domingo, 21 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 325 - Por Luiz Domingues


Ainda falando sobre ocasiões sociais em que nos inserimos, finalmente o Studio V nos colocou numa situação armada por eles.

Antes de falar disso, é preciso retroagir um pouco.

Quando fomos abordados pela primeira vez, e nos disseram que haviam outros artistas de outras correntes musicais, contratados pelo estúdio, na verdade não havia ninguém.

Já comentei que tal realidade tinha significados subliminares.

Mas eis que por volta de outubro, Sonia e Toninho nos comunicaram eufóricos, que haviam contratado um "astro" internacional, e que tal artista "consagrado" não precisava de muito empenho para acontecer no Brasil, e que pelo contrário, nós seríamos beneficiados, apanhando carona no seu rastro de sucesso.

Nós estávamos esperançosos que o Studio V nos proporcionasse uma abertura grande, mas não seria por conta disso, a não ser que tivessem contratado um astro de real grandeza da música pop...quem seria ? Rod Stewart ?

Então, eis que surge a figura de um cantor português chamado Michael Olivier (peço perdão ao leitor, mas não há uma linha sequer sobre esse artista na Internet, portanto, fico devendo fotos ou maiores esclarecimentos sobre sua carreira).

Figura espalhafatosa, e engraçada pelos trejeitos e maneirismos histriônicos, chegou com bastante soberba, falando de sua carreira internacional; shows em casinos europeus, casas noturnas badaladas do jet set daquele continente etc etc.

Seu som era um Pop bem "bregalizado", que lembrava muito artistas nacionais similares, alguns entre os quais, que o próprio Miguel havia produzido nos anos setenta, quando foi executivo da gravadora RGE, gerindo um selo como a "Young".

Cantava em inglês e francês predominantemente, mas português, também, é claro.

A julgar pela produção de áudio; estética, e nível artístico dos compactos simples que nos mostrou entre seus lançamentos na discografia, era mesmo difícil acreditar que nos beneficiaria de alguma forma. 

O que poderia nos proporcionar ? 

Entrevistas em programas de emissoras de rádio AM ? 

Programas popularescos de TV, estilo Gugu Liberato (acabáramos de fazer algo assim, espontaneamente, "abrindo" o Menudo, portanto, o que ele nos agregaria...) ?

Essa chegada dele ao cast da produtora, não tirou o nosso entusiasmo nessa época, mesmo porque sentíamos a euforia de ver a nossa banda subindo pelas próprias forças, mas certamente que acendeu uma pequena luz amarela, pois o sujeito era bastante antagônico, artisticamente falando. E nesses termos, uma coisa é ser eclético, e outra, muito diferente, é não ter noção alguma das disparidades que poderiam até provocar um mal estar em relação à estratégia da produtora.

Enfim, nada podíamos fazer, pois éramos apenas contratados e não os executivos e estrategistas da instituição. 

O tal Olivier, era também engraçado, não posso negar. Sua arrogância patética, aliada ao sotaque lusitano castiço, bem carregado, e trejeitos efeminados, provocavam uma série de situações muito engraçadas nos bastidores do casarão do Studio V.

E como estávamos frequentando-o diariamente, ensaiando e gravando a demo-tape, era inevitável que o víssemos diariamente, também.

Infelizmente, sua atitude para conosco, foi de ciúmes explícitos.

Nos chamava de "Rockeirinhos insignificantes brasucas", e não pelas costas, mas o tempo todo, diretamente para nós. Era tão patético e engraçado, que ríamos. Nunca ficamos com bronca dele por conta de tais hostilidades, e nem mesmo ao saber que em conversas reservadas com Sonia e Toninho, tinha chiliques histéricos, exigindo que eles nos despedissem, para focar seus esforços na sua carreira.

De tanto que era afetado, e nós não esboçávamos reagir com contrariedade, percebeu que era inútil se portar como uma criança mimada de cinco anos de idade, e algum tempo depois, amenizou seus ataques, e chegou até a ficar quase simpático conosco.

Clovis, o técnico de som que trabalhava conosco nos ensaios, e na produção da demo tape, não acreditava nas coisas que o português falava ali, e ria muito das brincadeiras, principalmente que o Beto fazia para neutralizar os ataques do "gajo".  

Certa vez, entrou no estúdio com uma revista Playboy em mãos e exibindo-nos o poster da garota do mês, executou a seguir uma performance "sensual", dançando de forma lasciva e feminina, para nos provar que ele era muito melhor que ela, a peladona da revista...e saiu aos gritos que ele era mesmo, melhor. Foi difícil voltar a ensaiar depois disso, dada a epidemia de gargalhadas que tal ato patético, gerou...

Ele tinha duas filhas, que eram jovens e muito bonitas. Faziam Backing Vocals nas apresentações do pai, mas nitidamente sentiam vergonha de seus excessos.

Então, feito esse aparte retroativo, volto ao início do capítulo, quando mencionava um acontecimento social perpetrado pelo Studio V, onde fomos inseridos a participar.  

Sonia armou um cocktail para anunciar publicamente o cantor lusitano como novo contratado da produtora, e lá fomos nós ao Caesar Park Hotel, um hotel de luxo na rua Augusta, participar disso.

É verdade, ela conseguiu levar uma quantidade bem significativa de jornalistas para cobrir o evento. Esmagadoramente, eram setoristas de TV, acostumados a acompanhar esse espectro artístico de atores de novelas, e cantores brega do mundo dos programas popularescos e estações AM de rádio.

Mas era o tal negócio : não rejeitávamos nada e assim, não tínhamos preconceito de estarmos também nesse mundo, desde que não interferissem na nossa música e visual.

O cocktail foi bem produzido, não posso negar (considerando a recepção dos convidados; comes & bebes), e o salão de festas desse hotel era bem bacana nessa época.

Contudo, a apresentação do cantor, acompanhado de suas filhas, foi bastante constrangedora. Primeiro porque foi na base do abominável "play back".

O segundo ponto, sem um palco propriamente dito, mas um tímido praticável, talvez conveniente para um discurso de um palestrante, apenas, mas ridículo para uma apresentação musical, mesmo informal, e nessas condições de playback.

Em terceiro lugar, pela ausência de uma iluminação, mínima que fosse, pois na luz branca ambiente, tornou a performance ainda mais difícil de se suportar.


Alheio à isso tudo, o cantor "soltou a franga" para interpretar sua música pop brega e insossa. Suas filhas, que chamavam a atenção pela beleza, estavam muito constrangidas, e ainda mais quando seu pai lhes exortava a se entregarem mais à performance, e até que sensualizassem, coisa que se recusaram a fazer. 

Não dava para acreditar que estavam eufóricos em contratar um artista tão duvidoso assim, mas o fizeram.  

Pouco tempo depois, contratariam outro, não da área musical, mas este realmente famoso e com seus muitos méritos. Desta feita porém, ficou claro que este ator/comediante seria tratado como a estrela da companhia. Depois que gravamos a demo, e os procedimentos de entrega do material à gravadora Warner foram formalmente feitos, essa prioridade com tal artista escancarou-se definitivamente.

Falarei sobre ele e outros fatos correlatos de outubro, nos próximos capítulos.


Continua...

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