quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Autobiografia na Música - Trabalhos Avulsos (Tributo a Hélcio Aguirra) - Capítulo 81 - Por Luiz Domingues


Capítulo reaberto, pois como deixo sempre claro, esta autobiografia está sempre pronta a trazer adendos, mesmo em capítulos encerrados. 

No caso de trabalhos antigos de bandas extintas, sempre poderá acontecer a possibilidade em resgatar-se algum material a conter fotos; vídeos; áudio; portfólio, ou memorabilia, além da chance de alguma ratificação ter que ser feita, ou por eu ter recordado-me de alguma passagem com maior acuidade, ou mesmo alertado por qualquer pessoa que traga-me tal esclarecimento, pois considero toda ajuda bem vinda para esta narrativa.
Mas no caso do tópico dos Trabalhos Avulsos, apesar dele ter encerrado-se naquele momento da última postagem mais recente, trata-se na verdade de um tópico em alerta permanente, pois enquanto eu estiver vivo e a trabalhar, sempre haverá a possibilidade para surgir uma atividade musical avulsa, fora das bandas oficiais onde eu for membro, e estiver a atuar. É o caso portanto de uma participação que fiz em um evento, em fevereiro de 2014, e que apesar de ter sido prazeroso, musicalmente a falar, foi bastante doloroso, por outro aspecto.

Antes de falar do evento em si, preciso retroagir ao final de janeiro desse mesmo ano. Estava a trabalhar no meu Blog, durante a madrugada de um dia quente de verão, quando ao abrir o Google para realizar uma pesquisa, deparei-me com um notícia que rasgou-me o coração : -"Morre o Guitarrista, Hélcio Aguirra, do Golpe de Estado".

http://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2014/01/21/guitarrista-da-banda-golpe-de-estado-helcio-aguirra-morre-aos-56-anos.htm


http://g1.globo.com/sao-paulo/musica/noticia/2014/01/morre-helcio-aguirra-guitarrista-da-banda-golpe-de-estado.html

Aquele desconforto estomacal, típico de quando recebemos uma notícia chocante sobre o falecimento de um parente ou amigo querido, formou-se, e fiquei sem reação por algum tempo. Como assim ? Perplexo, abandonei meus afazeres, e passei a caçar informações pelos portais de notícias da Internet, quando finalmente enfrentei a realidade.

http://rollingstone.uol.com.br/noticia/morre-o-guitarrista-da-banda-golpe-de-estado-helcio-aguirra/


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/01/1401108-morre-o-guitarrista-helcio-aguirra-da-banda-golpe-de-estado-56-anos.shtml


No dia seguinte, compareci com muito pesar em seu velório, diga-se de passagem um dos mais cheios que já havia visto, a denotar o quanto ele fora querido por seus fãs, e muitos amigos e colegas. Encontrei-me com inúmeros amigos; músicos com quem toquei; músicos contemporâneos de diversas bandas onde atuei; jornalistas, produtores musicais, executivos de gravadoras etc. Luiz Calanca estava inconsolável. Nelson Brito, parecia mergulhado sob uma dor circunspecta; o percussionista, Nobuga, também mostrava-se desesperado. Enfim, foi uma tarde tristíssima para todos. 
Na cerimônia de cremação, fiquei ao lado do produtor, Wagner Garcia, que já havia produzido três shows do Pedra; foi produtor de uma coletânea onde o Pitbulls on Crack atuou em 1993, e que aliás, desde o final dos anos 1980, fora o produtor geral da gravadora Eldorado, e conviveu muito com o Hélcio, seu contratado e a viver grande fase com o Golpe de Estado. Ficou então a contar-me suas lembranças dos dias de glória do Golpe de Estado na sua gravadora, e o quanto estava perplexo em estar ali na cerimônia de cremação de nosso amigo em comum.

