sábado, 20 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 317 - Por Luiz Domingues


Realizamos o soundcheck com bastante tranquilidade, com a equipe de produção de palco seguindo os passos dos outros membros que cuidavam da logística geral, ou seja, com bastante educação, simpatia e solicitude.

O técnico do P.A. que haviam contratado, era um rapaz muito competente e igualmente simpático, que atendia pela alcunha de "carioca". De fato, o rapaz era do Rio, mas nos contou que estava radicado no nordeste a algum tempo, e que estava acostumado a sonorizar grandes eventos em todos os estados daquela região.

Segundo nos contaram, ele tinha o melhor equipamento do nordeste, e estava acostumado a sonorizar todos os artistas top da MPB, e do BR- Rock 80's que se apresentavam pelas capitais, e principais cidades interioranas da região.

E pelo que constatamos no soundcheck, seu equipamento era de qualidade, e sua competência como técnico, idem, portanto, ficamos bastante confiantes de que seria um show muito confortável para nós, tecnicamente falando.

Claro, o próprio "Carioca" nos advertiu que as circunstâncias acústicas do local não favoreceriam em nada a sonorização do espetáculo, mas isso não era surpreendente para nós, de forma alguma, pois em se tratando de um ginásio de esportes, com cimento armado e teto de zinco, é claro que não haveria equipamento no mundo que conseguisse garantir um áudio de pureza ali. Era uma questão acústica pura e simples e tínhamos consciência disso, é claro.

Encerrado o soundcheck, fomos reconduzidos ao hotel, onde descansamos e nos preparamos para o show. Após o jantar feito no restaurante do próprio hotel, aliás, muito bem servido, fomos reconduzidos ao ginásio Verdão, e era a hora do Rock soar em Teresina...

Voltando para o ginásio, este já se encontrava quase inteiramente lotado. A expectativa dos produtores estava se cumprindo, e o evento era um sucesso. Bandas locais e de estados vizinhos, já se apresentavam. Em sua maioria, eram bandas de orientação Heavy-Metal, como era de se esperar naquela época, e circunstância em específico.

Já estávamos prontos no camarim quando fomos chamados a assumir o palco.

O ginásio estava lotado e havia uma expectativa criada para o nosso show, muito mais por conta de sermos de São Paulo, portanto uma atração diferente para o público local, do que realmente baseada na nossa fama. Claro que muita gente ali presente nos conhecia e nutria interesse em nos ver em ação, todavia, sem ilusões, sabíamos que para a maioria, éramos desconhecidos.

Não se tratava de um público inteiramente rocker, mas híbrido, muita gente estava ali pelo agito na cidade, e não exatamente por gostar das atrações em si, incluso nós.

Segundo algumas pessoas nos contaram, uma semana antes, os Paralamas do Sucesso se apresentaram ali mesmo naquela ginásio, e claro que não podíamos gozar das mesmas condições deles, que viviam no mainstream da música, e nós, no underground.

Mas começamos a tocar e a reação estava bastante agradável, com o público aplaudindo e respondendo bem os convites para interagir, lançados pelo Beto Cruz, nosso frontman.


Foi um show energético, agradável, e saímos do palco com a sensação do dever cumprido, e mais que isso, que havíamos expandido um pouco mais nossas fronteiras.

Cheguei a expressar isso no microfone, quando agradeci a presença do público presente, e o quanto estávamos felizes por estar ali, tocando pela primeira vez fora do eixo Rio-SP.

Era a noite de 27 de setembro de 1986, e cerca de 3000 pessoas nos viram e ouviram.

Tudo foi maravilhoso, contudo...uma situação absolutamente desagradável e alheia à toda a simpatia do pessoal da produção, ocorreu quando voltamos ao camarim, no pós-show. Mexendo em seus pertences, o Beto constatou que roubaram-lhe a carteira, inclusive com seus documentos.

Fora um lapso de sua parte não deixar os documentos no hotel, mas onde todos nos incluímos, pois também não havíamos adotado tal medida básica de segurança, mas lamentavelmente, ele fora surpreendido por um gatuno, e nós ficamos ilesos, por pura sorte.

A produção ficou constrangida com o ocorrido e realmente fora uma brecha na segurança, um vacilo que proporcionou a oportunidade para o meliante de ocasião. Isso não desabonava o festival como um todo, tampouco a extrema simpatia com a qual nos trataram o tempo todo, mas claro que ainda que involuntariamente, ficou um arranhão na história, infelizmente.

Claro, nos deram todo o suporte, se prontificaram a apoiar o Beto para abrir B.O na delegacia etc etc, mas a chateação estava armada. 

Quem já passou por isso, sabe o quanto é chato, não só pela perda financeira e humilhação que é suportar tal infâmia, mas também pelo inferno burocrático que é pleitear a segunda via dos documentos perdidos, transtorno para bloquear cartões de crédito, e talões de cheques etc.

Claro que isso chateou muito o Beto, e não era para menos...

Para amenizar a situação, levaram-nos para a melhor boite da cidade. Não mediam esforços para nos agradar, e depois do evento do furto no camarim, ainda mais. Eu não bebo, e evidentemente que não me interessei pelo passeio, preferindo voltar ao hotel.

Na manhã seguinte, após despedidas no aeroporto, e mais pedidos de desculpas por parte do ocorrido no camarim, voltamos para São Paulo, fazendo exatamente o mesmo percurso da ida, ou seja, escala em Fortaleza, troca de aeronave em Brasília.

Como já havia comentado, Fafá de Belém voltou conosco de Fortaleza, numa coincidência incrível. E o sambista Almir Guineto também embarcou na aeronave.

Muito brincalhão, logo começou a interagir conosco, e naquele jeitão carioca de ser, cheio das malandragens, começou a tirar sarro da Fafá de Belém, que não curtiu as brincadeiras, mas não retrucou, apenas permanecendo calada, mas com cara feia, demonstrando não estar curtindo as pilhérias do sambista.

As piadas que ele formulava começaram a contaminar os passageiros no entorno das poltronas, e ajudado pelo Beto que também sempre foi "despachado", isso gerou uma epidemia de risadas. Foi quando ele disse que "se o avião caísse, não haveria problema, pois a Fafá cantaria o hino nacional a capella, encomendando bem as nossas almas, como havia feito com o Tancredo Neves"...

Isso gerou uma euforia fora de propósito, e ela passou por nós, fulminando-nos com os olhos, demonstrando estar bastante chateada com as brincadeiras do sambista, e a repercussão gerada entre os demais passageiros, que riam às gargalhadas.

Para agravar a galhofa, uma pessoa foi ao toilete e quando saiu, o estrago intestinal que ali causou, levantou verdadeiras brumas fétidas, que rapidamente tomaram os corredores de poltronas de assalto. 

Diante da euforia gerada antes, e com o espírito brincalhão de Guineto e Beto a mil por hora, isso gerou um sem número de piadas, e a viagem nem foi sentida, pois ainda gargalhávamos, quando o avião pousou em Cumbica.

Em suma, foi uma tremenda aventura bacana para a banda, e com exceção do furto da carteira do Beto, tudo foi ótimo nessa etapa.
Alguns meses depois, o jornal "O Estado", de Teresina-Piauí, já especulava sobre o festival a ser realizado em 1987, e nos citou, com direito a foto do show de 1986, como exemplo de como fora a edição anterior.

Retomando a rotina em São Paulo, tínhamos a missão de entrar em estúdio, e gravar a segunda demo tape do ano de 1986, e desta feita, a demo que nos levaria rumo a um contrato com uma gravadora major e ao mainstream, assim esperávamos.

E como dizia Rita Lee em seus bons tempos de Tutti-Frutti: "Oh doce ilusão, doce ilusão...ah uh uh, yeah, yeah"....

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário