sábado, 20 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 320 - Por Luiz Domingues


Aceito o convite, sabíamos que seria uma oportunidade de mega exposição televisiva, portanto muito bom para nós, mas não havia nenhuma euforia de nossa parte por conta disso, mesmo porque, teríamos a inglória missão de ser "abertura" de uma atração internacional de péssima qualidade artística, e pior ainda, suprema humilhação, nos rebaixaríamos ao seu patamar, pois nos apresentaríamos dublando (eca !!!).

Para aqueles chicanos criados num laboratório de marketing, era a absoluta normalidade se apresentar nessas condições medonhas, mas para nós, era muito constrangedor não tocar e cantar ao vivo.

Enfim, sem poder contestar, o negócio era amargar essa vergonhosa forma de se apresentar ao vivo, e pensar na exposição à um público televisivo inteiramente diferente do que estávamos acostumados. 


Foto meramente ilustrativa, pois certamente que não existiam telefones celulares, tampouco Smartphones em 1986...

Chegado o dia de participar da gravação do programa, nos dirigimos ao Palácio das Convenções do Anhembi, e logo ao o avistarmos, vimos uma multidão nas suas cercanias. Era uma fila gigantesca e exótica, no sentido de que era exclusivamente feminina.

Eram adolescentes aparentando algo entre 12 e 20 anos de idade na média, e em estado de euforia, dançando e cantando, portando cartazes, com posters de seus ídolos pré-fabricados.

Estacionamos e fizemos um pequeno percurso a pé, rumo à entrada de serviço, por onde artistas e técnicos entrariam, e constatamos que nos bastidores havia também uma multidão (muito provavelmente formada por meninas que não tinham ingressos para assistir a "apresentação", e sua intenção era a de ao menos ver seus ídolos chegando ao local), e a polícia fazia um cordão de isolamento, mediante grades de proteção.


Haviam centenas de garotas presentes, e obviamente que a motivação de 100 % daquelas meninas não eram as atrações de bandas de Rock nacionais convidadas a participar, mas o foco era naturalmente, os chicanitos saltitantes.

Quando nos aproximamos, claro que as ensandecidas adolescentes se manifestaram, mas de forma debochada e jocosa.

Nenhum de nós tinha a ilusão de que seríamos ovacionados (a não ser por uma eventual manifestação de arremesso de ovos...), e nem mesmo reconhecidos por aquele público em específico. Pelo contrário, sabíamos de antemão que éramos desconhecidos por parte daquelas meninas.

Mas a saraivada de impropérios e deboche nos surpreendeu. 


Ouvimos várias provocações por conta da nossa aparência, principalmente pelas longas cabeleiras setentistas, e que causavam espécie no ambiente oitentista. Algumas mais abusadas debocharam de nós, gritando "Beatles acabou"; Led Zeppelin já era"; "John Lennon morreu", e outras frases de mau gosto, com o intuito de nos ofender, e estigmatizar-nos como "coisas do passado".

Mas o que realmente essas adolescentes cultuavam era um embuste. Uma banda de mentira, formada num balão de ensaio de marketeiros, e sob a égide do absoluto mau gosto de uma música brega e latinizada (no pior sentido do termo, deixo claro, pois latinidade não é exatamente brega em essência, mas tem esse lado em certas manifestações, exatamente como existe no samba, que "bregalizado" em forma de "pagode romântico", assume tal vestimenta).

Cultuavam um pseudo artista pré-fabricado, que raramente se apresentavam cantando ao vivo; não compunham; não tocavam; não escreviam as letras de suas canções... Esteticamente, faziam uma música pop latina da pior qualidade etc etc. 


A história tratou de varrer para o ralo um excremento daqueles, e hoje em dia, aquelas meninas vociferantes e imbecilizadas por uma ação viral de superestimação absurda de uma artista fake, como era o Menudo, são senhoras de meia idade hoje em dia (2015), e dada a aceleração do processo de perpetuação da espécie que observamos nos dias atuais, não duvido que algumas já sejam vovós... 

Nos resignamos com as provocações, mas o Beto Cruz se desconcentrou por um momento, quando estávamos quase no fim desse corredor polonês de provocações. Ele parou e fitando uma adolescente histérica que berrava algo como : "O sonho já acabou", lhe falou de forma dura : -"Eu gosto mesmo dos Beatles, porque eles compunham, tocavam e cantavam suas músicas, muito ao contrário desses chicanos que vocês curtem"...

Era uma verdade absoluta, e essa menina teve que engolir...

Enfim, o fato de gostarem daquele lixo, era uma mera ação publicitária viral e perpetrada por mafiosos que manipulam a música mainstream, e no fundo, eram vítimas, sendo usadas como idiotas úteis para que esses crápulas ganhassem dinheiro. 


Os membros da "banda" em si também não tinham culpa. Se eu fosse Porto Riquenho; tivesse habilidade como dançarino; e 15 anos de idade, talvez me motivasse a fazer um teste para fazer parte de um embuste desses, virando "artista" da noite para o dia e ganhando fama; dinheiro, e meninas lindas se descabelando por minha causa...(brincadeirinha...com 15 anos de idade, queria ser Rocker "de verdade", aprendendo a tocar um instrumento, e cultuando a nata do Rock).

Ou seja, os caras estavam na deles, e ninguém poderia criticá-los por fazer parte disso, pelo menos até a "página 2" do manual de ética e moral...ha ha ha...

Nada como o tempo para restabelecer a justiça...29 anos depois (escrevi este trecho em 2014, mas o publico "agora", em 2015), o Led Zeppelin continua lá no panteão dos grandes artistas do século XX, como os Beatles, mas e o Menudo, o que representa na história da música, exatamente ??


Continua...

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