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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Autobiografia na Música - Boca do Céu - Capítulo 86 - Por Luiz Domingues

Da esquerda para a direita: Eu (Luiz Domingues), Osvaldo Vicino e Wilton Rentero. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Osvaldo Vicino 

Tivemos uma sucessão de cancelamentos de ensaios motivados por problemas de saúde de todos os representantes do trio de cordas da banda (cada um de uma vez), e também por um problema meu de agenda meu em outra ocasião, quando fui me apresentar com a banda do meu amigo Lincoln Baraccat ("Uncle & Friends"), e em outra data por conta de problemas que o Wilton Rentero teve para resolver em sua casa de praia, motivado pelo mau uso do imóvel, observado da parte de um inquilino dele. Em suma, foram cinco semanas sem grandes avanços no projeto do resgate.

Até que finalmente, nos estertores do ano de 2022, nós conseguimos agendar um ensaio para o dia 30 de dezembro, mais uma vez realizado na residência do Osvaldo Vicino, e desta feita, fechamos mais algumas ideias para o Baião-Xaxado-Rock, "Revirada". Fechado o mapa provisório da música e já a acrescentar algumas ideias para anexar ao futuro arranjo definitivo, ficamos contentes pelos adendos novos sugeridos.

Na mesma configuração da foto anterior. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Osvaldo Vicino

No mesmo dia, trabalhamos um pouco com a bela balada do Laert, "Instante de Ser", mesmo cônscios de que o Laert sinalizara dúvida sobre a harmonia da canção e ainda não surgira uma oportunidade para que ele pudesse rever conosco tal quesito. Entre nós, no entanto, ficou acertado que valeria a pena insistirmos para avançar mesmo com tal pendência, exatamente para que pudéssemos evoluir outros aspectos da criação de um arranjo, notadamente a parte rítmica e a se buscar um padrão de sincronia criativa e complementar entre as duas guitarras.

Ainda ao final do apontamento, o Wilton nos mostrou ao ukulelê, uma ideia para a abertura da canção folk, "Desprogramação", mas na verdade, ele desejou mesmo nos explicar que haveria uma segunda parte para essa abertura, fruto de uma criação sua de muitos anos atrás, para um canção de sua autoria e inédita. Neste caso, ele nos disse que poderíamos usar a parte "A" da sua criação para usarmos como abertura para "Desprogramação".

Na mesma configuração da foto anterior. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Wilton Rentero

Em suma, chegamos ao final de 2022 com o sentimento de que havíamos fechado a parte B do resgate em sua parte bruta de criação de mapas provisórios de trabalho, com a devida ressalva das pendências sobre as dúvidas do Laert a respeito das músicas "Instante de  Ser" e "Desprogramação" (em torno da harmonia ambas), e sim, o Blues-Soul, "1969", que realmente não conseguimos estabelecer um rumo, dada a questão do áudio enviado pelo Laert, ainda em 2021, não ter reunido as melhores condições para que pudéssemos construir um esqueleto harmônico como base. 

E sim, também restou a nossa dúvida sobre o Laert desejar ou não que incluíssemos a música: "Na Minha Boca" nesse repertório, pelo fato desse samba ter sido gravado pelo Língua de Trapo de forma oficial nos anos oitenta, apesar de ter sido uma música nascida dentro da história do Boca do Céu nos anos setenta e dessa forma, todos nós termos o sentimento de pertencimento sentimental desse tema, à nossa banda.

Na mesma configuração da foto anterior. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Wilton Rentero

Dessa forma, ficou combinado de que logo no primeiro ensaio de 2023, nós nos dedicássemos com todo o afinco para eliminar as últimas pendências dessa fase e iniciássemos a parte C do projeto, ou seja, a fecharmos o arranjo definitivo das canções e iniciarmos a fase de pré-produção de um álbum, até que enfim!

Falei aos companheiros sobre essa determinação e nesta altura do resgate, esse horizonte se tornara visível nesse ponto. Dessa forma, eu e eles também, na mesma sintonia, não apenas nos prontificamos a dar esse passo adiante, como ficamos felizes por constatar que apesar da lerdeza imposta por tantos fatores alheios à nossa vontade (pandemia mundial da Covid, agendas conflitantes etc), nós saímos de uma festiva reunião de congraçamento em 2020, para um projeto de resgate inimaginável para uma banda que se extinguira em 1979 sob condições modestíssimas, e que até então, não apresentava nenhum indício de que poderia voltar a gerar novidades em pleno século XXI. 

