
3) Criamos a ideia de um Circo Romano, onde o Rubens teve que lutar contra uma "fera", enquanto o "público" exigia que a fera matasse o gladiador...
A fera em questão foi um dos dois cães da raça doberman que o Rubens possuía, chamado : "Jimi", por conta do Jimi Hendrix...
Essa cena foi filmada por volta das 8:00 hs da manhã, já dia claro portanto, e ainda bem que foi um domingo, pois pessoas que passassem pela rua naquele instante, poderiam ter chamado o resgate de um sanatório, visto que foi um bando de cabeludos sentados em cima de um muro bem alto, a usar "túnicas romanas" imaginárias, que na verdade eram lençóis brancos da residência...
4) Uma cena quase cerebral foi criada para o poeta, Julio Revoredo participar. Ele jogava xadrez em silêncio contra o Celso, quando um outro "ator" (acho que era o Carlão Muniz Ventura, não tenho certeza), chegou sorrateiramente, e deu um chute no tabuleiro, quando laconicamente falou : -"cheque-mate"... qualquer semelhança com o "Sétimo Selo", de Ingmar Bergman, não foi mera coincidência...
Essas são as que lembro-me mais claramente, mas muitas outras foram produzidas. E como já disse, não resumiu-se somente à essa noite onde surgiu a ideia, mas desdobrou-se em outras noitadas, quando a residência do Rubens esteve sem a presença da família, naturalmente. Recentemente (escrevo este trecho em janeiro de 2014 e a referir-me ao ano de 2013), o Rubens mencionou no Facebook que ainda possui essa VHS. Se estiver ainda em condições de ser revertida digitalmente e postada no You Tube, seria muito bom relembrar essa loucura toda, claro, e fazer a ressalva de que seria positivo decupar o material e só postar o que não fosse absolutamente constrangedor, é claro. Foi só uma brincadeira interna, mas todos divertiram-se muito, principalmente eu, que sou cinéfilo inveterado, e brinquei de ser roteirista; diretor e até ator...
Continua...
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Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 53 - Por Luiz Domingues
Como já expliquei no capítulo anterior, relatarei agora dois casos ocorridos mais ou menos entre abril e junho de 1983, mas sem uma data precisa que eu possa mencionar com exatidão. Em ambos, ocorreram desdobramentos, ao torná-los portanto, não fatos únicos de um dia, ou de um momento apenas. Vamos aos fatos : Na primeira ocorrência, recordo-me que o Zé Luiz chegou um dia no ensaio da banda para dizer que um conhecido seu, que não via há tempos, o encontrara, e sabedor que o Zé Luiz estava com uma banda autoral e na labuta, propôs um intercâmbio com a banda que ele estava a tocar, e que também mostrava-se imbuída pelo trabalho autoral. Naquela altura, a viver os dias amargos do Pós-Victória Pub e ao voltarmos à realidade da "terceira divisão" da música, toda ideia nova que surgisse, seria válida e desta forma, por quê não considerar a proposta ?
Dessa forma, o Zé Luiz repassou o nosso interesse oficial por uma conversa preliminar com o rapaz, e verificarmos assim, como nossas respectivas bandas poderiam colaborar uma com a outra. O rapaz veio acompanhado de seus companheiros ao nosso ensaio, e ficamos com uma boa impressão dele e dos demais. Aparentavam ser um pouco mais novos do que nós, e sem dúvida tinham o sonho em dar certo na música, como nós, a nortear os seus esforços. O único senão nessa equação, foi o fato deles definir-se como uma banda "Punk", o que naquela época era bastante discrepante com a nossa proposta artística e vice-versa.
Mas, a relevar essa questão estética, e pelo contrário, a valorizar o fato dos rapazes ser jovens educados, com boa formação cultural e articulados, não havia nenhum cabimento em rejeitarmos a proposta de ajuda mútua, apesar da suposta disparidade das respectivas propostas artísticas. Poderia haver no entanto, reações negativas por parte de terceiros, pois ali no meio do furacão oitentista, a ultra segmentação de tribos foi uma realidade indiscutível, e dentro dessa perspectiva sob animosidades radicais, não seria recomendável que uma banda Punk apresentasse-se no mesmo show com uma banda formada por cabeludos hippies, com nítida orientação setentista, por motivos óbvios, e de nada importaria dizer aos radicais xiitas, que as bandas eram amigas, e respeitavam-se mutuamente, e para ir além, tinham pacto de colaboração. Mesmo assim, alheios aos perigos que poderíamos enfrentar em situações desse nível, prosseguimos a encontrarmo-nos e planejar ações.
