sexta-feira, 26 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 346 - Por Luiz Domingues


Em janeiro, mais uma edição do nosso fanzine, foi lançada. Apesar das dificuldades, e agora sem a ilusão de que o Studio V nos daria recursos para fazê-lo crescer, conseguimos colocá-lo à disposição dos sócios do fã-clube.

Por ser trimestral, é claro que ficava defasado sempre e refletia na verdade um outro momento da banda, em suas novas relatadas. Essa dicotomia em relação ao que anunciávamos e o que sentíamos, é hoje ao meu ver, até uma experiência rica para servir de análise a posteriori.

E vendo por um lado prático, a crise que sentíamos em relação à frustração gerada pela inoperância do Studio V, não podia transparecer aos fãs, de forma alguma. Nesse sentido, nossa missão era deixar o astral lá em cima, não contaminando os fãs com preocupações que não lhes concerniam e acima de tudo, independente de qualquer coisa, ainda acreditávamos muito no nosso potencial e com ou sem Studio V, prosseguiríamos na nossa escalada, é lógico.

Sobre o fanzine, eis os seus itens :

1) Rádio - Mais uma leva de programas que haviam nos executado, e de fato, fora a ação de rádios como a Fluminense FM do Rio, que nos executava constantemente na programação, muitos programas sinalizavam com execuções sazonais, em diversas emissoras espalhadas por todo Brasil. Desta feita, programas como Rock Festival, da Rádio Globo de São Paulo, e Rádio Corsário, da Imprensa FM, onde fizemos entrevista, foram destacadas, além de citação da Fluminense, que tínhamos o prazer de exaltar, sempre e nesse caso, tenho gratidão eterna com essa emissora e seu mentor, Luiz Antonio Mello.

2) Um box exaltando a assinatura de nosso contrato com o Studio V, estava na capa, é claro. Com foto de Maurício Abões, um rapaz que estava nos fotografando desde o show do Palmeiras em maio de1986, tal ato foi registrado. E no texto, uma apresentação rápida do Studio V, seu staff e nas entrelinhas, está claro que se fosse publicado três meses antes, eu teria escrito outras coisas, inebriado pelas bravatas deles. O texto curto, e de certa forma seco, foi uma implícita forma de dizer que já não acreditávamos mais, e ao mesmo tempo, não deixar transparecer isso aos fãs...

3) Revista - Mais uma geral sobre as muitas publicações em que saíramos, e não posso deixar de destacar uma coisa horrível que escrevi e, só passível de ser desculpada, em se considerando o fato de que tecnicamente, não era eu que escrevia, amparado pelo uso do nome de Eliane Daic, deixando-me oculto como "Ghost Writer".

Bem, pensando no marketing e não na ética, tive que citar o fato de que na entrevista que concedera à revista MIX, nº 5, o jornalista Tony Monteiro havia declarado que eu era o melhor baixista do Rock Brasileiro. Tal afirmação, com esse peso, precisava ser capitalizada a nosso favor, certamente. Portanto, fica essa ressalva, para o leitor desta autobio não me interpretar mal.

4) TV - Repercussão sobre a nossa aventura de ter aberto o indefectível "Menudo", na TV Record, com direito à considerações atribuídas à mim mesmo, e citação dos programas jornalísticos que cobriram o nosso show no TBC.

5) Repertório - Falamos de mais músicas novas que não paravam de surgir no repertório da banda. Algumas, curiosamente, pouco ou mesmo nada figuraram no set list de shows e jamais entraram na lista de cogitáveis para serem gravadas oficialmente. Casos de : "Cigano", "Flores Pessoas", "Ninho do Amor"; Perfume de Almíscar" (essa era bem hard 70, estilo Deep Purple). 

Citamos também duas que estavam na demo gravada em outubro último : "Trago você em meu Coração", e "Desilusões".

E a primeira citação de uma música que faria sucesso nos shows, e entraria no LP The Key, que gravaríamos no final daquele ano : "A Chave é o Show".

Não posso deixar de comentar que os comentários engraçadinhos que teci sobre o teor das letras são hilários, mas uma coisa era verdade : o Beto estava exagerando na criação de letras de amor, relação homem-mulher etc. Até em Hard-Rock sem chance de pedir letra pop, ele estava colocando o seu romantismo...
6) Chave Equipe - Anunciamos que estávamos com um novo roadie nos shows, chamado Marquinhos, mas que na verdade, não durou muito na equipe.

7) Shows que rolaram - Os shows no Teatro Mambembe em setembro e o do Festival Setembro Rock de Teresina-PI, foram destacados. Na foto ilustrativa, o histórico momento no camarim do Teatro Mambembe, quando o produtor Celso Barbieri nos mostrava um saco de batatas cheio de notas, numa bilheteria muito "gorda" que tivemos.

