sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Autobiografia na Música - Pedra - Capítulo 73 - Por Luiz Domingues

Mesmo coibido pela produção da casa, o Emmanuel conseguiu filmar alguns segundos da coxia, nos momentos em que esperávamos o sinal da produção para entrar em cena. A bagunça da organização era imensa, e contamos mesmo com nossos roadies, pois aqueles elementos do som alugado não estavam nem aí para nós.

                                     Foto : Grace Lagôa

Ninguém da produção do festival estava por perto para dar-nos um sinal verde para entrar, e pelo fato da coxia ser grande, o Xando entrou pelo outro lado e iniciou seus efeitos de guitarra que davam início à nossa apresentação. Dava para ouvir o som da guitarra dele ecoando no P.A., fazendo um efeito fantasmagórico, com alavanca, semelhante ao barulho de um navio apitando em alto mar.
                                     Foto : Grace Lagôa
 

 Contudo, inadvertidamente, alguém da casa disparou um áudio daqueles falando sobre normas de segurança dos bombeiros etc. A bagunça era total. O Xando esboçou parar, mas desligaram o disparo de áudio, e o nosso show começou, mesmo nessa tensão.

                                    Foto : Grace Lagôa

Tocamos nossa "intro" normal da ocasião, que era um trecho da Ópera Rock, "Jesus Christ Superstar", e emendamos em "Madalena do Rock'n Roll". O som do monitor estava caótico. Simplesmente, por pura preguiça, os energúmenos responsáveis pela monitoração de palco não colocaram o baixo nos monitores, tampouco no "side fill". Com isso, meu som era o das minhas caixas tão somente. Posso imaginar o sufoco com o qual o Ivan tocou, sem ouvir o meu baixo.
                                   Foto : Grace Lagôa

Os teclados estavam pouco audíveis, assim como a voz do Rodrigo, e a guitarra do Xando eu só ouvia da reverberação do P.A. Quanto à batera, somente ouvia bumbo, caixa e chimbau, com as demais peças muito baixo. Como estávamos muito bem ensaiados, tocamos mesmo assim, nessas condições horríveis, mas muito seguros.
                                        Foto : Grace Lagôa

De minha parte, minha performance foi energética, e pelas fotos que temos, dá para notar isso tranquilamente. Inclusive, a minha foto de avatar da extinta Rede Social, Orkut, era desse show. Veja abaixo :
                                    Foto : Grace Lagôa

Emendada à primeira música, tocamos "Vai Escutando". Nessa altura, apesar da monitoração caótica, eu sentia uma segurança muito grande e vendo o público, via que muitas pessoas sorriam, outras dançavam, e gesticulavam positivamente para nós.
                                  Foto de Ricardo Zupa

Era incrível, mas mesmo sendo uma típica situação desconfortável de ser um show de abertura para uma banda internacional, nós, mesmo na incômoda posição de desconhecidos e indesejados pelo público do dinossauro setentista, estávamos agradando !! O fato de "Vai Escutando" ter muitos elementos de Soul Music, com outros de brasilidade, destoava totalmente da pegada das bandas anteriores, que atuaram naquele espectro do heavy-metal oitentista.
Olhei para a coxia num dado instante, e vi o Mick Box e o Lee Kerslake, acompanhados do roadie do Mick Box, e do tradutor oficial e cicerone do Uriah Heep, Rodrigo Werneck. Estavam com um ótimo semblante e apontando para nós, conversavam entre eles de forma positiva e depois do show, o Werneck confirmou que estavam gostando do nosso som.
                                    Foto : Grace Lagôa

Quando esse primeiro bloco de canções, encerrou-se, palmas muito efusivas vieram da plateia. Era muito surpreendente para nós, pois banda de abertura sempre tende a ser hostilizada e ainda mais pelo fato do Pedra ser praticamente uma banda "zero Km" naquele momento.
                                    Foto : Grace Lagôa

Portanto, estar ali, abrindo uma banda internacional veterana, diante de seu público sedento por vê-los, já era complicado, imagine com a agravante de sermos desconhecidos e estarmos tocando músicas que tais pessoas nunca ouviram...
Para piorar, o público não sabia, mas tocávamos em péssimas condições sonoras, graças àqueles energúmenos preguiçosos e desdenhosos.
                                    Foto : Grace Lagôa

Nossa única sorte era o fato do Renato Carneiro estar pilotando o P.A., portanto, muito da nossa segurança dava-se por esse fator, ou seja, saber que para o público o peso e a equalização estavam primorosos, além do fato de estarmos muito bem ensaiados. A terceira música foi "Reflexo Inverso". 
                                  Foto : Grace Lagôa

Como essa música tinha uma parte final com elementos progressivos acentuados, também caiu bem para o público do Uriah Heep, com ouvidos preparados para tal aventura. 
                                     Foto : Grace Lagôa

Nesse quesito (sem demérito para as demais, mas sendo realista), nós éramos, mesmo sendo desconhecidos, a banda mais próxima da sonoridade do velho Heep, em detrimento das demais que apresentaram-se antes.
                                                       Foto : Grace Lagôa

E não deu outra, com o final apoteótico que lembrava "O Terço" em seus melhores momentos, agradamos em cheio, aumentando as palmas ao final da execução e arrancando até alguns gritos, como se fôssemos a atração principal.
                                      Foto : Grace Lagôa

A última música era "O Galo Já Cantou" e o Rodrigo foi para a guitarra. Os roadies do Uriah Heep ficaram surpreendidos com essa versatilidade dele, e comentaram com o tradutor, Rodrigo Werneck, que isso fazia-os lembrarem-se do Ken Hensley. Nesse momento, o Xando arriscou uma fala descontraída ao microfone, e eu achei excessivo. Eu não arriscaria dessa forma, mas por sorte, o público estava ganho, e respondeu de forma surpreendente ainda... ele disse : -"vocês querem mais uma " ?
                                    Foto : Grace Lagôa 

O normal seria uma saraivada de xingamentos, "dedos" apontados indicando que fôssemos embora, sinais de "adeus" irônicos etc. Contudo, uma reação em uníssono, pediu que tocássemos, demonstrando que tínhamos vencido essa batalha. Tocamos, e o solo final de ambos, Xando e Rodrigo, esticou bastante, dando um clima "Stoneano" ao final de nossa apresentação.
                                    Foto : Ricardo Zupa

A sensação de dever cumprido foi ótima e ainda pude ouvir na coxia o Lee Kerslake comentar com um roadie sobre o Ivan : -"Fantastic Young Drummer" !! Só por esse comentário, já teria valido a pena todo o esforço. Fomos para o camarim descansar, recompor-nos e trocar de roupa, com o sentimento que era ótimo para todos. Havíamos tido muitas dificuldades, mas o resultado final não poderia ter sido melhor.


Continua...

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