sábado, 27 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 348 - Por Luiz Domingues


Chegamos ao primeiro dia da temporada, bastante confiantes de que boa, pois o local era nobre, com sua localização privilegiada na cidade de São Paulo, acoplada à uma estação de Metrô, e muito perto de ruas e avenidas que dão acesso à várias vias que levam aos quatro cantos da cidade, caso da Avenida 23 de maio, por exemplo.

Era sempre um prazer tocar ali, pela qualidade das suas instalações, equipamento de bom nível, e a badalação que tinha à época, como um dos mais fortes palcos da cidade, com apresentações de artistas consagrados de diversas vertentes da música.
O jornalista que redigiu essa mini matéria, só copiou o release que enviamos, mas criou um primeiro parágrafo seu, não resistindo à tentação de alfinetar-nos, destilando seu veneno oitentista...tirem suas conclusões... 

Fora isso, o prazer de estar em cartaz com cinco dias consecutivos, era total. Na minha concepção, era o ideal como músico e artista, estar em cartaz num teatro e em temporada. Se dependesse de mim, faria só isso, eternamente...sete shows por semana : quarta a domingo às 21 horas + "Sessão Maldita" no sábado, à meia-noite + Matinê no domingo, às 17 Horas.

 

O soundcheck foi tranquilo, sem atropelos. Trabalhamos com os técnicos da casa e não tivemos problemas. No caso da iluminação, para não deixar passar batido, acho que o iluminador foi um pouco preguiçoso, mas isso é quase uma constante em se tratando de iluminadores que não conhecem o trabalho e portanto, estão sem mapa de luz definido. O ideal é sempre levar o iluminador próprio que sabe valorizar ao máximo o trabalho de uma banda, estabelecendo climas que casam-se com os momentos emocionantes do show, traduzindo portanto em cores, as notas musicais que tocamos.

Foram cinco dias muito legais que tivemos ali no Centro Cultural São Paulo.


Pudemos nos dar ao luxo de promover pequenas mudanças no set list de cada apresentação, e dessa forma, quem pagou para ver um show apenas, teve um espetáculo único, diferente dos outros. E quem viu mais de um, foi presenteado com músicas diferentes, naturalmente.

Uma lembrança engraçada, foi quando Sonia e Toninho nos disseram que o Agildo Ribeiro estava presente na plateia, no show da sexta-feira. Sabendo disso, fiz uma saudação ao ator-comediante, mas na empolgação, acabei exagerando e meu discurso foi bem além da conta...

Exaltei suas qualidades como comediante e o exagero se deu quando mencionei que a Rede Globo o injustiçara, e sendo assim, hoje me arrependo de ter exagerado, entrando nesse mérito, que certamente não convinha naquele contexto.

No camarim, Sonia agradeceu-me pela longa citação ao Agildo, mas contou-me que na hora em que falei ao microfone, ele já havia se retirado do ambiente... 


Certamente não aguentara assistir um show de Rock e saiu para preservar seus ouvidos, talvez indo procurar seu amigo, Topo Gigio, para lhe dizer boa noite...

Portanto, bola fora duplamente para o meu momento prolixo e inconveniente ao microfone.

Fora isso, não me recordo de nenhum acontecimento marcante para ser relatado em específico.

Minha lembrança dos shows, é que foram muito bons, com o público respondendo animadamente à nossa performance e também às solicitações de interatividade propostas pelo Beto, principalmente.

Por falar em Beto, ele tocou guitarra nos shows, claro, uma tendência que solidificava-se doravante.

A se destacar, o visual do Rubens nesses cinco shows, pois numa ação de sua namorada na ocasião, chamada Claudia, deu-lhe uma incrementada no seu visual, como personal styler, e adequou-o ao visual do Hard-Rock oitentista e americano, sobretudo. Particularmente, achava exagerado e de gosto duvidoso, mas admito que a tentativa foi válida, e aos olhos dos fãs, agradou, pois a imensa maioria que nos acompanhava na ocasião, eram adeptos dessa estética em voga, no mundo do Rock pesado oitentista.
Devo destacar que nessa época, 1987, o Centro Cultural São Paulo tinha elevado o palco, mediante uma estrutura de ferro dando sustentáculo. Logo foi descartada, no entanto, com o palco voltando ao piso normal. As fotos acima, demonstram como ficou tal elevação. De fato, isso nos deixava um pouco mais próximos de quem assistia no mezanino, mas prejudicava bastante a visão de quem pagava para assistir no pavimento de baixo, onde entre outras coisas, a acústica é melhor para se curtir um show.

O público foi bom, mas creio que aquém do que esperávamos, pois nosso padrão à época era o de casas lotadas. Dois fatores devem ter colaborado para tal resultado mais tímido :
1) A divulgação feita às pressas, e;
2) A diluição em muitos dias, fazendo com que o público perdesse o foco, se dando ao luxo de escolher suas próprias conveniências, pensando individualmente, é claro.

Eis os resultados dessa temporada :

Dia 11 de fevereiro de 1987 - Quarta-Feira - 150 pessoas
Dia 12 de fevereiro de 1987 - Quinta-Feira - 135 pessoas
Dia 13 de fevereiro de 1987 - Sexta-Feira - 280 pessoas
Dia 14 de fevereiro de 1987 - Sábado - 420 pessoas
Dia 15 de fevereiro de 1987 - Domingo - 500 pessoas

Portanto, quase 1500 pessoas na soma dos cinco shows, era significativo, sem dúvida.
Acima, um dos pontos de explosão, prontos para serem usados como pirotecnia do show. Como dá para notar na foto, Zé Luiz o sofisticara...

E tais números se refletiram na bilheteria, de forma contundente, fazendo-nos lamentar o contrato que tínhamos com o Studio V, por tudo o que já comentei amplamente em capítulos anteriores, e que agora só me resta relembrar : 40 % desse montante, iria para a mão deles...definitivamente, não queríamos mais essa sangria na nossa vida, e tal situação precisava ser solucionada e rapidamente.

Lembro-me que a bilheteria fora tão gorda, que pagamos todas as despesas (e nesse show arriscáramos bastante com ações de divulgação caras); demos os 40% do escritório; pagamos os roadies e o que sobrou de cachet para nós foi um montante bastante significativo. Nunca me esqueço, por conta da hiperinflação no Brasil naquele período, entre 1986 e 1991, tudo o que eu ganhava, trocava em dólares, única forma de preservar a liquidez monetária razoavelmente. 

Na segunda-feira após o encerramento dessa temporada, fui à casa de câmbio que frequentava na época e o meu cachet tornou-se algo um pouco além dos U$ 400, ou seja, se não tivéssemos mais a âncora desses empresários a nos segurar, teríamos ganho quase o dobro, com o mesmo desempenho, e nada dependendo da força de trabalho deles.
Todas as fotos desses shows, são de Maurício Abões, com exceção das duas acima, de Rhadas Camporato. No caso das em preto e branco, deixo a ressalva que foram "scanneadas" de um contato, daí a falta de qualidade acentuada

Portanto, romper era preciso, mas não foi tão fácil nos livrar-nos deles, demandando um pouco mais de paciência e tempo.

E assim foi a nossa mini temporada no Centro Cultural São Paulo, em fevereiro de 1987. 

Continua... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário