segunda-feira, 22 de junho de 2015

Autobiografia na Música - A Chave do Sol - Capítulo 339 - Por Luiz Domingues


Montamos o show que faríamos no TBC, com a perspectiva de termos tempo livre. 

Sem ter que dividir o espaço com outras bandas, em situações de festivais, tampouco existir uma banda de abertura para gastar um pouco de tempo, resolvemos tocar bastante.

Seria uma oportunidade de experimentarmos uma série de músicas novas, mesclando-as às músicas da demo-tape recém lançada, e as tradicionais do repertório, incluso algumas que não executávamos ao vivo, há um certo tempo, caso de "Um Minuto Além", e "Crysis (Maya)".

Em termos de divulgação, não havia verba para algo espetacular, mas como alertei no capítulo anterior, era também um teste subliminar que observaríamos em silêncio, pois queríamos ver até onde existia de fato o prestígio pessoal de Miguel & Sonia, cada qual com contatos num setor diferente em relação à mídia cultural.

E assim, chegamos às vésperas do show, com ensaios mais animados, e vendo algumas notas saindo na imprensa. Não eram no entanto, espetaculares, a não ser um tijolo de pequeno porte, pago pelo escritório, publicado na Folha de São Paulo. Ok, jornal mainstream, não deve ter sido "baratinho", mas também a julgar pelo porte tímido, não fora nenhuma exorbitância.

Na dia do show, talvez os melhores resultados apresentados em termos de divulgação, ao lado do já mencionado "tijolo pago" na Folha de SP, se deram em termos televisivos.

A primeira manifestação nesse sentido, aconteceu na maior emissora do pais, portanto, ponto para o Studio V.

No dia do show o programa jornalístico, "SPTV 3ª edição", da Rede Globo de TV, exibiu reportagem do nosso show. Claro que foi uma matéria rápida, e no noticiário de menor audiência dessa emissora, veiculado tarde da noite, mas era a Globo, e por isso, claro que teve repercussão, apesar de nada agregar para divulgar o espetáculo em si, pois os telespectadores viram a reportagem com ele já encerrado. Portanto, valeu por nos ajudar na divulgação de caráter geral, para espalhar ainda mais o nosso nome.

E também no mesmo dia do show, mais um trunfo que apresentaram nesse setor da divulgação, com a presença in loco, de outra equipe de jornalismo de TV, que apareceu para cobrir o evento.

Bacana ter essa cobertura, embora eu deva esclarecer que nesse caso, chegou com a missão de cobrir a posteriori, para ser exibida no dia seguinte, e assim como no caso do jornalismo da Globo, agregando como divulgação generalizada, mas nada contribuindo para atrair público ao show, propriamente dito.

Então, nesse caso, não agregou como agente de divulgação do show em si, mas claro que ficamos contentes com sua presença, e a matéria auxiliou como exposição extra, difundindo a banda em outros termos, é claro.

Tal equipe jornalística adotou uma linha de reportagem onde cobriu não só o trabalho da banda, com direito a flashs do show ao vivo, mas também com entrevistas de fãs na porta do teatro, no afã de colher opiniões e medir a expectativa gerada. 
Yves Passarell em foto mais recente, atuando no Capital Inicial

Numa coincidência incrível, o rapaz que escolheram para entrevistar, já era relativamente famoso como artista na época, mas dentro do mundo underground, onde habitávamos também. Por isso, "passou batido" para a produção dessa equipe de jornalismo, tal informação, e ele foi tratado e caracterizado na edição final, apenas como um fã, quando na verdade era o Yves Passarell, guitarrista do Viper, na ocasião, e hoje em dia, muito mais famoso por ser o guitarrista do Capital Inicial, banda oitentista que perdura até os dias atuais.

Tal reportagem ignorando a já adquirida notoriedade de Yves, se deu no programa jornalístico, "Cidade 4", exibido pela TVS, hoje em dia, SBT.


Sobre o show em si, foi mais um caso onde a sinergia não foi estabelecida, mas desta vez, havia um motivo plausível e não por  conjecturas subjetivas.

Exageramos na metragem do show, com o excesso de músicas que o tornou longo. Não dimensionamos um mapa de altos e baixos emocionais, como qualquer artista monta seus espetáculos normalmente.

Fazíamos isso, naturalmente, mas nesse dia em específico, não nos preocupamos em causar emoções nas pessoas, mais preocupados em tocar muitas músicas novas, para testá-las.

Erramos feio, portanto. Mesmo considerando que o público era "nosso" e  formado por nossos fãs habituais que nos acompanhavam em qualquer espaço que tocávamos, a ideia de tocarmos muitas músicas novas, tornou o show longo, e mais que isso gerou o anticlímax da novidade não reconhecida e absorvida pelo subconsciente dos ouvintes.

Ninguém faz isso normalmente, pois aborrece o público gerando apatia, portanto, quebrando a sinergia com o artista.