Uma primeira oportunidade surgiu quando o Rubens arrumou um contato de um salão localizado no bairro do Sacomã, próximo ao Ipiranga, na zona sudeste de São Paulo. Tal salão estaria por abrir as portas para bandas autorais e do mundo underground, apresentar-se. Naquela circunstância em termos perdido a nossa ótima vocalista, Verônica Luhr, e o embalo construído ao longo de meses a tocar em casas noturnas, precisávamos reinventarmo-nos, e bem rapidamente, portanto, buscar espaços alternativos onde pudéssemos fazer shows autorais, sobretudo, e não em casas noturnas tendo que tocar covers, pareceu-nos ser um caminho sob curtíssimo prazo para reerguermo-nos. E como estávamos em uma colaboração com tal banda do guitarrista amigo do Zé Luiz, claro que tentamos inseri-la nessa perspectiva do tal salão rústico, do bairro do Sacomã.
Fomos lá para conhecer o espaço, e a viabilidade em marcarmos um show, em um dia de semana a tarde. Era realmente um lugar muito rude, em uma avenida com forte circulação de caminhões de carga, pois nos arredores, notamos a presença de muitos galpões de transportadoras etc.
O sujeito que atendeu-nos foi uma figura sem muitos recursos educacionais e culturais, nitidamente. Tratou-se do dito "mal articulado" e dessa forma, a abordagem foi muito prejudicada pelo fato da conversação não encontrar eco, digamos assim, para não ofender ninguém. O pessoal da banda amiga também não apreciou a conversa e então, saímos dali convictos de que não aconteceria nada e convenhamos, duas bandas autorais desconhecidas a fazer show em uma espelunca daquelas, e super mal localizada, tinha tudo para ser um fiasco.
Nessa circunstância, teria sido muito diferente tocar em uma espelunca como o Devil's Bar, no sentido de que se a infraestrutura mostrara-se péssima, igualmente, pelo menos o Devil's localizava-se na rua 13 de maio, onde o agito costumava ser mastodôntico na noite paulistana, ao contrário desse salão remoto, que mais parecia-se com um galpão do Ceasa. Todavia, um fato muito curioso ocorreu nessa visita ao tal salão. Quando já estávamos de saída, ouvimos o som de uma banda a tocar. Foi quando descobrimos que anexo ao salão, havia uma sala de ensaios, ainda que bastante improvisada à moda antiga, com a clássica vedação precária mediante caixas de ovos a forrar as paredes, e ausência de ar condicionado. Portanto, só descobrimos que havia uma banda a ensaiar ali, quando naturalmente, seus integrantes não aguentaram mais ficar trancafiados naquele calor e fumaça, pois naquela época, ninguém cogitava em parar de fumar, mesmo em condições insalubres para tal prática, como essa.
Aproximamo-nos e fomos convidados a assistir um pouco o ensaio da banda em questão, que chamava-se : "Crisálida". E o baixista desse "Power-Trio", era uma figura conhecida no metiér do Rock Paulistano, por ter sido baixista de uma banda que quase ficou famosa nos anos setenta, chamada : "Rock da Mortalha". Seu nome era : Orlando Lui.
Eu inclusive cheguei a assistir um show dessa banda (Rock da Mortalha), em 1978, com bastante público, e ao ar livre, no Boulevard da estação São Bento do Metrô, e minha lembrança desse show foi de que o som deles assemelhara-se bastante ao Black Sabbath, pela densidade e peso. Enfim, o "Crisálida" que ali ensaiava, fazia um som ultra setentista, na linha do Rush, incisivamente, e era ainda mais anacrônico que A Chave do Sol, para aquele ambiente oitentista hostil a tais manifestações explicitamente simpáticas às estéticas do passado.
Pelo pouco que ouvi e vi naquele ensaio, os rapazes tinham um som consistente, muito bem tocado etc e tal, mas mostrava-se um som sem chance alguma para o momento oitentista, até mesmo em termos underground.
Algum tempo depois, A Chave do Sol conviveria bastante com o Orlando Lui, por outras situações e inclusive, esperto, ele também tentou adequar-se ao mundo oitentista, quando buscaria alojar-se com outra banda, mas no mundo do Heavy-Metal. Relatarei tudo na cronologia adequada. Para encerrar, falei sobre muitas coisas e deixei um suspense sobre quem seria essa banda Punk, amiga. A banda, de fato, nunca fez nada significativo, e logo encerraria atividades. O nome dessa banda, era : "Ignose". Apesar desse acordo de cooperação, de nossa parte, essa tentativa no salão medonho que visitáramos, não deu em nada e da parte deles, também nada deu certo, e seus contatos eram apenas sobre bares ainda mais underground dos que A Chave do Sol tinha tocado nos primeiros meses de existência. Após mais alguns telefonemas, o nosso contato dispersou-se, e nunca mais falamo-nos.
Contudo, dois anos e tanto depois, tomamos um susto quando vimos que uma banda, dessas que tinham título de sigla (essa tendência seria uma febre entre os seguidores da onda Pós-Punk), e possuíam sonoridade de plástico, com os seus membros a usar visual de dândis e a fazer caras & bocas como artistas metidos a "avant-garde", estava a ensaiar uma situação de mega exposição midiática.
