domingo, 21 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 324 - Por Luiz Domingues


Enquanto nossa aparição no programa "Frente Jovem"("abrindo" o Menudo), ia ao ar, no dia 18 de outubro de 1986, nesse mesmo dia, fomos aos estúdios da emissora Imprensa FM, onde concedemos entrevista ao programa "Rádio Corsário".

Era a segunda vez que éramos entrevistados nesse programa, sendo a primeira vez, ocorrida em maio do mesmo ano. 

Tratava-se de um programa "peso-pesado", dedicado aos fãs do Heavy-Metal predominantemente, mas claro que nós éramos bem recebidos nesse ambiente, e certamente reconhecidos como "dessa turma". Já havíamos sendo entrevistados nesse mesmo programa, em maio do mesmo ano.

Simpáticos, nos trataram em ambas as ocasiões com bastante entusiasmo, portanto, claro que nós aceitávamos o apoio de bom grado.  

Nesse ínterim, o Clemente, guitarrista e líder dos Inocentes, nos convidou para o cocktail /show de lançamento do EP que haviam gravado pela Warner, e cuja história de colaboração mútua entre as bandas, foi amplamente relatada em capítulos anteriores.

Mais uma típica reação às ações espontâneas da banda, e nada a ver com os esforços do Studio V, portanto.

Claro que aceitamos, e o Clemente nos advertiu que seria bom para a banda estar presente, pois muitos jornalistas; executivos da Warner, e artistas do mainstream, estariam presentes e mesmo que ali não fosse lugar para contatos, "ser visto" era importante. Marcar presença era uma necessidade premente, para aos poucos, sermos inseridos no patamar de cima da música.  

Contudo, atormentava-nos a perspectiva de que estar num show de Punk Rock, na casa de shows Madame Satã, ali na metade dos anos 80, era um exercício de extremo perigo para hippies defasados, cabeludos, e certamente confundidos com "headbangers" ou "metaleiros", como rezava o estigma tupiniquim da época.

Nos anos 80, a hostilidade chegava às vias de fato, e envolvia muitas vezes, casos extremos, com mortes e graves ferimentos oriundos de emboscadas, registradas nas páginas policiais.

Para estacionar o carro nas imediações, e caminhar até o estabelecimento, já era uma situação bastante perigosa. Entrar na casa, também não era recomendável, personas non gratas que éramos naquele ambiente oitentista hostil ao extremo.

Ponderamos no entanto, que não poderíamos perder a ocasião, não só pela estratégia de "ser visto" pelos formadores de opinião, mas também por uma questão de educação e gentileza aos Inocentes, que foram de fato, muito simpáticos conosco.

Outro ponto, o próprio Clemente nos alertou que não deveríamos temer, pois apesar de realmente haver uma atmosfera hostil para quem não compactuasse com a estética do Punk / Pós-Punk, mote da casa em questão, naquela ocasião em específico tais ditames estariam obscurecidos, porque equipes de reportagem de TV estariam presentes, muitos jornalistas e muita gente alheia às tribos oitentistas e seus radicalismos, portanto, seríamos respeitados e como convidados dele, pessoalmente, dificilmente aconteceria uma provocação, e menos ainda uma agressão física.

Bem, ponderamos que a argumentação era sólida e fomos os quatro, mais Eliane Daic, nossa produtora, nessa altura já contratada do Studio V, e subordinada à Sonia, que incumbiu-lhe de fazer um relatório completo, a ser entregue no escritório, no dia seguinte.

Fomos então. Nos vestimos condizentemente para um cocktail badalado de motivação Rocker, mas sem exagerar no figurino. Não usar nada anacrônico que nos estigmatizasse com as décadas de 60 e 70, sem dúvida alguma, e muito menos deixar margem à interpretação errônea de que éramos "metaleiros".

Apesar desse jogo de cintura na arrumação do visual, nossas cabeleiras denunciavam nossa não adequação ao ambiente...