Osvaldo Vicino e Wilton Rentero a trabalhar. Ensaio do Boca do Céu em 30 de dezembro de 2022. Still de vídeo. Acervo e cortesia: Wilton Rentero

Em suma, já foi uma grande vitória termos chegado até aqui e a perspectiva de coroamento do esforço, já visível nesse ponto, nos animou ainda mais. Que 2023 fosse o ano no qual o legado dessa banda, uma meta tão sonhada naqueles anos entre 1976 e 1979, haveria de ganhar uma dimensão palpável. Sendo assim, estivemos agraciados, nós, os outrora Rockers adolescentes e sonhadores de 1976, e neste ponto, a nos constituirmos de senhores grisalhos no avançar da terceira idade, porém, não menos Rockers convictos do que fôramos nos anos setenta. Os grisalhos esquizóides do século XXI!

Continua

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 63 - Por Luiz Domingues

 
Pois então, o "R" passou da animação inicial a se esquivar ao telefone e assim a nos deixar confusos sobre o seu interesse, ou completo desinteresse. Todavia, aproximava-se a data do Festival Internacional onde estávamos inseridos, e resolvemos apostar em uma chance para ele mostrar se continha condições de representar-nos. 

Talvez tenha sido o nosso maior erro em relação a ele em específico, e também com o festival em si, pois essa tomada de posição gerou constrangimentos no dia do show, conforme relatarei logo mais. 

Antes de falar do show, propriamente dito, preciso dizer que o simples comunicado ao produtor do festival, que teríamos um manager que havia recém fechado conosco, causou um mal-estar. Mas não deveria, pois muito pelo contrário, quando o procuramos inicialmente, o nosso propósito foi o de pleitear que ele nos empresariasse. 

A história do Festival atropelou essa nossa conversação, e como seria também muito interessante para nós, culminamos em concordar com ele, que recusava-se a falar sobre qualquer outro assunto. 

Mesmo com a nossa insistência para deixar claro que queríamos falar sobre a gestão de nossa carreira, ele estava a focar apenas no festival. 

Portanto, ficamos perplexos por ele mostrar-se incomodado, pois durante meses, nós havíamos ficado a aguardar algum sinal dele, mas ele nunca sinalizou claramente se teria um interesse em nós, no momento pós-festival. 

Foi compreensível que estivesse muito atarefado por essa produção, mas bastaria deixar isso claro, fator que nunca sinalizou. E para corroborar essa tese, houve a persona do assistente dele, que forçava a barra para a banda de adolescentes "emo" que apadrinhava, entrasse nessa posição. Também foi algo compreensível que tivesse essa intenção, apesar da fragilidade técnica e artística daqueles garotinhos "emo". 

A seguir, eu falarei sobre a coletiva de imprensa do Uriah Heep, em que fomos convidados a assistir na véspera do show, e que contém histórias boas para contar e até uma micro-filmagem, postada no YouTube, desde 2006.

Continua...

sábado, 19 de setembro de 2015

Autobiografia na Música - Magnólia Blues Band - Capítulo 8 - Por Luiz Domingues


Era o dia 19 de março de 2014 e mais uma noitada do projeto Quarta Blues nos aguardava.

Desta feita, o convidado especial seria Adriano Segal, um cantor de voz potente, boa presença de palco e uma característica especial : estava habituado a fazer apresentações homenageando o Rei do Rock, Elvis Presley.

Com um histórico longo nesse sentido, fazendo shows tributo, claro que tinha o cacoete do velho Presley, e assim, foi uma noite bastante divertida, onde tocamos vários clássicos do repertório desse grande ícone cinquentista, mas também blues; country e Rock'n Roll não necessariamente a ver com o Rei.

Como pessoa, Segal mostrou-se extremamente simpático e cordial.

"Trouble", com Adriano Segal e a Magnólia Blues Band  

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=eOpyEZzPG8g

Digno de nota, a presença de um fã-clube seu, que o acompanha normalmente em suas apresentações pela noite paulistana. 

Predominantemente feminino, para a sua sorte, vibrou com a aparição de Segal ao microfone.
"Reconsider Baby", na interpretação de Adriano Segal e a Magnólia Blues Band

O Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=hEEuTa2QPNA


Sua postura de palco foi bem bacana, e mesmo se esforçando para não exagerar em imitar os trejeitos do Elvis, pois ali não era um show tributo propriamente dito, é claro que o mise-en-scène do Rei do Rock já estava impregnado na sua performance pessoal, e assim, mesmo sendo discreto, deu para perceber tal gestual, em algumas passagens.

Todas as fotos da apresentação com Adriano Segal são de Lincoln Baraccat

Edu Dias apareceu para uma canja sempre bem vinda, trazendo sua gaita e performance divertida na comunicação com o público.

Na semana subsequente, o convidado foi Xando Zupo...

Meu amigo e companheiro do Pedra, claro que seria um prazer ter sua presença ali, e eu esperava que tal participação movimentasse um certo público do Pedra pelo caráter inusitado de dois membros dessa banda estarem atuando numa circunstância diferente, contudo, não foi o que ocorreu, uma pena.

Todavia, isso em nada prejudicou a performance da banda, e do Xando, portanto, nos divertimos muito, naturalmente.
"Train Kept a Rollin", com a Magnólia Blues Band e Xando Zupo

O Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=fvev2btw5Ew



O Blues não é um campo onde o Xando estava acostumado a atuar, mas claro que a banda era também flexível e formada por Rockers, essencialmente, sendo assim, fomos improvisando muito mais Rocks no set list, tornando tudo familiar para todos.

Sobre o Xando, acho que dispensa comentários sobre pessoa e guitarrista, pela obviedade dele ser grande nos dois quesitos, e quem quiser saber mais sobre ele, basta ler os capítulos sobre o Pedra, banda na qual atuamos juntos por muitos anos.
"Smoke on the Water", clássico do Deep Purple, com Xando Zupo e a Magnólia Blues Band

O Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=OIyQNaBUpkk

Então foi isso, Magnólia Blues Band e Xando Zupo atuaram juntos na noite de 26 de março de 2014.  

A se registrar um curioso fato posterior. Alguns dias depois, nas redes sociais da Internet, notadamente o Facebook, muitos comentários de fãs do Pedra lamentando terem perdido essa apresentação, e aquela constatação bem chata para nós músicos, que o oba-oba das redes sociais é inversamente contrário à presença física dessas mesmas pessoas nos eventos...a se lamentar portanto o "mimimi" que ganha contornos de quase deboche por parte de muitos que assim se manifestam.  

E outro fato, e ligado ao que mencionei acima, algumas brincadeiras surgiram, pois o Xando se apresentou trajando uma calça branca, e em tom de pilhéria, comentou-se que ele parecia um "pai-de-santo"...só faltava essa !
Confraternização da Magnólia Blues Band com Xando Zupo, e na linha de frente, sendo abraçado, Paulo Krüger, o baixista da banda Cracker Blues, e amigo em comum de todos da foto.

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domingo, 16 de agosto de 2015

Autobiografia na Música - A Chave/The Key - Capítulo 22 - Por Luiz Domingues


Dois dias depois desse jantar estranho em uma boa cantina italiana do Bexiga, tivemos uma apresentação em um espaço novo que arriscara-se a produzir shows de Rock onde não havia nenhuma tradição nesse sentido.

E a pensar genericamente em fatos dessa natureza, sempre que surge uma iniciativa assim, a cena fica agitada, com o boato a correr entre músicos, produtores, agitadores culturais, jornalistas, e o público cativo em geral.

Claro que aceitamos o desafio e arriscamos a bilheteria, por acreditar que poderia vir a se tornar um novo ponto sustentável para o Rock em nossa cidade.  

Desta feita, foi uma produção do baterista do Harppia, Tibério Correa, que esforçou-se para dar tudo certo, com toda a boa vontade e interesse que um músico de Rock poderia ter nesse empreendimento, mas infelizmente a sua iniciativa não deu o resultado esperado, e logo em seguida a casa fecharia as suas portas para o Rock, infelizmente.

Um dia antes, em 27 de julho, Fábio Ribeiro e Zé Luiz Rapolli haviam concedido entrevista para a emissora Brasil 2000 FM, mas nem assim, com tal esforço extra de divulgação, fez com que tal divulgação nos ajudasse a contar com mais público no referido local.

E a aproveitar a abertura que o programa "TV Mix", da TV Gazeta, estava a oferecer para nós, fomos também lá participar na base de uma rápida entrevista, na verdade, um testemunhal só para reforçar a divulgação dos shows no Dunny's Club e Projeto Leste I.  