Bem, conheci o Hélcio em 1984, e tornamo-nos amigos desde então. Além de ser um guitarrista excepcional, e compositor inspirado, foi um conhecedor de eletrônica, ao saber consertar amplificadores, pedais etc. Chegou a ganhar bastante dinheiro com isso, paralelamente, ao manter uma oficina super requisitada pelos músicos de São Paulo, por muitos anos, eu incluso, vide as inúmeras vezes em que ele consertara o meu velho amplificador, Duovox...
Atravessei os anos sendo amigo dele, e ele a acompanhar os diversos trabalhos diferentes em que coloquei-me, e curiosamente, fora amigo de todos os músicos dessas diferentes bandas. Foi amigo de Rubens Gióia e Zé Luiz Dinola, da Chave do Sol, e o vocalista , Beto Cruz, dessa mesma banda, foi quem o apresentou para Paulo Zinner e Nelson Brito. No Pitbulls on Crack, Chris Skepis era seu amigo e aliás, foi o Hélcio quem apresentou-nos, quando este convidou-me a fazer shows com a banda Tributo do Black Sabbath, "Electric Funeral", em 1990. Na Patrulha do Espaço, Hélcio era amigo de longa data do Rolando Castello Junior, e através de minha pessoa, Rodrigo Hid, e Marcello Schevano também tornaram-se amigos dele. No Pedra, a ligação de Hélcio com Xando Zupo também remetia aos anos 1980, e em uma certa ocasião em que quebrara o braço, no início dos anos 1990, o Xando substituíra-o em shows do Golpe, interinamente. 
Portanto, sua perda repentina foi sentida por todos, e foi um tremendo choque. Poucos dias após a sua perda, recebi um recado inbox no Facebook, a sondar a minha possibilidade em participar de um show em homenagem ao Hélcio, e com renda revertida à sua viúva, para minimizar a despesa do sepultamento. Claro que aceitei de pronto, pois seria uma honra homenageá-lo, e ajudar sua viúva. Mais que isso, seria a oportunidade póstuma de agradecer-lhe por tanta ajuda que prestou-me, e tenho casos relatados aqui mesmo neste tópico, com trabalhos avulsos que foram proporcionados por ele, Hélcio. Óbvio que aceitei, e fui informado por tal produção, que muitos amigos estariam a aderir, e não poder-se-ia esperar outra coisa, ao considerar-se a comoção gerada, e mais que isso, o quanto o Hélcio fora querido. 

Camarim do Olympia, em São Paulo, no ano de 1992. Show do Black Sabbath. Hélcio e Tony Iommi, seu grande ídolo, e influenciador na carreira

As circunstâncias descritas seriam as seguintes : esse show tributo seria feito por combos arranjados na hora, a mesclar os músicos, e cada combo tocaria duas ou três músicas do Golpe do Estado; Mobilis Stabilis, ou do Harppia, bandas onde ele foi membro, e cogitou-se até músicas do Black Sabbath; Judas Priest; Ufo, e Michael Schenker Group, bandas internacionais que ele gostava, e que influenciaram-no, como guitarrista. No entanto, os dias passaram, e houve uma certa falta de comunicação entre as três organizadoras e os músicos, mas não as estou a culpar, pois ficara de certa forma implícito, que a escolha das músicas a ser tocadas, ficaria a cargo dos músicos. De minha parte, avisei que não tinha tempo para tirar muitas músicas, portanto, gostaria de uma definição rápida, para focar em duas ou três apenas, mas essa definição não veio. 

Minha comunicação foi mais com o Abdalla Kilsam, um grande amigo meu, vocalista, que possuía muitos trabalhos cover pela noite paulistana, e que seria o cantor do combo onde eu tocaria. Quando faltava dois dias para o evento, resolvi ir com a proposta em promover uma jam session sob improviso, pois não havia nenhuma comunicação oficial sobre que músicas eu tocaria, mas isso não importava. O importante seria homenagear o Hélcio. 

Cheguei ao local, a "Livraria da Esquina", e gostei do astral do estabelecimento. As instalações eram simples, a aparentar similaridades com salões de Rock periféricos, mas havia um astral meio contracultural, com decoração a evocar figuras fortes da literatura, e motivações um tanto quanto psicodélicas. 

De fato, ali era uma livraria com estrutura para shows musicais, o que tornava o ambiente interessante pelos seus propósitos nobres. Encontrei inúmeros amigos, e devo dizer que a maioria era mais da cena do Heavy Metal oitentista, do que da órbita do Golpe de Estado. Havia mais fãs do Harppia, o que foi exótico, por que a despeito do Hélcio ter uma parte de sua carreira nessa banda, e nessa cena, sua fama maior foi construída no Golpe de Estado. 

Isso podia ser explicado parcialmente pelo fato das garotas que organizaram a festa, ter mais proximidade com tal cena do Heavy-Metal oitentista. Nada contra, mas achei exótico tocar muito mais material do Harppia, do que Golpe de Estado, e nenhuma menção ao Mobilis Stabilis, outro trabalho importante do Hélcio. 

E assim, os sucessivos combos tocaram, com o Heavy-Metal a predominar. Percy Weiss; Tibério Corrêa; Ricardo Ravache; Nilton "Cachorrão", e outras personas dessa cena, tocaram, e o Rubens Gióia, meu ex-colega da Chave do Sol, participou também. 

