sexta-feira, 26 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 347 - Por Luiz Domingues


Com a perspectiva de uma mini temporada, no Centro Cultural São Paulo, nos animamos bastante e também nos preocupamos, pois o tempo hábil para fazer uma divulgação convincente, era mínimo.

Já estávamos pensando seriamente em romper com o Studio V, pela inoperância do escritório e mais uma vez, tocaríamos num palco nobre da cidade e sob convite espontâneo, sem a interferência deles, portanto, reforçava-se a ideia de que qualquer que fosse o resultado da bilheteria, ter que doar 40% do montante para eles, era caro demais sob qualquer argumentação plausível.

A julgar pelo clima de fim de feira que o escritório apresentava internamente, acreditávamos que a rescisão do contrato seria amigável, sem chance de nos cobrarem multas, e convenhamos, só faltava essa...

Contudo, em conversa preliminar com o casal, eles deram a entender que estavam surpreendidos com nossa insatisfação e sinalizaram que após a mini temporada no Centro Cultural São Paulo, conversaríamos e eles nos demoveriam dessa resolução, pois tinham planos & perspectivas para nós etc etc.

Papo adiado pela circunstância, mergulhamos então na tarefa de promover uma divulgação rápida, o melhor que poderíamos fazer, pois queríamos aproveitar ao máximo o fato de termos uma mini temporada nesse palco, que era bem badalado nessa ocasião.

Sonia e Toninho resolveram mostrar serviço e nos falaram sobre a necessidade de capricharmos mais na divulgação e assim, gastarmos dinheiro.

Mas "pero no mucho", sua ajuda seria...

A banda tinha uma pequena reserva de caixa, graças aos cachets ganhos em dois shows que fizéramos fora de São Paulo em janeiro, portanto, numa eventualidade negativa, poderíamos honrar compromissos.

Então arriscando, resolvemos colocar lambe-lambe nas ruas; bancar tijolos em jornais de grande circulação, além de colocar o mailing do fã clube para o correio, que era desde 1984, o nosso mais eficaz fonte de divulgação.

Também foi ventilada a necessidade de uma sessão de fotos atualizada. Estávamos usando fotos promocionais tiradas em outubro de 1985, com produção pobre, feitas num estúdio fotográfico de bairro, não acostumado a fazer trabalhos profissionais para artistas, visando publicação na imprensa.

Então, Sonia sugeriu uma amiga sua que costumava fazer portfólio de atores/atrizes, e claro, tal despesa seria descontada da bilheteria da mini temporada. Já que havíamos topado arriscar, fomos lá, então...

Foram fotos produzidas num estúdio caseiro da fotógrafa Tereza Pinheiro, no início de fevereiro de 1987. Algumas externas, na rua onde morava, no Jardim Lusitano, bairro que circunda o Parque do Ibirapuera.

Normalmente eu detesto fazer fotos externas, mas essas eu curti, pois ela soube nos manter descontraídos e até acho que ficamos com jeito de galãs...bem, ela estava acostumada a fotografar atores de novelas...estava explicado.

Tenho já publicado algumas fotos dessa sessão, desde que comecei a descrever fatos do início de 1987. A coloridas, estão escuras, pois só tenho o negativo dos cromos, e as PB, tenho poucas no acervo, pois a maioria foi usada para alimentar jornais e revistas.  

E a assessoria de imprensa do Centro Cultural funcionou como nunca dessa vez. Atesto que tivemos muitas notas por conta desse apoio que recebemos, e claro, tudo soma em mutirões de divulgação.

Na semana da mini temporada, fizemos também programas de rádio e TV, certamente mais reforços muito bem vindos ao esforço geral.
Fausto Silva e Osmar Santos, os pioneiros apresentadores do Balancê

Na rádio, visitamos novamente os estúdios da Rádio Excelsior de São Paulo, para fazer o Balancê, programa onde havíamos ido inúmeras vezes nos apresentar anteriormente e já estávamos muito habituados a fazer.

O formato do programa havia mudado, e não era mais realizado no palco de um teatro de bolso (Teatro Pimpão), com a presença de auditório, e a exótica apresentação do artista dublando no rádio para entreter quem assistia ao vivo no teatrinho.

E agora, Fausto Silva já não fazia mais parte, sendo substituído por Oscar Ulisses (irmão de Osmar Santos), um locutor esportivo em começo de carreira na ocasião, muito competente e simpático, mas com um estilo mais comedido e sem a histriônica condução de Fausto Silva.
                                    Oscar Ulisses  
                        A dupla de humoristas, Tatá e Escova

Então, mesmo sendo ainda muito descontraído e com humor, pois a dupla de humoristas Tatá e Escova, ainda eram da troupe e faziam suas intervenções debochadas o tempo todo, o programa adotara uma postura mais tradicional, com todo mundo sentado numa mesa oval e falando em microfones.

