domingo, 21 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 326 - Por Luiz Domingues


Em meio ao turbilhão de oportunidades surgidas na mídia, e shows no meio do caminho, estávamos empenhados na gravação de uma nova Demo Tape.

De certa, forma, essa ação era a mais importante naquele momento de outubro de 1986, pelo óbvio motivo de que tal trabalho poderia ser o nosso passaporte para uma mudança radical na carreira.  

Já falei e reforço, estávamos cuidando dessa produção observando muitos cuidados para não cometermos os erros que havíamos cometido na produção da demo anterior, gravada em abril do mesmo ano.

A escolha do repertório, por exemplo, tornou-se o primeiro ponto a ser cuidado.

Comparando-se à demo de abril, repetiríamos a maioria das escolhas, mas por um motivo muito forte : nessa altura, já tínhamos a convicção de que tais canções agradavam o nosso público, dada a reação que despertavam nos shows.

Esse era o caso de "Sun City" e "O Que Será de Todas as Crianças ?", músicas que eram ovacionadas nos shows, e nessa altura, já tinham status de hits da banda, mesmo ainda não estando gravadas oficialmente em disco.

Portanto, principalmente no caso da segunda citada, a escolha dela se justificava por isso, muito mais do que pelo aspecto musical, pois não tinha o apelo pop que era necessário para abordarmos gravadoras majors.

Portanto, escrevendo este trecho 29 anos depois (2015), não tenho como não observar que mais uma vez fomos imprudentes, porque se desejávamos entrar no mainstream, tal escolha não era adequada, mesmo que o nosso público a adorasse, cantando-a a plenos pulmões.

Sendo muito incisivo, agora, é claro que a demo tinha que estar 100% coadunada com o espírito pop radiofônico, para despertar o real interesse dos executivos das gravadoras, notadamente diretores de repertório, responsáveis por contratações. E certamente que tais senhores, não frequentavam os nossos shows e daí, tal temperatura fervilhante no nosso conceito, era retumbantemente ignorada por eles...

Numa análise fria, de fato cuidamos da segunda demo com maior apuro, mas a distância de apenas seis meses entre uma produção e outra, nos cegava...

A nossa percepção dos erros cometidos em relação à primeira demo, não tinha distanciamento histórico algum, e ali, no calor da nossa percepção oitentista, achávamos que a temperatura das músicas testadas ao vivo, falava por si só. Mais um grande erro estratégico, portanto, e inadmissível eu diria, pois nessa altura, além do fato de que já tínhamos bastante experiência acumulada, não houve interferência direta nas escolhas do repertório, por parte de quem mais tinha experiência dos meandros da indústria fonográfica e da mídia, principalmente a radiofônica.  

Miguel pouco ou nada interferiu no processo de escolha das canções, e muito menos nos seus respectivos arranjos. Salvo poucas visitas sazonais ao estúdio para inspecionar os trabalhos da gravação, não colocou a mão pesada na produção.

Na época, comemorávamos essa liberdade artística, é claro. Trabalhar tranquilos no estúdio, fazendo tudo à vontade, era muito confortável, mas hoje em dia, eu vejo de outra forma, e se houvesse um apuro maior de todos, nossa história certamente teria sido diferente.

Sobre as escolhas ainda, "Sun City" ganhou um novo arranjo, é bem verdade. Fruto de nossa própria experimentação em relação à primeira demo, cortamos, providencialmente, o excesso de repetições do refrão, certamente um exagero na primeira versão. 

Tal formato prevaleceu posteriormente e na gravação oficial, no álbum "The Key"(no ano posterior, 1987), assim foi imortalizada.

Como contraponto, cabe ao mesmo tempo que fiz a autocrítica sobre nossos erros de avaliação à época, também deixar a ressalva de que uma música como "Sun City" podia não ser o padrão pop que a "intelligentzia" que comandava a mídia e a indústria fonográfica adotava (e certamente que não era), mas isso era um mera paradigma criado pela formação de opinião, pois no caso específico dessa canção, tinha todo o potencial para ser absorvido no mundo mainstream.

Se fôssemos americanos, certamente que com uma música desse potencial em mãos, alcançaríamos sucesso mainstream. Mas aqui, a mentalidade acintosamente pró-estética Pós-Punk, deixava o mercado obtuso.

Sem abrir para outras vertentes, o nicho do Rock ficou fechado nessa estética e salvo raras exceções (Inox e o Metalmania de Robertinho de Recife), ninguém que não comungasse da cartilha do Pós-Punk, tinha chances. 

E no caso dos dois artistas que citei, acho que nem o fato deles terem sido lançados em gravadoras majors, quis dizer muita coisa, pois não foram trabalhados por ela, no quesito divulgação. Seus álbuns foram gravados nessas companhias multinacionais e fortíssimas, mas nada os ajudou a romper o bloqueio para estéticas diferentes e apesar do status que ostentavam por serem contratadas dessas instituições ricas, mais atuavam no underground, como qualquer banda independente, como o nosso caso.

Indo além, estar numa gravadora de grande porte, mas que não faz nada por você, além de bastante frustrante, nos faz pensar que permanecer pequeno, de forma independente ou até estar num pequeno selo, como a Baratos Afins, era uma situação melhor.


Conjecturas a parte, reitero que "Sun City" tinha mesmo que estar nessa segunda demo, pois a despeito da resistência sistemática de aceitação de tal sonoridade por parte dos produtores de gravadoras, ela tinha sim, potencial, e não só nos shows isso era perceptível aos olhos e ouvidos, mas reputo ser uma canção que tornar-se-ia um dos grande êxitos na carreira da banda, sem dúvida alguma.

Falo mais sobre a demo, a seguir.


Continua...

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