Demos sorte na rua, e apesar de muita gente hostil estar pelas calçadas, nada de ruim aconteceu. Lá dentro, a casa estava lotada e de fato, tinha muita gente da cena oitentista circulando pelo ambiente, além de famosos que pouca afinidade tinham com os meandros da música / Rock. Jornalistas e executivos da Warner, também.  

Fomos hostilizados, mas bem de leve. Alguns esbarrões "sem querer /propositais"; cochichos; gente apontando para nós; alguns debochando e rindo...mas nada que nos indignou.

O show dos Inocentes ocorreu no famoso porão da casa, e ali o calor era enorme, a aí sim, era imprudente ficarmos, pois o público punk propriamente dito, fazia suas "rodas de pogo", e a luta livre não era o nosso esporte predileto, enfim.

Saímos também "numa boa", sem maiores hostilidades e /ou perigos.

Aproveitando a deixa dessa lembrança, conto mais uma neste capítulo :

Outro amigo que tínhamos no patamar de cima da música, Charles Gavin, nos convidou a assistirmos um show dos Titãs, onde poderíamos usufruir também dessa estratégia de "sermos vistos" nos lugares certos, nas horas certas...  

Fomos então numa noite de quinta (não tenho certeza, mas acho que foi isso), assistir o show dos Titãs no salão de festas do Clube Tietê, um clube que era muito tradicional na cidade e de fato, localizado às margens do rio Tietê, na altura da Ponte das Bandeiras, no Bom Retiro, bairro central de São Paulo.

Apesar de estarem consagrados e vivendo grande fase midiática na época, curiosamente o show estava com pouco público. 

A mixagem do P.A. estava excelente. Foi um dos shows de Rock onde ouvi maior clareza de uma mixagem ao vivo, sem dúvida. 

Não sei quem era o técnico de P.A. deles nessa ocasião, talvez já fosse o CanRobert, nosso amigo e também nosso técnico em muitos shows da Chave (já falei sobre ele bastante em capítulos anteriores da Chave, e também nos do Língua de Trapo), mas independente de quem fosse, realmente fez um trabalho excelente na equalização de P.A.. 

Não curtíamos a estética dos Titãs, portanto, se a mesma mixagem estivesse a favor de uma banda que rezasse pela cartilha 60/70, teria sido agradabilíssimo ouvi-la com aquela perfeição de timbres, equilíbrio e peso.  

Infelizmente, não pudemos comparecer aos bastidores como o Charles desejava, pois algo desagradável aconteceu...

Mas claro que valorizávamos e muito o fato dele estar imbuído de toda a boa vontade em nos dar a sua mão, e tentar assim, nos puxar para o patamar de cima do Rock mainstream.

Havia pouca gente, mas os que estavam lá, eram de tribos oitentistas variadas, hostis entre si, de certa forma, mas unidas na hostilidade para com cabeludos antagônicos como nós.

Não houve um ataque direto, mas assim que o show começou, foram nos envolvendo sutilmente e nos jogando dentro da famigerada "roda de pogo" e ali, usando da desfaçatez de ser uma "curtição" punk, o real objetivo era nos encher de porradas...

Fomos assistindo o show e percebendo a aproximação gradual, quando chegou num ponto onde tornou-se insustentável permanecer no salão. 


Lembro-me de eu ser empurrado bruscamente pelo Beto num determinado instante, porque um sujeito passou muito perto de mim, naquele movimento que lembrava uma incorporação mediúnica, mas na verdade tinha a intenção de aplicar-me um "cruzado de esquerda" de pugilismo...

Bem depois disso, o Rubens sugeriu que saíssemos, pois estavam muito próximos, e claro que era uma provocação esperando que reagíssemos.

Não deu portanto, para cumprimos a visita aos bastidores, como havia sido sugerido pelo Charles.

Independente dos resultados sutis nessas duas empreitadas de motivações sociais, claro que Sonia; Toninho & Miguel, vibravam com essa movimentação natural que a banda promovia, sem que eles fizessem nada.

E de nossa parte, ainda era forte o sentimento que eles fariam muito, e tais boas novas vindas de nós, apenas prenunciavam nossa subida ao patamar mais alto da música...


Continua...

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