segunda-feira, 22 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 332 - Por Luiz Domingues


Chegando na rua onde ficava a sede da Warner, ficamos num bar próximo, aguardando a volta de Sonia e Toninho, que foram se encontrar com Midani.

Fugindo de nossas mais otimistas expectativas, a reunião foi longa, em se considerando o padrão desse tipo de abordagem entre produtores de bandas emergentes e mandatários de gravadoras majors.

Geralmente alegando tempo escasso, o normal é uma conversa muito superficial sobre os atributos do artista oferecido em questão, e a entrega do material para ser analisado a posteriori.

O fato disso ser feito numa reunião agendada, é considerado um grande avanço nesse meio, pois o grosso dos artistas aspirantes, nem chega nesse passo, e ao deixarem seus materiais na portaria de tais instituições, depositam nessa incerta tacada, todos os seus sonhos, e nesse caso, a realidade é de que a chance de tal material chegar à mesa de um avaliador, é tão ou mais difícil que a análise combinatória de um jogo de loteria.

Portanto, essa era de longe, a mais concreta chance que tínhamos, em se comparando com as vãs tentativas que efetuáramos anteriormente.

Quando Sonia e Toninho deixaram a sede da gravadora, e nos encontraram na rua, chegaram sorrindo e demonstrando grande entusiasmo em nos contar como fora a conversa com Midani.

Bem, segundo Sonia, o Midani fora muito receptivo, e além de ouvir atentamente a argumentação dela e Toninho, perdeu um bom tempo olhando o portfólio e o álbum de fotos da banda.

O som da demo tape ecoou na sala, mas com volume baixo, sem que ele prestasse a atenção devida. Aliás, nem era sua atribuição, nesse caso. O normal seria um diretor de repertório fazer tal análise, e nesse caso, provavelmente seria o Liminha.

Sua atenção, portanto estava mais centrada em nós em termos de fotogenia e dado pessoais, pois muitas perguntas foram feitas sobre nós, por ele.

Por exemplo,quis saber de nossa condição socio-financeira pessoal; se tínhamos instrumentos e equipamentos de qualidade; quis saber sobre o nosso figurino de shows e guarda-roupa do cotidiano etc etc.

E sobre a aparência, destacou que éramos "bem apessoados", mas que o Rubens chamava a atenção como mais bonito e com "pinta de galã".

Com essas informações, ficamos com a certeza de que Midani mais se preocupava com o gerenciamento geral, sem ater-se à parte musical, que certamente era cuidada pelo Liminha.

Por suas colocações, parecia que havia nos aprovado, e mais que isso, não demonstrava ter nenhum rabo preso com a estética do Pós-Punk, e sendo até bem otimista, eu diria que isso não lhe importava de forma alguma.

Nossas longas cabeleiras setentistas, e nosso visual mais próximo dessa mesma prerrogativa do que com a em voga, pareceu não o incomodar em nenhum aspecto.

Sua primeira preocupação demonstrada pela conversa e sobretudo pelas perguntas, foi de outra ordem. Seu interesse era saber se tínhamos uma "aparência boa", como raciocinam executivos de TV, quando pensam em contratar atores, e notadamente atrizes.

E numa segunda instância, se reuníamos condições técnicas boas para enfrentar uma série de shows, decorrentes de um eventual impulso que a gravadora poderia proporcionar.

De nada adiantava sermos bons, se na hora de nos apresentarmos ao vivo, não reuníssemos condições mínimas de trabalho, causando vexames inadmissíveis em se comparando com a fama mainstream adquirida.

Bem, não nadávamos em dinheiro, tampouco tínhamos um arsenal de instrumentos e um "backline" (equipamento de palco), digno de uma banda internacional.

Mas não havia nenhuma dúvida entre nós quatro, que tirante situações prementes de cada um, individualmente, claro que ao entrarmos numa situação mais avantajada de agenda decorrente da exposição massiva, correríamos para uma boa loja de equipamentos e reforçaríamos nosso arsenal.  

No cômputo geral, Sonia e Toninho estavam muito otimistas, nos dizendo que Midani gostara da banda. E nós, também ficamos muito certos de que tínhamos uma chance, apesar de todas as adversidades estéticas que tanto anunciei, e expliquei longamente ao longo de vários capítulos anteriores.

A resposta no entanto, demoraria alguns dias a ser dada oficialmente, pois a decisão final não cabia à ele, Midani, tão somente.

Ficaríamos mais um dia no Rio, pois a Sonia agendara uma visita à redação do Jornal do Brasil, onde tinha contatos. E também uma reunião informal com uma amiga pessoal dela, que dizia ser uma colaboradora de longa data e "formadora de opinião".

Então, no período da noite, fomos à residência dessa senhora, onde seríamos recebidos com um cocktail de queijo & vinho. No meu caso, claro que eu iria de Coca-Cola...

Continua...

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