segunda-feira, 22 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 333 - Por Luiz Domingues

O pontinho vermelho representa o bairro de Lins de Vasconcelos, no mapa da cidade do Rio de Janeiro 

Nessa reunião com a amiga da Sonia e seu marido, fomos muito bem recebidos, não posso negar, e a noitada foi agradabilíssima, pois o casal anfitrião era Rocker da "velha guarda", e o som de qualidade permeou tal visita, com clássicos das décadas de sessenta e setenta ecoando no apartamento em Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio.

Vários tipos de queijos; pão italiano; muitos antepastos; e bom vinho importado (para mim, interessou-me mais a Coca-Cola...), garantiram o bem estar geral.

Mas cabe uma análise crítica, a despeito da excelente hospitalidade desse casal : a Sonia nos vendeu a ideia de que tal recepção era uma missão a mais em nossa estadia carioca, com sua amiga sendo uma importante "colaboradora e formadora de opinião". Até podia ser que sim, mas ficou claro que na verdade, era uma armação dela para visitar uma velha amiga, usufruindo da chance de estar no Rio com despesas pagas pelo escritório.

Se nos dissesse isso abertamente, não ficaríamos bravos, e de fato foi uma noite legal, com boa comida e bebida, ótima trilha sonora e o papo agradável. Mas definitivamente, aquela noite não era um compromisso formal da banda, mas algo meramente sócio recreativo.

No dia seguinte, aí sim, teríamos um compromisso oficial bacana, e graças aos contatos dela.
Visitamos a redação do Jornal do Brasil, localizado na zona portuária do Rio, próximo à Praça Mauá. Quando chegamos na enorme instalação, tivemos um contratempo, pois na informalidade que norteia os costumes cariocas e ainda mais justificado pela presença da alta temperatura costumeira, não poderíamos supor que nos cobrassem formalidade no vestuário...

Não era o caso de nós três (eu, Rubens e Beto), mas o Zé Luis foi trajado de forma mais despojada, ao usar uma camiseta regata, e foi barrado na recepção, sob a alegação de que tal traje não era permitido nas dependências daquela instituição.  

Tentou alegar que fazia calor e no Rio, a informalidade era histórica como cultura local, mas a recepcionista contra argumentou que não haveria nenhuma possibilidade dele entrar trajado dessa forma, e que na semana anterior, um outro artista também fora barrado nas mesmas circunstâncias, ou seja, um rapaz mineiro chamado Milton Nascimento... 

A solução foi improvisar um arranjo de última hora, usando uma peça de roupa por cima, emprestada de um de nós, e que por acaso estava no carro. Não me lembro ao certo de quem era, e nem o que era, mas arrisco dizer que se tratava de um colete, que abotoado, disfarçou a ausência de ombros da camiseta regata.

Uma vez lá dentro, Sonia nos apresentou ao seu contato, o jornalista Jamari França (que reputo ser um dos melhores críticos musicais do país, e um dos raros sem rabo preso com a "intellingentsia niilista, e pró-Revolução Punk de 1977"). 

O crítico musical Jamari França, em foto bem mais atual

Na conversa, falamos que abordáramos a Warner, e ele já sentou-se à máquina de escrever para preparar uma nota, quando lhe explicamos que era ainda um contato preliminar, portanto não havia nada além de uma abordagem inicial.

Claro, lhe demos uma cópia da demo para a sua avaliação, e na minha lembrança, foi um contato muito prazeroso, com o jornalista em questão, nos tratando muito bem.

Não havia mais nada para fazermos no Rio, pois a resposta da Warner demoraria dias para sair, e a Sonia não havia agendado mais nada importante em termos de mídia.

Almoçamos num restaurante de Copacabana, cujo dono era amigo dela, e tratava-se de um rapaz muito hospitaleiro que nos serviu um excelente almoço, apesar de insistir em contar-nos piadas sem graça...bem, não dá para ser perfeito o tempo todo...

Voltamos para São Paulo, então, muito mais esperançosos do que havíamos chegado, pois o contato com a Warner, via André Midani, pareceu-nos auspicioso.

Encerrando, não posso deixar de registrar que o bem estar decorrente dessa sensação foi marcante por ocasião de nossa estadia no apart hotel da Barra da Tijuca. Inebriados por essa atmosfera de sucesso que nossa empreitada carioca parecia estar acontecendo, causou-nos uma ótima sensação de euforia, e não me refiro à minha única percepção, mas certamente entre os quatro componentes da banda.

Ali, tudo se misturou...tal sensação subliminar, associada à mordomia de um bonito hotel, com paisagens inacreditáveis e paradisíacas, nos proporcionou a gostosa, porém imprudente sensação de vitória antecipada.

Ouso dizer, que a despeito de outras coisas boas que ainda aconteceriam nos próximos meses, esse pequeno momento de uma quase epifania, ali na sacada do hotel, com um visual cinematográfico da praia à nossa vista, foi a última percepção de sucesso à vista para a nossa banda.

Digo isso, deixando muito claro, que hoje em dia encaro a carreira da banda como amplamente vitoriosa artisticamente, e até em termos de projeção, embora circunscrita ao métier do Rock underground.

Todavia, a não chegada ao mainstream passa por essa noite olhando para o mar, num andar alto de um prédio de luxo da Barra da Tijuca, sem dúvida, na medida em que ali foi a nossa última sensação real de estarmos quase chegando...

É triste falar isso, pelo lado da análise fria, mas também é poético, eu diria. Tal momento chegou a ser mágico de tão bonito que foi, mas não passou disso, isto é, um insight, uma epifania, para nós naquele instante, e para a maioria dos pleiteantes...

Continua...

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