sexta-feira, 19 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 306 - Por Luiz Domingues


Mesmo antes de assinarmos o contrato e o registrarmos em cartório, já havíamos caído na sedução do escritório, e mudamos o nosso QG de ensaio para lá, definitivamente.

Olhando esse ato hoje em dia, tenho certeza de que nos precipitamos.

A despeito da família Gióia ter merecido reaver a paz, após longos quatro anos de invasão de privacidade, e muito barulho, ali era o nosso QG, e continuaria sendo se não tivéssemos encontrado o Studio V em nossa vida.

Ainda que simbolicamente, o nosso QG fora a nossa "Bat-Caverna" desde o início, e lá construímos toda a nossa carreira, compusemos todo o nosso material, nos preparamos para todos os compromissos da banda desde o primeiro dia em 1982, e aquele quarto e a casa, foram o alicerce que nos deram força para essa construção.

Sair de lá, naquele momento, parecia ter sido o passo a mais que ambicionávamos desde o começo, e simbolicamente falando, parecia a hora de alçar voo, saindo do ninho, mas subjetivamente falando, ainda não era o momento adequado, daí a minha avaliação de que nos precipitamos e ao contrário do que imaginamos à época, essa saída do velho QG, foi na verdade, o começo do nosso fim.

Não era hora de sair, pois o escritório não tinha feito nada, absolutamente nada por nós até aquela hora, e todas as promessas eram apenas isso, promessas...

Contudo, inebriados pela perspectiva de usarmos o estúdio próprio do escritório; nos prepararmos com qualidade sonora superior, e fazendo pré-produção para a demo que eles queriam produzir, nos empolgamos e passamos a ensaiar lá, estabelecendo a nossa rotina diária, nesse novo endereço.

Ora, volto a dizer e repetirei isso doravante : como não nos empolgarmos naquele instante, com a perspectiva de usarmos um estúdio bem equipado, e com um técnico à nossa disposição ?

A ideia era gravarmos uma Demo-Tape com o requinte quase de uma gravação oficial para um disco. Se o estúdio não tinha equipamento para gravarmos um disco, eu diria que era só pelo fato de não ter 24 canais, pois tudo ali era de qualidade : mesa; gravador; microfones; paramétricos, e caixas de monitor.

Logo no início, a conversa preliminar era a de que haveriam outros artistas contratados, e que dividiríamos o estúdio com eles, mas quando entramos, uma desculpa nos foi dada para justificar a ausência das tais outras bandas e o estúdio era todo nosso, 24 horas /dia, e claro, isso reforçou a ideia de que estávamos dando o passo certo e que teríamos a atenção total do escritório no que mais nos interessava, além mesmo do uso do estúdio a vontade : o empenho deles para nos colocar numa gravadora major, além de exposição midiática mainstream, e consequente agenda lotada de shows...

Ao nos instalarmos no escritório, tínhamos essa esperança, e isso só se reforçava com a conversa super animadora da Sonia, falante como ela só, aliada ao nosso momentum excelente, com o telefone tocando e agora nós repassando tudo para eles.

Faltou-nos a percepção de que deveríamos ter um pouco mais de cautela, e ao invés de mergulharmos de cabeça nos braços do escritório, deveríamos avaliar o que eles fariam, mediante uma experiência prática, e não acreditarmos cegamente só no Bla-bla-bla, enquanto todas as coisas boas que estavam ocorrendo conosco, eram frutos do nosso trabalho, e eles só estavam surfando na nossa própria onda autogerada.

Daqui em diante, conto várias histórias construídas dentro daquele casarão da avenida Eusébio Matoso...

Continua...

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