Artistas consagrados de porte mundial, não fazem isso. Numa turnê nova, os Rolling Stones montam o set list do show com no máximo três músicas do novo disco, e pelo menos 20 clássicos do repertório antigo. E pode observar, amigo leitor, por melhores que sejam tais canções novas, causam momentos de apatia no público, quebrando a euforia que as músicas consagradas geram.

Portanto, não é aconselhável tocar muitas músicas novas num show, sob o risco de estragá-lo.

E nós cometemos tal erro, talvez no afã de mostrar logo tantas novas criações ao público, mas também para testá-las ao vivo. Não era necessário, e nos causou um prejuízo, certamente.

Outra coisa, a data desse show era bem difícil : 29 de dezembro...

Muito legal para o artista, tocar em qualquer data, mas sob o ponto de vista do marketing, e da produção musical, tratava-se de uma data muito difícil de ser trabalhada.

Todos conhecem a cultura brasileira, onde já a partir do final de novembro, o "gás geral" vai diminuindo em todos os setores da sociedade. Quando chega na semana que antecede o natal, tudo para, a não ser o comércio que lida com a festa em si, em vários aspectos. Do natal ao reveillon, ressaca e novos preparativos para mais uma festa pantagruélica, não deixam ninguém pensar em outra coisa...

Sabíamos de tudo isso, mas queríamos muito ter esse tour de force com o Studio V, portanto, não esmorecemos e demos o nosso melhor, para ser um sucesso.

Todavia, apenas 200 pessoas compareceram ao TBC, no bairro do Bexiga, zona central de São Paulo.

E havia também esse fator subliminar, isto é, por não ter tradição de promover shows musicais em São Paulo, o TBC era / é um reduto muito tradicional de curtidores de teatro, mas desconhecido por frequentadores de shows musicais em geral, notadamente shows de Rock.

O equipamento de P.A. contratado pelo nosso escritório, era bom, e adequado às necessidades acústicas do teatro. O nosso técnico do Studio V, Clovis, operou o som, e conhecia bem o nosso show, pois operara todos os ensaios, além da gravação da demo, em outubro.
Ainda eco de uma boa fase de exposição midiática da qual usufruíamos, em dezembro de 1986, saiu essa entrevista que eu concedi para a revista "Mix". Tratava-se de uma publicação do mesmo grupo editorial que era responsável pelas revistas "Roll" e "Metal". Conduzida pelo ótimo jornalista Tony Monteiro, abordou-me sob aspectos técnicos do instrumento e equipamentos. Falarei mais detalhadamente sobre essa entrevista, em capítulos posteriores.

O iluminador do teatro, fez um trabalho digno, apesar de não nos conhecer, e nem ter em mãos um mapa de luz profissional do nosso espetáculo.

Tecnicamente falando, o show foi bom, portanto. Mas faltou sinergia, com o público não vibrando como normalmente vibrava em nossos shows em outros espaços.

O Studio V compareceu em peso. Até a secretaria Maria Amélia esteve presente com seus filhos.

Miguel assistiu e dias depois, em reunião convocada por ele, fez críticas ao excesso de músicas novas que entediaram o público; criticou também a longa duração do espetáculo e obviamente isso era decorrência da primeira queixa que formulou.

Mas foi além e criticou a estridência das guitarras (Beto tocou bastante, principalmente nas músicas novas); o excesso de peso no som, e até o tamanho de nossas cabeleiras, "exageradas", em seu entender.

Bem, fora cabelos longos em demasia, todos os outros itens que relacionou, tinham fundamento.

Questionável em termos, contudo, falar do peso e estridência, por serem questões técnicas, embora para o padrão pop, fazia-se mister que aparássemos ainda mais certas peculiaridades do Hard-Rock ( se bem que naquele exato momento, o Sepultura estava estourando, fazendo um som na linha do Heavy-Metal extremo e radical, com cem mil vezes mais peso do que jamais faríamos, portanto era um conceito muito relativo).

Mas acho que estava 100% certo em ter detectado um excesso de músicas novas, que realmente alongou indevidamente o show e pior, tornou-o entediante, até para o mais fanático dos fãs da banda.

Fato lamentável, não tenho nenhuma foto ou vídeo desse show. Ele foi fotografado, mas eu nunca tive acesso aos negativos, infelizmente. Uma pena, pois o palco era histórico e estava bonito...

Assim foi nossa apresentação no TBC, que nunca mais abriu suas portas para shows de Rock, que eu saiba. Aconteceu em 29 de dezembro de 1986, uma segunda-feira (outro fator de dificuldade certamente), e com 200 pessoas na plateia.

E também caracterizou a única experiência de produção de um show da nossa banda pelo Studio V. Em janeiro de 1987, ainda haveria um outro show vindo da iniciativa deles, mas não como produção própria, e sim vendido à um contratante.

Encerramos o ano de 1986, e cabe uma análise geral, a seguir.

Continua...

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