É bem verdade que quatro dias antes houvéramos movimentado cerca de seiscentas pessoas ao Centro Cultural São Paulo, e isso quase que anulara a possibilidade de atrairmos uma nova multidão a um local totalmente sem tradição para shows de Rock, e desconhecido, portanto, de nosso público habitual. Então, mesmo sob tal perspectiva sombria, nós fomos ao Dunny's Club, um salão localizado na Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo, e demos o nosso recado para uma plateia com apenas cinquenta testemunhas in loco. Além da pequena frequência de público, o palco e o equipamento não esteve com muita qualidade, portanto, foi um show um tanto quanto sofrido para nós.

E houve uma agravante para justificar a ausência de público: dois dias depois, tocaríamos em um gigantesco espaço na zona leste, chamado: "Projeto Leste I". Com uma propaganda razoável que estava já pelas ruas, portanto, o show nesse clube da Lapa ficara prejudicado entre as nossas apresentações no Centro Cultural São Paulo, e essa do enorme, "Projeto Leste I", portanto, a obscurecer o show para esse pequeno clube da Lapa.

Com abertura na Brasil 2000 FM, Fabio Ribeiro foi fazer entrevista no programa: "Clip Independente" dessa emissora, para reforçar a divulgação. Então foi assim, com apenas cinquenta pessoas na plateia, fizemos o show no Dunny's Club da Lapa em 28 de julho de 1988, e claro, a piada pronta esteve na ponta da língua: "Dane-se clube"... mas quem se "danou" fomos nós mesmos...

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 361 - Por Luiz Domingues


1987 chegou, e a julgar pelos últimos acontecimentos relatados anteriormente, fora por um triz que esse Reveillon não houvera sido o melhor da nossa trajetória até então. Pois o leitor há de se recordar que vivemos os últimos oito a nove meses, de meados de março a dezembro de 1986, sob em clima de euforia progressiva pela sensação de avalanche de oportunidades que se apresentaram diante de nós, a sinalizar claramente que a grande porta de acesso ao mundo mainstream estava a se escancarar.

A nossa queda de energia interna teve mais a ver com a decepção pela falta de força do Studio V, do que outro fator, pois o ano virou e a avalanche de publicações que obtivemos através da mídia escrita, continuara, caso dessa matéria com direito a encarte especial, e resenha da demo-tape de outubro, que saiu em janeiro de 1987, nas páginas da Revista Metal 

No entanto, muito dessa euforia gerada, para não dizer quase toda, havia se arrefecido, quando na metade de novembro, fôramos rejeitados pela Warner. Contávamos com essa contratação, e não é necessário elencar as razões para tal confiança que tínhamos, dada a minuciosa explicação e conteúdo de análise que publiquei nos capítulos anteriores.

Nota na Revista Mix nº 5 (dezembro de 1986), a falar de nossa contratação pelo Studio V

Cabe no entanto, reforçar que tal reação de nossa parte teve uma dose maciça de ingenuidade e certamente falta de noção à época, de como realmente funcionava a engrenagem mainstream.

1) O nosso som não era, nem de longe compatível com a realidade do mundo mainstream. Nem se fosse simplificado ao máximo, ainda assim, tínhamos uma diferença brutal de espectro artístico, com quem estava no andar de cima, por razões meramente estéticas, não técnicas, mas gritantes, outrossim.

2) O nosso visual era fojado ao estilo Rocker, a moda antiga e no ambiente oitentista avesso à essa configuração, por vários fatores, e entre eles o comprometimento com o conceito do niilismo agressivo inventado pelos marketeiros do movimento punk em 1977 (e reafirmado com vigor por seus filhotes, Post-Punkers), não aceitar-nos-iam nunca, sob tal configuração defasada aos seus parâmetros.

Havíamos questionado esse fator no início de 1983, e tínhamos chegado à conclusão de que não valeria a pena fazer tal loucura e sacrifício nessa época, pois então, imagine nesse ponto de 1987, que tínhamos discos, portfólio e fãs? Ou seja, estávamos estigmatizados e de forma irreversível.
O nosso fanzine fazia barulho... motivava até notas em revistas de porte, como a Som Três

Muita gente que aproveitou bem a onda do Br-Rock 80's, esteve ali coadunado com tais preceitos, mas não era, particularmente,  nenhum entusiasta de tal estética. Houve o caso de muitos, até, que tiveram passado marcante no Rock brasileiro dos anos 1970, foram cabeludos, usaram figurinos setentistas sensacionais e mudaram de postura a dançar conforme a música. Foi o caso de artistas como: Ritchie, Lobão, Arnaldo Brandão, Vinicius Cantuária, Lee Marcucci, Antonio Pedro de Medeiros, Lulu Santos, Wander Taffo, Gel Fernandes e muitos outros.

Mas nenhum deles, que eu saiba, fechou com os ideais niilistas. Na percepção de todos, certamente deve ter havido a ideia da adequação para o novo modus operandi da cena Rocker oitentista, para não perder a chance e quem não percebeu isso, ficou no limbo do underground, casos do Made in Brazil, Tutti-Frutti e Patrulha do Espaço, praticamente as únicas bandas setentistas que viraram a década de setenta para a de oitenta, a manter os valores tradicionalistas do Rock, e a pagar o preço caríssimo de ficar à margem de tudo. A própria, Rita Lee, se reinventou Pop e "modernosa" já no ano de 1979 e dali em diante, para muita gente, quiçá a maioria, é a fase da carreira dela que mais gostam...
Foto no gabinete de Miguel, no dia da assinatura do contrato, ainda em 1986. Da esquerda para a direita: Luiz Domingues, Rubens Gióia, Sonia Carlos Magno, Miguel Vacaro Netto, Beto Cruz e José Luiz Dinola

Enfim, somente surfou no sucesso mainstream dos anos oitenta, quem rezou por essa cartilha e nesses termos, a nossa banda esteve fora dessa seara, desde o início, e não seria agora, com uma carreira e, pleno andamento (e muito bem para os parâmetros do padrão underground), que faríamos a loucura suprema de estabelecer uma guinada radical na estratégia e mudar tudo de novo e desta vez, a transformar completamente o nosso som e identidade visual. Seria motivo de chacota geral, tanto no mundo avesso ao nosso, por denotar subserviência, e principalmente no nosso, onde os fãs do nosso trabalho, jamais nos perdoariam. Mas isto é uma mera conjectura, pois na realidade, nem cogitamos praticar uma loucura desse nível.

3) Sob o ponto de vista gerencial, faltou-nos apoio de bastidores.
Figuras sensacionais como Charles Gavin e Clemente Nascimento, tentaram, mas na época, estes artistas ainda não possuíam nem 10% da influência que observam hoje em dia, e eu sei que a sua ajuda na época foi sincera e muito digna, mas na realidade, eles não puderam nos puxar para cima. 


Um outro aspecto nesse item, foi que a linha de estratégia das gravadoras estava fechada tão hermeticamente nesse conceito em prol das estéticas em torno do conceito Pós-Punk, que nada  demoveria os seus produtores, de tal pensamento em manter a mesma fórmula.

Somente alguma força extraordinária, poderia fazer tal encaixe à fórceps. Algo parecido com o que ocorrera com bandas como: Barão Vermelho e Herva Doce, que pouco ou mesmo nada tiveram a ver com a estética Pós-Punk, e mesmo assim, fizeram sucesso mainstream, e sem grandes concessões em seu som recheado por influência antigas proibitivas para os anos 1980, no caso do Herva Doce, ainda mais gritantes.

Nesse caso, um produtor com livre entrada nesse meio, que dominasse tantos contatos na mídia e na indústria fonográfica, simultaneamente, seria a eficaz mão pesada a quebrar bloqueios estéticos, e nos bancar dentro da estrutura dessa máquina do show business, alheios a qualquer obstáculo. Tal manager com esse suposto traquejo para empreender a tarefa, seria o Miguel e ingenuamente, nós acreditamos nessa possibilidade. 

Portanto, a perda de muito de nossa confiança passou por essa decepção com a não tão grande influência que Miguel tinha, aliado ao fato de que na prática, o Studio V nos arrancava o couro com uma taxa absurda sobre os cachets, mas nada houvera feito de bom por nós na contrapartida, em meses de compromisso firmado conosco (para não ser injusto, produziram um único show, no TBC, e já relatado, e atraíram algumas entrevistas de mídia impressa e rádio, mas nada maior do que nós conseguíamos por nossos próprios esforços).

