sexta-feira, 26 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 344 - Por Luiz Domingues


Sonia e Toninho tinham amizade com o colunista de TV e "celebridades" do jornal "Popular da Tarde", Arley Pereira. Ele de fato era um jornalista famoso nesse mundo, e essa nota acima denotava que queriam mostrar serviço para nós, mas na prática, era só isso...uma nota.

Após o show na cidade litorânea de Itanhaém, tínhamos enfim um show vendido à um contratante, por intermédio do Studio V.

Não comemoramos o fato, no entanto, porque estávamos fartos da inoperância deles, e apesar de estarmos ainda lhes dando um voto de confiança, um show apenas não sinalizava exatamente uma mudança de comportamento da parte deles.

E para agravar a impressão, o show vendido seria realizado numa minúscula cidade no interior de São Paulo, que particularmente eu conhecia, e por conta disso, sabia que era inacreditável fazer um show de Rock ali naquele município.

Por que ?

Bem, tratava-se de "Águas de São Pedro", um dos menores municípios do estado de São Paulo, e naquela época, não devia ter muito além de 2000 habitantes, segundo dados oficiais do IBGE.

Era (é) uma cidade cuja economia era gerada pelas suas termas, exclusivamente. Na qualidade de uma estância climática, vivia da economia gerada pelos turistas / pacientes, que a procuravam para tratamentos reumáticos à base de banhos de imersão, com diversos tipos de águas sulfurosas e ricas em minerais com propriedades terapêuticas.

Resumindo : Águas de São Pedro pelo seu tamanho minúsculo, só atraia visitantes idosos em sua maioria, e a população autóctone, também tinha idosos em maioria, pois jovens ao atingirem a idade escolar do ensino médio, já buscavam oportunidades em cidades vizinhas de maior porte, caso por exemplo de Piracicaba, distante poucos kilometros e esta sim, com porte de cidade grande, universidades e infraestrutura.

Então, era inacreditável que um contratante tivesse procurado-os para nos contratar. Fazer um show de Rock numa cidade daquele porte, onde só haviam idosos, praticamente, era uma loucura, numa primeira análise.

Mas se o contato ocorreu, e o rapaz aceitou pagar o nosso cachet, vamos lá, então, pensamos...

No dia do show, na hora do almoço, o rapaz em questão apareceu no escritório do Studio V e nos levou em sua clássica "Kombi", que transportou nossos instrumentos e backline básico.

Num outro carro, seguiram os demais, nos acompanhando.

O rapaz era muito simples e dirigiu o tempo todo brincando, rindo, contando piadas e se mostrando muito animado com a realização do show.

Eu tinha muitas dúvidas sobre tal, mas longe de mim ser chato ao ponto de jogar um balde de água gelada no rapaz, portanto, não retruquei de forma alguma suas colocações exageradamente otimistas sobre o eventual sucesso de público que teríamos. Bem, era torcer para a minha má impressão estar errada e o otimismo dele prevalecer.

Chegamos à cidade e nos instalamos num dos hotéis da única avenida da cidade e que tem apenas isso, praticamente, hotéis em toda a sua extensão, e para todos os tipos de bolsos, de pequenas pousadas baratinhas, até hotel de luxo.

Além dos hotéis que tem como atração máxima as instalações para os banhos de imersão, as fontes públicas para beber diversos tipos de águas com propriedades minerais específicas, compõe as atrações principais da cidade.

Fora disso, só contando com  fãs que viriam de Piracicaba ou outras cidades maiores na região, pois ali, só haviam idosos e crianças, em maioria esmagadora.

Bem, o rapaz era um funcionário do hotel onde nos hospedamos e mesmo sabendo que certamente conseguira seu apoio, minimizando as despesas dessa produção, tudo ainda era nebuloso.

Fomos ao soundcheck e o local era um salão um pouco afastado desse centro da cidade, mas entenda-se algo muito perto, dada a dimensão minúscula do município. Para se ter uma ideia, acho que a rua onde moro atualmente (2015), com cerca de 500 metros de extensão, dada a quantidade de condomínios existentes, creio ter certamente o triplo de moradores.

Era um salão de festas bem modesto, e a única justificativa para o show não ser realizado no salão de festas de um hotel daquela avenida citada, certamente seria pelo fato deles observarem o caráter de verdadeiras casas de repouso, hospedando pessoas idosas, e onde o barulho, mesmo que houvesse uma proteção acústica, incomodaria de forma absurda.

Segundo o rapaz, haveriam muitos fãs vindos de Piracicaba, principalmente. Assim esperávamos...

Mostrando serviço, Sonia e Toninho sinalizaram com uma entrevista numa emissora de rádio de Piracicaba, onde tinham amizade com um comunicador popular chamado Paulinho Leoni.


Realizamos tal entrevista por telefone do hotel onde estávamos e foi bastante caótica por conta do retorno ruim, que tornou-a quase um "samba do crioulo doido", dada a confusão gerada por perguntas e respostas desconectadas. Mesmo assim, o comunicador que era bastante simpático, se esforçou para não deixar a peteca cair e levou no bom humor, alguns deslizes cometidos por ambas as partes por conta dessa audição prejudicada.

Assim foi nossa confusa entrevista na Difusora FM de Piracicaba...

Voltamos ao hotel, e após o jantar, fomos em definitivo para o local do show. Realmente, o público era bem pequeno quando chegamos, e era difícil acreditar que aumentaria na hora específica em que começaríamos a tocar.

O nome do salão era prosaico..."Pork's", e o público presente no balanço final da noite, contabilizou-se em 60 pessoas presentes.

Fizemos o show com a mesma desenvoltura de sempre, evidentemente. E o público respondeu muito bem, mesmo porque, eram poucos, mas animados e entre eles, muitos fãs da nossa banda, vindos de Piracicaba principalmente, mas também de São Pedro, cidade vizinha e outras localidades próximas.

Não haviam, praticamente, habitantes de Águas de São Pedro, e várias pessoas me disseram que ninguém na região acreditou quando surgiu o boato de que tocaríamos ali, pois tal município era considerado na região, uma cidade de idosos apenas, buscando o alívio de suas dores reumáticas nos famosos banhos de imersão dos hotéis e nada mais. Bingo ! Disso, até eu já sabia desde criança...

O rapaz que nos contratara, estava desolado. Devia ter amargado um prejuízo gigantesco por essa aventura maluca, mas como morador da cidade, como não dimensionou a completa inaptidão dessa cidade para promover shows de Rock ?

Fãs de Piracicaba que nos abordaram, lamentaram profundamente o fato de não ter sido realizado em sua cidade, pois o transporte público entre as cidades, apesar de serem muito próximas uma da outra (cerca de dez kilometros), era deficiente e por isso, inibira uma maior profusão. De fato, Piracicaba é uma cidade de grande estrutura e lá toquei três vezes, com Língua de Trapo (no bonito Teatro Municipal); uma com o Pedra; e outra com o Nudes de Ciro Pessoa, ambas na unidade do Sesc, sendo sempre agradável.

Fiquei com pena do rapaz, pois parecia ser um aventureiro incauto e sem recursos para aguentar adversidades dessa monta, portanto seu sonho de ser um empresário cultural, acabava ali na primeira tentativa.

E senti vergonha também, pois Toninho, após o show, atazanou o rapaz, insistindo para ele marcar um show extra (??!!). Sua argumentação era a de que já estávamos na cidade e por ser uma sexta-feira, o boato desse show animaria os fãs de Piracicaba a comparecer em massa, no dia seguinte...para piorar, em off, nos dizia que estava quase convencendo o rapaz e que arrancaria mais dinheiro dele.

Em sua ótica, devia achar que nós aprovávamos tal tipo de ação predatória, agindo com agressividade em prol de nossos interesses, mas realmente isso nos constrangia.

Na madrugada, conversando no hall social do hotel, lembro-me de eu; Beto, e Edgar, nosso roadie, conversando sobre a produção equivocada e ficarmos com pena do rapaz, por ter mergulhado nessa loucura, sem ninguém mais experiente que o orientasse.


Na manhã seguinte, ele cumpriu regiamente sua palavra, pagando o cachet acordado e nos levando de volta à São Paulo, mas ao contrário da viagem de ida, dirigiu o trajeto inteiro em profundo silêncio, denotando que estava absorvendo o revés.

Foi a priori, o único show vendido pelo Studio V, em todo o período em que trabalharam conosco. E o show realizado em dezembro no TBC de São Paulo, foi a única produção própria. Portanto, no cômputo geral de meses de trabalho, somente duas iniciativas, o que era ridículo como desempenho, e ainda mais em se considerando a imensa bravata com que nos impressionaram no início, falando sobre um poderio que ostentavam e que na prática, não passava de um "traque", contrastando com as ogivas nucleares que diziam possuir.

Voltando para São Paulo, queríamos respostas mais rápidas e contundentes da parte deles, não só sobre a criação de uma agenda concreta e sustentável, mas pela ausência de sinalização do Miguel, que após a recusa da Warner, não demonstrou mais o ímpeto de estabelecer novas tentativas em outras gravadoras.

E assim foi o show em Aguas de São Pedro, num salão modesto chamado "Pork's", perante 60 pessoas, e apesar dos pesares, foi animado. E deixo claro, tal cidade não é adequada para shows de Rock, mas certamente é um passeio que recomendo pela sua beleza bucólica, paz profunda, e rara num mundo moderno cada dia mais estressado.


Continua...    

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