sábado, 20 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 322 - Por Luiz Domingues


Enquanto as bandas nacionais "de verdade" dividiam um único camarim no enorme bastidor do Palácio das Convenções do Anhembi, todos os outros camarins ficaram isolados para servir aos chicanitos e sua entourage.

Estávamos resignados com diferença acintosa que faziam em relação aos chicanos. A despeito de ser um embuste sob o ponto de vista artístico, estavam por cima da onda, com sucesso midiático retumbante e na base da "formação de opinião", eles eram "bons" por serem famosos e nós, "maus" por não sermos tão populares quanto o "fenômeno" porto riquenho.

A análise sobre tal disparidade é óbvia, e não carece de distanciamento histórico para ser formulada. O poder do marketing é avassalador e realmente manipula a opinião pública a seu bel prazer.

Um lixo daqueles fazer sucesso massivo é uma prova cabal, mas muito pior, é gerar a opinião errônea de que sucesso popular é sinal de qualidade. Aí, meu amigo...dói na alma ser alvo de uma injustiça desse porte, quando se está no epicentro da criação artística e vendo tanta gente boa sendo deixada à margem das oportunidades. 

Perde a arte e a cultura com essa manipulação nojenta que bloqueia os caminhos para que artistas genuínos possam mostrar sua arte livremente; perde o povo que se priva da arte livre e sobretudo de qualidade...e por favor poupem-me de contra argumentação relativizando o que significa "qualidade" na arte, tampouco manifestações de apoio ao popularesco, sob a égide de uma suposta legitimidade da livre expressão. Sim, concordo com a livre expressão, mas abomino a manipulação de marketeiros, e sobretudo da teoria da formação de opinião.

Enfim, constatações à parte, sobre como funciona o mundo do show business, a realidade era essa ali nos bastidores : um camarim simples para nós, com água, e para os grandes astros latinos, todos os outros camarins reservados, plenos de mordomias.

Com forte segurança de sua produção, deu para ver apenas a arrumação de um dos camarins como copa, com uma mesa gigantesca e um verdadeiro banquete preparado para recepcioná-los. Vimos funcionários levando caixas garrafas de vinho e champagne, e era a certeza de que a farra seria boa, ali.

Mas a cereja do bolo veio quando ouvimos a conversa de uma produtora com alguns funcionários da segurança. Sem rodeios, pediu para que eles fizessem uma varredura na plateia, e escolhessem 50 garotas para visitar o camarim. O critério era simples e direto : as mais lindas...

Bem, não farei nenhum discurso moralista sobre exploração/turismo sexual, mas claro que seria cabível. Enfim, os Engenheiros do Hawaí ainda estavam se apresentando, quando começaram a chegar as primeiras meninas escolhidas a dedo pela produção. Estavam em estado de êxtase, naturalmente, e certamente que eram lindíssimas e fariam parte do banquete dos chicanos.

Os Engenheiros do Hawaí voltaram ao camarim com a reação que qualquer artista verdadeiro teria nessas circunstâncias, ou seja, rindo da dublagem vexatória e da histeria das fãs do Menudo, ensandecidas e rezando para as atrações  "menores" sumirem de sua frente, para que seus ídolos dançarinos aparecessem enfim...

Chegara então a nossa vez...

Ao contrário do Hanoi-Hanoi que tinha um visual modernoso e compatível aos anos oitenta, e do Engenheiros do Hawaí que se apresentaram de forma despojada e ainda não eram famosos no mainstream, a nossa banda tinha visual setentista, e odiado naquela década marcada pelas ideias niilistas. Temíamos portanto, pelo pior, quando entrássemos no palco com as adolescentes cada vez mais impacientes por tanto esperar por seus ídolos pré-fabricados, e ainda ter que aturar quatro cabeludos "do passado"...

A julgar pela reação hostil que tivéramos na entrada no Anhembi, e relatada nos capítulos anteriores, esperávamos uma reação muito pior, com uma vaia mastodôntica, seguida de insultos, impropérios e quiçá, arremesso de objetos contra o palco.

Então, a produção veio nos chamar para subir ao palco...

Continua...

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