Somados esses dois fatores, falta de resultados de agenda + rejeição em gravadora, é claro que aquela sensação de vitória inevitável, esfarelou-se por entre os nossos dedos. Mesmo assim, ainda tivemos energia para prosseguir. Portanto, 1987 entrou, e nós ainda passamos um tempo a esperar que o escritório nos desse mostras de revitalização, a sinalizar novas investidas em gravadoras, e sobretudo em termos de movimentação da agenda de shows. Portanto, ainda mantivemos a esperança de que eles pudessem reverter o quadro de desapontamento que criaram para conosco.
Continua...

domingo, 21 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 346 - Por Luiz Domingues


Em meio ao turbilhão de oportunidades surgidas na mídia, e shows a cumprir também por conta dessa mesma movimentação, estávamos empenhados na gravação de uma nova Demo-Tape. De certa forma, essa ação foi a mais importante naquele momento de outubro de 1986, pelo óbvio motivo de que tal trabalho poderia ser o nosso passaporte para uma mudança radical na carreira.  

Já falei e reforço, estávamos a cuidar dessa produção por observarmos muitos cuidados para não cometermos os mesmos erros que havíamos cometido na produção da demo anterior, gravada em abril do mesmo ano. A escolha do repertório, por exemplo, tornou-se o primeiro ponto a ser cuidado.

Ao comparar-se à demo produzida em abril, repetiríamos a maioria das escolhas, mas por um motivo muito forte: nessa altura, já tínhamos a convicção de que tais canções agradavam o nosso público, dada a reação que despertavam nos shows.

Esse foi o caso de músicas tais como: "Sun City" e "O Que Será de Todas as Crianças?", peças que eram ovacionadas nos shows, e nessa altura, já ostentavam status como sucessos em potencial para a banda, mesmo que ainda não estivessem gravadas oficialmente em disco.


Portanto, principalmente no caso da segunda canção citada, a escolha dela se justificara por isso, muito mais do que pelo aspecto musical, pois não detinha o apelo Pop que era necessário para abordarmos as gravadoras majors.

Portanto, ao escrever este trecho 29 anos depois (2015), não tenho como não observar que mais uma vez fomos imprudentes, por que se desejávamos entrar no patamar mainstream, tal escolha não fora adequada, mesmo que o nosso público a adorasse, por cantá-la a plenos pulmões.

Sendo muito incisivo, agora, é claro que a demo deveria estar 100% coadunada com o espírito Pop radiofônico, para despertar o real interesse dos executivos das gravadoras, notadamente diretores de repertório, responsáveis por contratações. E certamente que tais senhores, não frequentavam os nossos shows e daí, tal temperatura fervilhante em nosso conceito, haveria por ser retumbantemente ignorada por eles. Sob uma análise fria, de fato cuidamos da segunda demo com maior apuro, mas a distância de apenas seis meses entre uma produção e outra, nos cegou.

A nossa percepção sobre os erros cometidos em relação à primeira demo, não teve distanciamento histórico algum, e ali, no calor da nossa percepção oitentista, achamos que a temperatura das músicas testadas ao vivo, falaria por si só. Foi portanto, mais um grande erro estratégico, e dessa forma, inadmissível, eu diria, pois nessa altura, além do fato de que já tínhamos bastante experiência acumulada, não houve interferência direta nas escolhas do repertório, por parte de quem mais deveria ter experiência dos meandros da indústria fonográfica e da mídia, principalmente a radiofônica.  

Pois o Miguel pouco ou nada interferiu no processo de escolha das canções, e muito menos nos seus respectivos arranjos. Salvo poucas visitas sazonais ao estúdio para inspecionar os trabalhos da gravação, ele não colocou a mão pesada na produção. Na época, comemoramos essa liberdade artística, é claro. Trabalhar tranquilos no estúdio, para fazermos tudo à vontade, foi muito confortável, mas hoje em dia, eu vejo de outra forma, e se houvesse um apuro maior de todos, a nossa história certamente teria sido diferente.

Sobre as escolhas ainda, "Sun City" ganhou um novo arranjo, é bem verdade. Fruto de nossa própria experimentação em relação à primeira demo, cortamos, providencialmente, o excesso de repetições do refrão, decerto um exagero observado na primeira versão. Tal formato prevaleceu posteriormente e na gravação oficial, para o álbum "The Key" (feito no ano posterior, 1987), e assim foi imortalizada.

Como contraponto, cabe ao mesmo tempo dizer que eu fiz a autocrítica sobre os nossos erros de avaliação à época, também ao deixar a ressalva de que uma música como "Sun City" poderia não ser coadunada com o padrão Pop que a "intelligentsia" que comandava a mídia e a indústria fonográfica adotava (e certamente que não o era), mas isso foi um mero paradigma criado pela formação de opinião, pois no caso específico dessa canção, havia todo o potencial para ser absorvido no mundo mainstream.

