segunda-feira, 22 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 338 - Por Luiz Domingues


Nesse novo panorama, onde as bravatas não soavam mais pelos corredores do escritório, começamos a substituir nossa euforia pelas apreensões.

Sonia e Toninho só pensavam no comediante famoso; Miguel nos evitava; e somente Arnaldo Trindade, nos dava ouvidos e conselhos.

Arnaldo era um cara legal, não nego, mas naquela hierarquia, não tinha o poder de comando, e na real, agia mais como um psicólogo, quiçá padre, ouvindo nossas queixas e tratando de jogar toalhas quentes sobre elas, mais preocupado em coibir tumultos eventuais que poderíamos causar ali dentro.

Contra o comediante, não tínhamos absolutamente nada contra. Particularmente, eu era seu fã pelos seus personagens engraçados encenados em programas humorísticos da TV.

E quanto ao português afetado, nessa altura, mal frequentava as dependências do casarão mais. 

Lembro-me que chegaram a vender um show dele em Curitiba, onde a Eliane Daic chegou a viajar na comitiva, tendo trabalhado como produtora nessa aventura e claro, fora uma apresentação pífia, sob a vergonhosa ação do play back, numa casa noturna. Enfim, que tivesse boa sorte na sua carreira. 

Dessa forma, queríamos que mostrassem mais serviço, visto que estávamos cansados de ver a falta de resultados significativos, a não ser pequenas entrevistas agendadas em órgãos pequenos de imprensa, ou do mundo brega, e tais pequenas ações já não poderiam nos contentar.

Dessa forma, enfim sinalizaram com algo concreto, que parecia ser uma boa oportunidade de testar sua capacidade de produzir algo, e não ficarem sentados esperando os nossos contatos próprios captarem oportunidades, e sobretudo a formação de uma agenda.

A sinalização veio da Sonia, que disse-nos que o lendário TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), estaria disposto a ceder uma de suas cinco salas de espetáculos, para nós produzirmos um show.

Histórico templo do teatro paulista/paulistano e do Brasil, tinha / tem uma história espetacular nesse campo, mas pouca tradição em shows musicais, a não ser eventualmente peças de teatro de teor musical.

Mas show musical propriamente dito, não.

Ok, nos animamos, pois seria muito chic tocar num palco histórico da cultura nacional, onde uma série incrível de peças e atores famosos atuaram com grande brilho.

Finalmente uma ação concreta do Studio V, em termos de show, e da Sonia, que tanto alardeava ter muita experiência no meio teatral, mas que na prática, só havia nos arrumado pequenas entrevistas e notas na mídia impressa, e uma entrevista de rádio, até então.

Hora boa também para testar o poder de fogo do Studio V, no que eles supostamente tinham de mais forte : a influência de Miguel como grande radialista que foi, portanto usando de seu prestígio para alavancar uma divulgação exemplar, na base da amizade & conhecimento, com custo praticamente zero.

E hora também da Sonia somar, com seus conhecimentos de outro tipo de mídia, baseada em sua experiência no meio teatral, mundo da TV etc. 

Dessa forma, nos reanimamos, apaziguando um pouco a queda de euforia que sofrêramos por conta da rejeição não digerida por parte da Warner; rejeição de Rita Lee & Erasmo Carlos; desconfianças sobre o desempenho do Studio V, etc.

Nesse ínterim, fomos conhecer finalmente o Agildo Ribeiro, no seu camarim, logo após o encerramento de um monólogo seu (hoje em dia gostam mais de se referir à esse tipo de espetáculo de humor, em sua alcunha americana, "Stand up Comedy").


Estava em cartaz numa das salas do próprio TBC, e claro, isso explicava o porque da Sonia aventar uma data para nós nesse histórico teatro.

Agildo foi extremamente simpático conosco. Claro, foi um momento breve, pois tínhamos o "semancol" de artista também, de saber que no pós show, é de bom tom não abusar de uma visita ao camarim, quando o artista está esgotado após a performance e precisa descansar.

Fato, seja lá qual for a área, o palco esgota, mesmo que a performance seja comedida, caso de músicos eruditos que tocam sentados lendo partituras. O simples fato de haver público, já gera uma energia de expectativa, que repercute e muito no emocional e no físico de qualquer artista.

Quando não há sinergia, então, essa energia é ainda mais desgastante, sugando, literalmente a vitalidade de quem se apresenta.


Não vimos o espetáculo, mas em janeiro, convidados por ele mesmo, o assistimos, desta feita num teatro de menor porte, mas conto isso depois.

Agora, o empenho final de 1986, seria esse teste múltiplo que teríamos, pois alguns fatores seria analisados :
1) A capacidade do Studio V em produzir o espetáculo;
2) A viabilidade do TBC se transformar num novo ponto de shows de Rock, na cidade
3) Se conseguiríamos demonstrar reação ao baque sofrido pela rejeição em relação à uma gravadora major.

Era um alento, para continuarmos confiando no Studio V, e isso amenizava a sombria desconfiança de que eles também haviam desanimado com o resultado da Warner e não tentariam outras companhias.


Continua...

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