terça-feira, 9 de junho de 2015

Autobiografia na Música - Pitbulls on Crack - Capítulo 94 - Por Luiz Domingues

Não posso deixar de observar, que de nossa parte, fizemos todo o esforço para manter o nosso astral legal, a despeito de estarmos vendo tudo errado ao nosso redor. Nesse aspecto, é importante relembrar que o Pitbulls on Crack foi a banda mais "low profile" em que toquei, no bom sentido do termo. Conforme já registrei diversas vezes na narrativa, foi a banda onde mais diverti-me pelo aspecto extra musical, pelo fato de todos os outros três membros serem comediantes de stand-up comedy, natos...

Por isso, se estou relatando desatinos em relação a esse show de lançamento, e esta parte em específico ter ficado grande pela complexidade de detalhes, não significa que estivéssemos, ainda assim, amuados no tal sítio.
Pelo contrário, rimos muito da "barraca de pastel", onde ficou instalado aquele palquinho triste, no meio de um campo de futebol enlameado, entre outras coisas. Claro, ficamos chateados com coisas sérias, como os maus tratos perpetrados contra o jornalista Antonio Carlos Monteiro e família.
Mas no cômputo geral, internamente foi mais uma típica noitada do Pitbulls on Crack, com um festival de piadas sarcásticas que desopilaram nossos fígados indignados, com os desmandos todos.
Os membros do "Tiroteio" eram legais como pessoas, não tenho queixas, deixo isso claro, mais uma vez. 
Sua empresária, Lu Brandão, era a mãe do Titã, Branco Mello, e logicamente uma pessoa com contatos no meio. A banda tinha um "apadrinhamento" dos Titãs, pelo fato de seu líder, um sujeito chamado Sérgio "Boneca" ter composto uma música que fizera sucesso na interpretação deles, Titãs ("Eu não aguento"). A estética do trabalho deles era intragável, infelizmente, como já descrevi. E o fato deles terem sido "escalados" para a festa sem nossa consulta, causou um mal estar duplo para nós. Primeiro pela prepotência do ato da parte de quem impôs tal decisão (isento a banda nesse processo); em segunda instância, pelo choque estético entre as duas bandas, e portanto, de antagonismo ao aparato todo da festa que desejávamos ter.
Tudo bem que o Pitbulls on Crack estava um tanto quanto contraditório com esse aparato "hippie", quando na verdade tinha um "pezinho" no Indie Rock noventista (com raízes do Punk' 1977). Eu admito isso, mas em termos. Mas por outro lado, o caráter híbrido do nosso som, sempre fora garantido pela minha presença, principalmente, e pela atuação do Deca como guitarrista solo.
Deca delirando no palco do Olympia, em outubro de 1996. Click de Marcelo Rossi

Mesmo o Chris tendo esse lado, e sendo o compositor da maioria do material, a neutralização sempre foi automática devido às minhas linhas de baixo, trabalhadas ao estilo 1960 / 1970, e aos solos de guitarra do Deca, 100% baseados no Rock visceral do AC/DC.
Então, mesmo não sendo uma banda retrô assumidamente, o Pitbulls on Crack estava com um pé nesse sentimento sessentista, e a inclusão de uma banda como o "Tiroteio", foi um grande "tiro" de fato, mas no nosso pé, no sentido de vilipendiar o ideal de um suposto "Pitstock", evocando valores "Woodstockianos". O punk misturado ao sambão-jóia dos rapazes, mais aquelas malandragens meio "Planet Hemp", representavam uma antítese aos nossos ideais.
Claro que o marqueteiro nem suspeitava disso, e muito menos os seus amigos organizadores do evento. Mas o crítico Antonio Carlos Monteiro sabia das coisas, e na sua resenha publicada na Revista Rock Brigade, posteriormente, deixou isso claro, lamentando a presença do "Tiroteio" no evento. Em suma, outra bola fora, da organização.
E um fato curioso, nosso baterista passava pelo corredor quando ouviu a empresária deles, falando para alguém, algo do tipo : -"Não gosto desse Pitbulls on Crack... eles nem deveriam estar neste evento..." Alguém esqueceu-se de informar à essa senhora, que aquele "evento" era ou deveria ser, o lançamento do nosso CD, e se havia alguém que chegara àquele sítio, usando um paraquedas, não era a nossa banda...

Continua...

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