domingo, 21 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 327 - Por Luiz Domingues


Sobre a gravação da Demo, foi feita sob um clima de muita tranquilidade e descontração.

Primeiro, porque a ideia de ter tempo livre, era algo sensacional e inédito, pois os dois discos anteriores, e as duas demos que fizemos (a de 1984, absolutamente caseira, portanto tinha tempo, mas em condições precárias, sem estúdio), foram com os olhos pregados nos ponteiros do relógio, que insistiam em voar...

Segundo, porque estabelecemos uma amizade muito boa com o técnico contratado do Studio V, o Clovis Roberto da Silva, um rapaz muito gente boa, solícito, e que também se afeiçoou à nossa banda e ao som.

O terceiro ponto, foi que tratávamos esse trabalho com muitas esperanças, como se fosse realmente o nosso passaporte para dias melhores.

A metodologia de gravação foi diferente portanto. Com mais tempo para trabalhar, gravamos no método tradicional "um-por-um". 

Particularmente gosto mais dessa estratégia, pois evita climas psicológicos decorrentes da pressão de se gravar mais de um instrumento ao mesmo tempo e portanto, uma possível irritabilidade ser gerada com os erros uns dos outros, postergando o trabalho e obrigando a banda a realizar muitos takes.

Não há nada mais frustrante do que alguém errar e a sua performance que estava impecável, ter que ser regravada por conta do erro alheio, e vice-versa quando erramos e vemos companheiros desolados em ter que gravar de novo, quando suas performances foram inspiradíssimas.

Sobre as escolhas, como disse no capítulo anterior, optamos por repetir quatro canções da demo de abril, porque acreditávamos no potencial pop de "Solange" e "Saudade". Sobre "O Que Será de Todas as Crianças ?" e "Sun City", já explanei no capítulo anterior.

E acrescentamos duas novidades não gravadas na demo de abril : "Trago você em meu Coração", e "Desilusões".  

O corte de "O Cometa", que não figurou novamente na nova demo, foi por consideramos que uma opção mais pop, e com letra "romântica", seria mais adequado. Hoje, digo que se a intenção era boa enquanto estratégia de marketing, privilegiando o pop radiofônico, eu lamento, pois "O Cometa" era uma canção mais forte, em meu entender.

Somente em relação à "Forças do Bem", cortada, eu concordei na época, e ainda sustento minha opinião, pois esse "praticamente Heavy-Metal" era um anticlímax para se abordar uma gravadora major.

Mesmo seguindo o padrão de arranjos muito próximos da demo anterior, as músicas repetidas sofreram modificações sutis, a meu ver para melhor.

No caso de "Sun City", o corte no módulo do refrão, foi providencial. Das 8 vezes repetidas, causando um enjoo inadmissível ao ouvinte padrão, cortamos pela metade e com quatro, ficou muito melhor.

Pequenas mudanças no solo e contra-solos do Rubens, são realmente sutis. Ele se dava o direito do improviso, claro, mas a grosso modo, fazia tais arranjos pessoais há meses, ao vivo, portanto, estava tudo na sua cabeça, naturalmente.
Acima, link para ouvir "Sun City", nessa versão de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=8wAxNoyMEf8

Sobre "O Que Será de Todas as Crianças ?", o andamento foi executado um pouquinho mais para trás, mas ainda muito rápido no meu entendimento. Na época, achava-o empolgante, mas hoje eu penso que foi o fator que inviabilizou a canção, comercialmente falando. Mais lenta, ficaria sem o ranço Heavy-Metal do Riff inicial muito acelerado, e daria mais balanço nas partes A e B, e sobretudo no refrão, a dita parte C da canção.
Acima, o link para ouvir "O Que Será de Todas as Crianças", nessa versão de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=STAy5CnJKqQ

Em "Saudade", o Rubens acrescentou um belo contra-solo inicial em dueto, enriquecendo muito a canção, sem dúvida, além dos backing vocals que acho que ficaram mais caprichados. Há um excesso de flanger geral na bateria, após o solo. Eu teria deixado nos pratos apenas, e em poucos trechos, não o tempo todo, pensando hoje em dia
Acima, o link de "Saudade", dessa versão de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=ahPbnBV4Tds

Sobre "Solange", o arranjo seguiu ippsis litteris a versão de abril. E mais uma vez, o solo foi feito pelo Beto, usando uma Gibson Les Paul. Acho que tem uma falha terrível no fade out do solo, caindo muito bruscamente e perdendo o último harmônico da nota executada.
Acima, o link para ouvir "Solange", nessa versão de outubro de 1986

https://www.youtube.com/watch?v=41mO3Fo5DAQ

Caramba !! Os quatro componentes da banda, mais o técnico...milhares de audições em cada fase do processo, a mixagem inteirinha, e isso não foi notado ?? Inacreditável !!