Se fôssemos norte-americanos, certamente que munidos com uma música desse potencial em mãos, alcançaríamos o sucesso mainstream. Mas aqui no Brasil, a mentalidade acintosamente pró-estética Pós-Punk, adotada monocraticamente nos anos oitenta, deixara o mercado obtuso.

Sem abrir espaço para outras vertentes, o nicho do Rock ficou fechado nessa estética e salvo raras exceções (Inox e o Metalmania de Robertinho de Recife), ninguém que não comungasse da cartilha do Pós-Punk, tinha chances. 

E no caso dos dois artistas que citei, acho que nem o fato deles terem sido lançados em gravadoras majors, quis dizer muita coisa, pois não foram trabalhados por ela, no quesito divulgação. Os seus álbuns foram gravados nessas companhias multinacionais e fortíssimas, mas nada os ajudou a romper o bloqueio para abrir campo para estéticas diferentes e apesar do status que ostentavam por serem contratadas dessas instituições ricas, mais atuavam no underground, como qualquer banda independente, como o nosso caso. 

Para ir além, estar dentro de uma gravadora de grande porte, mas que não faria nada por você, além de bastante frustrante, nos fez pensar que permanecer pequeno, de forma independente ou até a estar subordinado a um pequeno selo como a Baratos Afins, seria uma situação melhor para nós.


Conjecturas a parte, reitero que a canção: "Sun City" teria mesmo que estar nessa segunda demo, pois a despeito da resistência sistemática de aceitação de tal sonoridade por parte dos produtores de gravadoras, ela teve sim, potencial, e não apenas nos shows, isso foi perceptível aos olhos e ouvidos, mas reputo que foi mesmo uma canção que tornar-se-ia um dos grande êxitos na carreira da banda, sem dúvida alguma. Falo mais sobre a demo de outubro, a seguir.

Continua...

sábado, 20 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 341 - Por Luiz Domingues


Superada essa barreira idiotizada, formada por adolescentes abduzidas por marketeiros/formadores de opinião, entramos enfim no recinto. Produtores do programa nos conduziram ao camarim, e ali tivemos a constatação de que o tratamento seria completamente diferenciado entre os astros hispânicos e as bandas reais. Todas as bandas ficaram juntas, alojadas em um camarim simples, apenas com água disponível para todos. Somente ali descobrimos quem seriam os outros participantes convidados. Uma das bandas foi o Hanoi-Hanoi, banda Pop-Rock, que fez um pequeno sucesso mainstream naquela década. 

          O Hanoi-Hanoi em foto promocional dos anos 1980

Tratava-se da banda do excelente, Arnaldo Brandão, ex-baixista d'A Bolha, grande banda de Rock setentista, além de ter sido baixista da banda de apoio de Caetano Veloso no final dos anos setenta. Tremendo baixista que eu admirava por essa ficha pregressa, mas apesar dessa reverência que eu nutria, o Hanoi-Hanoi não me despertava nenhuma motivação, contudo, pois parecia uma banda formada de ocasião, para aproveitar o modismo do BR-Rock oitentista, e na prática, se provou ter sido assim mesmo, ipsis litteris.

Conversamos um pouco com esses colegas, mais na base dos cumprimentos, e fizemos uma ou outra brincadeira sobre a "grande" atração do programa, os indefectíveis menudos, aqueles fantoches manipulados por marketeiros.

A outra banda se colocava quase no mesmo patamar que o nosso, em termos de status, mas dali em diante daria um salto vertiginoso em sua trajetória, a destacar-se do underground, e assim chegar ao mainstream. Em conversa ainda permeada pela humildade, um rapaz louro, com forte sotaque gaúcho, nos apresentou os seus companheiros. O nome da banda nos soou exótico, e na hora, a minha impressão pessoal foi de que se tratava de uma banda satírica, devido ao seu estranho nome: "Engenheiros do Hawaí". 


Engenheiros do Hawaí em seus primórdios, e na formação que dividiu o camarim conosco no Anhembi

O rapaz citado, foi o então desconhecido, Humberto Gessinger, que devo admitir, se colocou de uma forma comunicativa e humilde, apesar de que na época, não haveria mesmo motivo para nenhuma demonstração de soberba, pois a banda era só emergente na ocasião. Porém, sinceramente, pelo que pude detectar ali, o rapaz fora sincero e não demonstrava nenhuma afetação, e por conta disso, eu torço para que no trato pessoal ele tenha mantido tal postura, quando a banda alcançou o mainstream, pouco tempo depois.

Eles foram chamados ao palco, e voltaram a rir muito da histeria com a qual lidaram, mas segundo contaram-nos, o frenesi fora inofensivo e motivado apenas pela motivação das garotas em torno dos chicos internacionais, e isso até os divertira.

A Chave do Sol no camarim do Teatro Mambembe, em julho de 1986. Da esquerda para a direita : Rubens (de costas); Beto, Eliane Daic (nossa produtora), eu, Luiz Domingues, e um rapaz desconhecido (de costas)

Continua...  

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 312 - Por Luiz Domingues


Entramos enfim no segundo semestre de 1986, com o pé no acelerador, em pleno embalo ganho pelos acontecimentos positivos, e somados, principalmente nos últimos três meses.

O próximo compromisso ocorreu em um espaço novo na cidade, que aparecera para cobrir a lacuna deixada pela extinção do Teatro Lira Paulistana na cidade de São Paulo. Tratava-se de um teatro muito bem localizado, muito próximo a uma estação de metrô (estação Paraíso), portanto com toda a possibilidade de se tornar um grande ponto de shows na cidade, e de fato, foi o que aconteceu. Chamava-se: "Teatro Mambembe", localizado na Rua do Paraíso, bem na divisa entre os bairros da Aclimação e Paraíso, na zona sul da capital paulista. 

Logo que abriu as suas portas para o Rock, projetos puseram-se a multiplicar-se, e ali os shows ocorriam geralmente às segundas e terças, nas brechas das peças de teatro, que ali encenavam-se. E nesse contexto, é claro que A Chave do Sol também foi convidada a se apresentar, e a data de 28 de julho de 1986, apresentou-se para nós. 

Estávamos a mil por hora, e o leitor atento se recorda que são muitos capítulos a falar sobre esse período, ocorrido entre março e julho de 1986, como um dos mais intensos para a história da banda, quando muitas conquistas positivas aconteceram e simultaneamente. 

Neste caso, tratara-se de um projeto do produtor de shows, Antonio Celso Barbieri, denominado: "São Power", e que teria a companhia do "Excalibur", cujos membros eram nossos amigos, e já haviam dividido o palco conosco em ocasiões anteriores. Nesse show, tentamos uma experiência ousada, ao fecharmos um set list inteiramente montado com músicas novas!

Foi uma insanidade, mas a surpresa maior veio com a reação do público, a absorver completamente a ideia de uma maneira efusiva. Tempo bom onde um teatro lotava para um show de Rock autoral, e nossa banda sentia-se segura para fazer um espetáculo inteiramente montado com músicas inéditas, sem medo de desagradar o público sedento pelas músicas consagradas, e portanto familiares aos seus ouvidos. 
Nesse show, o Beto tocou guitarra em várias músicas, também.

Bem, o que dizer de um show realizado em um dia útil longe do final de semana, e que mesmo assim teve a proeza de arregimentar quinhentos e cinquenta pagantes em sua bilheteria? E isso por que a capacidade oficial do teatro era de trezentas e cinquenta pessoas aproximadamente, mas pasmem, houve gente amontoada pelos corredores, e nós mesmos voltaríamos a este mesmo teatro e quebraríamos o recorde novamente, em um futuro não muito distante, e que contarei logo mais. 
 

Em fotos desse show, vemos o produtor, Antonio Celso Barbieri (primeiro à direita), e a banda (o roadie, Edgard Puccinelli Filho, entre nós), no camarim, a comemorar a bilheteria robusta, mediante um saco de batatas, literalmente, cheio com notas de "cruzados".

Foi um excelente show, e coroou a ótima fase em que a banda  encontrava-se.


Estávamos bastante afiados, com um novo som que agradava ao público, e o telefone não parava de tocar, com oportunidades. 


E é sobre isso que eu falarei a seguir, com mais três oportunidades que apareceram nesse período: uma de cunho empresarial, outra relativa à uma grande oportunidade para aparecer em um programa de TV, mega popular na época, e a terceira, uma reportagem de página inteira em uma nova revista que estava a entrar no mercado, com contundência.

Teatro Mambembe - 28 de julho de 1986 - Fotos de Maurício Abões 


Continua...