Sabíamos de sua existência já desde 1984, mas era só mais uma banda com nome de sigla a tocar no "Madame Satã", e casas similares que promoviam artistas dessa seara do Pós-Punk.
Foi quando vimos um show ao vivo, no estacionamento da loja de departamentos, "Mappin", no bairro do Itam-Bibi, muito próximo da residência do Rubens, onde ensaiávamos regularmente. O Zé Luiz reconheceu o guitarrista imediatamente dessa banda, assim que eles subiram ao palco, e foi mesmo o seu amigo que tocava guitarra no "Ignose", em 1983 !
Seu nome era Fernando Deluqui, e sua nova banda que decolava era um tal de RPM...
Logo mais, conto a segunda história curiosa que ocorreu também nesse período entre abril e junho de 1983.
Continua...
domingo, 19 de janeiro de 2014
Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 52 - Por Luiz Domingues
O público aplaudiu bastante, mas sabíamos que tratava-se de uma imensa maioria formada por parentes e amigos, a quebrar qualquer ilusão de que os primeiros meses de labuta da banda, a tocar em casas noturnas, poderia ter formado um público espontâneo com admiradores do trabalho.
Não que alimentássemos tal perspectiva, mas foi uma realidade concreta depararmo-nos com aqueles rostos conhecidos em sua maioria, e de fato, público para valer, só começaríamos a angariar na segunda fase em que a banda entraria, contudo, o que não sabíamos naquela altura, é que apesar do momento de baixa que vivíamos naquela instante posterior à perda da Verônica, e saída do ambiente de glamour do Victória Pub, essa segunda fase (e arrancada para uma consolidação como banda autoral, com direito à exposição na mídia), estava a aproximar-se muito rapidamente !
Quanto ao show no Colégio Piratininga, foi a nossa primeira experiência com o prejuízo financeiro.
O público presente e pagante foi até que razoável para os nossos padrões da época (sessenta e cinco pagantes), mas não deu nem para cobrir a metade das despesas. Tivemos mesmo que abrir as respectivas carteiras, e acertar contas para zerar essa produção, infelizmente.
E
daí em diante, ficamos sem meios para seguir nesse planejamento de
autoprodução, a entrar na primeira crise na história da banda. Isso
por que para voltarmos ao circuito de bares onde havíamos tocado nos
meses anteriores, precisávamos readaptarmo-nos, pois ficáramos sem
vocalista.
Por outro lado, voltar a tocar em casas como Deixa
Falar; Devil's, e Café Palheta's, seria um retrocesso. Uma casa de melhor nível, como
o Água Benta, sem a presença da Verônica, ficara difícil em curto prazo, e no
Victória, acabáramos de ser "gentilmente" despedidos...
Depois desse show, o Colégio Piratininga demonstrou interesse em seu teatro, pois não passou muito tempo, e reformaram o espaço, quando passou a denominá-lo como : Teatro Sadi Cabral, com programação regular de espetáculos musicais, e peças teatrais.
Agora, preciso relatar duas ocorrências curiosas que aconteceram não necessariamente na mesma época em que fizemos o show do Teatro Piratininga. Como não tenho datas específicas, e por considerar-se que tais fatos geraram desdobramentos, portanto não foram ocorrências de um único dia em específico, acho que agora é um bom momento para inseri-las na narrativa.
Continua...
Não que alimentássemos tal perspectiva, mas foi uma realidade concreta depararmo-nos com aqueles rostos conhecidos em sua maioria, e de fato, público para valer, só começaríamos a angariar na segunda fase em que a banda entraria, contudo, o que não sabíamos naquela altura, é que apesar do momento de baixa que vivíamos naquela instante posterior à perda da Verônica, e saída do ambiente de glamour do Victória Pub, essa segunda fase (e arrancada para uma consolidação como banda autoral, com direito à exposição na mídia), estava a aproximar-se muito rapidamente !
Quanto ao show no Colégio Piratininga, foi a nossa primeira experiência com o prejuízo financeiro.
O público presente e pagante foi até que razoável para os nossos padrões da época (sessenta e cinco pagantes), mas não deu nem para cobrir a metade das despesas. Tivemos mesmo que abrir as respectivas carteiras, e acertar contas para zerar essa produção, infelizmente.
Depois desse show, o Colégio Piratininga demonstrou interesse em seu teatro, pois não passou muito tempo, e reformaram o espaço, quando passou a denominá-lo como : Teatro Sadi Cabral, com programação regular de espetáculos musicais, e peças teatrais.
Agora, preciso relatar duas ocorrências curiosas que aconteceram não necessariamente na mesma época em que fizemos o show do Teatro Piratininga. Como não tenho datas específicas, e por considerar-se que tais fatos geraram desdobramentos, portanto não foram ocorrências de um único dia em específico, acho que agora é um bom momento para inseri-las na narrativa.
Continua...
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