No caso de "Desilusões", a aposta no pop, via Rádio Táxi, era visível. Mas mesmo assim, um maneirismo não detectado na época, causa-nos uma contradição. Se em "Saudade", simplificamos muito a cozinha, tocando de forma reta, nesta canção, há um excesso de quebradeiras, um resquício de nossas influências do Jazz Rock. Muito bacana se encaradas sem preocupações mercadológicas, pensando só na arte livre, mas se o objetivo era soar "pop" e impressionar marketeiros, foi obviamente um tiro no pé...
Acima, o link para "Desilusões"dessa demo tape de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=fbRr8Wey21Q

A canção, a despeito disso, tem uma melodia agradável e tinha tal potencial. Gosto de algumas passagens desdobradas onde há uma inserção psicodélica muito legal. Mas claro que foi apenas uma coincidência, pois a despeito de eu amar a psicodelia sessentista, nem eu cogitaria buscar esse caminho, ali nos anos oitenta,onde tal tipo de manifestação era passível de fogueira na inquisição niilista dos Pós-Punkers...
Acima, o link para ouvir "Trago você em meu Coração, dessa demo tape de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=Y1Ds3TxzvX4

Em "Trago você no meu Coração", enveredamos pelo Hard-Rock oitentista. Parecia bastante com o trabalho do Whitesnake, quando também buscou tal caminho de modernização de seu som na mesma época, e era uma espécie de farol internacional a ser seguido, naturalmente, pois nossa similaridade com essa banda britânica residia no histórico, isto é, éramos também uma banda nascida sob padrões setentistas, mas procurando adequação ao mercado, tentávamos mudanças, como eles também passaram para sobreviver no mercado.

Sobre o teor das letras, todas, com exceção de "Sun City" e "O Que será de Todas as Crianças ?" que usaram motivações sociopolíticas, as demais eram românticas e a aproximação com bandas como o Rádio Táxi que usava e abusava desse expediente muito perigoso, foi explícito.

Recentemente, lendo comentários de usuários do You Tube, na postagem da canção "Solange", um rapaz declarou que conhecera a banda há pouco tempo, estava gostando de conhecer nosso trabalho, mas achava as letras muito próximas do "sertanejo". 

De fato, foi bastante complacente, mas espelhou a verdade, e realmente, essas canções da safra 86 de nossa produção, são exageradamente populares e melosas. Se ao menos tivéssemos alcançado o sucesso popular mainstream, se justificariam, mas é engraçado ouvi-las nessa perspectiva de que a banda não aconteceu nesse parâmetro e de certa forma, maculam a obra pregressa.

A respeito do áudio, acho que a condição melhor do estúdio mais novo e equipamento que o anterior, que usamos para gravar a demo de abril, não ajudou-nos decisivamente a ter um produto mais bem acabado em mãos.

Nem mesmo a atenção do técnico Clovis, sempre solícito para conosco, nem mesmo o tempo hábil mais elástico, e ainda por cima a possibilidade de caprichar mais, e evitar erros da anterior.

A grosso modo, a mixagem geral das quatro músicas ficou muito estridente, com excesso absurdo de agudos. Com voz e guitarras muito altas, perdeu a definição do baixo e consequentemente o apoio dos graves. Em alguns momentos, chega a irritar os solos altos em demasia, somados aos agudos estridentes e o mesmo em relação à voz.

Faltou peso no bumbo e tons, portanto, o agudo estridente também prejudicou o som final da bateria, com pratos e chimbau prevalecendo.

Também acho que a concepção das linhas melódicas (que eram boas, pois o Beto era bastante criativo para concebê-las), prejudicou-se com o registro muito alto para a sua voz. Começando a parte A, já bem alto, quando chegava no ápice do refrão, subia ainda mais, e tirava muito do potencial que teriam se cantadas em um tom mais baixo.

Outro erro, a meu ver, foi a pouca utilização de Backing Vocals. É bem verdade, que nesse quesito o Beto pegava muito no nosso pé, para fazermos mais participações vocais e encorparmos a vocalização da banda.

Ele tinha razão, certamente, pois teria ficado muito melhor se tivéssemos participado mais nesse arranjo.

De minha parte, minha relutância em cantar, era por dois motivos :
1) Achava que minha voz tinha timbre feio, e;
2) Não queria ficar preso num pedestal de microfone tendo que cantar durante o show inteiro, pois privilegiava a movimentação frenética no mise en scene de palco.

Só a partir do projeto Sidharta, em 1997, forcei-me a cantar com regularidade, e depois da Patrulha do Espaço, de 1999 em diante, tomei o gosto de fazer Backing Vocals com regularidade e de fato, melhorei muito nesse sentido.

Mas calma, leitor...estou falando de aspectos negativos para ser muito sincero e minha autobio ter senso crítico, portanto. Mas claro que também existem os aspectos positivos.

Pequenos erros à parte, as canções tem seus méritos musicais, e no quesito letras, duas pelo menos, também são apresentáveis, embora questionáveis em alguns aspectos (Sun City se "autocarimbou", datando-a, por exemplo).

São melodias e riffs bacanas, solos sem concessões, deixando a marca Rocker num contraponto com o Pop. A cozinha bem tocada e mesmo nos momentos comedidos, saliente etc etc.
Lamento mesmo o excesso de agudo na mixagem final, e a voz exageradamente alta, que incomoda em alguns momentos. A ideia do Clovis, e nossa pelo objetivo que almejávamos com esse trabalho, era quase a de alcançar o clássico padrão da MPB, onde a voz é colocada absurdamente alta, privilegiando a cultura tupiniquim de valorizar melodia e interpretação de cantores.

Tudo bem, como já disse, tal prerrogativa era uma tática para se buscar uma vaga no mainstream, mas no caso da Demo, acho que exageramos na dose.

Claro, minha análise vinte e nove anos depois (escrevendo e publicando em 2015), tem o peso da experiência adquirida; o distanciamento histórico etc.

Na hora em que ficou pronta, nada disso nos ocorreu e achávamos que tínhamos um produto bom em mãos, e pronto portanto, para servir de cartão de visitas nos esforços do Studio V, para nos colocar dentro do cast de uma gravadora major...e fim de papo.

E não diga não !!
Continua...

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