sábado, 20 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 316 - Por Luiz Domingues


A viagem de ida foi bastante tranquila. 

Viajando em duas companhias áreas que eram populares ainda nos anos oitenta, mas que simplesmente não existem mais, fomos na primeira fase da viagem, de São Paulo até Brasília, via VASP, onde fomos bem tratados, apesar da típica estranheza pelo nosso visual que chamava a atenção num ambiente social avesso ao mundo do Rock, naturalmente...

Em Brasília, trocamos de aeronave, após uma longa espera, embarcando num bólido da Cruzeiro do Sul, uma espécie de linha B da Varig, e o reflexo disso se revelou assim que entramos na aeronave...

Mesmo sendo treinadas para serem extremamente gentis, as aeromoças que nos recepcionaram falaram alto entre si, que "provavelmente nós espalharíamos piolhos aos passageiros". 

Foi uma descortesia inadmissível, que suplantava e muito, qualquer tipo de preconceito pessoal que tivessem contra Rockers; Hippies; Cabeludos (ou para sermos "modernos" no conceito da época : "Metaleiros"), e merecia ter sido objeto de uma reclamação formal de nossa parte para com a direção da companhia. 

Mas deixamos para lá, pois causaria uma celeuma desagradável, e estragaria o astral da nossa viagem, e convenhamos...estávamos animados por ir fazer um show em outra região do país, longe do circuito Rio-SP que habitávamos normalmente.

Claro, o Beto e o Rubens com gênios mais esquentados, não engoliram a grosseria como eu, mais monástico que sou, e
passaram a viagem toda fazendo pedidos para as aeromoças, fazendo questão de se referir à elas como "garçonetes", em voz alta, numa forma pejorativa de lhes aborrecer. 

Nada contra a profissão de comissária de bordo, tampouco as garçonetes, propriamente ditas, mas um pouco da dignidade daquelas mocinhas mal educadas ficou abalada naquela viagem, e convenhamos, elas mereceram o castigo por sua insubordinação inadmissível para com clientes.

Uma artista famosa da MPB embarcara em Brasília rumo à Fortaleza, onde faríamos uma escala. 

Fafá de Belém, então vivendo um grande momento na carreira, principalmente após os acontecimentos por conta da campanha pelas "Diretas Já", além do hino nacional "a capella" que embalou a comoção pela morte de Tancredo Neves, um ano antes etc. 

Curiosamente, ela estaria conosco na viagem de volta, no dia seguinte, além de outro artista popular da MPB de então.

Quando o avião finalmente aterrissou em Teresina, e a porta da aeronave abriu-se, tivemos um choque térmico impressionante. 

Saindo do ar condicionado do bólido e encarando a temperatura ambiente daquela capital nordestina, tivemos a real noção do que era um calor nordestino acachapante...

Tive a impressão de estar entrando numa sauna de banho turco, literalmente...

Rapidamente uma produtora do festival nos recebeu e mediante ajudantes, auxiliou-nos a transportar nossa bagagem para a velha perua Kombi, a van mais usada no Brasil até então, e de lá, com muita simpatia, nos conduziu ao hotel onde nos hospedaríamos.

Após um banho refrescante e um rápido repouso, nos levaram para um almoço excelente, com direito a guia turístico nos mostrando os pontos importantes da cidade, e em seguida, dois compromissos de imprensa : uma entrevista numa rádio FM (Poty FM), e outra na TV, numa afiliada da Rede Bandeirantes, com direito a micro entrevista no noticiário local, chamado "Jornal do Piauí", na TV Pioneira.

Nessa altura, já tínhamos em mãos matérias de jornais com
direito a fotos nossas, referentes à nossa participação no festival, fora o fato de termos visto cartazes; outdoors, e faixas publicitárias anunciando o evento em vários pontos da capital piauiense.

A produção esmerava-se para fazer o melhor que podia, e de fato, fez mesmo. Esta estava sendo uma das melhores produções onde "A Chave do Sol" esteve presente. Tudo corria às mil maravilhas no que tangia à organização, isso sem contar o tratamento VIP com o qual estávamos sendo tratados pelos produtores. 

O hotel era de 4 estrelas; os restaurantes onde nos levaram
eram de primeira qualidade; e vendo que não estávamos acostumados com a alta temperatura local, fizeram várias paradas estratégicas em casas de sucos e sorveterias, onde garantiram que nos hidratássemos adequadamente.

Estávamos encantados com a hospitalidade e queríamos muito retribuir no palco, fazendo um grande show para o público e para o pessoal da produção, que fora extremamente gentil e hospitaleiro conosco.

Finalmente fomos conduzidos ao local do evento, o ginásio de esportes conhecido como "Verdão", a fim de participar do soundcheck...

Continua...

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