sexta-feira, 19 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 304 - Por Luiz Domingues

A nossa querida sala de ensaios, na residência da família Gióia, em foto de 1983.

Diante dessa perspectiva, ficamos muito seduzidos pelo uso do estúdio, embora tivéssemos assegurada a nossa histórica sala de ensaios na residência da família Gióia.

Não era nem pela questão do espaço em si, mas pelo salto de qualidade, porque apesar de ser nosso QG, e um verdadeiro lar (e que nos abrigou, gerando inúmeras histórias e lembranças maravilhosas), desde os primeiros dias da banda, no já longínquo 1982, era óbvio que num estúdio novo em folha, com equipamentos e possibilidade de gravação sem preocupação com o relógio, teríamos tal acréscimo na melhora do nosso áudio.

E também fomos seduzidos pela possibilidade de concedermos entrevistas numa sala muito confortável e específica para tal função, dando-nos a impressão que estávamos dando um salto vertiginoso na carreira.

Diante desses fatos, tínhamos a impressão que nosso grande "momentum" chegava afinal. 

Estar usufruindo de uma estrutura dessas, mesmo sem ainda termos assinado com uma gravadora major, denotava que tal negociação era questão de tempo, não só pelo status adquirido, mas pelos contatos que diziam ter, e no caso do Miguel, era mais do que certeza de que realmente os tinha.

Outro fator que amplificava tal sensação, era o próprio volume de oportunidades geradas pela própria banda. Se o telefone estava tocando espontaneamente em grande profusão, nos ofertando oportunidades, como não poderíamos acreditar que com o trabalho de um triunvirato de empresários com tal infraestrutura, isso não se amplificaria de uma forma absurda, nos levando ao mainstream como um rojão ?

Nesses termos, avisamos à Sonia, que duas revistas musicais de grande porte, e circulação nacional, solicitaram entrevistas exclusivas.

Claro que ela adorou, e prontamente nos autorizou a marcar as entrevistas naquela sala ampla.

Apesar da pompa e circunstância, iríamos lidar na verdade, com dois jornalistas que eram amigos pessoais nossos, portanto, mesmo representando as duas maiores revistas de música do Brasil à época, todo o approach era informal ao extremo.

Mesmo assim, recebê-los dessa forma, mostraria à ambos que estávamos dando um salto e certamente que eles gostariam da nova, em off, como amigos e formalmente, nas respectivas entrevistas, isso ficaria nas entrelinhas.

Pois então, as entrevistas foram marcadas. 

Uma seria com o jornalista Antonio Carlos Monteiro, para a revista Roll, e a outra para Leopoldo Rey, que representaria a Bizz, mas em sua edição alternativa, Bizz Heavy, recentemente lançada nas bancas.

Recebemos ambos em dias diferentes, na propagada estrutura do casarão do Studio V.

Primeiro foi o Tony. Super amigo da banda desde 1984, o Tony era um admirador confesso da nossa banda, e sempre que podia, além de nos enaltecer em resenhas de shows e discos, alfinetava as gravadoras, a quem acusava de serem "cegas; surdas, e mudas" ("Tommy, can you hear me" ??), por nos ignorarem retumbantemente.

Para ele, apesar da tendência da indústria fonográfica ser a da monolítica aposta no Pós-Punk, A Chave do Sol tinha qualidade e potencial pop para se impor no mainstream, claro, fazendo algumas concessões inevitáveis.

Quando adentrou o casarão e viu a estrutura, principalmente o estúdio novinho em folha, ficou muito contente com a novidade, como um amigo da banda que sempre foi. 

Em off, ele nos cumprimentou com entusiasmo, pois também vislumbrou que era o impulso que nos faltava, e acrescentou que tinha a lembrança da atuação do Miguel como radialista, homem de TV, produtor de gravadora e empreendedor, ao criar o "Clube do Disco", uma empresa que teve uma relativa magnitude no mercado fonográfico, certamente.

Com tais elementos, tinha tudo para dar certo, e na visão dele, era realmente o que nos faltava para enfim, chegarmos "lá".

E ainda havia o casal Sonia e Toninho, que ele não conhecia, mas nós lhe adiantamos que eram experientes no meio teatral (bem entendido, baseados no que nos diziam), e que por conta disso, tinham muitos contatos na mídia. Enfim, tratava-se aparentemente de um reforço considerável.

A entrevista foi ótima, como seria de se esperar vinda de um jornalista do calibre do Tony Monteiro. Ela teria sido ótima, mesmo se tivesse sido realizada numa mesa de uma lanchonete, ou no velho quartinho que usávamos na residência Gióia, como nossa sala de ensaios.

Mas revestida dessas circunstâncias novas para a banda, teve outro sabor para nós, e para o próprio Tony Monteiro, sem dúvida.

Isso deixava a empresária Sonia ainda mais eufórica, pois estávamos "explodindo", e em conversas reservadas, o próprio Miguel havia afirmado para Sonia e Toninho, que o escritório havia achado uma "joia já lapidada e sem dono", e que dessa forma, precisariam fazer alguns poucos movimentos pontuais apenas, visto que já estávamos prestes a "acontecer"...

Como não poderíamos embarcar na euforia, entre nós quatro, membros da banda, nesses dias ?

Sobre a outra entrevista falo a seguir, e cabe uma história...

Continua...

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