8) Fofoca - Aqui eu me divertia em escrever como o Zeca Jagger (Ezequiel Neves), o faria...

Registrei que Rubens havia enfrentado um jogador de bilhar profissional numa noitada dessas. Era um tal de Roberto Carlos, que supostamente era respeitado nesse mundo, e no caso submundo pois a partida fora disputada num boteco daqueles...

Uma visita rápida do Agildo Ribeiro em nosso ensaio foi registrada, também.

Outro fato verdadeiro, mas que eu coloquei um veneno extra : Edgard, nosso roadie/vendedor de merchandising, encontrou-se com Roberta Close, a transformista mais famosa do Brasil naqueles anos de metade fim de anos oitenta, numa rua de Pinheiros, bairro da zona oeste de SP. De fato foi verdade, e eles conversaram, mas eu dei a entender que se conheciam, quando na verdade foi totalmente fortuito, com Edgard forçando a abordagem e ela respondeu brincando, mas sem dar muita abertura. Pior mesmo, foi o comentário malicioso que deixei : "Te cuida, Edgard, você está dando bandeira, Santa"...

Claro que me arrependi, mas ele ao ler, levou na brincadeira e não se ofendeu com a uma insinuação de homossexualismo. Portanto, deixamos assim, quando o fanzine rodou na Xerox.

Uma Jam entre muitos amigos de bandas, com o Beto, no Black Jack, ficou registrada.Curioso e lamentável que o nome do Paulo Zinner, baterista do Golpe de Estado, tenha saído grafado completamente errado e nós não percebemos isso !!  Quem era Paulo Sisino ??

Presença de Charles Gavin, baterista dos Titãs no nosso ensaio novamente, também ficou registrada.

E para finalizar, foi verdade, camelôs na Avenida Atlântica, no Rio, nos confundiram com rockeiros internacionais. Cabeludos; pele branca sem bronzeamento, e inteiramente vestidos ali na avenida beira-mar de Copacabana, só podiam ser gringos doidões...

9) Equipamento - Algumas considerações sobre instrumentos & equipamentos, e de concreto, o fato do Zé Luis ter trocado seu Kit básico de pratos, agora usando Paiste em lugar dos velhos Zildjian que usava anteriormente.

10) Um fato real, mas que eu aumentei bastante para capitalizar o fato a nosso favor : alguns fãs apareceram na porta do TBC, alguns dias depois de ocorrido o nosso show, tendo confundido a data do show. Na nota, disse que mais de 100 fãs, mas é claro que não deve ter passado de dez, e a Sonia nos disse que isso reforçou o sentimento dos dirigentes do TBC de que havia valido a pena a experiência de um show de Rock nas suas dependências e que mediante tal constatação, estariam dispostos a tornar isso uma constante. Não sei se Sonia mentiu só para nos animar, mas provavelmente sim, pois que eu saiba, o TBC nunca mais promoveu shows de Rock em suas salas.

11) Fã Clubes - Uma nota interessante, eu enalteci o trabalho de um fanzine que lembrava muito o tipo de escrita da imprensa alternativa setentista, chamado "Contracorrente", de Brusque-SC.

Tony Monteiro era colaborador desse fanzine que tinha uma impressão legal de jornal, feito em gráfica e de fato, comentando com o Tony que eu admirei tal publicação por ser uma gota de revival sessenta-setentista em meio ao lodo oitentista, ele confirmou o que eu havia deduzido. Tratava-se de um jornal conduzido por um casal de hippies que haviam buscado uma vida alternativa numa pequena cidade de Santa Catarina, e ainda vibravam nesse astral, incólumes ao baixo astral oitentista generalizado. Que legal !

12) Fãs - Mais um fã que queria conhecer outros fãs e que fundara um fã clube da banda Performance's, de Santo André, e que nós conhecíamos. Seus membros eram legais e seu vocalista, Robson, era nosso amigo, com a banda tendo dividido palcos conosco em algumas ocasiões, nos anos anteriores.

Encerrando, uma frase lapidar : "A Chave do Sol é a Chave da Vida !!

Bem, tentávamos manter o astral em cima, apesar de nossas apreensões internas naquele instante, final de janeiro de 1987.

Mas um alento surgira no horizonte : o telefone ainda tocava... e ligaram para a residência do Rubens e nos ofereceram cinco dias de mini temporada no Centro Cultural São Paulo. Estava em cima da hora, pois fora um encaixe para cobrir a lacuna de um artista desistente (não me recordo inteiramente, mas acho que foi Sá & Guarabyra), e seria um "pegar ou largar, responda já"...

Claro que aceitamos...

Continua...

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