As "sonoras" de futebol ainda intercalavam-se às atrações artísticas e o programa mantinha seu caráter híbrido entre uma revista cultural e programa esportivo, leia-se futebol.

Nesse dia em que fomos divulgar a mini temporada no Centro Cultural, havia a presença de artistas bacanas e nós interagimos com eles, numa confraternização bacana. 

O cantor americano de Soul Music, Billy Paul estava presente e sua entrevista com tradutor ao lado, despertou uma imitação debochada dos humoristas, depois que ele partiu, pois havia chamado a atenção o fato de que ele parecia estar embriagado, falando com uma voz bastante estranha, que sinalizava tal evidência. Portanto, foi um prato cheio para os imitadores.

Não resisto à piada, também : Mr. Jones estaria "borracho"?

Dona Ivone Lara, a sambista famosa, estava lá também, e foi muito simpática conosco. Logo que nos viu no corredor da emissora, foi logo falando -"Bom dia Rockeiros, adoro Rock"...

Beto não se fez de rogado e respondeu de pronto saudando-a, e um clima muito legal foi instaurado.

Nos surpreendemos quando demos de cara com Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha, que não participaria do programa, mas circulava pelos corredores da emissora. Foi engraçado vê-lo sério e vestido de forma casual, sem as tradicionais fantasias estrambóticas que usava na TV. Não deu abertura para nenhuma abordagem, e nós ficamos na nossa, certamente.

Nossa entrevista foi boa, tocaram Sun City na execução musical, e o recado da temporada foi dado.

Quando acabou, quis ser coloquial com o Oscar Ulisses fora do ar, e falei alguma coisa sobre um jogador que o Palmeiras estava contratando, mas a reação do locutor foi muito surpreendente. 

Talvez julgando ser impossível que um Rocker cabeludo acompanhasse futebol, ficou olhando-me com uma cara de exclamação por uma fração de segundos, e a seguir desconversou, se despedindo de mim e agradecendo a presença...vai entender...

Isso ocorreu no dia 10 de fevereiro de 1987, um dia antes de iniciarmos a mini temporada.

E na TV, tivemos uma nova apresentação no programa Panorama, da TV Cultura de São Paulo. Ocorreu no dia 10, também, uma terça feira.

No estúdio daquela emissora, fizemos uma apresentação ao vivo, e concedemos entrevista. O fato deles terem produzido o clip de "Sun City", motivou exibição de um trecho do mesmo, e uma mini entrevista falando sobre a questão do Apartheid na África do Sul. Claro que também falamos sobre a banda e a temporada no Centro Cultural, naturalmente.

As músicas que tocamos ao vivo, foram "Trago você em meu Coração" e "Saudade", com boa performance, apesar da reverberação monstruosa no estúdio.

Nem preciso dizer o quanto lamento não ter esse material de vídeo disponível hoje em dia, perdido que foi...

No mesmo programa, a então muito jovem atriz, Mariana de Moraes, concederia entrevista, falando de sua atuação no cinema. Ela acabara de lançar o filme : "Fulaninha", que estava causando polêmica ao retratar o flerte entre uma adolescente e um homem maduro de meia-idade, contracenando com atores tarimbados como Claudio Marzo, entre outros. Neta do poeta Vinícius de Moraes, chamava a atenção pela beleza, e por ser a ninfeta da vez na mídia, rivalizando com Luciana Vendramini, certamente. Mais tarde, tornou-se também cantora.

Lembro-me dela assistindo nossa performance sentada num banquinho alto, com seus pés suspensos no ar e balançando-os ao ritmo das nossas músicas.

Nessa época, o Panorama era apresentado por Luciano Ramos e Tereza Cristina. 

Lembrava-me do Luciano Ramos plenamente, por ele ser jornalista tarimbado e crítico de cinema que tinha larga experiência. 

Gostava muito de uma sessão de cinema que ele apresentava na mesma TV Cultura, nos anos setenta, onde um mesmo filme era exibido todo dia de segunda a sexta às 23 horas, e na sexta, antes da última exibição, um debate conduzido por ele, com convidados, dissecava a obra. E claro, só clássicos em sua predominância.

Então, após ter a chance de ver o mesmo filme quatro vezes, depois do debate dava mais vontade de ver pela quinta vez, com as informações de especialistas repercutindo na cabeça e o filme praticamente decorado. 

Era visão de cinéfilo, totalmente anticomercial, portanto só cabível na TV Cultura mesmo, e numa época onde a preocupação com o Ibope não era tão avassaladora.
O jornalista / crítico de cinema, Luciano Ramos, em foto dos anos setenta


E a jornalista Tereza Cristina, eu também conhecia, pois entrevistara o Língua de Trapo, quando de minha segunda passagem pela banda, inúmeras vezes.

Bem, com esse reforço de rádio e TV, estávamos mais confiantes de que conseguiríamos movimentar um bom público no Centro Cultural São Paulo, para cinco apresentações, de quarta a domingo.

Continua... 

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