O guitarrista da banda, Nacionarquia, Roger Bacelli, chamou-me então para tocar, e na hora, organizou um combo. Perguntou-me se eu aceitaria tocar alguma coisa da Chave do Sol, com o Rubens Gióia. Claro que eu aceitei tocar com ele, mas achei que tentar alguma música da Chave do Sol, seria uma temeridade, pois as músicas dessa nossa ex-banda, eram complicadas, cheias de convenções, e detalhes e que não seria possível para tocar-se em numa jam despretensiosa. Na verdade o correto seria ter ensaiado previamente para fazer direito, se fosse o caso, mas na falta dessa pré-produção, o melhor a ser feito ali, seria uma jam sob improviso.
O Roger, que é um excelente guitarrista e uma pessoa muito gentil, ainda ponderou se eu aceitaria tocar um cover, e que o Rubens havia proposto fazermos algo do Jimi Hendrix. Insisti que uma jam seria mais seguro, e mais condizente com o espírito do espetáculo. E assim, subimos ao palco; o combo formado na hora consistiu de : Roger Bacelli na guitarra; Marcelo Ladwig (baterista da ótima banda de Hard-Rock, King Bird), e Rubens na outra guitarra, além de eu mesmo no baixo. Por incrível que pareça, com todo o afastamento que eu e Rubens tivemos pelos desentendimentos que culminaram com o fim da Chave do Sol, e início de uma dissidência forçada  para eu e Beto Cruz, o fato é que eu não tocava com ele, desde dezembro de 1987. Enfim, além da comoção pelo passamento do Hélcio e de fato, o banner colocado no palco com sua foto não deixava-nos perder o foco do propósito daquela festa, foi emocionante também para nós dois, esse reencontro.
A Jam citada acima. Filmagem proporcionada pelo casal Rocker de fotógrafos e documentaristas, Bolívia e Cátia

Estávamos os dois sob comoção por isso também, isso foi nítido em nossos respectivos semblantes. O tema que tocamos foi algo inspirado em Jazz-Rock ou Fusion, com o Roger a criar na hora, uma bela harmonia , com sofisticação jazzística. Todos entraram no clima e ambos os guitarristas revezaram-se em solos mediante o improviso, interessantes. Eu e Marcelo entendemo-nos bem, ao promovermos mudanças de levadas, às vezes a insinuarmos o Funk-Rock setentista. O público presente aglomerou-se na frente do palco, e houve uma comoção. Não esperava por isso, mas dentre os admiradores do Heavy-Metal oitentista, havia e há um respeito enorme pela Chave do Sol. Isso eu entendo e aceito positivamente, embora no capítulo da Chave do Sol, nesta autobiografia, tenha feito inúmeras ressalvas ao fato da banda ter aproximado-se dessa cena. Ainda penso assim, mas jamais poderia deixar de reconhecer o carinho dos que professam tal admiração pessoal, e enxergam a Chave do Sol como componente desse cenário. 

Fiquei muito contente com essa pequena comoção pró-Chave do Sol, e mesmo por não atender aos gritos de pessoas que pediam músicas da banda e outros mais ousados a cobrar-nos sobre uma "volta oficial", claro que agradeci o carinho, com entusiasmo. Terminada a minha participação, fiquei mais um pouco na casa, e parti alguns minutos depois, não sem antes cumprimentar as meninas (Sandra Marques; Christine Funke, e Gigi Jardim), que esforçaram-se para o evento acontecer. Foi assim a minha participação no evento "Tributo ao Hélcio Aguirra", em 22 de fevereiro de 2014, na Livraria da Esquina, em São Paulo.


http://whiplash.net/materias/shows/198805-golpedeestado.html


Cabe registrar que esse evento teve alguns problemas decorrentes de alguns mal entendidos gerados em redes sociais. Uma celeuma foi criada, pois havia a informação de que os membros do Golpe de Estado estavam a desaprovar a realização de tal evento, e teriam lançado uma nota oficial, a repudiá-lo. De fora dessa questão, mesmo por que sou amigo dos três membros remanescentes, não entendi o por quê deles terem essa reação. Uma explicação inicial dava conta de que eles consideravam o evento muito próximo do passamento do Hélcio, e que ele merecia um Tributo com maior porte, e organizado pela banda, de uma forma oficial. Bem, se por um lado havia uma certa razão, pois o Hélcio merece um evento de grande porte para homenageá-lo, por quê uma iniciativa gerada por amigos, e mesmo sem grande magnitude, não poderia ocorrer ?
Nesses termos, o Hélcio por ter muitos fãs e amigos, merecia tal carinho espontâneo, e ninguém poderia querer monopolizar uma homenagem. Por quê não poderia acontecer tal Tributo ?

Bem, dias depois do Tributo ter sido realizado, outra polêmica. Um boato surgiu no métier, de que o evento fora manipulado para a renda não chegar às mãos da viúva do Hélcio, mas que fora embolsada por um elemento, que manipulara as três organizadoras do evento. Quando ouvi isso, fiquei indignado, pois era uma mentira deslavada que espalhara-se de uma forma sorrateira pelas redes sociais da Internet, e que denegria a imagem, não só das meninas envolvidas, mas fazia de nós, participantes (eu, incluso), "palhaços" que fomos tocar com um nobre propósito, e teríamos sido usados, como idiotas úteis. Imediatamente entrei em contato com uma das garotas, e passei-lhe tal informação sobre o boato, e ela prontamente apressou-se e esclareceu tudo, não sem antes mostrar-se boquiaberta com a maldade sabotadora de quem espalhou tal calúnia. Enviou-me internamente o borderô daquela noite, e marcou visita à viúva do Hélcio, para entregar-lhe a quantia arrecadada. Mas a viúva recusou-se em receber, ao alegar estar constrangida pelo mal entendido gerado antes da realização do evento, e autorizou a produção do show a doar o dinheiro a uma instituição de caridade. Dessa maneira, o dinheiro foi doado para a AACD de Osasco, e essa amiga minha postou o recibo em meu inbox do Facebook, e deve ter tornado isso público para calar a língua venenosa dos caluniadores e vagabundos de plantão. Não acompanhei mais o caso, e não vou postar o recibo aqui, para não expor ninguém, mas na minha consciência, estou tranquilo, ciente que não fui "palhaço" de nenhum gatuno, como estavam a afirmar, e nem as três meninas podem ser acusadas de também ter sido idiotas úteis para ladrões. Três meses depois, um outro evento com maior magnitude foi organizado pelos membros sobreviventes do Golpe de Estado, com vários convidados em um dos palcos da Virada Cultural de São Paulo, mas desta vez, eu não fui convidado, e foi óbvia a razão, pois o Nelson Brito foi quem deveria pilotar o baixo, o tempo todo. E nessa ocasião, a homenagem foi calcada no exclusivamente no trabalho do Golpe de Estado, notadamente a banda onde o Hélcio mais brilhou em sua carreira.

Descanse em paz, amigo Hélcio, e muito obrigado por tudo !



Capítulo geral dos Trabalhos Avulsos, encerrado, mas sujeito a reabertura, sempre que for necessário. e de fato, o foi. Procure pelo capítulo 82, com uma história ocorrida ainda nesse mesmo ano de 2014.
 

2 comentários:

  1. Rip, Hélcio Aguirra!
    Li com bastante atenção todas as reportagens a respeito da morte de Hélcio, vi o vídeo e vibrei com o post. Cheguei a enxergar a homenagem e a sentir toda a polêmica que se criou a partir do tributo nas redes sociais.
    A forma de se sofrer pela perda de alguém querido é diversa, pois cada cabeça é uma sentença, de fato. Pros amigos músicos, a forma de externar a dor foi fazer o tributo, para os integrantes do Golpe de Estado foi o sentimento de contrariedade com relação ao evento. Agora, eu realmente não entendi o argumento deles. Eles alegaram que o tributo foi próximo ao passamento dele. E tem tempo específico para se homenagear uma pessoa querida?
    A memória é o espelho onde observamos os ausentes , Joseph Joubert.
    Esse teu espelho tá tinindo!

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    1. Sim, Rip Hélcio Aguirra, um grande artista, ser humano excepcional e um dos caras mais íntegros e leais que conheci na vida.

      Seu comentário deixou-me muito contente por vários aspectos.

      A ideia de que enxergou tantas nuances na narrativa, deixou-me muito gratificado. Esforço-me para passar através do texto, o máximo da emoção sentida na pele, in loco, como determinação da autobiografia como um todo, logicamente. Mas claro que se trata de uma missão difícil.

      Com sua impressão positiva, senti-me muito contente por detectar que logrei êxito nessa tarefa.

      Adorei a sua colocação. Confesso que não havia pensado sob esse prisma. Talvez você tenha razão, ou seja, para os membros do Golpe de Estado, o Tributo feito às pressas pode ter soado como inoportuno. Claro que devemos respeitar tal sentimento se for o caso.

      Por outro lado, penso igual no seu questionamento posterior. De fato, existe tempo para se homenagear um amigo que desapareceu ? Quem pode determinar o que é conveniente nesse caso ? Existe uma convenção que determine quando e quem pode prestar uma homenagem ? Acho que deixei claro isso no post.

      E por fim, adorei a citação que deixou no final. Sinto-me muito enaltecido por usar esse aforismo de Joubert para exprimir o que sentiu pelo texto.

      Muito grato, Ana ! Sua inteligência abrilhanta o meu Blog.

      Rip, Hélcião !

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